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VOCÊS SÃO A LUZ DO MUNDO Extraído de um discurso para jovens em 1940. Alberto
Hurtado S.J. Queridos amigos.
Esta cena lembra outra, acontecida há quase dois mil anos, também sobre um monte, ao cair a escuridão da noite. Lá no alto, Jesus e seus apóstolos, cercados de grande multidão e, lá em baixo, regiões inteiras mergulhadas nas trevas da obscura noite do espírito. E Jesus, profundamente tocado pelo pavoroso espetáculo de tanta gente sem luz, diz aos seus apóstolos: "Sejam vocês a luz do mundo! Vocês ficam encarregados de iluminar a noite das almas, de uni-las, de dar calor, e fazer deste calor vida, vida nova, vida pura, vida eterna".
Ali,
a nossos pés, jaz uma enorme multidão que não
conhece a Cristo, que foi educada, anos e anos, sem ouvir o nome de
Deus, nem o santo Nome de Jesus. Este é o chamado ardoroso que o Mestre dirige aos jovens de hoje. Ah! Se tomassem a decisão! Ainda que fossem poucos! Um pequeno número de operários inteligentes e decididos poderia influir na salvação de nosso país. Mas como é difícil, em alguns lugares, encontrar ainda que seja um pequeno número? Os outros se deixam ficar nos seus prazeres, em seus negócios. Mudar de vida, consagrá-la ao trabalho de salvação de todos, nem se pode, nem se quer. Mas vocês, meus queridos jovens, responderam a Cristo que querem ser estes escolhidos. Querem ser apóstolos. Ser apóstolos não significa levar uma insígnia, nem um símbolo na jaqueta, nem mesmo falar a verdade. Significa viver a verdade, encarnar-se nela, converter-se - se podemos falar assim - em Cristo. Ser apóstolo não é levar uma tocha na mão, possuir a luz, mas ser a luz. Ser embaixador da luz nestas profundezas - como disse Paul Claudel numa de suas cartas - iluminando como Cristo, que é a Luz que ilumina todo aquele que vem a este mundo.
(...) Ser apóstolo significa para vocês, jovens queridos, viver seu batismo, viver a vida divina, converter-se em Cristo, dar prosseguimento à sua obra, irradiar na própria vida a vida de Cristo. Esta idéia um jovem como vocês expressou numa bela oração: "Quero que, quando me vejam, Jesus, eles te reconheçam!" A um aprendiz, cristão, um padre perguntou: "Teus companheiros conhecem o Evangelho?" Respondeu: "Não, não conhecem". O capelão insistiu: "E a Jesus Cristo?". O rapaz respondeu: "Não, não conhecem". "E ao Papa?" "Também não". "E o bispo, o Pároco?" "Também não". "Pois bem, cabe a você que seus companheiros de trabalho conheçam estas pessoas. Que, vendo você, eles compreendam este cristianismo desconhecido. A você toca irradiar o Evangelho. Que eles vendo você, descubram Jesus". (...) Claudel nos pergunta: "Vocês, que viram a luz, o que fizeram da luz?" Uma vida integralmente cristã, queridos jovens, é a única maneira de irradiar Cristo, de ser como o Precursor, João Batista: "luz que brilha nas trevas". O cristianismo mais do que uma doutrina é uma vida, uma atitude total do ser humano. O cristianismo ou é uma vida inteira de doação, uma mudança total em Cristo, ou é uma ridícula paródia que move ao riso e ao desprezo. O cristianismo é a prolongação da obra de Cristo, crucificado por nosso amor. Portanto, não pode ser apóstolo o que, pelo menos em alguns momentos não esteja crucificado com Cristo. Nada farão os que tudo fazem consistir no apostolado, na ação, numa competição de palavras, de propaganda, encontros, manifestações grandiosas... Ficam bem atos como estes que comemoramos, mas eles não são a apoteose da obra, mas o começo, um momento de nos entusiasmarmos, de nos animarmos mutuamente para seguir Cristo, mesmo nas duras horas de sua Paixão, subindo com Ele à Cruz. Antes de Cristo enviar seus apóstolos à conquista do mundo, perguntou-lhes: "Vocês podem tomar parte nos meus sofrimentos?" Responderam: "Podemos!" Só depois desta resposta, Cristo lhes confiou a missão de salvar-nos.
Senhor, se desta multidão que se reúne a teus pés, surgisse em alguns a chama de um desejo generoso e alguns deles dissessem com verdade: "Senhor, toma e recebe toda a minha liberdade, minha memória, meu entendimento, toda a minha vontade, tudo o que tenho e possuo e sou, tudo entrego inteiramente a ti, para trabalhar por ti, para irradiar tua vida, contente de não ter outra recompensa que te servir e consumir-me como estas tochas que se vão apagando em nossas mãos", então se renovariam as maravilhas que agora mesmo realiza Cristo por meio destes jovens de coração ardente, se se decidissem a revestir-se de Cristo, a sacrificar-se por Cristo para, em seguida, irradiar Cristo, o Homem Eterno, o ideal mais puro e mais belo da vida. Conferência de Provinciales Jesuitas de América Latina Pe.
Alberto Hurtado, jesuíta chileno do século XX, viveu
num mundo de crises, guerras, opressões. Viveu dramas familiares.
Teve de trabalhar para estudar e não lhe foi fácil deixar
a Mãe viúva amparada para entra no Noviciado da Companhia.
Sua obra mais conhecida foi em favor dos sem-teto, dos moradores de
rua. Para eles, com seus alunos e ex-alunos, com suas mãos e
uma velha camioneta criou o "Hogar de Cristo", até
hoje levado por leigos e leigas e que tem feito milagres no Chile. Acreditou
na educação, na Universidade. Fundou "Mensaje",
revista de cultura também política e social, que continua
se publicando. Foi o toque de graça para o ingresso de muitos
na vida consagrada religiosa e sacerdotal e na militância laica
da Igreja. Morreu ainda jovem, sofrendo um doloroso câncer com
admirável ânimo e paciência. Já declarado
bem aventurado, agora tivemos a alegria do anúncio de sua próxima
canonização. Santificou-o o Espírito de Jesus,
que sua liberdade aceitou e agradeceu. A Igreja de Deus, que tanto amou,
compreendeu e serviu, agora vai reconhecer, em testemunho ao mundo inteiro,
a obra que o Senhor Jesus e ele fizeram em sua vida santa de cristão
para valer. A
Revista Eletrônica Inaciana se une à alegria da Igreja
no Chile e na América Latina e à todo o mundo católico,
e homenageia e dá a conhecer Santo Alberto do Chile com uma pequena
série de seus textos. 1 - MEDITAÇÃO DO APELO DO REI ETERNO (Extraído de pontos dados num retiro para jovens em 1946) Alberto Hurtado S.J Tradução: R. Paiva, SJ. Ontem,
dizíamos que queríamos viver, plenamente e com valentia,
para sempre. Magnífico programa! Mas como? Viver: "Eu
sou a Vida". Em que rumo? "Eu sou o Caminho e a Verdade".
A
perfeição sobrenatural - e também a natural
- consiste em incorporar-se mais e mais vitalmente a Cristo. Em deixar
que a graça, que dele vem, se apodere de mim. Que meus pensamentos,
desejos e aspirações sejam os seus, até o ponto
em que eu possa dizer com São Paulo: "Para mim, viver
é Cristo. Vivo eu, mas já não eu: Cristo vive
em mim". Ou, com Santo Tomás: "Senhor meu e Deus
meu". Ou com São Francisco: "Meu Deus e meu tudo". Aqui
está a verdadeira grandeza, a suprema ambição,
que uma pessoa possa ter: chegar a ser como Deus. Deus, porque a graça
diviniza. Se a graça não encontra obstáculos
a que profundidade penetra, a que altura eleva! Chega uma pessoa humana
a conservar a natureza e a figura humanas, mas, no seu profundo, é
um divinizado. Pensem em gente como Dom Bosco: "Dá-me
almas ou tira-me tudo". São Francisco Xavier: "Basta,
Senhor!" Santo Inácio de Loyola: "A maior glória
de Deus". E São Luís Gonzaga, Santo Estanislau
Kostka, Santa Teresinha, São Francisco de Assis. O que terá
a humanidade produzido de melhor? São, na realidade, grãos
de trigo mortos, mas deles se apoderou a vida e têm dado fruto
em abundância. Se
há
um empreendimento que valha a pena é certamente este: imensamente
maior que a invenção da bomba atômica, que enche
de pavor a humanidade; maior que todas as campanhas e realizações
havidas neste mundo: assimilar-se vitalmente à divindade! Dar
valor divino a cada uma das ações! Mas isto requer uma
visão de fé, porque a grandeza divina é tão
diferente da humana: "Não por meus caminhos! Mostra-me,
Senhor, os teus caminhos!" Fé,
pedir esta fé, que nos oriente. Não o brilho do
que é visível. Mas a fé inflamada pela caridade,
animada pela esperança. Fé que me faça ter fome
do que vai mais além da natureza. Ser Cristo: "Não
me glorio de nada, a não ser de Cristo, e Cristo crucificado
(1 Cor 2,2). Tenho as coisas do mundo como lixo." Ele
chama! Ele
veio a este mundo não para fazer sozinho sua obra, mas
para faze-la conosco, com todos nós, para ser cabeça
de um grande corpo cujas células vivas, livres e ativas somos
nós. Todos
somos chamados a estar incorporados nele: isto é o básico
da vida cristã. Mas a outros chamamentos mais altos: apelos
para entregar-se a ele, a ser só para ele, a fazê-lo
norma da própria inteligência, a tê-lo em conta
em cada uma das próprias ações, a segui-lo em
seus empreendimentos, mais ainda, a fazer de sua vida o empreendimento
de Cristo! Para
o marinheiro, sua vida é o mar. Para o militar, o exército.
Para a enfermeira, o hospital. Para o lavrador, o campo. Para a pessoa
generosa, sua vida é o empreendimento de Cristo! Deste
modo, Ele chamou os Apóstolos: Mateus, que estava à
mesa dos impostos; Pedro e André, de suas redes... Um por um,
os Doze... Inácio, que era um soldado carnal e cheio de glória
humana, na cama de convalescente. Xavier, rapaz esperto, inteligente,
sociável, simpático, ambicioso de fama, de glória,
chamou pela voz de Inácio e o converteu no "divino impaciente".
Mateu Talbot, bêbado e desocupado, feito santo carregador de
caminhões. Píer Giorgio Frassatti, alpinista enamorado
dos altos cumes e da beleza feminina, feito modelo de um homem socialmente
responsável. Thonet, tirado do trabalho na fábrica para
ser feito o primeiro presidente mártir da Juventude Operária
Católica (JOC), lá no campo de extermínio de
Dachau, onde ele morreu cantando e oferecendo a vida pela classe operária.
José Cardijn, do pequeno quarto nos altos da casa do seu pai,
para ser feito pai dos pobres. Teresinha, da casa paterna dos "Buissonetes",
tornada exemplo do amor abnegado e simples.
Isto
é o essencial do chamado de Cristo: "Queres consagrar-me
tua vida?" Não é problema de pecado! É problema
de consagração! A que? À santidade pessoal e
ao apostolado. Santidade pessoal, que há de ser fundamentada
na santidade de Cristo. Não há duas pessoas iguais,
nem mesmo dois santos, mas o fundamento é o mesmo. Se
ele chamasse você, o que você faria? Eu queria que
você pensasse a fundo, porque isto é o essencial dos
Exercícios. Os Exercícios são um chamado a fundo
à generosidade. Não movem pelo medo. Não são
para assustar. Recordam os mandamentos, porque não podemos
deixar de recordá-los. Os mandamentos são a base, o
alicerce de toda a construção, porque são a vontade
de Deus que obriga. Mas não são mais do que o alicerce,
e não se vive sem fundamento... Na
casa
da Igreja, a santidade e o apostolado são obra da generosidade
dos fiéis. Se quiserem dar, podem dar. Se quiserem negar, podem
negar. Assim fazendo não ferem nenhum direito, não cometem
nenhum pecado, não merecem nenhuma reprovação,
pois estão no seu direito. Os Exercícios não
são para as pessoas que querem reclamar direitos e erguer defesas
contra Deus. São para pessoas que querem subir. E quanto mais
para cima, melhor. São para os que entenderam o significado
do que significa "amar", e que o cristianismo é amor,
e que o mandamento maior é o do amor, e que a característica
do amor é doar, dar-se, fundir-se, perder-se - não dois,
mas um com o amado. Isto
é
amor e a isto aspiram os corações grandes, que são
os que constroem a Igreja, os que a fazem viver, os que tomaram a
sério sua missão! Ser "sal da terra: se o sal perder
seu sabor, com que será salgado? Ser luz do mundo: se a luz
escurece, quem iluminará?" Testemunhas de Cristo, se as
testemunhas se afastam, como o Cristo será reconhecido? A Igreja
não se funda nem existiria sem o amor generoso. A
prova da fé é o amor, o amor heróico e o
heroísmo não é de obrigação. O
sacerdócio, as missões, as obras de caridade não
são matéria de deveres, não obrigam sob pecado,
mas são absolutamente necessários à Igreja e
são obra da generosidade. O dia em que não houver sacerdotes,
não haverá sacramentos e o sacerdócio não
é obrigatório. O dia em que não houver missionários,
a fé não avançará, e as missões
não são obrigatórias. O dia em que não
houver quem cuide dos leprosos, dos pobres, não haverá
o testemunho distintivo do Cristo, e estas obras não são
obrigatórias. O dia em que não houver santos, não
haverá Igreja, e a santidade não é obrigatória. Que
grande é esta idéia! A Igreja não vive do
cumprimento do dever, mas da generosidade dos seus fiéis! Que
grande é a confiança que Deus teve em nós, fiando-se
de nossa nobreza, de nossa generosidade e esperar que lhe respondamos! Se
Ele chamasse você, o que você lhe diria? Em que disposição
você está? Pede, suplica estar na melhor disposição.
Santo Inácio pede a quem entra nos Exercícios: "Grande
ânimo e generosidade para com Deus nosso Senhor!" Querer
deixar-se mover e entregar-se por inteiro. Invocação
ao Espírito Santo, porque se trata de coisa muito grande! Escuta
Jesus! É um chamado que se repete a cada ano, a cara dia
e que a cada hora deveríamos escutar:
Francisco
Xavier, pregando no Japão, foi cuspido na cara. Inácio,
foi tratar do amigo doente, que o tinha roubado. Francisco de Assis
pregando 'Paz e Bem' e doando-se todo. Em
lugar do conforto, a aceitação voluntária
da dor. A dor acompanhou a Cristo desde a manjedoura até a
Cruz. E os que são de Cristo amam a dor quando o Senhor a envia
- mas não cultuam a dor pela dor, mas amam o que o Senhor envia,
assumindo tarefas generosas sem delas desistir porque trazem dor.
E, ainda mais, para completar o que falta à Paixão de
Cristo há quem chegue a padecer ou morrer. Fome
de santidade, de santidade e imitação de Cristo.
De santidade pobre, humilde, dolorosa. Servidores de Cristo, o Redentor
crucificado. "Ser crucificados para o mundo", como pedia
Santo Inácio. Gente que não procura sua comodidade,
honra, fortuna. Ir com esta gente à conquista do mundo, conquista
que é mais que o fruto de nossas palavras, mas sim o fruto
da Graça de Deus, que vai transparecer em nossas vidas. Vidas
que não têm nada do que o mundo ama e abraça,
mas tudo o que Cristo amou e abraçou! "Realizadores da
Palavra e não só ouvintes" (Tg 1,22). Senhor,
se nestes nossos atribulados tempos, de horrendos massacres, campos
de extermínio, deportações, bombardeios, quando
se acumula por um lado e por outro se trabalha exaustivamente para
matar com armas mil vezes piores, tempos onde se despedaçam
para possuir mais, para lucrar mais, para ter mais conforto, mais
honras e menos dor, se nestes nossos tempos, uma geração
compreendesse sua missão, poderia dar testemunho de Cristo
em quem cresse. Não só com aclamações
de "Cristo reina, vence, impera", sem nenhum significado.
Mas como? Com a oferenda humilde, silenciosa das próprias vidas,
para fazê-lo reinar pelos caminhos onde Cristo quer reinar:
na sua pobreza, mansidão, humilhação, em suas
dores, em sua oração e em sua caridade humilde e abnegada. Se
Cristo encontrasse esta geração! Se encontrasse
uma só pessoa! Você quer ser esta pessoa? O mais humilde.
O mais inútil aos olhos do mundo pode ser o mais útil
aos olhos de Deus: "Senhor, não valho nada, mas confuso
e com temor eu te ofereço meu próprio coração". O
Senhor, que entrou em Jerusalém no dia do seu triunfo montado
num burrinho, segue fiel a esta prática. Escolhe as pessoas
dos "burrinhos" de boa vontade, pobres, mansos, humildes.
Você quer ser o "burrinho" de Cristo? Cristo não
quer enganar-me. Ele precisa de mim neste empreendimento. É
difícil. Bastante difícil. Há que lutar contra
paixões próprias, que têm apetites contrários
ao programa dele. Não ficarão mortas para sempre, mas
que irão morrendo cada dia. Há
que lutar contra o ambiente: amigos, família, mundo, atrações.
Tudo parecerá levantar-se escandalizado diante dos que pretendam
seguir tal exemplo, por mais modesto que se dê, apontando seu
erro. Se me amam, quererão m oferecer o que chama de "bens".
Livrar-me de exageros ridículos, de coisas fora de moda, "que
fazem mais mal do que bem". Que exageros? Por que não
fazer como todo mundo? Há
que
lutar contra os escândalos, contra os desânimos no empreendimento,
o cansaço que vem com a idade, a secura do espírito,
o tédio, a fadiga, a monotonia. Confirma Jesus:
Quem
quiser seguir a Cristo, arme-se com a armadura da fé:
Palavra
magnífica dos que amam a Cristo, e, pela fé em sua
palavra se decidem a segui-lo. Ele diz:
A
ação
social desinteressada, realista, sincera: fazer-se pobre de Cristo,
ligar a própria vida à elevação dos excluídos,
elemento substancial de uma nova ordem. Trabalho de formação
modesto, entregue... Consagra-se
a esta ação católica. Não por um dia,
ou por um ano, com direito a aposentadoria: "Já fiz bastante.
Agora me retiro". Isto não! Mas com firmeza, por toda
a vida, em humildade, no posto que me for dado. Não só
no brilho das assembléias, mas no escondimento das secretarias,
no posto humilde de um centro de serviços, pobre, humilde,
com abnegação. A
profissão com este critério de entrega social, como
meio de testemunho de Cristo. As aplicações, já
vamos vê-las. A
família, à qual Deus me quer dar, não necessariamente
num alto nível social, não para manter uma tradição,
no que ela tem de profano, mas no que tiver de cristão, de
espírito cristão. Se for necessário no interior,
na fronteira, onde quer que seja, no Espírito de Cristo. Na
Universidade, no escritório, na fábrica... Não
só observando os mandamentos. Mas afeiçoando-me a viver
em outro estado de vida: no plano da santidade por meu espírito
de oração. No espírito da hierarquia de valores:
primeiro os da santidade. A seguir, os de preparação
científica também, mas sem espírito egoísta,
mas por amor a meus companheiros e sacrifício por eles, com
a abnegação de minha vida a serviço da Igreja. Difícil?
Sim. O mundo não o compreenderá. Zombará.
Dirá: "Exageros! Ficou louco!" Também de Jesus
se disse que estava louco. Foi vestido (na Paixão como rei)
louco. Foi acusado de endemoniado e, finalmente, foi crucificado.
E se hoje Cristo viesse à terra - tenho horror de pensá-lo
não seria crucificado, mas fuzilado (....) Deus queira que
não fizéssemos parte do coro se seus acusadores nem
estivéssemos entre os que o fuzilariam. Difícil?
Sim, mas só aqui reside a vida. Acabou-se o heroísmo?
Não, a guerra (a 2a Grande Guerra contra o nazifacismo) o demonstrou.
Convivo com heróis. Fui muito próximo de O'Coblahan,
"The honest man I never met" ("O mais honesto homem
que já encontrei"). E não foi o único. Muitos
o secundaram com igual heroísmo e partiram para a guerra com
um sorriso nos lábios. Japão! Que boa matéria
humana guarda para formar cristãos! China, Alemanha, Rússia,
Chile... Na
grande obra de Cristo todos temos um lugar, distinto para cada
qual, mas um lugar no plano de santidade. Na corrente de graça,
que Deus prepara com bondade, estou chamado a ser um elo. Posso sê-lo.
Posso recusá-lo. Que farei? Colocar este problema a fundo e
responder com seriedade. Muitos
não terão o ânimo de pôr a questão.
É superior a suas forças, mas, se pensassem nas forças
de Cristo? Se pensassem que, com Cristo, eles também poderia
ser ums anto. Que não se refugiem na covardia do puro dever! Outros
pensariam em fazer uma esmola com alguma coisa. Isto seria pior
do que nada. Não é isto o que Cristo pede! Não
é possível oferecer outra coisa, insistindo em que é
boa, quando Cristo pede coisa melhor. A vontade de Deus é única
e só. Os
tesouros: as pessoas generosas, que se deixam mover e se entregam,
para estarem seguros de cumprir a vontade de Deus, "agindo contra
sua sensualidade", abraçam o mais difícil no espírito,
pedindo-o e suplicando que lhes seja concedido. E só deixarão
de lado esta oferta se o Senhor mesmo lhes mostrar outro caminho mais
suave. Mas, quanto ao que lhes toca, estão decididos a ir àquilo!
Exemplos: Doyle, Santo Inácio de Antioquia, João de
Brébeuf. Terminar com o "Eterno Senhor" *. "
Eterno Senhor de todas as coisas, eu me ofereço, com vossa graça
e ajuda, diante de vossa infinita bondade, de vossa mãe gloriosa
e de todos os santos da corte celestial: quero e desejo, e é minha
determinação deliberada, desde que seja para o vosso maior
serviço e louvor, imitar-vos em passar todas as injúrias,
todas as afrontas e toda a pobreza, tanto material quanto espiritual -
se vossa santíssima Majestade me quiser escolher e receber nesta
vida e estado. |