ESPIRITUALIDADE PROFÉTICA E
EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS


Pe. Jaldemir Vitório, SJ
Pe. Vitório é Professor do Instituto Santo Inácio de Belo Horizonte, Casa de Estudos Filosóficos e Teológicos dos Jesuítas no Brasil. Além disto ele sempre se distinguiu por seu amor à pastoral nos meios populares. Pe. Vitório é biblista, formado pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma.

Espiritualidade Profética e Exercícios Espirituais - parte II

6. A realidade do pecado

Totalmente centrado em Deus, o profeta é sensibilíssimo para a realidade do pecado. Enquanto o pecado se define como centrar-se em si mesmo e descentrar-se de Deus, será a antítese do projeto de vida do profeta. Isto possibilita ao profeta detectar o pecado, mesmo onde ninguém o percebe.

O pecado fundamental, na visão profética, consiste na idolatria, caracterizada como prostituição, adultério. Preterindo Javé em favor dos baalim cananeus, o povo acaba por escolher um falso eixo para centrar sua vida. Baal significa, etimologicamente, senhor, marido, proprietário. "Eles me abandonaram, a fonte de água viva, para cavar para si cisternas, cisternas furadas que não podem reter água" (Jr 2, 13), é a denúncia de Jeremias falando em nome de Deus. O povo abandonou o Deus da Aliança, com suas exigências éticas, para entregar-se à idolatria, abrindo brechas para a injustiça alastrar-se.

Oséias mostra a loucura do seu povo que, abandonando o verdadeiro senhor, põe-se ao encalço dos falsos "senhores" que acabarão por reduzi-lo à servidão (Cf. Os 11, 2). O profeta denuncia uma espécie de tendência inata do povo para a idolatria - "Como uvas no deserto, assim encontrei Israel; como um fruto em figueira nova, assim eu vi vossos pais. Porém, logo que chegaram a Baal-Fegor consagraram-se à Vergonha, tornando-se tão abomináveis como o objeto de seu amor" (Os 9, 10). Como se sabe, Baal-Fegor foi a primeira cidade encontrada pelo povo ao terminar a travessia do deserto. Assim, logo que teve oportunidade, o povo mostrou-se infiel (Nm 25, 1-5). Não foram poucos os ídolos que ocuparam o coração do povo de Deus. "Porque tão numerosos como tuas cidades são os teus deuses, ó Judá! Tão numerosas como as ruas de Jerusalém são os altares que erigistes à Vergonha, altares para oferecer incenso a Baal" (Jr 11, 13; Cf. 2, 28).

A idolatria é fonte de toda sorte de injustiças, imoralidades, violências, morte... "Não há fidelidade nem amor, nem conhecimento de Deus no país. Por isso, aumentam as maldições, as mentiras, os assassinatos, roubos e adultérios; os derramamentos de sangue se sucedem" (Os 4, 1-2). Este fato é facilmente explicável. Quando o ser humano afasta-se de Deus - ponto justo de referência do seu agir - e o substitui por referenciais idolátricos, as relações com o próximo ficam transtornadas, descambando para a injustiça. Uma situação gera a outra. Por conseguinte, atrás de toda situação de injustiça, existe uma situação de idolatria. Para superá-la é preciso voltar-se para o Deus verdadeiro que exige relação de justiça e misericórdia para com os irmãos (Am 5, 24; Mq 6, 8; Cf. Mt 23, 23).

Os exercícios da primeira semana (EE 45-72) colocam, de cheio, o exercitante em confronto com a realidade do pecado, em forma de contraponto do amor de Deus descoberto no Princípio e Fundamento. O indivíduo pede que "todas as minhas intenções, ações e operações sejam ordenadas puramente ao serviço e louvor de sua Divina Majestade" (EE 46). Contudo, sabe-se marcado pela realidade do pecado que distorce a finalidade de suas ações, fazendo com que sejam ordenadas ao serviço e louvor da criatura e não do Criador. Isto outra coisa não é senão idolatria.

Inácio evoca a história, marcada pelo pecado, desde o pecado dos anjos (EE 50), passando pelo pecado de Adão e Eva (EE 51), até o pecado que perpassa a humanidade (EE 52) - o nosso pecado. O pecado faz sobrevir a corrupção sobre o gênero humano (EE 51), que se levanta "contra seu Criador e Senhor" (EE 52). O exercitante é instado a considerar "a fealdade e a malícia que contém em si cada pecado mortal cometido" (EE 57). Trata-se de adquirir a mesma consciência aguda de pecado dos profetas.

Fazer os EE, hoje, significará adentrar-se na realidade do pecado não só pessoal, mas principalmente os pecados que afetam as estruturas sociais. A situação de injustiça institucionalizada, com todas as suas seqüelas de fome, morte, miséria, promiscuidade, degradação, marginalização social... deverá, necessariamente, despontar no horizonte do exercitante. Os EE deveriam levá-lo a responder aos desafios colocados pela situação generalizada de pecado.

O profeta não estava interessado apenas em denunciar o pecado do povo. Interessava-lhe, sim, a conversão. "Convertei-vos e vivereis", proclama Ezequiel (18, 32; Cf. Is 1, 16. 18-19; Os 14, 2-3; Jl 2, 12-17; Zc 1, 3). O profeta Jonas é, neste sentido, uma espécie de anti-profeta. Ele se entristece porque Nínive converteu-se, sensibilizada por sua pregação. É preciso que Deus advirta-o severamente (In 4).

Os EE querem levar o exercitante à conversão. A consciência do pecado é inútil se leva apenas ao arrependimento, ao complexo de culpa, à pura "vergonha e confusão de si mesmo" (EE 48). As meditações do pecado querem infundir no exercitante uma atitude positiva, expressa no colóquio diante do Cristo crucificado (EE 53). Reconhecendo-se pecador, o exercitante deve perguntar-se diante de Jesus pendente da cruz - "o que tenho feito por Cristo, o que faço por Cristo e o que devo fazer por Cristo?". Não se trata de três questões retóricas, mas de três questões existenciais cuja resposta evidenciará o grau maior ou menor de conversão a Deus. O mesmo acontece no colóquio de misericórdia (EE 61). Embora reconhecendo-se pecador, o exercitante é levado a agradecer a Deus pelo dom da vida, conservada até o presente, possibilitando-lhe converter-se no futuro - "fazer o propósito de com sua graça emendar-me para o futuro" (EE 61).

Entretanto não basta a conversão pessoal. É preciso lançar-se na obra da conversão das estruturas sociais marcadas pelo pecado. É a isto que nos lança a "meditação das duas bandeiras" (EE 136-148).

7. O castigo como pedagogia divina

As severas palavras dos profetas nem sempre ressoaram eficazmente no coração do povo. Daí o anúncio dos castigos divinos. O castigo, porém, não é um fim em si mesmo. Ele tem um caráter pedagógico. Deus pretende, com ele, fazer seu povo voltar a ser fiel à aliança (Os 14, 2-9). O castigo não é, de forma alguma, um descarregar o mau-humor divino contra a humanidade. A Deus não interessa a morte do pecador, ao contrário, deseja que se converta. Acaso tenho o prazer na morte do ímpio? Não desejo, antes, que mude de conduta e viva?... Pois não sinto prazer na morte de ninguém que morre. Convertei-vos e vivereis" (Ez 18, 23. 32; Cf. 33, 11; Lc 15, 7.10.32).

A literatura profética comporta terríveis anúncios de castigo. Amós proclama a destruição do povo, fadado a ser reduzido a um pequeno resto (Am 3, 12); as mulheres ricas haveriam de sofrer a humilhação do exílio (Am 4, 1-3); o mesmo destino teria a liderança do povo (Am 6, 1-8). Miquéias também anuncia o exílio (Mq 1, 16) e a destruição de Jerusalém (Mq 3, 12). Oséias anuncia terríveis castigos para a classe sacerdotal (Os 4, 4-10). Jeremias não tem dúvida de que o pecado traz no seu bojo a destruição (Jr 7). Isaías condiciona a sobrevivência à fidelidade a Deus; caso contrário, é ruína na certa (Is 7, 9).

O castigo, entretanto, não acontece na forma de intervenção extraordinária de Deus na história. Antes, ele se dá na forma de acontecimentos históricos lidos como instrumentos da ação punitiva de Deus. O exílio babilônico foi considerado nesta perspectiva (Jr 16, 10-13; Ez 12, 1-20). Nabucodonosor é chamado de "meu servo" (Jr 25, 9) para recordar que sua ação contra Jerusalém e contra o povo não se dava à revelia de Deus.

As meditações sobre o pecado, nos EE, colocam o exercitante diante do castigo divino como um fato. Os anjos "foram para o inferno" (EE 50); Adão e Eva foram fadados a viver "durante toda a sua vida em muitos sofrimentos e muitas penitências" (EE 51) por terem pecado; os que cometeram pecado mortal "foram para o inferno", sofrendo a condenação eterna (EE 52). A meditação do castigo sofrido por tantos que, "não querendo servir-se de sua liberdade para prestar reverência e obediência a seu Criador e Senhor" (EE 50), seguiram seus próprios caminhos deve servir de alerta para o exercitante. Para Inácio, se o "temor filial" não é suficiente para o indivíduo voltar-se para Deus, sê-lo-á o "temor servil" (EE 370). O capítulo 11 de Oséias comporta esta mudança de pedagogia. Nos vv. 2-4, fala-se de Deus tentando atrair seu povo "com laços de amor"; como isto não deu resultados, Deus o compele a voltar rugindo como um leão (v. 11).

Inácio manda o exercitante "pedir vergonha e confusão de mim mesmo vendo quantos foram condenados por um só pecado mortal e quantas vezes eu merecia ser condenado para sempre por meus numerosos pecados" (EE 48); ou então, "pedir sentimento interior da pena que padecem os condenados, a fim de que, se, por minhas faltas, vier a esquecer o amor do Senhor eterno, ao menos o temor das penas me ajude a não cair em pecado" (EE 65).

Nos EE, assim como nos profetas, o castigo não é um fim em si mesmo. Em ambos os casos, ele visa fazer com que o pecador reencontre o caminho da fidelidade a Deus.

8. O projeto histórico de Deus

A pregação profética comporta uma concepção de sociedade articulada em torno do direito, da justiça, da misericórdia e da fidelidade (Mq 6, 8; Is 1, 17; 11, 5; Os 6, 6; Jr 9, 23 etc.). Este projeto alicerça-se na experiência do Deus da Aliança. O respeito ao pacto afirmado entre Deus e seu povo haveria de expressar-se através de uma rede de relações sociais equilibradas, onde os mais fracos (pobres, órfãos, viúvas e estrangeiros) fossem objeto da proteção do rei e da sociedade (Is 1, 17); Jr 5, 28; 22,3; Br 6, 37; Mq 3, 1-3 etc.). As relações interpessoais são a mediação da relação com Deus. Se estas vão mal, é inútil pensar que as relações com Deus vão bem. O profeta Miquéias denuncia esta dicotomia. Os chefes e os magistrados de sua época cometiam injustiças, deixavam-se subornar, eram venais e, apesar disso, queriam contar com o apoio de Deus (Mq 3, 9-12). Jeremias, de maneira sintética, define o projeto de Deus para seu povo - "Se realmente melhorardes vossa conduta e vosso modo de agir, se praticardes o direito um para com o outro, se não oprimirdes o estrangeiro, o órfão e a viúva, não derramardes sangue inocente neste lugar e não correrdes atrás dos deuses estrangeiros para a vossa desgraça..." (Jr 7, 5-6). Algo semelhante encontramos em Is 58, 6-7; 61, 1-3; Ez 18, 5-9 etc..

Os EE comportam também um projeto histórico perfeitamente aderente à dinâmica do Reino anunciado e vivido por Jesus Cristo. Este projeto tem dimensões universais - "... minha vontade é conquistar o mundo todo e todos os inimigos" (EE 95). Para lançar-se na construção deste projeto é preciso agir " contra a própria sensualidade e contra o amor carnal e mundano" (EE 97), imitando Jesus no seu modo de ser (EE 97).

A meditação de Duas Bandeiras coloca, em forma de díptico, os eixos do projeto histórico pregado por Jesus Cristo, em contraposição aos valores do projeto de Lúcifer. Trata-se, em última análise, da explicitação dos alicerces sobre os quais a sociedade deve ser construída - "1º pobreza em oposição à riqueza; 2º opróbrio ou menosprezo em oposição à honra mundana; 3º humildade em oposição à soberba" (EE 147). Evangelicamente, Inácio entrevê um mundo onde a vida humana não gire em torno do ídolo do ter, do acumular, mas sim do repartir, do partilhar; não gire em torno do ser, que busca a fama, o reconhecimento, o aplauso, mas sim da convivência fraterna, igualitária, gratuita; não gire em torno do poder, onde o indivíduo pretende colocar-se no lugar de Deus, mas sim do humilde reconhecimento do verdadeiro lugar do ser humano diante do seu Criador e Senhor, com a conseqüente repercussão nas relações com o próximo. Uma sociedade assim será, a fortiori, uma sociedade onde reina a justiça, a misericórdia, o direito, a fidelidade, como intuíam os profetas. Uma sociedade "desidolizada". Uma sociedade onde só Deus é o Senhor (Sl 143, 15).

A consideração sobre os "três modos de humildade" (EE 164-168) será uma explicitação dos degraus a serem galgados neste processo de busca da vivência do projeto de Deus na nossa vida. O terceiro modo - "humildade perfeitíssima" - consiste, exatamente, em "imitar e assemelhar-se" de maneira afetiva a Jesus Cristo, de modo a relacionar-se com Deus e com os irmãos como ele o fez. As três classes de homens (EE 149-157) podem ser entendidas como três posturas concretas diante da execução do projeto divino. O exercitante vê-se a assumir a terceira postura onde seu querer coincide com o querer de Deus.

9. Discernimento dos espíritos - discernimento da história

Os profetas foram homens de percepção extremamente aguçada em relação aos fatos e acontecimentos de sua época. Eles eram capazes de enxergar o que, às outras pessoas, passava despercebido. Tomemos o profeta Amós. Ele viveu num período de grande prosperidade econômica. Multiplicavam-se as grandes construções luxuosas (Am 3, 15; 6, 4); o comércio era intenso (Am 8, 4-6); as liturgias eram faustosas (Am 4, 4-5; 5, 21-23). Esta opulência era vista, por muitos, como sinal da bênção divina (Jó 1-1.42, 10-17). O profeta, porém, não pensava assim. Tanto bem-estar escondia um sem número de injustiças, opressão, exploração, falsidade, venalidade, mentira... Era uma sociedade construída sobre bases falsas, embora sua liderança não desse conta disto.

Discernindo a história a partir do projeto de Deus, o profeta põe-se a proclamar o castigo que desponta no horizonte (Am 2, 6-16; 3, 12; 4, 2-3; 5, 27; 6, 8-14; 7, 11 etc.). O chamado "dia do Senhor", esperado como dia de glória e esplendor estava fadado a transformar-se em "dia de trevas e não de luz" (Am 5, 20; 8, 9). Amós deve ter-se transformado numa figura estranha, esdrúxula, uma espécie de "desmancha prazeres". Contudo, a história deu-lhe razão. Seu discernimento estava correto. O profeta discerniu o mau espírito presente nas ações da classe dirigente do país.

Jeremias viu-se colocado numa situação ainda mais dramática. O povo tinha sofrido um primeiro exílio. Em Judá, a situação política estava se deteriorando cada vez mais. O rei imposto pelos babilônios (2Rs 24, 17) era incompetente para determinar o rumo dos fatos. As facções pró-Egito e pró-Babilônia digladiavam-se. Havia quem predissesse a brevidade do exílio e que, logo logo, Deus traria seu povo de volta, juntamente com o rei exilado e o reino de Judá seria restaurado (Jr 28, 2-4). Era a esperança de um novo êxodo. Jeremias, porém, discernindo a situação, prega exatamente o contrário. O rei deve "submeter o pescoço ao jugo do rei da Babilônia" (Jr 27, 12-15); o que restou do templo de Jerusalém seria levado também para a Babilônia (Jr 27, 16-22); os que ficaram na terra estavam fadados a serem exilados (Jr 28, 14); os exilados deveriam contar com um exílio bastante longo (Jr 29). Ao povo, restava não dar ouvidos "aos profetas, adivinhos, sonhadores, encantadores e mágicos" (Jr 27, 9) que o enganavam.

Em quem acreditar, já que tanto Jeremias quanto seus adversários pretendiam estar falando em nome de Deus? O profeta chega a oferecer um critério de discernimento (Jr 28, 5-9). O cumprimento da missão profética exigia do homem de Deus um exercício continuado de discernimento dos espíritos. A equivocidade dos fatos históricos desafiava a quem pretendia proclamar uma palavra orientadora de Deus para o povo. Engana-se quem pensa Deus agindo na vida do profeta, levando-o por meio da pura passividade ao conhecimento das tramas da história e o respectivo juízo divino. Não. Só quando o profeta põe-se a auscultar, ativamente, a história, torna-se capaz de discernir o que vem e o que não vem de Deus. E, por conseguinte, está em condições de proclamar a autêntica "Palavra de Javé".

Os EE são uma escola de discernimento. Quem dá os EE tem como tarefa ajudar o exercitante no processo de descoberta da vontade de Deus, através do caminho do discernimento. Para tanto, Inácio elenca uma série de regras bem precisas (EE 313-336), de modo que o exercitante não se engane na sua "eleição" (EE 175-189). O discernimento é necessário dada a ambigüidade da história. Inácio expressa esta ambigüidade falando de "anjo mau" disfarçado em "anjo de luz" (EE 332). Diz-se, na linguagem popular, que as aparências enganam. A pregação dos falsos profetas, no tempo de Jeremias, tinha tudo para ser credível: apelava para a vontade divina; fundava-se na tradição teológica do povo; correspondia aos anseios de todos; era carregada de esperança. No entanto, era falsa. O homem de discernimento é capaz de "reconhecer a cauda serpentina" escondida atrás de certos fatos, estando atento para o fim ao qual eles induzem (EE 334). Aplicado à situação de Amós, se a riqueza acumulada levou à exploração e ao empobrecimento dos mais humildes, é sinal de que este processo não teve lugar para Deus (Am 2, 6; 8, 4.6). Só alguém provado no discernimento é capaz de "guardar-se de costumeiros enganos" do "inimigo da natureza humana" (EE 334).

A história humana complexifica-se sempre mais. A espiritualidade que brota dos exercícios capacita o
indivíduo para estar em contínuo estado de discernimento, de modo a não se deixar levar pela roda-viva da história. Tal discernimento não se faz em função de teorias e abstrações. Ele tem como objetivo práticas concretas. O "buscar e encontrar a vontade de Deus" (EE 1), finalidade precípua dos EE, diz respeito a um projeto de vida. Somente numa caminhada de discernimento, feita às apalpadelas, torna-se possível vislumbrar um projeto de vida correspondente à vontade de Deus. A conhecida tríplice questão levantada por Inácio, na meditação do pecado - " o que tenho feito por Cristo, o que faço por Cristo e o que devo fazer por Cristo?" - tem objetivos eminentemente práticos. E a resposta só será possível como fruto de um longo processo de discernimento.

10. Cristo, o Servo de Javé

O Deutero-Isaías, profeta do exílio babilônico (século VI a.C.), refere-se, em quatro poemas, a um personagem misterioso referido como "Servo de Javé" (Is 42, 1-7; 49, 1-9; 50, 4-9; 52, 13-53, 12). O quarto poema (Is 52, 13-53, 12) descreve o sofrimento e a exaltação do Servo. O tema da glorificação, presente no início (Is 52, 13) e no fim do poema (Is 53, 11-12), serve de moldura para o conjunto. O corpo do poema fala do aspecto repelente do Servo desfigurado (Is 52, 14; 53, 2), do desprezo sofrido (Is 53, 3), de sua morte cruel (Is 53, 5) fruto de um julgamento iníquo (Is 53, 8) e de seu sepultamento desonroso (Is 53, 9). Um tema, porém, perpassa todo o poema. É o tema do caráter vicário do sofrimento e da morte do Servo - "Ele carregou as nossas enfermidades e tomou sobre si as nossas dores" (Is 53, 4); "foi transpassado por causa de nossas rebeldias e esmagado por causa dos nossos crimes" (Is 53, 5); "a iniquidade de todos nós caiu sobre ele" (Is 53, 6); ele "justificará a muitos e tomará sobre si as suas iniqüidades" (Is 53, 11); ele "carregou o pecado de muitos e interveio em favor dos rebeldes" (Is 53, 12). O sofrimento do servo redunda, pois, em benefício para a humanidade. É um sacrifício profundamente libertador.

A exegese não chegou, até hoje, a um acordo a respeito de quem o Deutero-Isaías está falando. Alguns exegetas identificam-no com Jeremias. De fato, os poemas do Servo de Javé poderiam, muito bem, ser uma reinterpretação da vida do profeta quando a história tinha-lhe dado razão. Numa das chamadas "Confissões de Jeremias", encontramos um texto aparentado com o texto do Deutero-Isaías. "Mas eu, como um cordeiro manso levado ao matadouro, não sabia que eles tramavam planos contra mim: "Destruamos a árvore em pleno vigor, arranquemo-la da terra dos vivos, que seu nome não seja mais lembrado!" (Jr 11, 19; Cf. Jr 20, 10-12; Is 53, 7).

Os poemas do profeta exílico serviram de chave para os primeiros cristãos interpretarem a morte e a ressurreição de Jesus. A teologia vétero-testamentária do Servo de Javé funciona como pano de fundo do texto evangélico.

O Jesus dos EE, na medida em que reflete o Jesus dos Evangelhos, traz em si as características do Servo de Javé. É um Jesus que "suporta todas as injúrias e toda a ignomínia e toda a pobreza" (EE 98). Ele nasce em "extrema pobreza" e enfrenta "trabalhos, fome, sede, calor, frio, injúrias, afrontas", acabando por "morrer na cruz" (EE 116). É um Jesus que escolhe o caminho da pobreza, do menosprezo e da humildade (EE 147). Foi coberto de opróbrios, tido como néscio e louco (EE 167). Nele "a divindade se esconde", de modo que "deixa padecer tão crudelissimamente, a sacratíssima humanidade" (EE 196). Este é o Cristo contemplado na terceira semana dos EE.

Inácio insiste na perspectiva vicária sob a qual a paixão de Jesus deve ser considerada. O exercitante toma consciência de que tudo aconteceu " por meus pecados" (EE 193; 197; 203); perguntando-se "o que devo fazer e padecer por Ele" (EE 197).

O exercitante por outro lado, deve crescer no desejo de imitar a Jesus assim considerado - "quero e desejo... imitar-vos" (EE 98; Cf. 147; 167); "mais o imitar e servir" (EE 168). Tal imitação é a expressão real do "amor e seguimento pedido como graça ao longo da segunda semana (EE 104).

Na quarta semana dos EE, o exercitante é confrontado com o Cristo glorioso, cuja ressurreição é conhecida "pelos seus verdadeiros e santíssimos efeitos" (EE 223). O Ressuscitado desempenha seu "papel de consolador" (EE 224) e causa na alma do exercitante "prazer, alegria e gozo espiritual" (EE 229). O mesmo Jesus que sofrera a morte ignominiosa é agora o Ressuscitado.

Os EE propõem, pois, o caminho do seguimento do profético Jesus Cristo Servo de Javé na sua dupla vertente de sofrimento e glorificação.

CONCLUSÃO

Os EE, na simplicidade de sua formulação, podem se constituir numa autêntica escola de profetas. Alguém pode objetar não existir escola de profetas e aduzir o fato de que ninguém aprende a ser profeta em escolas. Entretanto, nossa afirmação é verdadeira. Os EE são uma escola de profetas! Neles, o próprio Espírito Santo vem "iluminar a inteligência pela virtude divina" (EE 2). É ele quem "governa e dirige" (EE 365) o exercitante, para que "tire de si todas as afeições desordenadas... procure e encontre a vontade divina" (EE 1), deixando que "o Criador e Senhor atue mais seguramente em sua criatura" (EE 16). Quem propõe os EE deve agir de tal modo a não perturbar a didática e a pedagogia do Espírito (EE 2). Sua função não é incutir no exercitante suas convicções pessoais. Mas sim ajudá-lo a predispor-se, do melhor modo possível, para deixar-se guiar pelo Espírito. Trata-se de ajudar o exercitante a fazer-se indiferente (EE 23) de modo a ser conduzido pelo Espírito, como acontecia na experiência profética (Mq 3, 8). O Senhor continua hoje a suscitar profetas no meio de seu povo (Dt 18, 15.18), concedendo-lhes o seu Espírito (Nm 11, 29). Os EE podem ser uma experiência privilegiada do Senhor que, tanto ontem quanto hoje, concedendo seu Espírito, suscita sempre novos profetas.