PIO XII: UM PAPA DISCUTIDO

Pio XII foi o Papa de minha infância. Eu o conheci em 1955, na residência de verão dos Papas, em Castelgandolfo. Era um homem alto, magro, de óculos redondos e nariz aquilino. Todo vestido de branco, o Papa Pacelli pareceu-me um santo, portador de uma mensagem transcendente.

Eugênio Pacelli foi eleito Papa, em 1939, num dos Conclaves mais breves da história. Escolheu o nome de Pio XII, mostrando seu propósito de dar continuidade ao pontificado anterior. O cardeal Pacelli tinha sido Núncio na Alemanha e Secretário de Estado de Pio XI.

No começo do seu pontificado, Pio XII fez um apelo dramático, para evitar a Segunda Guerra Mundial: “Nada se perde com a paz. Tudo pode perder-se com a guerra”. Em 1940, porém, a Itália de Mussolini entrou no conflito, do lado da Alemanha de Hitler, contra as potências aliadas (França e Inglaterra, apoiadas depois por Rússia e pelos Estados Unidos).

Na Itália ocupada pelas tropas nazistas, Pio XII condenou a violência e socorreu as vítimas, de ambas as partes. Abriu as portas do Vaticano e das casas religiosas romanas, para refugiar os judeus perseguidos, mas se absteve do confronto público com os nazistas, para evitar maiores males.

No fim da guerra, o sentimento popular era que Roma tinha sido poupada da destruição pela autoridade moral de Pio XII. A ação humanitária da Santa Sé, durante a guerra, ganhou o respeito internacional. Os Estados Unidos iniciaram relações diplomáticas com o Vaticano e o Papa foi o “homem do ano” da revista Time.

Pio XII morreu em 1958, em opinião de santidade. Em 1963, porém, uma peça teatral (O Vigário, de Hochbuth) acusou o Papa Pacelli de anti-semitismo, provocando uma enorme polêmica. Outro ponto discutido foi seu magistério doutrinal considerado “conservador”. Pio XII pensou convocar um Concílio, mas não o fez, graças a Deus, pois teria condenado os teólogos que não seguissem o pensamento dominante na época. Alguns dos teólogos censurados (Daniélou, De Lubac, Congar...), foram posteriormente reabilitados e até nomeados cardeais.

Pio XII destacou-se pelo seu fervor mariano. Durante a guerra, consagrou a humanidade ao Coração Imaculado de Maria, incentivou as Congregações Marianas (Constituição Apostólica Bis Saeculari, 1948) e, sobretudo, proclamou o dogma da Assunção de Maria ao céu (1950).

O Papa Pacelli foi tão venerado em vida quanto discutido depois de morto. Sua causa de beatificação foi iniciada. Todavia, os historiadores discutem até hoje a respeito do seu silêncio ou “prudente reserva”, diante da eliminação em massa dos judeus, pelo nazismo. Até na hora da morte, sua imagem foi explorada. Um médico inescrupuloso fez fotos clandestinas da agonia do pontífice e as vendeu à imprensa.

Pe. Luis González-Quevedo, SJ
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