Pe. Jaldemir Vitório, SJ Pe. Vitório é Professor do Instituto Santo Inácio de Belo Horizonte, Casa de Estudos Filosóficos e Teológicos dos Jesuítas no Brasil. Além disto ele sempre se distinguiu por seu amor à pastoral nos meios populares. Pe. Vitório é biblista, formado pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Espiritualidade
Profética e Exercícios Espirituais - parte I É
patente a conexão dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio
(EE) com a tradição neotestamentária. Os EE podem
ser definidos como contemplação dos mistérios da
vida de Cristo. Ao longo de três das quatro semanas dos EE, o exercitante,
partindo do texto evangélico, contempla, faz repetições,
aplica os sentidos. Menos patente é a conexão dos EE com
a tradição vétero-testamentária. O texto dos
EE refere-se, explicitamente, ao Antigo Testamento apenas quando propõe
a meditação do "pecado de Adão e Eva" (EE
51). Sem dúvida, podemos considerar como devedoras da tradição
vétero-testamentária as inúmeras referências
a Deus como Criador (EE 5; 15; 38ts etc.), embora esta designação
seja também aplicada a Cristo (EE 53). Entretanto,
é possível estabelecer uma conexão dos EE, considerados
no seu conjunto, com a tradição vétero-testamentária,
discernindo nos seus meandros uma espiritualidade profética. Aí
se cristalizou um dos mais elevados e significativos modelos de experiência
de Deus de todo o Antigo Testamento. Tal espiritualidade inspirou uma
plêiade de homens e mulheres ao longo do antigo Testamento; inspirou
o próprio Jesus e, por conseqüência, influenciou também
Inácio. Por este caminho, podemos conectar a espiritualidade inaciana
como o rico veio de tradição espiritual que nos foi legada
pelos profetas. Elencaremos
alguns aspectos da espiritualidade profética e, em seguida, mostraremos
como, de uma ou outra forma, a espiritualidade dos EE comporta semelhantes
dimensões. Não pretendemos fazer de Inácio um devedor
direto dos profetas. Queremos sim correlacionar suas intuições
fundamentais. Nosso
objetivo não se limita a uma pura e simples confrontação
de textos do passado, com preocupação de ordem teológico-literária.
Em outras palavras, não nos interessa o passado pelo passado. Nossa
pretensão é correlacionar a vida do exercitante hodierno
com a proposta de Inácio, vista à luz da espiritualidade
profética, via Jesus Cristo. Olhando para o passado, nossa verdadeira
intenção é ajudar o exercitante a fincar o pé
no presente e no futuro. A
espiritualidade inaciana será atual e relevante na medida em que
formar cristãos testemunhas do Mistério Pascal neste Continente
latino-americano, estigmatizado pela opressão, pela injustiça,
pela violência, pela morte. Trata-se de ser sinal do Reino numa
sociedade sempre mais articulada segundo o anti-reino. Um cristão
capaz de tal testemunho será necessariamente um profeta. 1.
Uma experiência de ex-centricidade O
profeta vétero-testamentário é, por definição,
"homem de Deus" (1 Sm 2, 27; 9, 6; 1Rs 13, 1; 17, 18; 2Rs 4,
7; Dt 33, 1). Esta expressão descreve a estrutura existencial do
profeta descentrado de si mesmo, centrado totalmente em Deus. Vários
indícios apontam para o centramento total do profeta em Deus:
O
Deus, centro da vida do profeta, não é um Deus que o profeta
cria à sua imagem e semelhança. Seu Deus é o Deus
da fé do povo. É o Deus dos patriarcas (Is 51, 2); o Deus
que libertou o seu povo da escravidão do Egito (Mq 6, 4; Os 11,
1); o Deus da Aliança (Am 3, 2); o Deus que conduziu o povo na
longa marcha pelo deserto (Am 2, 10; Is 48, 21). O Deus dos profetas é
um Deus da história (Os 11; Am 1, 3-2, 16; Is 5, 1-7), não
uma idéia abstrata, um conceito. Todavia, não é um
Deus que se reduza à história. Ele é o totalmente
Outro, o três vezes Santo (Is 6, 3), o Criador (Am 4, 13; 5, 8;
9, 5-6) cujo nome é excelso (Is 12, 4). É um Deus cujo senhorio
é universal, não se limitando a Israel (Cf. Os oráculos
contra as nações). A transcendência divina não
é, pois, ofuscada pela íntima relação de Deus
com seu povo e sua história (Mq 6, 1-8). s
EE supõem do exercitante uma profunda e prévia experiência
pessoal de Deus e resultam na abertura total do exercitante para Deus.
Quem os faz, de certo modo, já deve ser "homem/mulher de Deus".
Eles não são exercícios para descobrir Deus, antes
para centrar a própria vida, sempre mais em Deus. Inácio
aconselha a não dar os EE completos "a quem é rude
ou de pouca resistência", pessoas "iletradas", "de
pouca disposição ou capacidade natural", pois não
teriam condições de "tirar proveito" (EE 18). O "proveito"
principal a ser tirado dos EE consiste, exatamente, no descentramento
do próprio eu, para centrar-se em Deus. Para atingir este objetivo,
o exercitante é instado a "tirar de si todas as afeições
desordenadas" (EE 1), e chegar "ao contrário daquilo
a que se vê mal inclinado" (EE 16). Ou seja, "libertar-se
de seu amor-próprio, vontade e interesse" (EE 189) e fazer-se
"pronto e diligente para cumprir Sua Santíssima vontade"
(EE 91). Este é o máximo de descentração de
si mesmo. A "oblação de maior valor e maior importância"
(EE 97), o pedir para ser aceito na bandeira de Cristo (EE 147), a indiferença
requerida na eleição (EE 168), o "Tomai, Senhor"
(EE 234) são factíveis sob a condição de o
exercitante ter sua vida, quanto possível centrada em Deus. A 5ª
anotação descreve as condições de possibilidade
da mudança de eixo da própria existência. Inácio
fala em entrar nos EE "com grande ânimo e liberalidade para
com seu Criador e Senhor, oferecendo-lhe todo o seu querer e liberdade,
para que a Divina Majestade, conforme sua vontade santíssima, se
sirva de sua pessoa e de tudo o que possui" (EE 5). Os projetos pessoais
serão, então, relativizados e o "serviço divino"
despontará no horizonte do exercitante como imperativo irrecusável
(EE 46; 97; 155). É um serviço sempre "maior"
(EE 183), impulsionado pelo "magis" (EE 9; 97; 168; 315). Como
se caracteriza este Deus, eixo da vida do exercitante? Ele é fundamentalmente
o Deus de Jesus Cristo. É também o Criador e Senhor (EE
5; 15 et passim) diante de quem nos sentimos criaturas (EE 23). Inácio
fala dos atributos divinos: sabedoria, onipotência ("sumo e
infinito poder"), justiça, bondade, piedade, misericórdia
(EE 59; 237). Tais atributos são comunicados aos homens ao mesmo
tempo em que Deus age em benefício dos homens - "Trazer à
memória... quanto tem feito Deus Nosso Senhor por mim e quanto
me tem dado do que possui" (EE 234) - através da criação
(EE 236). Deus habita "nas criaturas" e nos seres humanos de
quem faz "templo seu" (EE 235). A
história humana, como se vê, é toda envolvida por
Deus. É nele que o exercitante deve centrar sua vida, na mesma
linha da espiritualidade profética. 2.
A liberdade - indiferença diante das criaturas O
fato de centrar sua vida em Deus faz do profeta um homem livre, capaz
de tomar distância mesmo diante das tradições e instituições
mais sagradas do povo, na medida em que se tornam valor em si mesmas e
já não servem mais de estímulo para uma vida de fidelidade
ao Deus da Aliança. Amós
relativiza a tradição do privilégio da proteção
divina (eleição) em relação a Israel, apelando
para o fato de Deus ter também libertado outros povos (Am 9, 7)
e ironiza a crença na eleição daquela que se considera
"a primeira das nações" (Am 6, 1). Era ridículo
considerar-se privilegiado em relação aos outros povos quando
esta certeza não impedia o povo de viver na injustiça e
no pecado. Esta fé não era mais um caminho seguro para chegar
até Deus. O
profeta Miquéias escandalizou seus contemporâneos ao anunciar
a destruição do templo de Jerusalém (Mq 3, 12). A
pregação de Miquéias deve ter tido, para o povo,
um sabor de heresia. Se o próprio Deus escolhera este lugar para
ser sua habitação no meio do povo, como ele haveria de permitir
sua destruição? Jeremias fará idêntica pregação
(Jr 7, 1-12). Diferentemente de Miquéias, o profeta de Anatot sofreu
horrores por causa de suas palavras. Falou-se até de condená-lo
à morte (Jr 26, 8-9). Isaías
e Amós levantaram-se contra o culto reduzido que fora a mera exterioridade.
Um culto assim não podia ser agradável a Deus (Is 2, 10-17;
Am 5, 21-14). O Trito-Isaías denuncia uma certa prática
do jejum desconectada da misericórdia e da justiça (Is 58,
3-12). Os
EE pretendem também levar o exercitante a fazer uma experiência
de liberdade radical. Esta atitude interior é chamada de indiferença
- "... é necessário fazer-nos indiferentes" (EE
23). Não se trata de apatia, alienação, i-responsabilidade.
Ser indiferente, como define Inácio, "é desejar e escolher
somente o que mais nos conduz ao fim para que somos criados" (EE
23). Temos assim uma valoração das coisas a partir da meta
de nossa existência. De forma que, em relação a toda
e qualquer criatura, "o homem há de usar delas tanto quanto
o ajudam para seu fim, e há de desembaraçar-se delas tanto
quanto o impedem para o mesmo fim" (EE 23). Saúde ou doença,
riqueza ou pobreza, honra ou desonra, vida longa ou vida breve só
têm valor na medida em que "nos conduzem ao fim para que somos
criados" (EE 23). Esta criteriologia voltará na meditação
do reino (EE 98); na meditação das três classes de
homens (EE 155); na consideração sobre os três graus
de humildade (EE 167). Os
profetas nos ensinam o caminho da indiferença mesmo diante de valores
tidos e havidos como mediações certas do fim para o qual
fomos criados. Quando não são mais mediações
eficazes para se chegar até Deus, devem ser deixadas de lado. Caso
contrário, tornar-se-ão ídolos. A liberdade obtida
pelo exercitante, ao longo de sua experiência espiritual, será
idêntica à que os profetas alcançaram a partir de
sua experiência de Deus. 3.
Inserção na história do povo de Deus A história,
na sua dimensão espaço-temporal, é o "locus"
da excentricidade do profeta. O templo e o culto, tempo e espaço
considerados privilegiados do encontro com Deus, são irrelevantes
para o "homem de Deus". Deus revela sua verdadeira face nos
meandros da história humana. E, na escuta atenta e engajada da
história, o profeta chega a captá-la. E a história
não é compreendida apenas na sua dimensão sincrônica
(o que acontece aqui e agora), mas na sua dimensão diacrônica
(a história em toda sua extensão e significado). A chave
hermenêutica do presente está no passado (Aliança-Eleição);
atualizada no presente, ela se torna a mola propulsora do futuro. Estas
três dimensões do tempo estão estreitamente inter-relacionadas.
Uma não se explica sem a outra. Esta
inserção na história da salvação, não
se dá por força de um mero formalismo. Sem ela, não
compreenderíamos a experiência de Deus na vida do profeta.
Por outro lado, minimizando seu sentido, o testemunho de vida do profeta
perde toda sua transcendência. O
capítulo 11 de Oséias é um bom exemplo desta consciência
de inserção no dinamismo da história. Basta examinar
os tempos verbais, as referências geográficas, as metáforas
e a temática presentes neste capítulo para nos darmos conta
de que o profeta denuncia a infidelidade atual do povo, apelando para
o passado de amor fiel de Deus e de obstinação do povo,
em vista de trazer o povo à fidelidade. Esta consciência
do profeta não é fruto de reflexões abstratas. Sua
vida matrimonial desastrada (Os 1-3) serviu-lhe de metáfora para
compreender o sentido da história do seu povo, considerada na sua
globalidade. Is 5 é também uma expressão poético-metafórica
do conjunto da história do povo. O início da história
é comparado ao processo de preparação do solo para
o plantio de uma vinha. O correr da história identifica-se com
o tempo da paciente espera de que produza frutos. O momento atual corresponde
à destruição da vinha estéril. Ez 16, com
sua linguagem crua, é também uma leitura diacrônica
da história do povo de Israel. A descrição do destino
de uma criança abandonada logo ao nascer, que sobrevive pelo desvelo
de um transeunte e à atual ingratidão para com seu benfeitor,
expressa a consciência do profeta em relação à
história de Israel. Inácio,
nos EE, faz o exercitante, continuamente, mergulhar na história.
Isto se dá com a ajuda de quem propõe os EE - "A pessoa
que propõe à outra o modo e a ordem de meditar ou contemplar
deve narrar fielmente a história da respectiva contemplação
ou meditação" (EE 2; Cf. 102; 111 etc.). É preciso
entrar no "sentido da história" (EE 2) de maneira existencial
e não puramente intelectual-abstrata. Este mergulho na história
sagrada deve ser proveitoso para o exercitante - "Refletir sobre
mim mesmo para tirar algum proveito" (EE 114). A oração
em forma de "aplicação dos sentidos" (EE 121-125)
é, em última análise, um exercício de inserção
profunda na história de modo a fazer confluir o passado dos fatos
contemplados com o presente da vida do exercitante. Os
exercícios propostos na primeira semana correspondem à meditação
do pecado considerado numa perspectiva histórica. O "primeiro
pecado" foi o pecado dos anjos (EE 50), seguido pelo pecado de Adão
e Eva (EE 51) e o "terceiro pecado" que é o pecado da
humanidade e, por conseqüência, os pecados do próprio
exercitante - "... os que cometi (EE 52). A meditação
do pecado conclui-se com o colóquio com o Cristo Crucificado onde,
a consideração do percurso quenótico de Jesus Cristo
- "... de Criador, veio a fazer-se homem, da vida eterna chegou à
morte temporal e assim veio a morrer por meus pecados" - deve levar
o exercitante a reconsiderar o próprio percurso histórico
numa perspectiva cristológica, partindo de três questões
fundamentais - "... o que tenho feito por Cristo, o que faço
por Cristo e o que devo fazer por Cristo" (EE 53) A segunda,
terceira e quarta semanas dos EE caracterizam-se pelo confronto da história
do exercitante com a história de Jesus Cristo, cuja ressurreição
também é história (EE 219). Os pontos referentes
aos "mistérios da vida de Cristo Nosso Senhor" (EE 261-312)
são uma pedagogia de inserção paulatina na história
da salvação realizada por Jesus. Neste processo gradual,
o exercitante vai trilhando as veredas da imitação de Cristo,
num nível mais profundo do que um superficial "querer e desejar".
Os EE são efetivos somente na medida em que levam o exercitante
a fazer sua história pessoal encaixar-se na história de
Jesus Cristo. A
"contemplatio ad amorem" (EE 230-237) deve ser entendida também
nesta perspectiva de inserção na história. Isto aparece
já no segundo preâmbulo - "pedir gradativo conhecimento
interno de tantos bens recebidos, para que eu, reconhecendo-os inteiramente,
possa em tudo amar e servir à sua Divina Majestade" (EE 233).
O passado aparece em forma de retomada do que foi dom do Senhor ao longo
de toda a vida do exercitante (EE 234). O presente aparece em forma de
consciência do amor de Deus na vida do exercitante. O futuro aparece
como projeto de viver para, em tudo, amar e servir ao Senhor. O "suscipe"
(EE 234) é a entrega da própria história nas mãos
do Senhor no desejo de que seja ele seu articulador - "Disponde de
tudo inteiramente, segundo vossa vontade". Inácio,
contudo, não cai no erro crasso do individualismo. A história
pessoal do exercitante deve estar inserida num contexto eclesial. A instância
eclesial conecta a história do exercitante na trama da longa história
da salvação, da qual a Igreja tem como missão ser
sinal. Por isso, ao preparar-se para fazer eleição, o exercitante
deve estar seguro de que as "coisas" sobre as quais se faz eleição
"sintonizem com a Santa Móe, a Igreja hierárquica,
e que não sejam más nem opostas a ela" (EE 170). A
intuição original das "regras a observar para sentir
verdadeiramente, como se deve, na Igreja militante" (EE 352-370)
tem como pano de fundo a pertença à Igreja expressa, de
maneira lapidar, já na primeira regra (EE 353). "Para em tudo
acertar" (EE 365) é preciso estar atento ao que diz a Igreja.
Trata-se de não perder de vista que somos membros de um povo, com
uma face bem concreta, ao qual devemos ser fiéis se não
quisermos sair dos trilhos da história da salvação.
A permanência neste sulco salvífico insere-nos no mesmo dinamismo
histórico que abrange o tempo dos profetas bíblicos. 4.
Um olhar abrangente sobre o mundo Os
profetas de Israel, inseridos na tradição histórica
de seu povo, tinham as antenas ligadas para a conjuntura do mundo de então.
A política internacional não lhes passava despercebida.
Eles tinham consciência do jogo de forças entre as grandes
potências da época, desejosas de conquistar o poder hegemônico.
O discernimento da história da salvação, enquanto
concretizada na história do povo de Israel, supõe pensar
Israel no cenário amplo das nações. Em outras palavras,
o profeta tem o mundo diante de si. O
profeta Isaías é um exemplo de consciência política
internacional. Quando ele diz ao rei de Judá para confiar apenas
em Deus - "Se não crerdes não permanecereis" (Is
7, 9) - e não enfrentar os exércitos da Síria e da
Samaria que marcham contra Jerusalém, o profeta mostra uma sabedoria
teológica na qual, sem dúvida, está embutida uma
sabedoria política. Por outro lado, quando aconselha o rei a não
pedir socorro à Assíria, ele bem sabe que a Assíria
poderia vir em seu socorro, cobrando, porém, um preço muito
alto, com sérios riscos para a fé do povo. Amós conhece
muito bem a história dos povos vizinhos de Israel e a sorte que
lhes coube por causa de seus crimes. Por isso, está em condições
de alertar Israel sobre sua sorte, caso não mude de vida (Am 1,
3-2, 16). Naum sabe que a arrogância dos assírios está
para ter fim. O profeta preliba, então, a destruição
de Nínive, capital da Assíria, cujos exércitos destruíram
o Reino de Israel e deportaram sua população (Na 2, 2-3,
19). Jeremias sabe que é inútil enfrentar os babilônios.
Ele conhece sua fúria conquistadora (Jr 27). O Deutero-Isaías
chama Ciro, rei da Pérsia, de "pastor" (Is 44, 28) e
"ungido" (Is 45, 1) pois intuía que ele haveria de vencer
os babilônios e permitir ao povo voltar do cativeiro. Os
EE colocam o exercitante em contato direto com a realidade, abrindo-lhe
os horizontes. Inácio não se contenta com parte da realidade
apenas. O exercitante é instado a considerar o mundo da forma mais
abrangente possível. A
contemplação da encarnação (EE 101-109) é,
também, um exercício de encarnação plena na
realidade do mundo. O exercitante é convidado a contemplar "toda
a superfície plana ou curva do mundo" (EE 102) com os olhos
da Trindade, com os olhos de Deus. Trata-se de confrontar-se com a realidade
do mundo e dos homens, alargando o olhar o máximo possível
- "ver as pessoas... que estão sobre a face da terra, em tanta
variedade de trajes e de costumes: uns brancos, outros negros, estes em
paz, aqueles em guerra, uns chorando e outros rindo, com saúde
uns e enfermos outros, outros que morrem etc." (EE 106). Esta "primeira
contemplação" (EE 101) não visa apenas dar ao
exercitante uma consciência intelectual da realidade humana. Antes,
ela pretende lançá-lo existencialmente nas tramas da história,
de modo a fazê-lo compreender não apenas a encarnação
de Jesus, para "salvar o gênero humano" (EE 102; Cf. 107),
mas também para fazê-lo compreender que a salvação
do gênero humano hoje supõe o engajamento total (encarnação)
na realidade do homem e do mundo, de quantos "amam e seguem"
o Cristo que "por mim" se fez homem (EE 104). A
meditação de Duas Bandeiras também situa o exercitante
nas tramas complexas da história, vista na sua globalidade. Tanto
Lúcifer quanto Jesus Cristo enviam seus seguidores "por todo
mundo". Lúcifer ordena a seus demônios a "não
omitir nenhuma província, lugar, estado de vida ou pessoa em particular"
(EE 141). O exercitante não pode fazer vista grossa a esta realidade.
Jesus, por sua vez, que é "Senhor do mundo inteiro",
envia seus apóstolos e discípulos para "difundir sua
sagrada doutrina por todos os estados de vida e condições
de pessoas" (EE 145). Os
EE não são, pois, um instrumento de alienação
mas de incentivo à participação na construção
da história humana. Quem tende a fechar-se no seu próprio
mundo, ou reduzi-lo a horizontes estreitos não é apto para
os EE. Como os profetas, o exercitante deve ter sempre o mundo inteiro
diante de si. 5.
A consciência da vocação-missão Deus
conhece o profeta na sua intimidade e, ao chamá-lo, confia-lhe
uma missão. As circunstâncias da vocação são
as mais variadas. Isaías sente-se chamado durante uma liturgia
no templo (Is 6, 19). Amós é tomado de surpresa em pleno
trabalho (Am 7, 14-15). Jeremias é muito jovem, ainda uma "criança",
quando Deus o chama para ser seu profeta (Jr 1, 4-7). Ezequiel recebe
o chamado na qualidade de exilado na Babilônia (Ez 1, 1; 3, 16-21).
Embora variem as circunstâncias, em todas elas o profeta manifesta
sua abertura para Deus, cuja voz ouve e a cujo apelo responde positivamente. A
experiência de vocação comporta a experiência
de missão. Amós sente-se impelido à atividade profética
de maneira quase compulsiva - "Um leão rugiu, quem não
temerá? O Senhor Deus falou, quem não profetizará?"
(Am 3, 8). Jeremias, num momento difícil de seu ministério
profético, confessa ter sido "seduzido" por Deus quando
recebeu a missão de profetizar contra seu povo - "Tu me seduziste,
Senhor, e eu me deixei seduzir. Agarraste-me e me dominaste!" (Jr
20, 7). Os
EE levam o exercitante a fazer uma experiência de vocação-missão.
Na contemplação do Reino, o exercitante deve "pedir
a Nosso Senhor a graça de não ser surdo a seu chamamento"
(EE 91). A capacidade de ouvir corresponde ao "conhecimento interno
do Senhor" (EE 104), graça a ser alcançada na segunda
semana dos EE. A missão consiste em, com Cristo, "conquistar
o mundo todo e todos os inimigos..." (EE 95), distinguindo-se "no
serviço total de seu Rei eterno e Senhor universal" (EE 97),
seguindo, de perto, o caminho de Jesus - "quero e desejo, por determinação
deliberada imitar-vos... desde que isto seja para vosso maior serviço
e louvor" (EE 98). A
experiência de vocação reaparece na "meditação
de duas bandeiras" (EE 136-148) - "a história: será
aqui como Cristo chama e quer todos sob a sua bandeira" (EE 137).
Cristo "escolhe muitas pessoas" e "as envia por todo o
mundo" de modo a atingirem "todos os estados de vida e condições
de pessoas" (EE 145). Eles devem "ajudar a todos" (EE 146).
Como? Ensinando-lhes o caminho da pobreza, do menosprezo e da humildade
(EE 146). Inácio
tem consciência de que vocação-missão são
frutos da graça divina. É preciso pedir ao Senhor para "ser
recebido sob a sua bandeira" e que ele se digne "escolher e
receber" (EE 147). Ninguém entra na "bandeira" de
Cristo por iniciativa própria. A meditação de duas
bandeiras é tão importante que Inácio manda fazê-la
três vezes e repeti-la duas vezes (EE 148). Entretanto,
os EE referem-se também a uma experiência fundamental de
vocação-missão - "o homem é criado para"
- , impressa no coração de todo ser humano. Tal experiência
é expressa em termos de "louvor, reverência e serviço
a Deus" (EE 23). Estes três verbos descrevem a experiência
de descentramento de si mesmo e de centramento em Deus, único caminho
de salvação - "mediante isto salvar sua alma"
- "fim para o qual foi criado" (EE 23). Com isto, os EE possibilitam
ao exercitante fazer uma experiência de sabor tipicamente profético.
Vivendo em meio a uma humanidade que se afasta de Deus e busca sua própria
glorificação (autonomia); onde a idéia de serviço
aos demais parece já não dizer mais nada; quando a reverência
a Deus é trocada pelas criaturas transformadas em fetiches, ídolos...
então a atitude do exercitante caracterizar-se-á como profética.
Recusando toda sorte de idolatria, o exercitante, como os profetas, experimentará
o senhorio absoluto de Deus na sua vida. O
primeiro e o segundo tempo "em que se pode fazer só e boa
eleição" (EE 175; 176) podem também nos ajudar
a compreender a experiência vocacional dos profetas. As experiências
de Amós (Am 7, 15), Isaías (Is 6, 1-8) e Jeremias (Jr 1,
4-10; 20, 7) podem ser enquadradas no primeiro tempo, "aquele em
que Deus Nosso Senhor move e atrai a vontade de tal maneira, que, sem
duvidar, nem poder duvidar, tal alma devota segue o que se lhe mostra"
(EE 175). A vocação se dá como algo irresistível.
A experiência de Jeremias e de Oséias comportam elementos
do segundo tempo, "aquele em que se adquire muita clareza e conhecimento,
através da experiência de consolações e desolações,
bem como da experiência do discernimento dos vários espíritos"
(EE 176). Nas "lamentações" de Jeremias, confrontamo-nos
com o profeta em crise vocacional, agitado por muitos espíritos.
Jr 20, 7-18 fala-nos do profeta tendo a sensação de ter
sido "seduzido", ou seja, enganado por Deus, escarnecido, zombado,
caluniado, amaldiçoando o dia do seu nascimento, desejando ter
sido um natimorto. Todavia, o profeta sente também uma moção
contrária. Ele confessa no versículo 9 - "Quando pensava:
"Não me lembrarei mais dele (de Javé), já não
falarei seu nome", então sentia em meu coração
como um fogo devorador encerrado em meus ossos". Pelo fato de não
ter extinguido este "fogo devorador", moção do
espírito de Deus na vida do profeta, é que Jeremias, apesar
dos impulsos contrários, foi capaz de manter-se fiel à sua
vocação profética, mesmo quando levado à força
para o Egito (Jr 43, 4-7), onde seus traços se perdem. O profeta
Oséias foi discernindo sua vocação-missão
em meio a uma enorme crise matrimonial onde é movido a casar-se
com uma mulher dada à prostituição (Os 1, 2); da
qual se separa e leva às barras do tribunal, prometendo puni-la
severamente (Os 2, 4-15); com quem deve novamente refazer os vínculos
matrimoniais (Os 3, 1). Neste turbilhão de sentimentos desencontrados,
o profeta discerne sua vocação-missão. Este Texto faz parte da Revista Itaici nº 10 - Continua |