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POR
QUE CHAMAMOS A MISSA DE "SACRIFÍCIO"?*
No entanto, o sentido original da palavra "sacrifício" é positivo. Trata-se de oferecer algo a Deus, por amor. Na definição de Santo Agostinho, sacrifício é uma "ação que nos une a Deus em santa amizade". No uso profano da palavra, sacrificar-se é consagrar-se inteiramente a algo ou a alguém, dedicar-se com ardor a uma causa: Um cientista consagra sua vida ao progresso da ciência; um esportista dedica-se, intensamente, ao esporte; um pai ou uma mãe de família entregam-se ao cuidado e educação dos seus filhos, etc. Para triunfar e ser feliz, em qualquer estado de vida ou profissão, é preciso uma boa dose de dedicação, de entrega, de sacrifício. Os povos primitivos ofereciam aos seus deuses as primícias da colheita ou dos rebanhos. No Antigo Testamento, os hebreus ofereciam touros e carneiros em "holocausto": sacrifício em que a vítima era queimada (kaustos) completamente (holos). A mentalidade religiosa primitiva imaginava que era necessário aplacar a "ira de Deus" com orações e sacrifícios. Hoje, sabemos que Deus é tão bom e nos ama tanto, que não precisamos comprar seu afeto com sacrifícios e promessas ou com nosso bom comportamento. Os cristãos devemos rezar e fazer sacrifícios, sim, mas não para mudar Deus, antes para nos mudar e melhorar nós mesmos. No santo sacrifício da missa, a Igreja oferece a Deus o que lhe é mais agradável: seu próprio Filho. Não são as nossas pobres ofertas que conquistam o bem-querer de Deus. Teologicamente, o único sacrifício que pode reconciliar-nos com Deus é o sacrifício de Cristo, que na cruz deu a sua própria vida, em expiação pelos nossos pecados. As Igrejas
evangélicas, nascidas da Reforma protestante, celebram também
a Ceia do Senhor, mas evitam chamá-la de "sacrifício",
para destacar que o único sacrifício redentor é o
de Cristo na cruz. Os protestantes têm dificuldade em aceitar que
nós possamos "oferecer" algo a Deus. Algumas celebrações
populares, na Igreja católica, parecem valorizar muito a procissão
das oferendas que precede ao "ofertório" da missa, mas
devemos evitar o mal-entendido de pensar que oferecemos a Deus coisas
de valor. O sacrifício mais agradável a Deus não
consiste em entregar-lhe alguma coisa, mas em nos entregarmos nós
mesmos a Ele. "Pois que pode buscar de nós o Senhor, senão
nós mesmos?" (Santo Agostinho, Sermão 48). É verdade que o único "mediador" capaz de nos reconciliar com Deus é Jesus Cristo, mas Ele próprio pediu que celebrássemos a eucaristia como "memorial" ou sinal sacramental do seu amor "até o fim" (Jo 13,1; 15,13). Este memorial não é apenas lembrança de um acontecimento passado, mas é também proclamação desse acontecimento, que se torna presente e atual. "Quando a Igreja celebra a eucaristia, rememora e perpetua a páscoa do Senhor; o sacrifício que Cristo ofereceu na cruz ,uma vez por todas, torna-se sempre atual" (Catecismo da Igreja Católica, 1363-1364). Os textos do Novo Testamento relacionam a eucaristia com o sacrifício da cruz: "Corpo entregue", "Sangue derramado", "por vós", "por muitos" (= por todos), "pela vida do mundo". E o Concílio Vaticano II diz que o Senhor perpetua o sacrifício da cruz, confiando à Igreja, sua Esposa, o memorial de sua morte e ressurreição (SC 47). Chamamos a missa de "sacrifício", porque nela o Cristo total, isto é, o Senhor Jesus e a Igreja, que é seu Corpo místico, tornam sacramentalmente presente o sacrifício da cruz. Pe.
Luís González Quevedo, SJ
luisquevedosj@vilakostkaitaici.org.br [Artigo publicado na revista "O Mílite", julho 2005] |