O NEO-ATEÍSMO DE DAWKINS, HARRIS E HITCHENS

Luís González-Quevedo, sj

Na história da humanidade, crenças e descrenças evoluem de acordo com o tempo em que estão inseridas. Cada século apresenta diversas formas de manifestar a fé em Deus ou a negação Dele, que chamamos de “ateísmo”.

O século XVIII foi chamado de “Século das Luzes”, mas para a fé cristã foi um século de duras provas, suportadas apenas pela paciência dos santos. Naquele século, a negação do Deus da revelação judaico-cristã fez-se em nome da Razão.

O século XIX foi palco da luta política e ideológica entre a Restauração e a Revolução. A negação de Deus fazia-se em nome do Progresso da ciência e da Igualdade social. Para o cientista Pierre Simon Laplace, Deus era uma hipótese desnecessária, enquanto Karl Marx, iniciador do “socialismo científico”, desprezava a religião como “ópio do povo”.

No século XX, ao ateísmo cientificista e ao desprezo marxista pela religião veio unir-se a suspeita freudiana de que a idéia de Deus seria mero produto da nossa mente e a religião não passaria de “uma ilusão”. Atacada por todas as frentes do pensamento moderno, a crença em Deus parecia condenada à inexorável desaparição.

No entanto, na primeira metade do século XX, alguns intelectuais observaram que “a fé estava renascendo” no berço da Revolução, a França. E o filósofo espanhol José Ortega y Gasset declarava que Deus estava “a la vista”. O progresso da física moderna (especialmente a mecânica quântica e o princípio de indeterminação) tornaram obsoleta a visão determinista do cientificismo.

Na segunda metade do século passado, as novas descobertas da astronomia e da cosmologia favoreceram a teoria de que o universo teve um começo e terá um fim (contra a teoria materialista). O fim do “muro de Berlin”, com a queda dos regimes comunistas na Europa, esvaziou a utopia marxista. E os discípulos de Freud reconheceram que as idéias anti-religiosas do fundador da psicanálise é a parte menos consistente da sua obra.

Por outro lado, é inegável a influência que os “mestres da suspeita” exerceram no próprio pensamento religioso. Nos anos 1960, a Teologia abriu-se para reconhecer o fenômeno da secularização. Tomando de empréstimo um tema de Nietzsche, alguns autores laçaram a “Teologia da Morte de Deus”, de efêmero sucesso. A filosofia marxista influenciou novas formas de fazer teologia, especialmente no Terceiro Mundo. E a psicanálise freudiana foi acolhida com entusiasmo em alguns mosteiros e conventos.

No último quadrante do século XX, contrariando o anúncio do “eclipse do sagrado”, houve uma inesperada primavera do espiritualismo e do fervor religioso. O fenômeno pentecostal, surgido no protestantismo norte-americano, a popularidade do papa João Paulo II, na Igreja católica, e o triunfo da revolução iraniana, comandada pelo aiatolá Khomeini, no mundo islâmico, mostraram que a religiosidade não iria acabar tão cedo.

No dia 11 de setembro de 2001, o incrível ataque do terrorismo islâmico, no coração dos Estados Unidos de América, suscitou duas reações extremas: De um lado, motivou o nacionalismo norte-americano, justificando a guerra contra “o império do mal”; do outro lado, provocou a desconfiança e hostilidade contra o “fundamentalismo” religioso. Esta segunda reação, porém, desembocou, em alguns autores, num “fundamentalismo anti-religioso”.

Deixando de lado as obras do filósofo americano Daniel Dennett, Breaking the Spell (Quebrando o encanto. Rio de Janeiro: Ed. Globo, 2006) e do francês Michel Onfray, Traité d’athéologie (Tratado de ateologia, física da metafísica. São Paulo: Martins Fontes, 2007), que não conheço, examinarei as obras de Richard Dawkins, Sam Harris e Christopher Hitchens. Certamente, esses três autores merecem o nome de “neo-ateus” (cf. Tina Beattie. The New Atheists. Londres; Darton, Longman and Todd, 2007), não porque seus argumentos sejam novos, em absoluto, mas porque, numa época que parecia caminhar para a superação da oposição ciência-fé, eles reciclaram a polêmica anti-religiosa de tempos passados.

O mais conhecido dos neo-ateus é o biólogo inglês Richard Dawkins, professor emérito de Oxford. Seu livro The God delusion (2006) vendeu mais de um milhão de exemplares. A tradução brasileira (Deus, um delírio. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, 528 p., R$ 54,00) entrou rapidamente na lista dos livros de não ficção mais vendidos no país. Darwinista convicto, Dawkins difunde suas idéias através da Internet e viaja por todo o mundo, numa incansável cruzada em favor do ateísmo. No final do seu livro, em apêndice, inclui uma lista de “endereços úteis para indivíduos que precisem de apoio para fugir da religião” (p. 477-482 da edição brasileira). Tamanho “ardor missionário” levou outro professor de Oxford a denunciar o “fundamentalismo ateísta” de Richard Dawkins (Alister McGrath,O delírio de Dawkins: uma resposta ao fundamentalismo ateísta de Richard Dawkins. São Paulo: Mundo Cristão, 2007).

O segundo neo-ateu é o filósofo norte-americano Sam Harris. No seu primeiro livro The End of Faith: Religion, terror, and the future of reason (O fim da fé – religião, terror e o futuro da razão), publicado em 2004, expressava seu desejo de acabar com toda crença religiosa, para o bem da humanidade. Não tendo conseguido seu objetivo, torna ao seu projeto demolidor na sua Letter to a Christian nation” (Carta a uma nação cristã. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 96 p. R$ 29,00).

A nação cristã a quem Sam Harris se dirige são os Estados Unidos de América, onde segundo o autor, mais da metade da população “acredita que o cosmos inteiro foi criado há 6 mil anos” (pág. 16). Ele apóia sua incrível afirmação em uma pesquisa Gallup, segundo a qual 53% dos americanos são criacionistas. Falta por demonstrar, porém, que mais da metade dos norte-americanos entendem por “criacionismo” o mesmo que o autor.

Sam Harris termina sua carta afirmando que o fato da religião ter podido servir para alguma coisa no passado (por exemplo, para que “grupos de seres humanos pré-históricos adquirissem uma coesão social”) não exclui que, hoje, ela seja “o maior impedimento para a construção de uma civilização global” (p. 85).

O terceiro neo-ateu é Christopher Hitchens, jornalista inglês, radicado nos Estados Unidos. No seu livro God is not Great. How religion poisons everything. New York 2007 (trad. brasileira: Deus não é grande: como a religião envenena tudo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007. 288 p, R$ 44,90), Hitchens caricaturiza de tal modo toda atitude religiosa que dificilmente uma pessoa religiosa não fundamentalista se sentirá atingida por seus ataques..

Inácio de Loyola negou-se a excluir do sacerdócio e da vida religiosa os descendentes de judeus ou muçulmanos. Só o seu quinto sucessor, o Geral Aquaviva, cedeu à pressão do preconceito da “pureza do sangue”, muito estendido na época. Nas Constituições da Companhia de Jesus não há qualquer alusão anti-semita. O primeiro sucessor de Inácio, Diogo Laínez, era de sangue judeu. Hitchens, porém, escreve: “A Ordem Jesuíta, até o século XX, se recusava, por estatuto, a admitir um homem a não ser que ele pudesse provar que não tinha ‘sangue judeu’ por várias gerações” (pág. 229 da edição brasileira).

Outro companheiro de Inácio, São Francisco Xavier, é descrito como “o homem que levou a inquisição à Ásia e cujos ossos ainda são reverenciados por aqueles que escolhem reverenciar ossos” (ib. p. 199-200). E do feito das Reduções guaranis, estabelecidas pelos missionários jesuítas no Paraguai, diz que “conseguiu combinar o máximo de igualitarismo como o máximo de falta de liberdade, e só pode ser sustentado pelo máximo de medo”.

Se o leitor insatisfeito com o negativismo do autor procurar a alternativa positiva que Hitchens opõe ao fenômeno religioso, encontrará apenas, na conclusão do livro, uma referência à “necessidade de um novo Iluminismo” (p. 253). E se justifica de ter dedicado mais de duzentas páginas ao combate de todas as religiões, porque “tornou-se necessário conhecer o inimigo, e se preparar para combatê-lo” (p. 259).

Como poderíamos justificar a atenção dedicada a esses três neo-ateus? Em primeiro lugar, pelo sucesso editorial que suas obras estão tendo. Para além da atração que o pensamento radical teve sempre, como explicar tal sucesso? Provavelmente, porque muitos dos seus leitores encontram nessas páginas, evidentemente extremistas, vazão para as suas feridas e dúvidas existenciais.

Em segundo lugar, creio que as obras dos neo-ateus, como toda a crítica anti-religiosa dos séculos passados, poderão ser purificadoras da nossa fé. Comentando o livro de Hitchens, o pregador do Vaticano, Raniero Cantalamessa, escreve que muitas das críticas feitas à religião “são fundadas e devem ser levadas em consideração para não repetir os mesmos erros do passado. O Concílio Vaticano II afirma que a fé cristã pode e deve tirar proveito também das críticas daqueles que a atacam”.

Finalmente, o empenho, a organização e o uso dos meios informáticos que os neo-ateus usam para difundir suas idéias obrigam-nos a reconhecer nossa timidez na hora de testemunhar nossa fé na sociedade secularizada. Segundo pesquisa da Datafolha, “97% dos brasileiros crêem em Deus” (Folha de São Paulo, 6 de maio de 2007). Se examinarmos, porém, o ambiente científico e acadêmico, bem como o mundo das letras e das artes, em geral, constatamos que o 2% de brasileiros que se identificam com o agnosticismo e o 1% dos que se declaram ateus são mais ativos e organizados do que o 97% que dizem acreditar em Deus.

Termino com um dado significativo. Ao comprar os livros dos neo-ateus, publicados por editoras laicas, nós pagamos sem queixa R$ 30,00, 40,00 ou 50,00. Mas quando compramos um livro religioso de editora católica, mesmo que seja mais barato, achamos caro e pedimos desconto. Acabo de publicar, pelas Edições Loyola, o livro Um sentido para a vida: Princípio e Fundamento, com 200 páginas, ao preço de R$ 24,00. Meus colegas jesuítas acharam caro.

[Luis González-Quevedo, sj, é padre jesuíta, membro do Centro de Espiritualidade Inaciana de Itaici e redator de Itaici. Revista de Espiritualidade Inaciana]