VIDA DE DEUS É VIDA NA COMUNIDADE DE AMOR


Gina Torres Rego Monteiro
Gina é Leiga, Médica, membro atuante da CVX e também dá os Exercícios, sobretudo na Vida Corrente. Este trabalho que ela, cooperativamente, nos cedeu, é a síntese de seu curso de Teologia, feito na Universidade Santa Õrsula do Rio de Janeiro, sob a orientação do Prof. Medoro de Oliveira Souza Neto.

O Deus da Vida é o Deus comunidade

A Trindade é um mistério central do cristianismo, trazendo implicações cruciais para Seus seguidores quanto ao modelo de vida social e comunitária que devem desenvolver. Este tema é estudado, em profundidade, por Leonardo Boff em seu livro "A Trindade, a Sociedade e a Libertação" (Vozes, 2ª ed., 1986), sendo as idéias abordadas nos parágrafos seguintes fruto de sua leitura, tendo por objetivo fundamentar a presente síntese: o Deus da vida é o Deus da comunidade.

Através de Jesus Cristo os homens e mulheres passaram a conhecer Deus como Trindade-Pai, Filho e Espírito Santo. É bom frisar que, embora somente depois de Jesus se conheça o Deus Uno e Trino, isto não significa que aí começa a Trindade. Desde todo o sempre Deus é Pai, Filho e Espírito Santo e vai se revelando como tal ao longo da história. Uma vez mais, a experiência antecede a doutrina. Escreve Boff: "antes que houvesse a discussão dos teólogos e as tomadas de posição do Magistério, houve a oração dos fiéis, as celebrações litúrgicas e a vivência cotidiana tranqüila e irrefletida da presença do Pai pelo Filho na união com o Espírito Santo no meio da humanidade, no seio da Igreja e no coração dos fiéis" (op cit., p. 193).

Jesus vive em profunda comunhão com Javé, que Israel conhecia como Deus da vida, ensinando Seus discípulos a chamá-lo de Pai (Mt 6, 9). O Espírito da Vida é fruto desta comunhão (Jo 16, 14-15).

Há várias passagens no Novo Testamento onde aparece a fórmula trinitária (Mt 28, 19; 2 Cor 13, 13; 1, 21-22; 2 Tes 2, 13-14; Gal 3.11-14; Rom 14.17-18; 15, 16.30; Ef 2, 18.20-22; 3, 14-16; Tit 3,6; 1 Ped 1, 2; Jud 20,21; Apoc 1, 4-6), normalmente utilizada no batismo e no culto dos primeiros cristãos, ou seja, a expressão da experiência de fé é anterior à elaboração teológica da Trindade.

Ao se refletir acerca da Trindade, - que jamais deixará de ser mistério para a criatura humana -, historicamente incorreu-se em equívocos devido a explicações que esclareciam parte da realidade em detrimento de outra: o modalismo (Pai, Filho e Espírito Santo seriam três modos do mesmo Deus aparecer), o subordinacionismo ( o Pai seria o único Deus, sendo o Filho e o Espírito Santo criaturas subordinadas), o triteísmo (Pai, Filho e Espírito Santo seriam três deuses). As duas primeiras interpretações enfatizam a unidade da pessoa (um só Deus) em detrimento da alteralidade (Trindade), enquanto que a última acentua a Trindade mas negligencia o monoteísmo. Para evitar esses equívocos, deve-se procurar como Deus se revela Uno e Trino na história da salvação.

A ortodoxia trinitária pode ser resumida em sete proposições:

- A primeira Pessoa da Trindade é Deus Pai, criador, fonte e origem da vida trinitária. É o Pai do Filho unigênito. É o principio ativo espirador do Espírito Santo. (Jo 1, 18; 17, 24)

- A segunda Pessoa da Trindade é o Filho eternamente gerado do Pai, consubstancial ao Pai, Ele é o Seu Verbo, Imagem e Sacramento, tanto na esfera intra-trinitária quanto em sua missão encarnatória. (Mc 1, 11; Jo 1,1)

- A terceira Pessoa da Trindade é o Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho, sendo consubstancial a Eles, igualmente adorado e glorificado. Ele é a expressão eterna do mútuo amor do Pai e do Filho. (Jo 15-26)

- No que se refere às propriedades das Pessoas divinas, diz-se que é próprio do Pai a "inascibilidade" (o Pai não nasceu, é eterno) e a paternidade; é próprio do Filho o ser gerado; é próprio do Espírito Santo a ser espirado do Pai e do Filho (também pelo Filho). Quanto às missões salvíficas, o Pai é origem da historia da salvação (Is 63, 7-8.16), assim como das missões do Filho e do Espírito Santo, sendo próprio do Filho a encarnação (Mt 1, 18) e do Espírito Santo a missão de santificação e da humanização de Jesus no seio da Virgem Maria. (Lc 1, 35)

- As Pessoas divinas se distinguem pela relação de procedência e de origem. Naquilo que são distintas se unem e se complementam: paternidade, filialidade, espiração ativa e passiva. (1 Cor 12, 3-6)

- Entre as três Pessoas, vigora uma comunhão, uma mútua interpenetração: uma existe na outra, pela e para a outra. (Mt 28, 19)

- Por mais que se tente compreendê-la, a verdade sobre a Santíssima Trindade permanece um mistério absoluto, que se entrega em liberdade e amor.

A comunhão das três Pessoas na Trindade leva à conclusão de que o Deus cristão nunca é solitário, mas é uma comunidade trinitária: ao pronunciar a Palavra, o Criador sopra o Espírito vivificante (Gal 4, 6). Nas palavras de Boff, "por causa da pericorese e da comunhão, tudo na Trindade é ternário. Cada pessoa age em união com as outras, mesmo quando se trata de ações próprias ou apropriadas, como a criação por parte do Pai, a encarnação por parte do Filho e a "pneumatificação" por parte do Espírito Santo. O Pai cria o Filho na inspiração do Espírito Santo. O Filho se encarna, enviado pelo Pai na virtude do Espírito santificador. O Espírito paira sobre Maria e inunda a vida dos justos, enviado pelo Pai a pedido do Filho" (op. cit., p. 16).

Os traços trinitários podem ser percebidos em cada homem ou mulher. A pessoa é um grande mistério (como o Pai o é) que conhece e comunica a sua própria verdade (como fez o Filho), buscando a comunicação com outros (característica do Espírito Santo).

Crer em Deus como Trindade, leva necessariamente o cristão a compreender sua própria vocação à comunhão, ou seja, a relacionar-se com o outro de igual para igual respeitando ao mesmo tempo sua diferença. Mais ainda, por sua fé, o cristão participa intimamente da essência divina (Jo 17, 21).

A compreensão de Deus como Trindade deve também ser confrontada com a sociedade organizada pelos homens e mulheres: ela será conforme os desígnios do Senhor quando for fraterna, aberta, justa e igualitária. Será fonte e fruto do pecado, na medida em que se afastar destes valores. Os cristãos devem comprometer-se na construção de uma sociedade inspirada na participação, igualdade e comunhão trinitárias. Leonardo Boff explicita assim esta realidade: "o Pai está todo no Filho e no Espírito Santo; o Filho está todo no Pai e no Espírito Santo; e o Espírito Santo está todo no Pai e no Filho. Daqui derivamos a utopia de igualdade, respeitadas as diferenças, da comunhão plena das relações justas para a sociedade e a história" (op. cit. p. 122). Aqui se encontra a origem e a própria essência da Igreja: ser sacramento de vida e comunhão para a humanidade até que o Reino seja pleno.

3. Igreja - Comunidade de vida a serviço da vida.
Os discípulos vivificados pelo Espírito tornam-se missionários da Vida

No episódio descrito em Pentecostes (At 2, 1-4), os discípulos de Jesus, através do Espírito, experimentam a Trindade que reacende neles o ânimo que se havia esmorecido com Sua morte. È luz dos últimos acontecimentos criam coragem e passam a anunciar a Boa Nova do Deus da Vida que havia ressuscitado o Filho e doado o Espírito Santo para acompanhar os crentes (At 2, 14-36). A Igreja nasce da fé e da decisão dos apóstolos, impulsionados pelo Espírito Santo, de ir ao mundo evangelizá-lo.

O cerne da fé e da pregação dos seguidores de Jesus é a ressurreição: o mesmo Jesus que foi morto pelos ímpios reviveu pelo poder de Deus (At 2, 23-24). São testemunhas de que Israel matou o autor da Vida e que Deus o fez ressurgir dos mortos (At 3, 15). A fé em Jesus os torna corajosos (At 4, 13.29), e faz com que se empenhem em difundi-la: primeiro, aos judeus (At 5, 30-31.42; 6,4; 10, 40-41), e, depois, também aos pagãos (At 11, 12-18).

Na difusão da fé entre os pagãos, tem grande importância a participação de Paulo, um judeu culto, que não foi discípulo de Jesus, mas convertido após um período de perseguição feroz ao cristianismo nascente (At 9, 1-20). Nas epístolas que lhe são atribuídas, há inúmeras referências à missão de anunciar o Deus da Vida (Rm 1, 1-4: 5, 10.17; 1 Cor 1, 17; 15, 1-9.20; 2 Cor 4, 10-12; Gal 1, 1; 2, 20; Ef 2, 4-6; Col 2, 12-13; 1 Ts 4, 13-14: 1 Tm 2, 5-7; 2 Tm 1, 10-11; Tt 1, 1-3). Sua convicção da presença de Deus na vida daquele que crê está expressa na carta aos Gálatas: "Eu vivo. Mas não mais eu: Cristo é quem vive em mim. A vida que presentemente eu vivo na carne, eu a vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se ofereceu por mim" (Gl 2, 20).

Os seguidores de Jesus devem aprender dele seu estilo de vida

Jesus não havia proposto uma vida fácil para aqueles que o seguissem. O relato do envio dos Doze em missão é bastante significativo (Mt 10, 5-42). Recomenda muito trabalho, sobriedade, pobreza, humildade. Alerta que haverá perseguições e brigas, e ainda exige grande dedicação. Além disso diz que para segui-lo há que renunciar a si mesmo (Lc 9, 23) e aos familiares (Lc 9, 60.62) inclusive porque Ele não tem moradia assegurada (Mt 8, 20). Não veio revogar a lei mas aperfeiçoá-la (Mt 5, 17).

Jesus reconhece como verdadeiro discípulo aquele que ouve suas palavras e as pratica (Mt 7, 24). O primeiro deles será o que mais servir (Mc 9, 35). Promete que sempre estará presente onde houver oração comunitária (Mt 18, 20).

Entretanto, a mais simples e profunda descrição do estilo de vida que Ele recomendou aos Seus seguidores, está descrita na passagem do Juízo Final (Mt 25, 31-46), que deve ser compreendida mais como proposta de vida do que como julgamento após a morte. O critério de aceitação está na atenção dada às necessidades dos pequeninos, "um dos menores desses irmãos" quando estiver faminto , sedento, estrangeiro, nu, doente, preso. Atender a alguém em uma destas necessidades é atender ao próprio Cristo (Mt 25, 40). Só dá esta atenção quem vive a fraternidade sob o signo da Trindade - esteja ou não consciente disso.

Os critérios acima relacionados estão em consonância com o relato de Lucas no início da vida pública de Jesus (Lc 4, 17-21), onde Ele assume os princípios propostos por Isaías: levar aos pobres a Boa Nova, proclamar aos prisioneiros a libertação, recuperar a vista dos cegos, libertar os oprimidos e proclamar o ano da graça do Senhor.

A Primeira comunidade, proposta de vida cristão

Os convertidos se reuniam para cultivar sua fé. Já desde seus primórdios o cristianismo se organiza em comunidades. A descrição da vida dos primeiros fiéis pretende ser motivação para a perseverança dos demais (At 2, 42-47).

Eles permaneciam constantes no ensino dos apóstolos, na comunhão fraterna, na eucaristia e nas orações (vers 42), tinham tudo em comum (vers 44), repartindo tudo entre todos conforme a necessidade de cada um (vers 45), freqüentavam diariamente o Templo, celebravam a eucaristia nas suas casas (vers 46), louvavam o Senhor e eram estimados pelo povo (vers 47).
É interessante notar a igualdade e a alteridade, portanto a comunhão presente nestas pessoas: reuniam-se para louvar pela fé comunitária e tinham tudo em comum, segundo a necessidade de cada um. Fruto desta partilha de vida através da fé, "não havia necessitados entre eles" (At 4, 34).

A missão do povo de Deus e a luta pela Vida plena

Na medida em que o povo de Deus observa a história da salvação, e percebe as inúmeras mensagens a favor da vida que o Senhor tem enviado, a única atitude coerente a ser tomada é optar pela vida, lutando contra tudo o que de alguma maneira veio ameaçá-la.

O respeito à vida (seja ou não humana) advém da concepção de que ela é criação do Pai. A partir da encarnação do Filho o ser humano é partícipe da divindade e como tal sua vida merece respeito ainda maior. A encarnação dá-se por obra do Espírito Santo no seio de uma moça pobre, consolidando uma vez mais a preferência do Senhor pelos despossuídos. A Trindade comunica que Deus criou os homens e mulheres para a vida que deve tornar-se plena pelo amor.

Crer em Deus, para o cristão, significa buscar uma sociedade que viva a comunhão de modo similar ao que ocorre na Trindade. Em outras palavras: significa trabalhar pela implantação do Reino de Deus, valorizando as situações de vida ("já aqui") e lutando contra as situações de morte ("ainda não") encontradas naquela sociedade. Nesta luta, a Igreja oferece aos cristãos a ajuda dos sacramentos.

Celebra-se a vida nos sacramentos que revigoram a Vida

No transcorrer da vida de cada pessoa existem momentos cruciais em que as forças da vida e da morte são mais visíveis. Nestas ocasiões as pessoas costumam refletir sobre a própria vida, assim como sobre a vida dos demais. Para o crente estes são momentos propícios para testemunhar sua fé, para celebrar na comunidade eclesial.

O primeiro deles é o próprio nascimento da criança, ser indefeso e frágil, que depende dos outros para a sobrevivência imediata. O batismo celebra a acolhida na comunidade desta nova vida, dádiva de Deus (At 16, 33). A criança cresce e chega a outro momento-chave de sua história, quando deixa a dependência familiar absoluta, descobrindo sua liberdade. Amadurecida, quer encontrar seu próprio caminho. O sacramento da confirmação sedimenta sua fé e opção pela comunidade eclesial (At 8, 16-17).

Ao se perguntar pela duração, pela solidez da comunidade entre os homens e mulheres, a pessoa percebe que quando não se cultiva a vida comunitária, corre-se o risco de cair, pela lei do menor esforço, na desigualdade consentida, na despersonalização. A eucaristia recorda, na celebração em torno da mesa de refeição comum, que os fiéis devem trabalhar pela construção da comunidade fraterna (1 Cor 11, 20-25). Contudo, as forças da morte, pela desunião, podem crescer a ponto da pessoa romper com a comunidade. Toda ruptura é dolorosa, e, muitas vezes, não desejada. O sacramento da reconciliação é uma resposta ao desejo de redenção, de retorno à comunidade de vida (Lc 19, 8-10).

Há várias maneiras de se lutar contra as forças da morte presentes no mundo. Entre as opções existentes, o crente encontra a de dedicar sua vida ao serviço comunitário para a construção da reconciliação, através do sacramento da ordem (1 Cor 9, 1.19).

A decisão pelo casamento é um momento que incita a uma profunda reflexão. Duas liberdades se encontram e desejam unir suas vidas pelo amor mútuo. O sacramento do matrimônio explicita a presença do Amor divino como força vivificante nesta honrou (Mt 19, 4-6).
Um outro momento crucial é aquele em que a pessoa adoece. A enfermidade debilita e representa uma ameaça concreta à vida levando, comumente, a uma realizou sobre a própria vida. O crente deseja conscientemente receber a unção dos enfermos, que para ele é fonte de vida eterna, pois expressa o poder salvífico de Deus (Tg 5, 14).

Os sacramentos são sempre celebrados comunitariamente pois a Igreja é uma comunidade de crentes (Rm 16, 5). Esta Igreja pode ser representada como um corpo, cuja cabeça é o Cristo (1 Cor 12, 12-31), templo do Deus vivo (1 Tm 3, 15) ou edifício, que tem em Jesus sua pedra angular (Ef 2, 20-22). Na Esposa do Cristo (Ef 5, 23), depositam sua esperança os vocacionados (Ef 4, 4), que, por suas atitudes, devem demonstrar que são os escolhidos, amados pelo Senhor (Col 3, 12).

Maria, que foi a primeira a crer em Jesus (Lc 1, 38), é pessoa importante na Igreja desde seus primórdios. Ela permanece em oração com os apóstolos, mantendo a união com sua presença feminina, maternal, estando com eles no nascimento da Igreja (At 1, 14).

Maria, mãe de Jesus, também dá vida à Igreja

Entre todos os cristãos chamados por Deus à luta pela vida, destaca-se Maria. Já na descrição da encarnação, Lucas mostra que Deus pode criar a vida aonde ela não é possível aos olhos do mundo, ao ressaltar que o anjo é enviado a uma Virgem (Lc 1, 27.34), dando-lhe como sinal do poder de Deus a gravidez de uma senhora já idosa considerada estéril (Lc 1, 36-37).

Os Evangelhos trazem poucas referências a Maria permitindo, entretanto, algumas conclusões. Ela é, naturalmente, a primeira pessoa a crer (Lc 1, 38); está presente no início da vida pública de Jesus (Jo 2, 1) tendo inclusive, ativa participação neste importante momento (Jo 2, 5); está também presente no fim, ao pé da cruz (Jo 19, 25); seu cântico de louvor - o Magnificat - não é intimista mas relaciona-se com a história da salvação de seu povo (Lc 1, 46-55); observa e acompanha o desenvolvimento de Jesus com carinho, guardando tudo em seu coração (Lc 2, 19.33.40.51).

Todavia, o texto mais rico e incisivo, ao mesmo tempo, é aquele em que Jesus compara sua Mãe (e irmãos) àqueles que ouvem e praticam a palavra de Deus (Lc 8, 19-21). Por um lado, Ele valoriza a mulher que lhe trouxe à vida colocando em prática a palavra do Senhor, sem alarido. Por outro lado, convida Seus seguidores a tomarem o exemplo de Maria, estando atentos aos sinais do Deus da vida, e fazendo-se gerador e guardião da vida, até que esta seja plena em Deus.

O Deus da Vida dá o sentido último á história
Deus é origem e meta da Vida

O dia 2 de novembro é tradicionalmente dedicado aos mortos. É uma data propícia para recordar e celebrar a memória de tantos mártires atuais, pessoas que foram mortas por sua luta pela vida: Pe. João Bosco Burnier, D. Oscar Romero, Santo Dias, Pe. Josimo, para citar apenas os mais famosos, pois sabe-se que são muitos mais e, em sua maioria, pessoas simples que não recebem cobertura jornalística na morte como não receberam em vida. Esta é uma face da violência: aqueles que buscam mudar uma situação de injustiça, são injustamente mortos.

Lendo a página policial de qualquer periódico, entra-se em contato com a outra face. Pessoas que aparentemente não estão comprometidas com uma mudança da situação, são colhidas pela violência vigente perdendo a vida. Dois exemplos, ocorridos no Rio de Janeiro na semana que terminou em 2 de novembro de 1986: dois guardas de trânsito foram mortos quando iam socorrer um carro que colidiu contra uma árvore, sem saber que no carro estavam assaltantes em fuga; um médico de 35 anos morreu devido tiros dados pelas costas, ao tentar fugir do próprio carro em movimento, quando estava sendo seqüestrado, sem saber o motivo.

São duas faces da mesma moeda: a situação de injustiça gera a morte e, quer se lute contra ela, quer não se lute, paga-se com a vida. Esta situação ofende a Deus que criou homens e mulheres para a vida plena.

Frente a esta situação de morte indiscriminada, o ser humano não deve permanecer indiferente, mas lutar pela sua mudança, lutar por uma sociedade de justiça onde floresça a vida.
Todo ato de justiça, de amor, de vida, remete a Deus que é origem da vida e também sua meta pois só nele a vida será plena na amortiçou do universo, quando Deus for "tudo em todos" (1 Cor 15, 28).

A opção do Senhor pela vida é consagrada na ressurreição de Jesus: palavra definitiva a favor da Vida.

Em Jesus a morte é vencida

A vida e a morte de Jesus de Nazaré são fatos históricos. Sua ressurreição foi experimentada pelos primeiros cristãos que nela encontram o cerne da Boa Nova. As elaborações teológicas, conseqüentes àquelas vivências, reconheceram que Jesus de Nazaré é o Cristo, o Messias, o Filho de Deus (Mt 16, 16).

A perspectiva cristã da vida imortal não exclui a morte do ser humano enquanto ato da natureza em que ele vive. Já no livro do Gênese se alerta que "és pó e ao pó tornarás" (Gen 3, 19). Contudo, se, enquanto ato da natureza, a morte é o fim total, Deus, que é Senhor da natureza e da vida, tendo poder sobre ambas, é superior à morte. Todos devem passar pela morte, mas esta não é a última palavra sobre a vida humana. A derradeira palavra vem de Deus, que "não é Deus dos mortos mas dos vivos; para Ele, então, todos são vivos" (Lc 20, 38).

A morte além de ser um fato da natureza é também um ato pessoal e social. Pessoal porque o indivíduo morre no instante da morte como morreu (e também como viveu) ao longo da vida; o ser humano é capaz de dispor de sua vida dando sentido à própria morte. Social, porque as várias culturas recebem-na de diferentes maneiras, com ritos próprios, que refletem na morte de cada um de seus membros. Social, principalmente porque em sociedades onde grassa a injustiça, o bem estar de alguns é alcançado às custas da morte de tantos outros (Cf. J. B. Libânio e M. C. L. Bingemer, "Escatologia cristã" Vozes, 1985).

A morte física dos homens e mulheres é semelhante à dos animais, porém, quando é assumida na liberdade, se humaniza. A dimensão cristã não nega o animal da morte e o humano da liberdade, não lhe tira a dor e a angústia que estiveram presentes inclusive na morte de Jesus (Mt 26, 38; 27, 46). A novidade do cristianismo é que a morte foi vencida pela ressurreição de Jesus (1 Cor 15, 54-57) e Seus seguidores devem lutar contra as forças da morte buscando a instauração do Reino da vida.

Cristão é aquele que busca seguir Jesus Cristo em Sua vida, morte e ressurreição através do amor ao próximo (1 Jo 3, 14) e da participação eclesial na eucaristia (Jo 6, 51). Este seguimento pode exigir a doação da própria vida (1 Jo 3, 16).

A ressurreição de Jesus aprofunda o conhecimento que o crente tem de Deus. Antes de Jesus, Ele era conhecido como Criador (Gen 1, 1). Jesus ensina a chamá-lo de Pai (Jo 16, 26-27). Agora o fiel compreende que recebe a vida através de Jesus como sinal do amor de Deus (1 Jo 1, 8-9), que dá vida inclusive aos mortos (Rom 4, 17).

A ressurreição de Jesus não pretende ser única, mas primícias dos que morreram (1 Cor 15, 20;Rom 8, 29; Col 1, 18; 1 Tes 4, 14; Apoc 1, 5).

A Vida é eterna

Diz o ditado popular: "vida, a gente só tem uma". É a pura verdade. Não há uma outra vida. Há uma vida que se inicia na concepção de uma criança que em seu desenvolvimento pode optar por uma atitude egocêntrica ou por uma abertura ao Outro.

Deus cria o ser humano para a vida de comunhão, amor, participação, à imagem e semelhança da Trindade. Os homens e mulheres não são criados dentro de um determinismo estático, mas são criados para a liberdade, uma vez que Deus os dotou do livre arbítrio. A vida não deve ser uma prisão, mas um leque de possibilidades para a realização da pessoa e da humanidade. Esta realização será plena, já se disse, quando Deus for tudo em todos (1 Cor 15, 28).

A liberdade de escolha não é limitada, é real. A criatura humana não é obrigada, mas convidada a construir sua vida em direção a Deus (ao Outro) e realmente o faz cada vez que age a favor da justiça e da vida de todos os homens e mulheres (os outros). Entretanto, ela pode não fazer esta opção, mas limitar o sentido de sua vida a um só referencial: a si própria. Neste caso ela não estará somando esforços para a construção do Reino da justiça, da vida, da participação. Não ajudando a construir, obviamente, atrasa sua instauração.

Viver eternamente no inferno não é castigo de Deus nem é resultado de um somatório puro e simples dos pecados. É uma possibilidade que homens e mulheres podem construir para si por meio das opções e omissões conscientes tomadas no dia-a-dia. O inferno já é realidade sempre e onde houver egoísmo, injustiças, opressões, falta de amor e de respeito à vida. Aqueles que pautam suas vidas por tais atitudes, ou que compactuam com elas, são candidatos a vivê-las em plenitude na eternidade. Portanto, as ações realizadas no cotidiano revestem-se de uma seriedade que dignifica a liberdade com que o ser humano foi criado (Rom 2, 12-13).

Contudo estas ações diárias podem estar voltadas para a construção de uma sociedade justa, igualitária, que conte com a participação de todos os seus membros. Estas opções nunca são geradas pelo egoísmo, mas são frutos da fraternidade, do amor a Deus, que se concretiza na atuação a favor dos oprimidos, empobrecidos, desprezados; em outras palavras, na luta pela instauração do Reino da Vida, até que esta seja plena no universo. Aqueles que participam desta luta, movidos pela fé, percebem a presença de Deus mesmo nas menores conquistas, ou seja, reconhecem a realidade, ainda parcial, do céu "já aqui". Mas sabem que o céu "ainda não" acontece plenamente, enquanto não vivem todos sob o signo do amor, da justiça, da vida. Contudo, a opção fundamental pela vida conduz à vida eterna. Então não haverá mais morte, luto, solidão ou dor, pois se viverá eternamente na presença do Amado, na comunhão dos santos (Apoc 21, 4).

O ser humano é eminentemente social. Portanto, todos os seus atos e omissões têm repercussões sociais. Tais repercussões sobrevivem inclusive à morte daquele que praticou determinada ação e apresentam conotação negativa ou positiva, conforme produzam o pecado e a morte ou a justiça e a vida. Todo ato humano participa da história da humanidade, e, uma vez mais, esta certeza deve levar a uma grande responsabilidade nas atitudes cotidianas.

Homens e mulheres foram criados à imagem e semelhança da Trindade e almejam, no mais profundo de seu ser, a comunhão, a participação, a igualdade que respeita a alteridade. A morte daqueles que lutaram por estes valores durante a vida, trará sua culminância. Estarão sempre na presença do Senhor da Vida, na comunhão com os demais, participando do Amor eterno. Aquilo que já experimentaram em parte, viverão em abrangência plena, de modo novo, na glória.

"O olho não viu, o ouvido não escutou, nem o coração humano imaginou tudo o que Deus preparou para aqueles que o amam" (1 Cor 2, 9).

Conclusão

O cristão reconhece a Deus como Trindade - Pai, Filho e Espírito Santo: três Pessoas distintas que vivem em comunhão profunda. Como criou o ser humano à sua imagem e semelhança,
este anseia pela comunhão com os demais e só encontra a sua identidade ao viver a comunhão que significa igualdade fraterna e respeito às diferenças.

A Trindade é modelo de vida pessoal e comunitária. Mais que isto, é o protótipo da sociedade perfeita para a qual homens e mulheres foram criados.

Vive-se hoje, na América Latina, em sociedades que apresentam tantos sinais de morte que quase não se percebe que nelas continua pulsando a vida. Ser cristão nestas sociedades deve significar, por um lado, a denúncia e o repúdio ao pecado causador da morte e, por outro, a luta pela justiça que é o outro nome do compromisso com a vida em sua dimensão pessoal, familiar, eclesial, enfim, de toda a sociedade.

O objetivo último deve ser a instauração do Reino da justiça, do amor, da vida, da comunhão trinitária. Em outras palavras, a inauguração do final dos tempos quando "todas as coisas lhe estiveram submetidas, então também o Filho se submeterá Àquele que lhe submeteu todas as coisas, para que Deus seja tudo em todos". (1 Cor 15, 28).

Esta opção pela plenitude da vida é descrita de forma belíssima, na música popular brasileira, pelo mais místico entre os compositores contemporâneos: Milton Nascimento, em parceria com Fernando Brant, na música "Comunhão" (disco "Ãnima", Ariola, 1982):

sua barriga me deu a mão
o pai me deu o braço forte
os seios fartos me deu a mãe
o alimento, a luz, o norte

A vida é boa, me diz o pai
a mãe me ensina que ela é bela
o mal não faço, eu quero o bem
na minha casa não entra a soldou

Todo amor será comunhão
a alegria de pão e vinho
você bem pode me dar a mão
você bem pode me dar carinho

Mulher e homem é o amor
mais parecido com primavera
é dentro dele que mora a luz
vida futura no ponto de explodir

Eu quero paz, eu não quero guerra
quero fartura, eu não quero fome
quero justiça, eu não quero ódio
quero a casa de bom tijolo
quero a rua de gente boa
quero a chuva na minha roça
quero sol na minha cabeça
quero a vida, não quero a morte não

Quero o sonho, a fantasia
quero o amor e a poesia
quero cantar, quero companhia
eu quero sempre a utopia:
o homem tem de ser comunhão
a vida tem de ser comunhão
o mundo tem de ser comunhão
a alegria do vinho e pão
o pão e o vinho enfim repartidos

Sua barriga te deu a mãe
eu, pai, te dou meu amor e sorte
os seios fartos te deu a mãe
o alimento, a luz, o norte

A vida é boa, te digo eu
a mãe ensina que ela é sábia
o mal não faço, eu quero bem
a nossa casa reflete comunhão

Este Texto é a continuação do texto do mês de Fevereiro
e faz parte da Revista Itaici nº 10