JOÃO XXIII: O BEM-AMADO

Angelo Giuseppe Roncalli foi sempre um homem simples, fiel à fé dos seus pais e às suas origens camponesas. Ordenado sacerdote, colocou-se à disposição da Igreja, “sem ansiedade nem ambições”.

Nomeado bispo, escolheu o lema: “Obediência e paz”. Visitador apostólico na Bulgária, Delegado da Santa Sé na Turquia e Núncio do Papa em Paris, nunca adquiriu os hábitos diplomáticos. Até falava mal o inglês.

Transferido à sede patriarcal de Veneza e feito Cardeal, apresentou-se com humildade: “Sou um homem como qualquer outro que vive sobre a terra. Tenho 71 anos e a graça de uma boa saúde”. Seu estilo pastoral era feito de doçura e bom humor. Na época, a Igreja temia que os comunistas pudessem vencer na Itália. O cardeal Roncalli, porém, conservava o otimismo e a confiança. As anotações do seu “Diário da alma”, revelam uma vida espiritual muito simples. Rezava diariamente o Santo Rosário completo.

O cardeal Roncalli era tão obeso que, no dia em que foi eleito Papa, mal cabia na sotaina. Seu físico contrastava com a figura ascética do Papa anterior (Pio XII). Ao vê-lo, uma mulher exclamou: “Meu Deus, como ele é gordo!”. Mas João XXIII reagiu com bom humor: “Afinal, o Conclave não foi um concurso de beleza!”.

As anedotas sobre o novo Papa fizeram a alegria do povo romano: Um diplomata perguntou-lhe quantas pessoas trabalhavam no Vaticano. “Ah, não mais da metade!”, respondeu João XXIII, piscando o olho. Não gostava das cerimônias oficiais nem do vestuário pontifício: “Ando vestido como um sátrapa persa!”

Eleito aos 77 anos, como ”Papa de transição”, abriu as janelas da Igreja ao sopro do Espírito, em sintonia com os “sinais dos tempos”. Publicou as Encíclicas Mater et Magistra, sobre o progresso social, e Pacem in Terris, sobre a paz de todos os povos. Mas a maior iniciativa de João XXIII foi convocar o Concílio Ecumênico Vaticano II, o maior acontecimento eclesial do século XX.

O Vaticano II reconciliou a Igreja Católica com o mundo contemporâneo. A Constituição Pastoral Gaudium et Spes, sobre a Igreja no Mundo de Hoje, iniciava assim: ”As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo”.

O Concílio impulsionou a colegialidade dos bispos e fez com que todo fiel batizado se sentisse membro da Igreja de Cristo. Além de 2000 bispos católicos, participaram do Vaticano II 50 observadores de outras Igrejas cristãs.

Todos os Papas dos tempos modernos foram admiráveis, mas João XXIII foi o mais amado. Ao morrer, em 1963, foi chorado, não só pelos católicos, mas por todo o mundo. João XXIII foi beatificado por João Paulo II no ano 2000.

Pe. Luis González-Quevedo, SJ
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