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RATZINGER E O FUTURO DA IGREJA Neste final do ano litúrgico, quando a Igreja celebra a esperança na vida eterna, pode ser útil reler o livro Fé e futuro (Petrópolis: Vozes, 1971), escrito no final dos anos 60 pelo teólogo Joseph Ratzinger. O ano 1968 foi marcado por distúrbios sociais e contestação dentro da Igreja. Nesse contexto, o teólogo se questionava a respeito do futuro da própria Igreja. Ratzinger comparava o período pós-conciliar com a gravíssima crise vivida pela Igreja na segunda metade do século XVIII, o chamado “século das luzes”. O racionalismo triunfante tinha declarado superados os velhos dogmas religiosos. O próprio arcebispo de Paris abandonou a fé e prestou culto à “deusa razão”, na catedral de Notre-Dame. A crise desembocou na Revolução Francesa, na qual o próprio ex-arcebispo foi guilhotinado, sob o terror revolucionário.
Diante da crise dos anos 60, Ratzinger perguntava donde poderia surgir um futuro para a Igreja. Na sua opinião, o futuro da Igreja não virá daqueles que, aderindo a slogans modernos, criticam os outros e declaram falso e superado tudo o que lhes resulta exigente e incômodo; não virá dos que se acomodam na direção em que o vento sopra. O futuro da Igreja só poderá vir dos homens e mulheres de fé, capazes de renunciar a si mesmos e de entregar-se ao amor de Deus e do próximo. O futuro da Igreja estará marcado, mais uma vez, pelos santos. Na visão do teólogo Ratzinger, a Igreja do futuro será uma Igreja pequena e pobre, que não encherá os grandes templos, construídos em períodos de esplendor. Uma Igreja interiorizada e simplificada, que não se prevalecerá dos seus antigos privilégios, nem flertará com as ideologias de moda, à esquerda ou à direita. As pequenas comunidades cristãs poderão ser presididas por uma nova figura de sacerdote, que poderá exercer outra profissão. O padre “funcionário social” poderia ser substituído pelos psicólogos e outros especialistas, mas o sacerdote dedicado integralmente à Igreja continuará a ser necessário; os mais pobres e abandonados merecerão sua atenção prioritária. Para a Igreja, predizia Ratzinger, virão tempos muito difíceis. Os homens e mulheres de um mundo planificado, onde Deus pode parecer supérfluo, sentir-se-ão indizivelmente solitários. Então, hão de descobrir, como algo novo, as pequenas comunidades dos que crêem. A Igreja virá a ser, para eles, uma pátria que lhes dá vida e esperança para além da morte.
Pe.
Luis González-Quevedo, SJ |