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A Oração da Noite
No final do ano, as empresas costumam fazer um balanço do resultado econômico-financeiro do ano que termina. Também nós, cristãos, faremos uma parada de revisão ou balanço, no final de cada jornada. A noite favorece o encontro pessoal com a Trindade santa, que nos habita (Jo 14,23). Durante o dia, tivemos que correr, para cumprir nossas obrigações profissionais, familiares e sociais; talvez, tivemos que representar um certo "papel social", exterior. Mas, agora, quando as luzes se apagam e nos preparamos para dormir, ficamos a sós com a nossa verdade interior, na presença de Deus. Na nossa infância, fomos ensinados a rezar antes de dormir: "Com Deus eu me deito, com Deus eu me levanto, com a graça de Deus e do Espírito Santo..."; "Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador...", e alguma oração a Nossa Senhora: o terço ou, ao menos, três Ave-Marias. Minha mãe dizia que, se o sono nos vencesse, na reza do terço, os anjos terminariam de rezá-lo. Nas famílias cristãs, os filhos pediam a bênção do pai e da mãe, antes de deitar. Hoje, os costumes estão mudados. Nas cidades, a energia elétrica prolongou a jornada de trabalho e possibilitou a vida noturna. O telefone, a TV e o computador ocupam nossas noites. Todavia, hoje como ontem, precisamos de um encontro mais profundo conosco e com Deus. O próprio Jesus tinha necessidade de orar, a sós (Mt 14,23). Um modo de orar muito apropriado para a noite é o "exame" ou "revisão do dia". Santo Inácio de Loyola, no livro dos Exercícios Espirituais, ensina dois modos de fazer este exercício: O "Exame geral" e o "Exame particular". O Exame geral consta de cinco passos ou pontos: 1. Dar graças a Deus por tudo de bom que me aconteceu no dia de hoje. Algumas pessoas são como moscas, que vivem no esterco e podem transmitir doenças. Tais pessoas só lembram as coisas ruins. Os cristãos, pelo contrário, devemos ser como as abelhas que extraem o néctar das flores, para produzir o mel. No fim do dia, é bom lembrar as coisas positivas da jornada.
2. Pedir a luz do Espírito Santo, para examinar minha vida. São Paulo ensina que os "frutos do Espírito" são: amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, lealdade, mansidão e domínio próprio (Gl 5,22-23). Nesse clima, posso contemplar minha vida "com os olhos de Deus". É o que chamamos de discernimento, isto é, distinguir o bem do mal, ou o melhor do menos bom, procurando seguir sempre o que é bom, o que agrada mais a Deus (cf. Rm 12,2). 3. O ponto central consiste em examinar minha vida, para descobrir o que Deus quis me dizer, através dos acontecimentos do dia. Em que posso melhorar, no uso da minha liberdade? Em que aspecto de minha vida Deus me chama à conversão? Na catequese, ensinaram-nos a prepararmos a confissão sacramental, fazendo o "exame de consciência". No caso do exame ou revisão do dia, não se trata só de descobrir os meus pecados, mas também o caminho espiritual pelo qual o Senhor está querendo me levar. Como poderei viver melhor minha vocação à santidade? 4. Peço perdão pelo mal que fiz ou pelo bem que deixei de fazer, ao longo do dia. A chamada contrição consiste em arrepender-me de tudo aquilo que me afastou de Deus. 5. Por último, faço propósito da emenda. Olhando para o futuro, comprometo-me a fazer o bem e a evitar o mal, corrigindo e melhorando a minha vida. Já o Exame particular focaliza apenas um assunto, no qual me proponho a melhorar, seja um defeito do qual quero corrigir-me, seja uma virtude que desejo cultivar. O exame particular concretiza-se em três momentos: a) De manhã, ao levantar, farei o propósito de observar, durante esse dia, a conduta que desejo seguir. b) Durante o dia, estarei atento a esse defeito que desejo corrigir ou àquela virtude que quero desenvolver. c) Finalmente, à noite, examinarei como tenho agido, durante o dia, a respeito daquele assunto que escolhi como objeto do meu exame particular. Quem tem costume de rezar a Liturgia das Horas, à noite, rezará as Completas, com algum salmo apropriado: "Eu tranqüilo vou deitar-me e na paz logo adormeço, pois só vós, Senhor Deus, dais segurança à minha vida" (Sl 4,9), e com o cântico evangélico do velho Simeão: "Deixai, agora, vosso servo ir em paz, conforme prometestes, ó Senhor" (Lc 2,29). A antífona diz assim:
Mais importante do que as palavras é a intenção do coração. A oração da noite é um exercício de atenção amorosa ao Senhor. Luís
González-Quevedo, "A Oração da Noite" |