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CONTEMPLAR A SANTA CEIA
Leio 1Cor 11,23-26 (o mais antigo relato da instituição da eucaristia) ou um dos três evangelhos sinóticos (Mt 26,17-29; Mc 14,12-26 e Lc 22,7-24). Jesus e seus discípulos, prepararam todo o necessário para celebrar a Páscoa judaica.. Imagino o lugar em que aconteceu a história que quero contemplar. Na última semana de sua vida, Jesus passava o dia em Jerusalém, mas ao entardecer, voltava a Betânia (Mc 11,11.19), onde se hospedava. No entanto, a Páscoa devia ser celebrada na cidade santa. Por isso, aquela noite, Jesus não regressou a Betânia, mas foi com seus discípulos ao Cenáculo, para comer a Última Ceia. O Cenáculo era uma sala grande, bem arrumada. Maria, a mãe de Jesus e as outras mulheres da Galiléia teriam colaborado na preparação daquela Páscoa. Eu também preciso buscar um lugar calmo e arrumar minha mente e meu coração, para contemplar esta cena evangélica. Invoco o Espírito Santo (Vinde, Santo Espírito...), e peço a graça de unir-me a Cristo, na sua entrega ao Pai e aos irmãos, para a salvação de todos. Lembro-me de um canto: "Não há prova maior de amor, que dar a vida pelos que amamos" (Cantos de Taizé, 59). Na
Páscoa, os judeus comemoram a libertação
da escravidão do Egito, a passagem das trevas à luz.
Em cada eucaristia, os cristãos atualizamos o sacrifício
de Jesus Cristo, que nos faz passar da morte para a vida. Procuro entrar no coração de Jesus e perceber o que ele sentiu "na noite em que ia ser entregue" (1Cor 11,23). Escuto suas palavras: "Desejei ardentemente comer convosco esta ceia pascal, antes de padecer. Pois eu vos digo que não a comerei mais, até que ela se realiza no Reino de Deus" (Lc 22,15-16). Sinto a tristeza de Jesus, ao dizer aos seus discípulos: "Em verdade vos digo, um de vós vai me entregar" (Mt 26,21). Observo o espanto dos discípulos, perguntando: "Acaso sou eu, Senhor?" Jesus continuou: "Ai daquele por quem o Filho do Homem é entregue! Melhor seria que tal homem nunca tivesse nascido!" Judas, o traidor, perguntou: "Mestre, serei eu?". "Tu o dizes" (Mt 21-25). Então, Jesus molhou um bocado de pão e deu a Judas, dizendo-lhe: "o que tens a fazer, faze logo". Judas saiu imediatamente. "Era noite" (Jo 13,30). No momento mais solene da ceia, na bênção dos pães ázimos, Jesus tomou o pão, deu graças, partiu-o e deu aos discípulos, dizendo: "Isto é o meu corpo (em aramaico, den bisri), que é dado por vós. Fazei isto em memória de mim" (Lc 22,19). "Depois da ceia" (1Cor 11,25), Jesus pegou o cálice (o "cálice da bênção", que é o terceiro e mais solene dos quatro cálices da Páscoa), deu graças e passou-o aos discípulos, dizendo: "Este é o meu sangue (em aramaico, den idhmi), da nova Aliança (Lc 22,20), que é derramado por muitos" (Mc 14,24). Depois de cantarem o hino do Hallel (Sl 113-118), Jesus e seus discípulos saíram para o Monte das Oliveiras (Mt 26,30). Tinha chegado "a hora" de passar deste mundo para o Pai (Jo 13,1; 17,1). Antes, porém, Jesus fez um gesto inusitado: levantou-se da mesa, tirou o manto, derramou água numa bacia e lavou os pés dos discípulos, enxugando-os com a toalha que trazia à cintura (Jo 13,4-5). Esta é a história que quero contemplar. A contemplação não é um estudo bíblico, histórico ou teológico. Na oração, deixo de lado as discussões acadêmicas e procuro "entrar na cena contemplada". Posso acrescentar alguns pormenores, mas partindo sempre dos textos, que li e reli várias vezes, até fixá-los na minha memória e no meu coração. Depois, reflito sobre cada ponto ou parte do texto, relacionando-o com a minha vida, buscando o que o Senhor me quer dizer, através dessa cena evangélica. Onde encontrar gosto, luz e paz, ai pararei, saboreando o que mais me tocou, sem preocupar-me com passar o texto inteiro. No
final, agradeço ao Pai, a quem se dirige toda oração
cristã; agradeço a Jesus, por ter-nos amado até
o fim, até o extremo de dar a vida por nós; agradeço
ao Espírito Santo, por tudo o que me deu a sentir nesta contemplação.
Peço perdão, pelas minhas distrações e
infidelidades, e prometo pôr em prática as boas idéias,
sentimentos ou apelos desta contemplação. Pe.
Luís González Quevedo, SJ
luisquevedosj@vilakostkaitaici.org.br [Artigo publicado na revista "O Mílite", setembro 2005] |