Gina Torres Rego Monteiro Gina é Leiga, Médica, membro atuante da CVX e também dá os Exercícios, sobretudo na Vida Corrente. Este trabalho que ela, cooperativamente, nos cedeu, é a síntese de seu curso de Teologia, feito na Universidade Santa Õrsula do Rio de Janeiro, sob a orientação do Prof. Medoro de Oliveira Souza Neto. O
Deus da Vida é o Deus comunidade A Trindade é um mistério central do cristianismo, trazendo implicações cruciais para Seus seguidores quanto ao modelo de vida social e comunitária que devem desenvolver. Este tema é estudado, em profundidade, por Leonardo Boff em seu livro "A Trindade, a Sociedade e a Libertação" (Vozes, 2ª ed., 1986), sendo as idéias abordadas nos parágrafos seguintes fruto de sua leitura, tendo por objetivo fundamentar a presente síntese: o Deus da vida é o Deus da comunidade. Através
de Jesus Cristo os homens e mulheres passaram a conhecer Deus como Trindade-Pai,
Filho e Espírito Santo. É bom frisar que, embora somente
depois de Jesus se conheça o Deus Uno e Trino, isto não
significa que aí começa a Trindade. Desde todo o sempre
Deus é Pai, Filho e Espírito Santo e vai se revelando como
tal ao longo da história. Uma vez mais, a experiência antecede
a doutrina. Escreve Boff: "antes que houvesse a discussão
dos teólogos e as tomadas de posição do Magistério,
houve a oração dos fiéis, as celebrações
litúrgicas e a vivência cotidiana tranqüila e irrefletida
da presença do Pai pelo Filho na união com o Espírito
Santo no meio da humanidade, no seio da Igreja e no coração
dos fiéis" (op cit., p. 193). Jesus
vive em profunda comunhão com Javé, que Israel conhecia
como Deus da vida, ensinando Seus discípulos a chamá-lo
de Pai (Mt 6, 9). O Espírito da Vida é fruto desta comunhão
(Jo 16, 14-15). Há
várias passagens no Novo Testamento onde aparece a fórmula
trinitária (Mt 28, 19; 2 Cor 13, 13; 1, 21-22; 2 Tes 2, 13-14;
Gal 3.11-14; Rom 14.17-18; 15, 16.30; Ef 2, 18.20-22; 3, 14-16; Tit 3,6;
1 Ped 1, 2; Jud 20,21; Apoc 1, 4-6), normalmente utilizada no batismo
e no culto dos primeiros cristãos, ou seja, a expressão
da experiência de fé é anterior à elaboração
teológica da Trindade. Ao
se refletir acerca da Trindade, - que jamais deixará de ser mistério
para a criatura humana -, historicamente incorreu-se em equívocos
devido a explicações que esclareciam parte da realidade
em detrimento de outra: o modalismo (Pai, Filho e Espírito Santo
seriam três modos do mesmo Deus aparecer), o subordinacionismo (
o Pai seria o único Deus, sendo o Filho e o Espírito Santo
criaturas subordinadas), o triteísmo (Pai, Filho e Espírito
Santo seriam três deuses). As duas primeiras interpretações
enfatizam a unidade da pessoa (um só Deus) em detrimento da alteralidade
(Trindade), enquanto que a última acentua a Trindade mas negligencia
o monoteísmo. Para evitar esses equívocos, deve-se procurar
como Deus se revela Uno e Trino na história da salvação. A
ortodoxia trinitária pode ser resumida em sete proposições:
A
comunhão das três Pessoas na Trindade leva à conclusão
de que o Deus cristão nunca é solitário, mas é
uma comunidade trinitária: ao pronunciar a Palavra, o Criador sopra
o Espírito vivificante (Gal 4, 6). Nas palavras de Boff, "por
causa da pericorese e da comunhão, tudo na Trindade é ternário.
Cada pessoa age em união com as outras, mesmo quando se trata de
ações próprias ou apropriadas, como a criação
por parte do Pai, a encarnação por parte do Filho e a "pneumatificação"
por parte do Espírito Santo. O Pai cria o Filho na inspiração
do Espírito Santo. O Filho se encarna, enviado pelo Pai na virtude
do Espírito santificador. O Espírito paira sobre Maria e
inunda a vida dos justos, enviado pelo Pai a pedido do Filho" (op.
cit., p. 16). Os
traços trinitários podem ser percebidos em cada homem ou
mulher. A pessoa é um grande mistério (como o Pai o é)
que conhece e comunica a sua própria verdade (como fez o Filho),
buscando a comunicação com outros (característica
do Espírito Santo). Crer
em Deus como Trindade, leva necessariamente o cristão a compreender
sua própria vocação à comunhão, ou
seja, a relacionar-se com o outro de igual para igual respeitando ao mesmo
tempo sua diferença. Mais ainda, por sua fé, o cristão
participa intimamente da essência divina (Jo 17, 21). A
compreensão de Deus como Trindade deve também ser confrontada
com a sociedade organizada pelos homens e mulheres: ela será conforme
os desígnios do Senhor quando for fraterna, aberta, justa e igualitária.
Será fonte e fruto do pecado, na medida em que se afastar destes
valores. Os cristãos devem comprometer-se na construção
de uma sociedade inspirada na participação, igualdade e
comunhão trinitárias. Leonardo Boff explicita assim esta
realidade: "o Pai está todo no Filho e no Espírito
Santo; o Filho está todo no Pai e no Espírito Santo; e o
Espírito Santo está todo no Pai e no Filho. Daqui derivamos
a utopia de igualdade, respeitadas as diferenças, da comunhão
plena das relações justas para a sociedade e a história"
(op. cit. p. 122). Aqui se encontra a origem e a própria essência
da Igreja: ser sacramento de vida e comunhão para a humanidade
até que o Reino seja pleno. 3.
Igreja - Comunidade de vida a serviço da vida. No
episódio descrito em Pentecostes (At 2, 1-4), os discípulos
de Jesus, através do Espírito, experimentam a Trindade que
reacende neles o ânimo que se havia esmorecido com Sua morte. È
luz dos últimos acontecimentos criam coragem e passam a anunciar
a Boa Nova do Deus da Vida que havia ressuscitado o Filho e doado o Espírito
Santo para acompanhar os crentes (At 2, 14-36). A Igreja nasce da fé
e da decisão dos apóstolos, impulsionados pelo Espírito
Santo, de ir ao mundo evangelizá-lo. O
cerne da fé e da pregação dos seguidores de Jesus
é a ressurreição: o mesmo Jesus que foi morto pelos
ímpios reviveu pelo poder de Deus (At 2, 23-24). São testemunhas
de que Israel matou o autor da Vida e que Deus o fez ressurgir dos mortos
(At 3, 15). A fé em Jesus os torna corajosos (At 4, 13.29), e faz
com que se empenhem em difundi-la: primeiro, aos judeus (At 5, 30-31.42;
6,4; 10, 40-41), e, depois, também aos pagãos (At 11, 12-18). Na
difusão da fé entre os pagãos, tem grande importância
a participação de Paulo, um judeu culto, que não
foi discípulo de Jesus, mas convertido após um período
de perseguição feroz ao cristianismo nascente (At 9, 1-20).
Nas epístolas que lhe são atribuídas, há inúmeras
referências à missão de anunciar o Deus da Vida (Rm
1, 1-4: 5, 10.17; 1 Cor 1, 17; 15, 1-9.20; 2 Cor 4, 10-12; Gal 1, 1; 2,
20; Ef 2, 4-6; Col 2, 12-13; 1 Ts 4, 13-14: 1 Tm 2, 5-7; 2 Tm 1, 10-11;
Tt 1, 1-3). Sua convicção da presença de Deus na
vida daquele que crê está expressa na carta aos Gálatas:
"Eu vivo. Mas não mais eu: Cristo é quem vive em mim.
A vida que presentemente eu vivo na carne, eu a vivo pela fé no
Filho de Deus, que me amou e se ofereceu por mim" (Gl 2, 20). Os
seguidores de Jesus devem aprender dele seu estilo de vida Jesus
não havia proposto uma vida fácil para aqueles que o seguissem.
O relato do envio dos Doze em missão é bastante significativo
(Mt 10, 5-42). Recomenda muito trabalho, sobriedade, pobreza, humildade.
Alerta que haverá perseguições e brigas, e ainda
exige grande dedicação. Além disso diz que para segui-lo
há que renunciar a si mesmo (Lc 9, 23) e aos familiares (Lc 9,
60.62) inclusive porque Ele não tem moradia assegurada (Mt 8, 20).
Não veio revogar a lei mas aperfeiçoá-la (Mt 5, 17). Jesus
reconhece como verdadeiro discípulo aquele que ouve suas palavras
e as pratica (Mt 7, 24). O primeiro deles será o que mais servir
(Mc 9, 35). Promete que sempre estará presente onde houver oração
comunitária (Mt 18, 20). Entretanto,
a mais simples e profunda descrição do estilo de vida que
Ele recomendou aos Seus seguidores, está descrita na passagem do
Juízo Final (Mt 25, 31-46), que deve ser compreendida mais como
proposta de vida do que como julgamento após a morte. O critério
de aceitação está na atenção dada às
necessidades dos pequeninos, "um dos menores desses irmãos"
quando estiver faminto , sedento, estrangeiro, nu, doente, preso. Atender
a alguém em uma destas necessidades é atender ao próprio
Cristo (Mt 25, 40). Só dá esta atenção quem
vive a fraternidade sob o signo da Trindade - esteja ou não consciente
disso. Os
critérios acima relacionados estão em consonância
com o relato de Lucas no início da vida pública de Jesus
(Lc 4, 17-21), onde Ele assume os princípios propostos por Isaías:
levar aos pobres a Boa Nova, proclamar aos prisioneiros a libertação,
recuperar a vista dos cegos, libertar os oprimidos e proclamar o ano da
graça do Senhor. A
Primeira comunidade, proposta de vida cristão Os
convertidos se reuniam para cultivar sua fé. Já desde seus
primórdios o cristianismo se organiza em comunidades. A descrição
da vida dos primeiros fiéis pretende ser motivação
para a perseverança dos demais (At 2, 42-47). Eles
permaneciam constantes no ensino dos apóstolos, na comunhão
fraterna, na eucaristia e nas orações (vers 42), tinham
tudo em comum (vers 44), repartindo tudo entre todos conforme a necessidade
de cada um (vers 45), freqüentavam diariamente o Templo, celebravam
a eucaristia nas suas casas (vers 46), louvavam o Senhor e eram estimados
pelo povo (vers 47). A
missão do povo de Deus e a luta pela Vida plena Na
medida em que o povo de Deus observa a história da salvação,
e percebe as inúmeras mensagens a favor da vida que o Senhor tem
enviado, a única atitude coerente a ser tomada é optar pela
vida, lutando contra tudo o que de alguma maneira veio ameaçá-la. O
respeito à vida (seja ou não humana) advém da concepção
de que ela é criação do Pai. A partir da encarnação
do Filho o ser humano é partícipe da divindade e como tal
sua vida merece respeito ainda maior. A encarnação dá-se
por obra do Espírito Santo no seio de uma moça pobre, consolidando
uma vez mais a preferência do Senhor pelos despossuídos.
A Trindade comunica que Deus criou os homens e mulheres para a vida que
deve tornar-se plena pelo amor. Crer
em Deus, para o cristão, significa buscar uma sociedade que viva
a comunhão de modo similar ao que ocorre na Trindade. Em outras
palavras: significa trabalhar pela implantação do Reino
de Deus, valorizando as situações de vida ("já
aqui") e lutando contra as situações de morte ("ainda
não") encontradas naquela sociedade. Nesta luta, a Igreja
oferece aos cristãos a ajuda dos sacramentos. Celebra-se
a vida nos sacramentos que revigoram a Vida No
transcorrer da vida de cada pessoa existem momentos cruciais em que as
forças da vida e da morte são mais visíveis. Nestas
ocasiões as pessoas costumam refletir sobre a própria vida,
assim como sobre a vida dos demais. Para o crente estes são momentos
propícios para testemunhar sua fé, para celebrar na comunidade
eclesial. O
primeiro deles é o próprio nascimento da criança,
ser indefeso e frágil, que depende dos outros para a sobrevivência
imediata. O batismo celebra a acolhida na comunidade desta nova vida,
dádiva de Deus (At 16, 33). A criança cresce e chega a outro
momento-chave de sua história, quando deixa a dependência
familiar absoluta, descobrindo sua liberdade. Amadurecida, quer encontrar
seu próprio caminho. O sacramento da confirmação
sedimenta sua fé e opção pela comunidade eclesial
(At 8, 16-17). Ao
se perguntar pela duração, pela solidez da comunidade entre
os homens e mulheres, a pessoa percebe que quando não se cultiva
a vida comunitária, corre-se o risco de cair, pela lei do menor
esforço, na desigualdade consentida, na despersonalização.
A eucaristia recorda, na celebração em torno da mesa de
refeição comum, que os fiéis devem trabalhar pela
construção da comunidade fraterna (1 Cor 11, 20-25). Contudo,
as forças da morte, pela desunião, podem crescer a ponto
da pessoa romper com a comunidade. Toda ruptura é dolorosa, e,
muitas vezes, não desejada. O sacramento da reconciliação
é uma resposta ao desejo de redenção, de retorno
à comunidade de vida (Lc 19, 8-10). Há
várias maneiras de se lutar contra as forças da morte presentes
no mundo. Entre as opções existentes, o crente encontra
a de dedicar sua vida ao serviço comunitário para a construção
da reconciliação, através do sacramento da ordem
(1 Cor 9, 1.19). A
decisão pelo casamento é um momento que incita a uma profunda
reflexão. Duas liberdades se encontram e desejam unir suas vidas
pelo amor mútuo. O sacramento do matrimônio explicita a presença
do Amor divino como força vivificante nesta honrou (Mt 19, 4-6). Os
sacramentos são sempre celebrados comunitariamente pois a Igreja
é uma comunidade de crentes (Rm 16, 5). Esta Igreja pode ser representada
como um corpo, cuja cabeça é o Cristo (1 Cor 12, 12-31),
templo do Deus vivo (1 Tm 3, 15) ou edifício, que tem em Jesus
sua pedra angular (Ef 2, 20-22). Na Esposa do Cristo (Ef 5, 23), depositam
sua esperança os vocacionados (Ef 4, 4), que, por suas atitudes,
devem demonstrar que são os escolhidos, amados pelo Senhor (Col
3, 12). Maria,
que foi a primeira a crer em Jesus (Lc 1, 38), é pessoa importante
na Igreja desde seus primórdios. Ela permanece em oração
com os apóstolos, mantendo a união com sua presença
feminina, maternal, estando com eles no nascimento da Igreja (At 1, 14). Maria,
mãe de Jesus, também dá vida à Igreja Entre
todos os cristãos chamados por Deus à luta pela vida, destaca-se
Maria. Já na descrição da encarnação,
Lucas mostra que Deus pode criar a vida aonde ela não é
possível aos olhos do mundo, ao ressaltar que o anjo é enviado
a uma Virgem (Lc 1, 27.34), dando-lhe como sinal do poder de Deus a gravidez
de uma senhora já idosa considerada estéril (Lc 1, 36-37). Os
Evangelhos trazem poucas referências a Maria permitindo, entretanto,
algumas conclusões. Ela é, naturalmente, a primeira pessoa
a crer (Lc 1, 38); está presente no início da vida pública
de Jesus (Jo 2, 1) tendo inclusive, ativa participação neste
importante momento (Jo 2, 5); está também presente no fim,
ao pé da cruz (Jo 19, 25); seu cântico de louvor - o Magnificat
- não é intimista mas relaciona-se com a história
da salvação de seu povo (Lc 1, 46-55); observa e acompanha
o desenvolvimento de Jesus com carinho, guardando tudo em seu coração
(Lc 2, 19.33.40.51). Todavia,
o texto mais rico e incisivo, ao mesmo tempo, é aquele em que Jesus
compara sua Mãe (e irmãos) àqueles que ouvem e praticam
a palavra de Deus (Lc 8, 19-21). Por um lado, Ele valoriza a mulher que
lhe trouxe à vida colocando em prática a palavra do Senhor,
sem alarido. Por outro lado, convida Seus seguidores a tomarem o exemplo
de Maria, estando atentos aos sinais do Deus da vida, e fazendo-se gerador
e guardião da vida, até que esta seja plena em Deus. O
Deus da Vida dá o sentido último á história O
dia 2 de novembro é tradicionalmente dedicado aos mortos. É
uma data propícia para recordar e celebrar a memória de
tantos mártires atuais, pessoas que foram mortas por sua luta pela
vida: Pe. João Bosco Burnier, D. Oscar Romero, Santo Dias, Pe.
Josimo, para citar apenas os mais famosos, pois sabe-se que são
muitos mais e, em sua maioria, pessoas simples que não recebem
cobertura jornalística na morte como não receberam em vida.
Esta é uma face da violência: aqueles que buscam mudar uma
situação de injustiça, são injustamente mortos. Lendo
a página policial de qualquer periódico, entra-se em contato
com a outra face. Pessoas que aparentemente não estão comprometidas
com uma mudança da situação, são colhidas
pela violência vigente perdendo a vida. Dois exemplos, ocorridos
no Rio de Janeiro na semana que terminou em 2 de novembro de 1986: dois
guardas de trânsito foram mortos quando iam socorrer um carro que
colidiu contra uma árvore, sem saber que no carro estavam assaltantes
em fuga; um médico de 35 anos morreu devido tiros dados pelas costas,
ao tentar fugir do próprio carro em movimento, quando estava sendo
seqüestrado, sem saber o motivo. São
duas faces da mesma moeda: a situação de injustiça
gera a morte e, quer se lute contra ela, quer não se lute, paga-se
com a vida. Esta situação ofende a Deus que criou homens
e mulheres para a vida plena. Frente
a esta situação de morte indiscriminada, o ser humano não
deve permanecer indiferente, mas lutar pela sua mudança, lutar
por uma sociedade de justiça onde floresça a vida. A
opção do Senhor pela vida é consagrada na ressurreição
de Jesus: palavra definitiva a favor da Vida. Em
Jesus a morte é vencida A
vida e a morte de Jesus de Nazaré são fatos históricos.
Sua ressurreição foi experimentada pelos primeiros cristãos
que nela encontram o cerne da Boa Nova. As elaborações teológicas,
conseqüentes àquelas vivências, reconheceram que Jesus
de Nazaré é o Cristo, o Messias, o Filho de Deus (Mt 16,
16). A
perspectiva cristã da vida imortal não exclui a morte do
ser humano enquanto ato da natureza em que ele vive. Já no livro
do Gênese se alerta que "és pó e ao pó
tornarás" (Gen 3, 19). Contudo, se, enquanto ato da natureza,
a morte é o fim total, Deus, que é Senhor da natureza e
da vida, tendo poder sobre ambas, é superior à morte. Todos
devem passar pela morte, mas esta não é a última
palavra sobre a vida humana. A derradeira palavra vem de Deus, que "não
é Deus dos mortos mas dos vivos; para Ele, então, todos
são vivos" (Lc 20, 38). A
morte além de ser um fato da natureza é também um
ato pessoal e social. Pessoal porque o indivíduo morre no instante
da morte como morreu (e também como viveu) ao longo da vida; o
ser humano é capaz de dispor de sua vida dando sentido à
própria morte. Social, porque as várias culturas recebem-na
de diferentes maneiras, com ritos próprios, que refletem na morte
de cada um de seus membros. Social, principalmente porque em sociedades
onde grassa a injustiça, o bem estar de alguns é alcançado
às custas da morte de tantos outros (Cf. J. B. Libânio e
M. C. L. Bingemer, "Escatologia cristã" Vozes, 1985). A
morte física dos homens e mulheres é semelhante à
dos animais, porém, quando é assumida na liberdade, se humaniza.
A dimensão cristã não nega o animal da morte e o
humano da liberdade, não lhe tira a dor e a angústia que
estiveram presentes inclusive na morte de Jesus (Mt 26, 38; 27, 46). A
novidade do cristianismo é que a morte foi vencida pela ressurreição
de Jesus (1 Cor 15, 54-57) e Seus seguidores devem lutar contra as forças
da morte buscando a instauração do Reino da vida. Cristão
é aquele que busca seguir Jesus Cristo em Sua vida, morte e ressurreição
através do amor ao próximo (1 Jo 3, 14) e da participação
eclesial na eucaristia (Jo 6, 51). Este seguimento pode exigir a doação
da própria vida (1 Jo 3, 16). A
ressurreição de Jesus aprofunda o conhecimento que o crente
tem de Deus. Antes de Jesus, Ele era conhecido como Criador (Gen 1, 1).
Jesus ensina a chamá-lo de Pai (Jo 16, 26-27). Agora o fiel compreende
que recebe a vida através de Jesus como sinal do amor de Deus (1
Jo 1, 8-9), que dá vida inclusive aos mortos (Rom 4, 17). A
ressurreição de Jesus não pretende ser única,
mas primícias dos que morreram (1 Cor 15, 20;Rom
8, 29; Col 1, 18; 1 Tes 4, 14; Apoc 1, 5). A
Vida é eterna Diz
o ditado popular: "vida, a gente só tem uma". É
a pura verdade. Não há uma outra vida. Há uma vida
que se inicia na concepção de uma criança que em
seu desenvolvimento pode optar por uma atitude egocêntrica ou por
uma abertura ao Outro. Deus
cria o ser humano para a vida de comunhão, amor, participação,
à imagem e semelhança da Trindade. Os homens e mulheres
não são criados dentro de um determinismo estático,
mas são criados para a liberdade, uma vez que Deus os dotou do
livre arbítrio. A vida não deve ser uma prisão, mas
um leque de possibilidades para a realização da pessoa e
da humanidade. Esta realização será plena, já
se disse, quando Deus for tudo em todos (1 Cor 15, 28). A
liberdade de escolha não é limitada, é real. A criatura
humana não é obrigada, mas convidada a construir sua vida
em direção a Deus (ao Outro) e realmente o faz cada vez
que age a favor da justiça e da vida de todos os homens e mulheres
(os outros). Entretanto, ela pode não fazer esta opção,
mas limitar o sentido de sua vida a um só referencial: a si própria.
Neste caso ela não estará somando esforços para a
construção do Reino da justiça, da vida, da participação.
Não ajudando a construir, obviamente, atrasa sua instauração. Viver
eternamente no inferno não é castigo de Deus nem é
resultado de um somatório puro e simples dos pecados. É
uma possibilidade que homens e mulheres podem construir para si por meio
das opções e omissões conscientes tomadas no dia-a-dia.
O inferno já é realidade sempre e onde houver egoísmo,
injustiças, opressões, falta de amor e de respeito à
vida. Aqueles que pautam suas vidas por tais atitudes, ou que compactuam
com elas, são candidatos a vivê-las em plenitude na eternidade.
Portanto, as ações realizadas no cotidiano revestem-se de
uma seriedade que dignifica a liberdade com que o ser humano foi criado
(Rom 2, 12-13). Contudo
estas ações diárias podem estar voltadas para a construção
de uma sociedade justa, igualitária, que conte com a participação
de todos os seus membros. Estas opções nunca são
geradas pelo egoísmo, mas são frutos da fraternidade, do
amor a Deus, que se concretiza na atuação a favor dos oprimidos,
empobrecidos, desprezados; em outras palavras, na luta pela instauração
do Reino da Vida, até que esta seja plena no universo. Aqueles
que participam desta luta, movidos pela fé, percebem a presença
de Deus mesmo nas menores conquistas, ou seja, reconhecem a realidade,
ainda parcial, do céu "já aqui". Mas sabem que
o céu "ainda não" acontece plenamente, enquanto
não vivem todos sob o signo do amor, da justiça, da vida.
Contudo, a opção fundamental pela vida conduz à vida
eterna. Então não haverá mais morte, luto, solidão
ou dor, pois se viverá eternamente na presença do Amado,
na comunhão dos santos (Apoc 21, 4). O
ser humano é eminentemente social. Portanto, todos os seus atos
e omissões têm repercussões sociais. Tais repercussões
sobrevivem inclusive à morte daquele que praticou determinada ação
e apresentam conotação negativa ou positiva, conforme produzam
o pecado e a morte ou a justiça e a vida. Todo ato humano participa
da história da humanidade, e, uma vez mais, esta certeza deve levar
a uma grande responsabilidade nas atitudes cotidianas. Homens
e mulheres foram criados à imagem e semelhança da Trindade
e almejam, no mais profundo de seu ser, a comunhão, a participação,
a igualdade que respeita a alteridade. A morte daqueles que lutaram por
estes valores durante a vida, trará sua culminância. Estarão
sempre na presença do Senhor da Vida, na comunhão com os
demais, participando do Amor eterno. Aquilo que já experimentaram
em parte, viverão em abrangência plena, de modo novo, na
glória. "O
olho não viu, o ouvido não escutou, nem o coração
humano imaginou tudo o que Deus preparou para aqueles que o amam"
(1 Cor 2, 9). Conclusão O
cristão reconhece a Deus como Trindade - Pai, Filho e Espírito
Santo: três Pessoas distintas que vivem em comunhão profunda.
Como criou o ser humano à sua imagem e semelhança, A
Trindade é modelo de vida pessoal e comunitária. Mais que
isto, é o protótipo da sociedade perfeita para a qual homens
e mulheres foram criados. Vive-se
hoje, na América Latina, em sociedades que apresentam tantos sinais
de morte que quase não se percebe que nelas continua pulsando a
vida. Ser cristão nestas sociedades deve significar, por um lado,
a denúncia e o repúdio ao pecado causador da morte e, por
outro, a luta pela justiça que é o outro nome do compromisso
com a vida em sua dimensão pessoal, familiar, eclesial, enfim,
de toda a sociedade. O
objetivo último deve ser a instauração do Reino da
justiça, do amor, da vida, da comunhão trinitária.
Em outras palavras, a inauguração do final dos tempos quando
"todas as coisas lhe estiveram submetidas, então também
o Filho se submeterá Àquele que lhe submeteu todas as coisas,
para que Deus seja tudo em todos". (1 Cor 15, 28). Esta opção pela plenitude da vida é descrita de forma belíssima, na música popular brasileira, pelo mais místico entre os compositores contemporâneos: Milton Nascimento, em parceria com Fernando Brant, na música "Comunhão" (disco "Ãnima", Ariola, 1982): sua
barriga me deu a mão
A vida é boa, me diz o pai
Todo amor será comunhão
Mulher e homem é o amor
Eu quero paz, eu não quero guerra
Quero o sonho, a fantasia
Sua barriga te deu a mãe
A vida é boa, te digo eu Este
Texto é a continuação do texto do mês de Fevereiro |