CRIAÇÃO: ORIGEM E SENTIDO.

A beleza e a harmonia do universo são manifestação do poder, da bondade e do amor de Deus, nosso Senhor: "Os céus narram a glória de Deus, o firmamento anuncia a obra de suas mãos" (Sl 19/18,1). Desde a criação do mundo, a realidade invisível de Deus manifestou-se por meio de suas obras ( Cf. Rm 1,18-19). "Não sabeis? Nunca ouvistes falar?. Não entendeis os fundamentos do mundo?" (Is 40,21).

A maior dificuldade para acreditar na existência de um Criador de tudo quanto existe é o "silêncio de Deus" no mundo. Por que se cala?, por que permite tantos males? Parece como se o Criador não quisesse nos impor sua presença. O silêncio de Deus respeita a nossa liberdade. "Realmente tu és um Deus escondido" (Is 45,15).

Para acreditar em Deus, não bastam os argumentos racionais. É necessária a experiência religiosa pessoal. "Como a corça deseja as águas correntes, assim a minha alma anseia por ti, ó Deus" (Sl 42/41,2). "Sem a referência a Deus, que é inseparavelmente verdade e amor, a humanidade fica empobrecida" (Dom Luciano Mendes de Almeida, Folha de São Paulo, 31.12.2005).

Por que existe tudo o que existe? Metafisicamente, não há nenhuma necessidade de que exista o mundo. O universo em que habitamos é contingente, poderia não existir, mas existe. Por quê? E por que a evolução cósmica chegou a atingir a autoconsciência e a liberdade humana? Qual é a origem do mundo e a razão suficiente da nossa própria existência?

A ciência atual afirma que o universo que conhecemos teve sua origem 13,7 bilhões de anos atrás, numa imensa explosão (o Big Bang), mas não pode explicar por que aconteceu essa explosão, nem o que havia antes dela. No momento atual, só podemos "enxergar" o que existe nesse nosso "horizonte cósmico". Nele, existem bilhões de galáxias, em contínua expansão. E, só na nossa galáxia (a Via Lactea), existem 200 bilhões de estrelas. O físico Stephen Hawking, no seu livro Uma breve história do tempo, lança a hipótese de que o número de estrelas seja infinito, em um espaço infinito. Mesmo nessa hipótese, difícil de imaginar, permanece a questão: Por quê?

Existe ainda uma estranha "teoria das cordas", segundo a qual a totalidade constatável de nosso universo seria apenas uma parcela da realidade maior de outros universos existentes, que desconhecemos. Antes do nosso mundo, teria existido outro mundo? Quando o universo que conhecemos acabar, surgirá um outro? São perguntas às quais a ciência atual não pode dar resposta.

Quanto à origem da vida humana, a teoria mais provável, no estágio atual do desenvolvimento científico, é a teoria da evolução. A espécie humana procede de espécies anteriores a ela (os primatas hominídeos). Tal idéia parece-nos, hoje, compatível com a fé na Criação. A discussão atual entre evolucionistas e criacionistas (partidários do Intelligent design) parece-nos mal colocada.

Aceitar apenas o que pode ser provado cientificamente não bastaria para dar sentido à vida humana. As ciências naturais não podem ser o único referencial de uma vida plenamente humana. João Paulo II, na Encíclica Fides et Ratio, n. 83, dizia que é necessário passar do fenômeno (constatável pela ciência) ao fundamento (metafísico, transcendente). A ciência por si só é incapaz de dar-nos as indispensáveis referências ao amor, ao mistério, à utopia, aos ideais de verdade, bondade e beleza.

O ser humano leva dentro de si um apelo à transcendência, irredutível às ciências físico-matemáticas. Estas nos descrevem o que é, mas são incapazes de julgar o que deveria ou não deveria ser. Um mundo puramente científico seria um mundo sem ética, um mundo sem coração. O filósofo Ludwig Wittgenstein, em pleno século XX, escreveu: "Mesmo que todas as possíveis perguntas científicas tivessem uma resposta, os nossos problemas vitais não teriam sido tocados".

A revelação judaico-cristã nos diz que tudo quanto existe é fruto da ação criadora de Deus: "No princípio criou Deus o céu e a terra" (Gn 1,1). O termo hebraico bara significa "fazer uma coisa maravilhosa, nova, admirável". O relato inicial da Criação repete sete vezes que tudo o que Deus criou é bom, "muito bom" (Gn 1,31). Nos Salmos, Deus é invocado como Aquele "que fez o céu e a terra. Os céus são os céus do Senhor, mas a terra, ele a deu aos filhos de Adão" (Sl 115/113B,15-16).

No desterro da Babilônia, um profeta reanimava a fé dos judeus exilados com estas palavras: "Levantai os olhos para o alto e observai: quem criou tudo isso? Quem põe em marcha o exercito das estrelas, uma a uma, chamando cada uma pelo nome?" (Is 40,26). Diante do céu estrelado, o salmista pergunta, admirado: "O que é o homem, para dele te lembrares? O ser humano, para que o visites?" (Sl 8,5).

Um poeta moderno disse:

"Serena,
a eternidade espera, na encruzilhada de estrelas"
(Jorge Luis Borges)

O Novo Testamento, especialmente São Paulo, testemunha também a fé na criação: Deus criou todas as coisas, as visíveis e as invisíveis. Tudo é dele, por ele e para ele (Rm 11,36; cf. 1Cor 8,6). A criação geme sob o jugo da corrupção, suspirando pela redenção (Rm 8, 19-22). A ressurreição de Cristo inaugura uma nova criação: "se alguém está em Cristo é uma nova criatura. O que era antigo passou, agora tudo é novo" (2Cor 5,17).

No evangelho de São João, o Senhor ressuscitado, ao soprar sobre os discípulos reunidos no Cenáculo, quis renovar o gesto criador da formação do primeiro homem (Gn 2,7). O Espírito Santo, comunicado aos Apóstolos, realizará na Igreja uma "nova Criação".

Quando Inácio escreve: "O ser humano é criado para louvar, reverenciar e servir a Deus nosso
Senhor e, assim, salvar-se", está seguindo a
tradição judaico-cristã. A nossa origem e o nossa fim estão em Deus, nosso Criador e Senhor. O ser
humano é como "argila" nas mãos do Oleiro (Gn 2,7;
Jó 10,9; Is 45,9; Jr 18,6; 2Cor 4,7). Nossa vida depende de Deus. E "as outras coisas sobre a face
da terra são criadas para o ser humano, para o ajudarem a atingir o fim para o qual é criado" (EE 23).

Um padre da Igreja disse: "Aquilo que explica a existência é o amor de Deus" (Orígenes). Não basta ser, não basta existir. É necessário ser para Alguém. O que dá sentido à vida é a consciência de que somos amados com um Amor que é mais forte do que a morte.

Bento XVI, no início do seu pontificado, afirmou: "Nós não somos o produto casual e sem sentido do acaso da evolução. Cada um de nós é resultado de um pensamento de Deus. Cada um de nós é desejado, cada um de nós é amado, cada um é necessário".

Textos bíblicos: Gn 1,1-2,4a;
Sl. 8; Sl 139/138.
Eclo 24,9-22;
Sb 11,21-12,1