ALIANÇA: AMIZADE COM DEUS.

No acontecimento do Êxodo, o Deus Criador e Libertador se manifestou, também, como Aliado de Israel, amigo e companheiro, único e verdadeiro Esposo. No Sinai, YHWH oferece a Israel uma Aliança de amor. Para o judeu piedoso, a Aliança (berît, tratado, aliança de amizade, compromisso sob juramento) não é uma idéia teórica, mas uma realidade vivida no dia-a-dia. Nos momentos decisivos de sua história, o povo de Israel sentia que Deus estava sempre com ele. "Eu vos tomarei como meu povo e serei o vosso Deus"(Ex 6,7 e passim). Na Aliança com Abraão, destacava-se mais a promessa de Deus (Gn 17,8). No Sinai, enfatiza-se a responsabilidade do povo escolhido. A iniciativa da Aliança é de Deus, mas implica numa exigência de fidelidade exclusiva do povo para com Ele.

O compromisso recíproco de YHWH com o povo escolhido pode sintetizar-se na palavra hesed, que pode ser traduzida por amor, bondade, misericórdia, graça. Esta relação de amor recíproco implica "uma responsabilidade mútua daqueles que pertencem um ao outro". O núcleo da fé de Israel está contido no Shemá: "Escuta, Israel! O Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças" (Dt 6,4-5). Estas palavras, que o judeu piedoso reza todos os dias, não são uma fórmula estereotipada, mas um convite, sempre renovado, a estabelecer uma relação de amor com o Criador.

Adotado pelo Senhor como filho (Ex 4,22-23), Israel deverá viver numa obediência e docilidade total para com Ele. Para explicitar a relação de Israel com Deus, além da relação do filho com o pai, a Sagrada Escritura usa também a imagem esponsal. No Cântico dos Cânticos, o amor humano é parábola viva do amor de Deus por seu povo. Neste livro, de maneira particular, e em todo o Antigo Testamento, em geral, empregam-se duas palavras hebraicas distintas, para designar o amor: dodim (="amores", plural de dôd = amado, amor) expressa o amor ainda inseguro e indeterminado, como o do jovem inexperiente e sem juízo, a quem a prostituta seduz: "Vem, embriaguemo-nos de prazer, até o amanhecer desfrutemos do amor (dodim)" (Pr 7,18).

Mas, na língua hebraica, o amor é expressado, também, com outros termos derivados do verbo aheb (= amar, gostar, apaixonar-se): ahab, ohab, ahabà... Este último termo é citado por Bento XVI, na sua primeira Encíclica. É com este amor que Deus ama Israel: "Pois que és precioso aos meus olhos, eu te aprecio e te amo..." (Is 43,4); e com tal amor Israel deve amar a Deus, como uma esposa ama o seu Esposo.

Na tradução grega do Antigo Testamento ahabà foi traduzido por agape, que será o termo característico da concepção cristã do amor. Nesta, "o amor torna-se cuidado do outro e pelo outro. Já não se busca a si próprio, não busca a imersão no inebriamento da felicidade; procura, ao invés, o bem do amado: torna-se renúncia, está disposto ao sacrifício, antes procura-o" (Deus caritas est, 6).

No Novo Testamento, o termo Aliança é empregado em três acepções: "promessa", "testamento" e "Lei mosaica". Todas três significam a expressão unilateral da vontade divina. A vida cristã consiste em uma Nova Aliança da humanidade inteira com Deus, em Cristo. Por sua vida, sua paixão e sua morte, Jesus realiza a plena e definitiva Aliança de Deus, não apenas com o povo de Israel, mas com toda a humanidade. Na Última Ceia, o sangue de Cristo é "sangue da Aliança"(Mt 26,28; Mc 14,24), da "Nova Aliança" (Lc 22,20;1Cor 11,25), que é derramado por muitos (Mt 26,28). Essas expressões fazem referência a Ex 24,6-8.

O sacrifício de Cristo realiza a promessa divina, instaurando uma nova relação entre Deus e os seres humanos. A carta aos Hebreus opõe a nova à antiga Aliança, citando Jr 31,31-34 (Hb 8,8) A Aliança selada com o sangue de Cristo é uma "eterna Aliança (Hb 13,20), uma "Aliança melhor" (Hb 8,6), que anula a antiga (Hb 8,13).

O ato simbólico-sacramental da Nova Aliança em Jesus é o batismo, pelo qual um ser humano (ou seus pais, em nome dele) renuncia a tudo o que o afasta de Deus, comprometendo-se a viver inteiramente para Ele. Na confirmação (sacramento do crisma), os batizados confirmam este compromisso. Na vida consagrada, pela profissão dos conselhos evangélicos, a pessoa se compromete, "por um novo e peculiar título" (LG 44), a pertencer inteiramente ao Senhor.

A idéia da Aliança pode ser expressada, analogicamente, com o conceito de "amizade". Na amizade, duas pessoas se encontram e se reconhecem mutuamente como únicas, na singularidade de cada uma. Nesse reconhecimento recíproco experimenta-se o mistério da presença do outro. Ao mesmo tempo, temos acesso à revelação de uma nova dimensão de nós mesmos. Há, pois, a experiência de uma dupla revelação: ao revelar-se ao "tu", o "eu" se descobre a si mesmo. "Eu" sou aquele em quem "tu" confias.

A experiência humana da amizade é perfume e bálsamo, que alegra e suaviza a dureza da vida.17 A verdadeira amizade pode ser vista como parábola da Aliança que Deus fez com a humanidade, em Cristo Jesus. A amizade humana é epifania do amor de Deus, com uma condição: que não se feche em si mesma, que permaneça aberta ao Outro e aos outros.18

No texto do Princípio e Fundamento, depois da dizer que "o ser humano é criado para louvar, reverenciar e servir a Deus", Inácio acrescenta:"e assim salvar-se" (y mediante esto salvar su ánima). A clássica expressão "salvar a alma" significa a "plena e total realização do ser humano", em outras palavras, a "eterna felicidade".

A salvação eterna, conseqüência e continuidade da amizade entre Deus e o ser humano é pura graça, dom de Deus. Mas, como todo dom, a amizade de Deus não se impõe; ela pede a nossa livre aceitação, porque "o verdadeiro amor respeita a liberdade da pessoa amada".

O Princípio e Fundamento culmina numa grande e radical exigência de amor: "desejando e escolhendo somente aquilo que mais (magis) conduz ao fim para o qual somos criados" (EE 23,7). O amor do PF é discreto, ordenado, liberto da desordem causada pelo poder de sedução das criaturas. A liberdade afetiva é apenas o caminho, não a meta. A necessidade de "fazer-nos indiferentes" é o reverso ascético de "uma preferência apaixonada pela vontade de Deus".

O fim, a meta é a Aliança, a união da amada com o Amado. Isso ficará mais explícito na Contemplação para alcançar Amor, quando o exercitante peça "conhecimento interno de tanto bem recebido, para que, inteiramente reconhecendo, possa em tudo amar e servir à sua divina Majestade"(EE 233). Inácio demorou em explicitar a necessidade de amar. Talvez, porque sabe que nem todos os amores são ordenados. É necessário que o amor seja "discreto", discernido, motivado apenas por nosso Criador e Senhor: que "o amor que me move e faz escolher desça do alto, do amor de Deus", (cf. EE 184, 2-3).

Textos bíblicos:

Ex 20, 1-17;
Ct 2,8-17;
Js 24,1-18;
Is 43,1-7; 62,4-5;
Jo 15,12-17
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Pe. Luis González-Quevedo, SJ
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