A PRÁTICA DA ESPIRITUALIDADE INACIANA
ENCONTRAR A DEUS NOS EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS

CURSO DE DONALD L. GELPI, SJ, NA "CONSULTA ROMANA - 2003", ORGANIZADA PELO
SECRETARIADO DA COMPANHIA DE JESUS PARA A ESPIRITUALIDADE INACIANA

TRADUÇÃO: R. PAIVA, SJ


Pe. Gelpi é Professor na Jesuit School of Theology em Berkley, Califórnia, Estados Unidos. Esta é uma instituição de cunho ecumênico, coligando 19 igrejas cristãs. Pe. Gelpi propõe considera os Evangelhos, em particular os Sinóticos, do ponto de vista de que constituem narrativas literárias, fortemente marcadas pelas maneiras da narrativa oral. Mostra como a análise dos relacionamentos pode conduzir a um entendimento eficaz dos textos em razão do seu uso nos Exercícios.

Em razão da extensão do texto, colocaremos na rede o curso integral dividido em segmentos.


13º SEGMENTO

III
JESUS E O PAI

A) MARCOS

Em Marcos, o Pai envia Jesus como o Messias à imagem do Servo Sofredor e Lhe envia o Espírito para que comece Sua revelação como Espírito batizador.

1 Por conseguinte, Marcos torna inseparáveis a consciência que Jesus tem do Abba e a consciência que tem de Sua missão como Messias à imagem do Servo Sofredor.

2 Marcos faz uma afirmação narrativa em seu relato sobre o batismo de Jesus, a saber, que o batismo no Espírito nos introduz na experiência que Jesus tem do Abba, mostrando-nos um Jesus que é o começo de um novo Israel e de uma nova Criação.

a) Este fato converte o batismo de Jesus no protótipo do batismo dos membros do novo Israel e da nova Criação.

b) Marcos faz uma reafirmação narrativa deste ponto no relato da Transfiguração, quando o Pai repete a Pedro, Tiago e João as mesmas palavras que disse a Jesus.

3 Em Marcos, Jesus se relaciona com o Pai fundamentalmente de três modos:

a) Confiança incondicional;

b) Obediência perfeita à missão recebida do Pai;

c) Amor que o consome todo.

4 Outros aspectos da relação de Jesus com o Pai:

A missão messiânica em Marcos põe Jesus imediatamente em conflito com as forças demoníacas do mal:

a) Marcos descreve um Evangelho do conflito, no qual Jesus é alienado sistematicamente de todos, exceto da parte do Pai e do Espírito: dos escribas e fariseus, de Sua mesma família, da gente de Nazaré, das multidões, de Seus próprios discípulos, dos sumos sacerdotes, que tramam sua crucifixão.

b) O Jesus de Marcos nos é apresentado como o que tem poder sobre Satanás e o reino dos espíritos do mal, apesar de Sua alienação (a cura do leproso):

i) como Aquele que tem poder de perdoar os pecados;

ii) como Aquele que cria a família de Deus, ensinando a Seus discípulos a obediência da fé;

iii) como Aquele que pede a Seus discípulos que se perdoem uns aos outros com a mesma gratuidade com que o Pai perdoa;

iv) como Aquele que reafirma a intenção originária do Pai ao criar o matrimônio e abolir as práticas do divórcio fixadas por Moisés.

Sumário:

1 Dos três sinópticos, Marcos é o que menos desenvolve a relação de Jesus com o Pai, ainda que faça algumas afirmações importantes sobre esta relação, avalizadas pelos outros evangelistas.

2 Marcos deixa claro que o batismo no Espírito (e, portanto, o conhecimento interno de Cristo) nos atrai até à experiência que Jesus faz do Abba.

3 Crescer em consciência do Abba significa aprofundar-se nas três relações fundamentais de Jesus com o Pai: confiança incondicional, amor que consome todo e obediência perfeita da missão recebida do Pai.

B) MATEUS

Mateus reproduz as linhas principais do relato de Marcos sobre a relação de Jesus com o Pai, mas embeleza o material de Marcos com muitos mais ensinamentos sobre o Pai.

1 Marcos põe em relevo o fato mais que as palavras. Mateus realça mais as palavras.

2 No evangelho da infância, Mateus somente usa uma vez o termo Deus: na profecia de Emanuel (Deus conosco).

3 O batismo de Jesus: Mateus nomeia as tentações que Jesus experimenta, e todas têm relação com o Pai:

a) Jesus sofre a tentação não só como Messias, mas como começo do novo Israel (tentação no deserto). Portanto, Jesus é para o novo Israel o modelo de como responder a Satanás e de como relacionar-se com o Pai.

b) Relação com o tema do cumprimento: Mateus põe na boca de Jesus palavras da Torá para indicar os mandamentos específicos da Lei que Ele cumpre:

i) Primeira Tentação: ser independente. Jesus responde com confiança;

ii) Segunda Tentação: por à prova Deus. Jesus responde com confiança incondicional;

iii) Terceira Tentação: modelar o Reino segundo os reinos deste mundo e fundá-lo sobre a lei, a coação e a violência. Jesus rejeita a tentação como culto demoníaco e funda o Reino somente sobre o autêntico culto ao Pai.

iv) Voltarei sobre as implicações morais das respostas de Jesus a estas tentações ao falar da relação de Jesus com Seus discípulos.

5 O ensinamento sobre o Pai: não há tempo de rever em pormenor o que diz o Jesus de Mateus sobre o Pai. Voltaremos sobre o tema na apresentação seguinte. As reflexões seguintes são exemplos do ensinamento de Jesus sobre o Pai:

a) O Pai Nosso é o modelo da oração cristã, que resume a relação cristã com o Pai. Em Marcos não encontramos o Pai Nosso, ainda que a oração de Jesus no horto que Marcos apresenta ecoa uma das petições do Pai Nosso.

i) Pai Nosso: relação comunal (em contraste com Lucas).

ii) Nos céus: céu em Mateus é o trono de Deus. Realça o sentido de reverência como Pai (em contraste com Lucas).

iii) Venha o Teu Reino, faça-se Tua vontade assim na terra como no céu: compromisso de viver e difundir o Reino de Deus.

iv) Dá-nos hoje o pão nosso de cada dia: confiança na providência, que o fundamento da partilha cristã com os pobres.

v) Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como perdoamos os que nos ofendem: condição para aceitar o perdão divino, a atitude que autentifica a oração, que é fundamento do Reino. Depois do Pai Nosso, Mateus sublinha a necessidade do perdão mútuo se esperamos gozar o perdão do Pai.

vi) Não nos leves à prova, e livra-nos de todo o mal: os limpos de coração vêem a Deus e os pacíficos atuam como filhos de Deus.

b) Duas bem-aventuranças estão inscritas em nossa relação com o Pai: os limpos de coração vêem a Deus e os pacíficos atuam como filhos de Deus.

c) Como em Marcos, o novo Israel exemplifica a família de Deus.


Sumário:

Que acrescenta Mateus à nossa compreensão do batismo no Espírito e, portanto, no conhecimento interno de Cristo?

1 Como Marcos, Mateus quer que Aquele que batiza no Espírito se relacione com o Pai com confiança incondicional, um amor que totalmente o consome e com obediência perfeita à missão que o Pai Lhe conferiu.

2 A narrativa da tentação em Mateus vai mais além da de Marcos, acrescentando que Aquele que batiza no Espírito não tem que modelar o Reino pelos reinos tirânicos desta terra, mas que há de alicerçar sempre o Reino de Deus no autêntico culto do Pai.

3 O Pai Nosso de Mateus aumenta, ulteriormente, as condições para crescer no conhecimento interno de Cristo:

a) Intimidade compartilhada e reverente ao Pai;

b) Anelo de que todos conheçam a Deus como Abba;

c) Entrega apaixonada ao advento do Reino de justiça do pai, tanto na terra como no céu;

d) Confiança na providência do Pai até às criaturas;

e) Perdão mútuo, que autentifica a oração que fundamenta o Reino.


C) LUCAS

Também Lucas avaliza e desenvolve o relato que Marcos apresenta da relação de Jesus com o Pai.

1 Como Mateus, Lucas caracteriza a relação fundamental de Jesus com o Pai como uma relação de confiança incondicional, de amor que o consome todo, de obediência perfeita à missão recebida do Pai.

2 Mas, em Lucas, se encontram acentos especificamente seus da relação de Jesus com o Pai:

a) Em contraste com as narrativas da infância de Mateus, Lucas alude repetidamente ao Pai e em todas as referências o Pai aparece como fonte eterna de salvação.

Os seres humanos deveriam receber a intervenção salvadora de Deus nos assuntos humanos com uma mescla de reverência e ação de graças;

b) Como Mateus, Lucas apresenta uma genealogia de Jesus, Mas elas diferem bastante:

i) A genealogia de Mateus abre o seu Evangelho; a de Lucas, é inserida entre o batismo e as tentações de Jesus;

ii) A genealogia de Mateus segue a ordem judaica: começa com os próprios antepassados e termina com a última pessoa gerada, Jesus. A de Lucas segue a ordem inversa, a dos gentios, começando com Jesus e remontando aos antepassados.

iii) Mateus manifesta a pertença judaica de Jesus e começa sua genealogia com Abraão. Lucas evidencia acentuadamente:

1º) O caráter universal da salvação de Jesus como o último Adão;
2º) Como o uso que Paulo faz do imaginário adâmico, o ser Filho de Deus da parte de Jesus supera o sentido da expressão Adão, Filho de Deus.
3º) Colocando a genealogia entre o batismo e as tentações, Lucas afirma o significado salvífico universal de ambos os eventos.

3 O Jesus de Lucas reza ao Pai mas freqüentemente do que em qualquer dos outros Evangelhos.

a) Lucas enfatiza mais que Mateus a importância da oração. O Jesus de Lucas faz de modelo da oração dos discípulos. Ele ora no Getsêmani na presença dos discípulos.

b) Lucas, com parábolas como a do juiz injusto, realça mais que Mateus e Marcos a importância de perseverar na oração.

4 Os três Evangelistas sinópticos fazem constar o sim total de Jesus ao grande Mandamento e todos os três afirmam que este há de ser interpretado à luz da proclamação que Jesus faz do Reino de Deus.

a) Em Marcos, Jesus pede ao que lhe coloca perguntas o que pensa sobre o maior dos Mandamentos, e logo acrescenta: Não estás longe do Reino de Deus.

b) Em Mateus, Jesus acrescenta que a Lei e os profetas dependem do grande Mandamento, recordando ao leitor que Jesus cumpre os dois.

c) Em Lucas, o interpelante que coloca a pergunta Quem é o meu próximo? Jesus responde com a parábola do Bom Samaritano.

d) Em outras palavras, Marcos afirma, simplesmente que o Reino dá sentido último aos grandes Mandamentos. Mateus se serve da história para desenvolver seu tema de que Jesus vem dar cumprimento à Lei e aos Profetas. Lucas, como é típico dele, recorre à entrega de amor pelo próximo como significado último da universalidade da salvação que Jesus traz.

5 No grande discurso sobre o caminho, somente o Jesus de Lucas instrui a Seus discípulos sobre como relacionar-se com as três Pessoas divinas durante a perseguição:

a) Têm de ter mais reverência ao Pai do que aos perseguidores;

b) Devem ser testemunhas fiéis e valentes de Jesus;

c) Não devem blasfemar o Espírito com o pecado da apostasia, mas que devem voltar o olhar para o Espírito a fim de que Ele lhes ensine como testemunhar Jesus.

6 Tanto Mateus como Lucas insistem em que os discípulos de Jesus têm de escolher entre Deus e a riqueza. Lucas, no entanto, sublinha este ponto mais ainda nas parábolas do jovem rico e de Lázaro.

7 Tanto Mateus como Lucas ensinam a confiar na providência do Pai, contando a parábola dos lírios do campo. Lucas, porém, mais do que Mateus, põe em evidência que Deus cuida também daqueles que, pela Torá, são tidos como ritualmente impuros.

8 Lucas escreve o Evangelhos dos grandes perdões e evidencia, mais que Mateus o desejo que o Pai tem de perdoar e se reconciliar com os pecadores: parábola do filho pródigo.

Sumário:

No seu relato da relação de Jesus com o Pai, Lucas concorda com Marcos ao afirmar que Jesus e o Espírito - Batizador se relacionam com o Pai numa atitude de confiança incondicional, de amor que O consome todo e de perfeita obediência à missão recebida do Pai.

a) Lucas desenvolve ulteriormente as condições para criar o conhecimento interno de Cristo, insistindo como mais força ainda que Mateus em que o Pai deseja que todos tenham a experiência que Jesus teve do Abba e cresçam no conhecimento interno de Cristo.

b) Mais que os outros sinópticos, Lucas considera a perseverança na oração como o núcleo fundamental do conhecimento interno de Cristo.

c) Somente Lucas interpreta o amor ao próximo à luz da parábola do Bom Samaritano e assim nos mostra que amar como Cristo ama supõe amar aos inimigos e hereges.


14º SEGMENTO

IV
JESUS E O ESPÍRITO

Como ocorre nas demais relações dramáticas positivas, Marcos faz algumas afirmações fundamentais sobre a relação de Jesus como Espírito, que os outros sinópticos desenvolvem.

1 O Espírito procede à unção messiânica de Jesus como Filho amado do Pai e como o Messias, à imagem do Servo Sofredor.

a) Este evento supõe que o Espírito preside todo o ministério de Jesus.

b) Este mesmo evento batismal revela a Jesus e somente a Jesus como Aquele que batiza no Espírito.

c) Somente em Marcos, o Espírito conduz Jesus ao deserto para que enfrente Satanás.

d) Descrevendo a ação do Espírito, Marcos diz somente que o Espírito inspirará o testemunho dos discípulos sob a perseguição.

2 Marcos, pois, ensina claramente que o batismo no Espírito e o conhecimento interno de Cristo derivam da inspiração e da guia do Espírito e que isto, necessariamente, implica o enfrentar-se com as mesmas forças do mal que crucificaram Jesus.

 

3 Mateus confirma os tr6es pontos, porém acrescentando alguns próprios seus:

a) A concepção de Jesus por obra do Espírito revela a origem divina e transcendente e descarta uma leitura adocionista do batismo de Jesus.

b) Jesus se relaciona com o Espírito de modo distinto que nós: sob o sinal da pomba e não do fogo.

c) O Espírito inspira as respostas de Jesus a Satanás e inspirará também as respostas dos discípulos, já que Jesus responde como o começo do novo Israel.

4 No que se refere ao conhecimento interno de Cristo:

a) Mateus, dos três sinópticos, é o que põe mais em evidência que o conhecimento interno de Cristo se enraíza numa confissão da divindade de Jesus, ainda que tanto Marcos quanto Lucas usem estratégias narrativa para afirma a divindade de Jesus.

b) Mateus, além disto, insiste mais claramente do que Marcos em que o batismo no Espírito (conhecimento interno de Cristo) supõe purificação.

c) Como em Marcos, nos momentos de prova devemos olhar o Espírito para que inspire nossas respostas aos inimigos do Evangelho.

5 Dos três Evangelhos sinópticos, Lucas é o que apresenta o relato mais detalhado da relação de Jesus com o Espírito.

Somente Lucas descreve a experiência do batismo no Espírito no segundo capítulo dos Atos.

No Pentecostes, o Espírito chega sob o sinal do vento e do fogo, como havia anunciado o Batista.

a) Línguas de fogo descem sob a cabeça dos discípulos, Elas transformam os discípulos numa comunidade profética enviada a testemunhar o mistério pascal e a prolongar a missão de Jesus no espaço e no tempo, encarnando e proclamando o Reino.

b) As línguas sobre as cabeças dos discípulos aludem também ao cometa luzente sobre a cabeça do Imperador nas moedas romanas a partir de César, símbolo de sua divindade. Há que se escolher entre a chama imperial e o Espírito de Jesus.

c) Lucas não identifica o batismo no Espírito com a glossolalaia (o falar em línguas). O termo batismo não se encontra no seu relato de Pentecostes até o final do sermão de Pedro, onde se refere ao ritual do batismo.

d) O primeiro efeito do batismo não é que os batizados falem em línguas, mas que vivam a visão do Reino (At 4,42-47).

e) A abundância dos carismas cria uma comunidade de fé, na qual é possível receber o batismo. Isto é, transforma o movimento de Jesus numa Igreja.

f) O milagre de falar línguas estrangeiras não acontece de novo em Atos e difere da descrição do dom das línguas que faz Paulo.

g) O milagre de falar línguas estrangeiras poderia exemplificar-se como uma alusão midrashica à torre de Babel.

h) Em Babel, Deus confundiu as línguas como um sinal da pecaminosidade humana. Em Pentecostes, a confusão das línguas humanas em glossolalaia dá começo à reunificação de Israel, que culminará no Pentecostes dos gentios: batismo de Cornélio e família.

6 Lucas, portanto, nos faz compreender melhor o significado do batismo no Espírito e o crescimento no conhecimento interno de Cristo:

a) Insistindo no seu caráter comunitário: o Espírito Pentecostal desce, primeiro, sobre a comunidade. Por conseguinte, o batismo no Espírito e o conhecimento interno de Cristo requerem a incorporação ritual na comunidade do Espírito.

b) Insistindo em que o conhecimento interno de Cristo tem um caráter eclesial.

c) Insistindo em que o batismo no Espírito (e, por conseguinte, o conhecimento interno de Cristo) requer uma participação ativa na comunidade profética que proclama, universalmente, o Senhor ressuscitado.

d) Insistindo em que o batismo no Espírito e o conhecimento interno de Cristo têm uma dimensão política:

1º) Obriga a eleger entre o Reino de Deus e as forças institucionais satânicas deste mundo;

2º) Do mesmo modo como Jesus, fazem com que enfrentemos profeticamente essas mesmas forças , nos mesmos termos em que Ele as enfrentou.

7 Nesta apresentação, estivemos refletindo sobre como as relações dramáticas positivas na cristologia narrativa sinóptica lançam luz sobre as condições de fundo para entra e crescer no conhecimento interno de Cristo.

Na apresentação que se segue, examinaremos como a relação de Jesus com seus discípulos aprofunda estas mesmas intuições, dando-lhes um significado prático.


15º SEGMENTO

QUINTA APRESENTAÇÃO
O SIGNIFICADO PRÁTICO DO CONHECIMENTO INTERNO DE CRISTO

I
RECAPITULANDO BREVEMENTE
Na última apresentação, sugeria que as relações dramáticas positivas nos Evangelhos sinópticos, a saber, como Jesus se relaciona com João Batista, com o Pai e com o Espírito, descrevem as condições básicas para entra e avançar no conhecimento interno de Jesus Cristo.

A) A relação de Jesus com João deixa claro que Ele, e não João, batiza com o Espírito que santifica e purifica.

B) O batismo no Espírito nos leva até a mesma experiência do Abba de Jesus e nos ensina a nos relacionarmos com o Pai com a mesma confiança incondicional, o amor que O consome todo e a obediência perfeita à missão recebida do Pai, como fez Jesus.

C) Entrar na relação de Jesus com o Pai no poder do Espírito nos introduz na experiência de conhecê-lo mediante a assimilação prática a Ele no poder do Seu Espírito. Quando esta experiência cresce, cresce o conhecimento interno de Cristo.

II
COMO, NA PRÁTICA, SE CRESCE NO CONHECIMENTO INTERNO DE CRISTO


A) Para fazê-lo, examinarei as relações narrativas interrelacionadas: como Jesus se relaciona com seus discípulos nos sinópticos e como Seu ensinamento ilumina o significado prático do conhecimento interno de Cristo.

B) esta apresentação se divide em duas partes:

1ª) Uma primeira parte na qual se resume o que os sinópticos nos têm a dizer sobre como Jesus se relaciona com os seus discípulos.

2ª) Uma segunda parte em que se resume o que o Jesus dos sinópticos nos tem a dizer sobre a prática do que chamo conhecimento interno de Cristo.

III
COMO Jesus SE RELACIONA COM SEUS DISCÍPULOS?

Jesus disse a Seus discípulos a verdade sobre Sua relação com o Pai e sobre as exigentes demandas que esta relação imporia.

A) O Jesus dos sinópticos insiste em que Seu seguimento supõe empreender o caminho da Cruz.

1 Jesus teve dois tipos de discípulos

1º) Discípulos comuns, como Marta, Maria, Lázaro, que creram nele e procuraram viver sua mensagem em suas casas, ocupações, trabalhos, etc.

2º) Discípulos chamados a acompanhá-lo na missão, deixando a vida comum, e O ajudando na proclamação da Boa Nova.

a) Por sua entrega à obra da evangelização, Jesus tinha exig6encias particulares quando a estes discípulos chamados a acompanhá-lo na missão.

b) Jesus pedia aos outros discípulos, que permaneciam em suas casas, que compartilhassem com os pobres segundo as necessidades deles e não segundo o merecimento que tivessem. Dos que O acompanhavam na missão exigia que vendessem o que possuíssem, dessem aos pobres e que entrassem no círculo que O ajudava na evangelização. Viviam das esmolas e da beneficência. Compartilhavam com os pobres e necessitados.

c) Jesus mesmo, muito provavelmente, praticou o celibato pelo Reino. Não pediu aos discípulos que O acompanhavam o celibato, mas que antepusessem a obra da evangelização à mais sagrada relação familiar.

d) Jesus chamou estes discípulos a que O seguissem profeticamente e não aceitou automaticamente como discípulos íntimos a quantos voluntariamente se ofereceram para sê-lo

e) Jesus os inseriu na obra da evangelização e supervisionou o trabalho deles.

i) Lucas nos conta que teve um momento em que Jesus enviou 72 discípulos para que preparassem as pessoas para que O ouvissem proclamar o Reino.

ii) Isto sugere que os que O acompanhavam eram 72 ou mais.

iii) Estes discípulos eram tanto homens quanto mulheres

1 Os Doze pertenciam a este círculo e exerciam liderança entre eles, mas não esgotavam seu número.

2 Lucas nos diz que as mulheres discípulas pertencia a esse círculo "interno" dos discípulos. Um fato que deve ter chocado aos judeus palestinos do 1º século.

3 Lucas nos diz também que havia mulheres ricas entre essas discípulas.

4 A presença de mulheres neste círculo dos que acompanhavam Jesus na missão põe em manifesto o caráter igualitário da visão de Jesus: tratava a todos por igual.

f) Este discipulado de seguimento na evangelização exige uma relação pessoal mais íntima com o Senhor.

 

2 Jesus advertiu tanto aos discípulos que deviam permanecer em suas casas e ocupações comuns quanto aos que chamava à acompanhá-lo na obra da evangelização que o fato de se comprometerem por Ele e por Sua causa poderia afastá-los de suas próprias famílias, assim como, aparentemente, Seu compromisso Lhe alienou os membros de Sua própria família.

3 Jesus avisou a todos os seus discípulos e discípulas que Sua proclamação do Reino acabaria em Sua própria morte e o serem Seus discípulos os ia levar a enfrentar as mesmas forças do mal que orquestrariam Sua morte.

B) Ainda que o ser membro do Reino de Deus imponha exigentes demandas aos discípulos de Jesus, Ele e Seus seguidores demonstraram, vivendo-as, que o que Jesus trouxe a Israel era, na verdade, Boa Nova.

1 Jesus não se limitou apenas a proclamar o Reino, mas viveu a mensagem que proclamou e pediu a Seus discípulos e discípulas que O acompanhavam na missão que fizessem o mesmo.

2 Pediu a todos os Seus discípulos e discípulas o arrependimento e a submissão às condições morais da vida no Reino de Deus.

a) A história do cristianismo mostra que, quando as pessoas toam o Evangelho a sério e tratam de vivê-lo, funciona.

b) Ver viver o Evangelho proporciona os motivos mais básicos para converter-se e viver segundo o mesmo Evangelho.

C) Jesus não aceitou comprometer, Seu sentido de missão, ou a visão que o inspirou nesta missão, apesar da constante pressão por parte dos Seus discípulos e de outros para que condescendesse. Os sinópticos dão a impressão que a confissão de Pedro estabeleceu um marco no relacionamento de Jesus com Seus discípulos, que o acompanhavam na missão.

a) Pedro e os demais parecem ter confundido as pretensões messiânicas de Jesus com o messianismo davídico, que esperava a vinda de um rei guerreiro, tal como Davi, para libertar Israel do poder dos romanos.

b) Jesus não teria nada a ver com este tipo de messianismo e parece que se viu mais como o Messias da profecia de Zacarias (Zc 9,9).

D) Enfrentando a hostilidade dos inimigos do Evangelho, Jesus parece ter ensinado a Seus discípulos a escolher o termo médio entre a fuga e a luta. O andar mais uma milha além da exigida ilustra este estratégia: os soldados romanos em marcha podiam obrigar os civis a levarem sua bagagem uma milha, porém não mais.

a) O soldado que forçasse o civil a carregar por mais de uma milha sua bagagem iria ser castigado, provavelmente flagelado.

b) O termo médio entre a luta e a fuga exigia a alguém que experimentasse uma situação de opressão a fazer algo de surpreendente, que instasse o opressor a reconhecer a dignidade do oprimido como pessoa, e que reconhecesse o caráter opressor de sua ação, para que se arrependesse.

E) Parece sumamente plausível que, chegando o tempo do ministério final de Jesus em Jerusalém, Ele intensificasse a instrução a Seus discípulo sobre a vida no Reino de Deus.

1 Marcos e Lucas o afirmam do modo mais claro:

a) Na seção da viagem no seu Evangelho, Marcos divide os ensinamentos de Jesus em três partes, pontuadas por uma profecia da iminente paixão e morte de Jesus em Jerusalém:

1ª) No primeiro segmento sobre a viagem, os discípulos têm de aprender umas verdades de fundo sobre a vida no Reino de Deus.

i) Isto exige estar dispostos a empreender o caminho da Cruz;

ii) O caminho da Cruz culmina com a glória da Ressurreição.

iii) Jesus, como o Filho amado de Deus, fala com autoridade maior que a da Lei e dos profetas.

iv) Apesar da falta de fé dos discípulos, Jesus tem o poder de libertá-los de Satanás e capacitá-los a ouvirem o Evangelho.

b) No segundo segmento de Marcos sobre a viagem, Jesus instrui Seus discípulos sobre como viver em comunidade.

i) Devem servir os últimos e os mais vulneráveis da comunidade.

ii) Devem evitar um estreito exclusivismo reconhecendo os fatos da fé ali onde se encontram, inclusive entre os que estão fora do círculo dos que O acompanhavam na missão.

iii) Devem cultivar atos de caridade mútua.

iv) Devem evitar dar escândalo

v) Têm de acolher também aos menores no Reino (o batismo de famílias inteiras na Igreja apostólica).

vi) Têm de cultivar o desprendimento de riquezas e possessões.

vii) Têm de encontrar sua verdadeira família na comunidade dos discípulos.

c) O terceiro segmento, trata da liderança cristã:

i) Os que ocupam funções de liderança, como os Doze, devem evitar toda ambição.

ii) Os líderes não devem nunca tomar como modelo aos reis dos gentios para o exercício de sua liderança cristã.

iii) Os líderes cristãos hão de ter como único modelo Jesus, o Messias servido que veio não para ser servido, mas para servir e dar a Sua vida para a redenção de muitos.

2 No discurso no caminho para Jerusalém, o Jesus de Lucas inculca a seguinte lição prática sobre o discipulado:

a) O discipulado comporta exigências, responsabilidades e privilégios. A não violência constitui uma exigência fundamental.

b) os discípulos devem cultivar a pobreza cristã.

c) A fé constitui a medula do discipulado.

d) Os discípulos devem cultivar a oração de maneira constante, expectante e persistente.

e) Os discípulos devem viver com prontidão escatológica para o juízo final.

f) O Reino é para abarcar a todos.

g) O Reino está presente já, e ainda não.

h) Entrar no Reino não é fácil, e requer verdadeiros sacrifícios.

i) Apesar da oposição, o reino de Deus triunfará.

j) Os discípulos devem reconhecer que são pecadores e cultivar o arrependimento verdadeiro para obter o perdão e a justificação divinas.

k) Em concreto, os discípulos devem renunciar o mal da hipocrisia, do legalismo e do farisaísmo.

l) Os discípulos não devem dar escândalo e devem viver em uma atitude de perdão e reconciliação.

m) Os discípulos deveriam reconhecer em Jesus uma Presença salvadora e libertadora.

n) Os discípulos casados devem cultivar a fidelidade mútua por toda a vida.

o) Os discípulos - em especial os líderes da comunidade - devem cultivar a humildade.

p) Os discípulos devem reconhecer e aceitar a realidade e a gratuidade do perdão de Deus.

q) Todos os seguidores de Jesus terão parte na Sua Cruz.

r) A Nova Aliança dá cumprimento à Antiga.

s) Há que usar os próprios dons para colocá-los a serviço dos demais, se esperamos evitar a condenação divina.

F) Jesus cuidou de preparar Seus discípulos para a terrível experiência que iam enfrentar, quando se aproximava Sua Paixão.

1 Jesus parece ter avisado a Seus discípulos, mais de uma vez, que Seu ministério acabaria com Sua morte violenta.
2 Suas palavras e ações eucarísticas nos dão clara indicação de como Ele se aproximou da própria morte:
a) O pão: Ele esperava que o Pai transformasse Sua morte num evento doador de vida para Seus discípulos.
b) O cálice: Ele esperava que o derramamento do Seu sangue, como o rito de expiação, ia comprometer de novo Seus discípulos com o Pai, com Sua mensagem em um compromisso de Aliança.

16º SEGMENTO

IV
NA PRÁTICA, O QUE QUIS DIZER JESUS QUANDO FALAVA DO REINO DE DEUS?

A) Os exegetas estão, geralmente, de acordo que Jesus proclamou o Reino de Deus, mas discordam sobre o que quis dizer quando falava do Reino de Deus.

B) Uma leitura literária comparativa dos Evangelhos nos dá idéia de como Jesus concebia o Reino de Deus.

1 Nos sinópticos, o batismo e as tentações de Jesus introduzem ao ministério de Jesus como um todo.

2 Mais ainda, esta introdução encerra uma importante chave para entender o significado do ministério de Jesus como um todos.

a) Para Marcos, as tentações de Jesus no deserto começam com uma confrontação violenta das forças do mal, que culminaria na morte de Jesus.

b) Como vimos, tanto Marcos quanto Lucas descrevem com mais pormenores os tipos de tentação que Jesus sofre como começo de um novo Israel e afirma que estas tentações são dirigidas para afetar sua relação (e, implicitamente, a de qualquer cristão) com o Pai. Portanto, as tentações afetam também a experiência do conhecimento interno de Cristo, que atrai para a experiência do Abba de Jesus.

c) Além disso, em Mateus e Lucas, Jesus, como o começo do novo Israel mostra a Seus membros como responder às tentações de Satanás.

i) Jesus responde a Satanás citando o Antigo Testamento.

ii) O método histórico-crítico lê de maneira retrospectiva as respostas de Jesus e suas tentações, colocando-as no contexto no Antigo Testamento.

iii) Uma leitura literária dos Evangelhos vê, na narrativa das tentações, uma introdução ao Evangelho como um todo e, assim, busca o sentido total das respostas de Jesus às tentações na seqüência narrativa.

iv) Quando se lêem as respostas de Jesus a Satanás à luz de Seus ensinamentos, eles oferecem uma importante chave de leitura para compreender o que Jesus quer dizer, quando fala do Reino de Deus.

C) Jesus cita sempre o Antigo Testamento, quando responde às tentações de Satanás, tanto em Marcos quanto em Lucas. Mateus, bem como Marcos, desenvolvem uma teologia de cumprimento da missão, ainda que Mateus dê a esta relação temática mais relevância que Lucas.

1 Em Mateus, Jesus vem dar cumprimento a Lei e aos profetas.

2 O fato de Jesus citar a Torá para responder a Satanás faz entrar em jogo o tema do cumprimento.

3 Se lemos as citações que Jesus faz à luz dos seus ensinamentos, vemos que oferecem uma importante chave de leitura para ver como Ele dá cumprimento à Lei e aos profetas.

4 Mateus e Lucas organizam de modo distinto as tentações de Jesus, como já vimos. No que segue, me cingirei à ordem de Mateus.

D) Satanás, primeiro, põe Jesus à prova, tanto em Mateus como em Lucas, convidando-O a que confie em si e não no Pai, quanto ao cumprimento da missão, que acaba de receber do Pai depois do Seu batismo.

1 Jesus, no deserto, começa um jejum de quarenta dias

a) O jejum de quarenta dias recorda os quarenta anos em que Israel vagou pelo deserto e devia depender de Deus para sobreviver.

b) Os judeus não jejuavam para controlar seus apetites carnais, mas para recordar o Êxodo, durante o qual viveram numa dependência total de Deus para que a nação sobrevivesse.

c) Portanto, o jejum era uma expressão de confiança em Deus. O fato de que Jesus começasse o ministério com um jejum atípico, indica sua determinação em realizar a missão que o Pai Lhe havia encomendado, com confiança no Pai.

d) Tentando que Jesus interrompa o jejum, Satanás está, então, pressionando Jesus para que deixe de confiar no Pai e confie apenas em si.

e) Nas três tentações a resposta de Jesus esclarece o verdadeiro significado da tentação. Que Satanás, na primeira tentação, quer que Jesus deixe de confiar no Pai fica manifesto pela resposta de Jesus: Nem só de pão vive o homem; mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.

2 Uma leitura prospectiva e literária das tentações nos convida a buscar os ensinamentos de Jesus para compreender melhor esta primeira tentação já que ela e as restantes dão o contexto da narrativa que se segue.

Das três relações que Jesus tem com o Pais nos sinópticos, a confiança incondicional, o amor que O consome todo e a obediência perfeita à missão, aquela da qual Jesus mais fala é a confiança incondicional.

3 No ensinamento de Jesus como nas parábolas dos lírios do campo, a confiança no Pai significa confiança no cuidado providencial que Ele tem de cada um dos Seus.

a) A confiança no Pai nos ensina a olhar para Ele e não considerar as posses materiais como fontes eternas da própria vida.

b) Tal confiança chega a ter uma expressão prática na disponibilidade de compartilhar o próprio pão e outras posses físicas com os que tem menos do que nós, em particular com os pobres, os marginalizados, com aqueles de quem se prescinde.

c) A partilha cristã transforma o objetivo da fadiga humana: é impróprio para o cristão cansar-se para ficar rico.

i) Tanto em Mateus quanto em Lucas, o discípulo de Jesus tem de eleger entre Deus e a riqueza (Mammón)

ii) Em outras palavras, ele se cansa não para acumular riquezas, como o rico insensato de Lucas , mas para sustentar-se e para ter algo que possa partilhar com os necessitados.

iii) Assim como o partilhar não exclui esmolas (um copo d'água dado em meu nome terá recompensa), o tipo de partilha de que fala Jesus, geralmente, sucede em torno da mesa, e supõe hospitalidade.

iv) Em outras palavras, Jesus esta cuidando que nasça uma comunidade que partilhe com os pobres, os marginalizados, aqueles dos quais se prescinde, para que encontrem acolhida nos lares dos mais afluentes.

v) Numa comunidade assim nada faltará a ninguém. Todos terão satisfeitas suas necessidades básicas,

E) Em Mateus, Satanás põe à prova Jesus insinuando que se atire desde o pináculo do Templo, e assim forçando o Pai a enviar-lhe anjos que o resgatem.

1 Mais uma vez, a resposta de Jesus desmascara sua verdadeira intenção:

a) Satanás está tentando Jesus para que ponha à prova Deus. Por à prova Deus significa, na Bíblia, impor condições para confiar em Deus.

b) Deste modo, Satanás diz: Confia, então, no Pai, se é que deves. Mas, primeiro assegura-te que ele esteja a teu lado. Obriga-o a resgatar-te quando te atires do pináculo do Templo. Assim terás certeza de que realmente podes confiar nele.

c) A resposta de Jesus - Não tentarás o Senhor, teu Deus - rechaça a tentação, porque ela eqüivale ao ceticismo. Não somente Ele afirma que confia em Deus, mas que confia incondicionalmente.

2 No ensinamento de Jesus, a confiança na divina Providência se expressa no partilhar ajudas físicas em favor da vida dos necessitados.

a) A confiança incondicional requer, portanto, compartilhar incondicionalmente.

b) Partilhar incondicionalmente não exige dar tudo o que se tem e passar fome:

i) Exige que os discípulos em geral que partilhem com os outros não apenas segundo o mérito, mas segundo as necessidades.

ii) Exige dos discípulos escolhidos para a missão que vendam suas posses, as dêem aos pobres e sigam Jesus em Sua existência errante, ajudando, ao mesmo tempo, na proclamação do Reino de Deus.

c) A partilha incondicional trata de derrubar todas as barreiras do pecado, que nos separam uns dos outros.

i) O partilhar incondicionalmente une a Jesus que se senta à mesa com os pecadores.

ii) Jesus ignora o código de santidade de sua gente, porque o novo Israel, que ele cuidava de trazer à vida, deve incluir todos os socialmente excluídos dos benefícios da sociedade: pecadores, escravos, marginalizados, desterrados, pessoas consideradas desnecessárias.

d) O partilhar incondicionalmente trata de dar vida a uma comunidade internacional, que inclui a todos.

i) Jesus limita Seu ministério aos judeus palestinenses, porém o contato com os gentios e samaritanos de fé parece tê-lo feito cair em conta de que, um dia, os pagãos se congregariam no novo Israel ao qual Ele estava a ponto de trazer à vida.

ii) A visão de uma comunidade universal, que abrange a todos, oferece o contexto para compreender o dito que Jesus repete freqüentemente nos Evangelhos: Os últimos serão os primeiros.

1) Lido no contexto do século 1 na Palestina, este ditado significa que Jesus subvertia a estrutura hierárquica, socialmente estratificada, do Império Romano.

2) No novo Israel de Jesus, os pobres, os marginalizados, os escravos, os desnecessários contam como as pessoas mais importantes da comunidade, enquanto que os ricos devem, livremente, fazer-se escravos dos mais pobres, dos últimos.

3) Aqui encontramos uma importante razão pela qual Cristo foi crucificado.

F) Satanás, por fim, oferece a Jesus os reinos deste mundo, se Jesus se prostrasse e lhe rendesse homenagem.

1 De fato, Jesus diz: Muito bem! Se queres estabelecer um reino, faze-o Rende-me culto e eu te darei os verdadeiros reinos baseados no poder, na lei e na força.

2 Jesus replica: Ao Senhor teu Deus renderás homenagem e só a Ele prestarás serviço.

a) Jesus reconhece que fundar um reino segundo a lei, a força e a violência significa render culto a mal, e que Ele nada tem com isto.

b) Pelo contrário, Jesus insiste que o Reino de Deus não pode ter senão um fundamento sólido: o culto ao Pai.

i) Além disto, no ensino de Jesus nos sinópticos, só o perdão mútuo pode dar um autêntico culto ao Pai.

ii) No Sermão da Montanha, o Jesus de Mateus diz a Seus discípulos que se estamos indo ao templo para rezar e nos damos conta de que alguém tem alguma coisa contra nós, primeiro devemos nos reconciliar com esta pessoa, porque, se não o fazemos, a oração é um engano. Nos sinópticos, Jesus insiste uma e outra vez que o Pai não pode perdoar aos que não aceitam se perdoarem mutuamente, porque os que se recusam a fazê-lo se opõem a Deus, determinado em perdoar.

iii) O mútuo perdão dá autenticidade à oração cristã:

1) Proporciona o contexto definitivo para compreender em que consiste o partilhar incondicional do cristão: ele deve expressar-se no perdão e na reconciliação de uns com os outros.

2) Por isto o banquete se torna o contexto prioritário da vida cristã partilhada.

c) Então, se o perdão mútuo autentica o culto ao pai, o amor aos inimigos autentica o perdão mútuo. Aqui nos deparamos com a exigência mais forte que Jesus impõe a Seus discípulos.

i) Deixados a si mesmos, os seres humanos não sabem amar universalmente: amam a seus amigos, benfeitores e alguns familiares.

ii) Deixados a suas forças naturais, os seres humanos não amam aos estrangeiros nem aos inimigos: temem aos estrangeiros e temem e odeiam aos inimigos.

iii) O Evangelho, pelo contrário, chama a um amor universal, que só o Espírito de Cristo pode nos dar.

iiii) Pela mesma razão, o amor aos inimigos nos oferece a prova definitiva do conhecimento interno de Cristo.

3) A recusa de Jesus ao modelo de reino de Deus segundo os modelos deste mundo concorda plenamente com Sua proibição aos líderes cristãos de moldar sua relação pelos padrões dos reinos pagãos. E também concorda plenamente com seu repúdio ao clericalismo dos sacerdotes do Templo e o abuso destes da autoridade religiosa, que oprime aos demais e, sobretudo, aos pobres.

G) Nesta apresentação, defendi que uma leitura literária da narrativa da tentação nos sinópticos encerra uma importante chave para compreendermos o significado que Jesus deu ao Reino de Deus.

1 Convido-os que considerem a visão do Reino à luz de como Jesus se relaciona com Seus discípulos, segundo a minha descrição da dita relação na primeira parte desta apresentação, porque Sua relação com os discípulos nos oferece o contexto para compreender as exigências morais da vida no Reino de Deus.

Na apresentação seguinte, sustentareis que a visão que Jesus tem do Reino transformou profundamente a religião judaica, de uma religião fundada em leis e regras a uma religião fundada nos ideais mesmos encarnados na pessoa de Jesus.

Sustentarei também que a referida transformação da religião judaica conforma a maneira como a consciência cristã deve funcionar.


17º SEGMENTO

SEXTA APRESENTAÇÃO

IMAGINAÇÃO E CONSCIÊNCIA CRISTÃ

A PRÁTICA DO CONHECIMENTO INTERNO DE CRISTO

I
INTRODUÇÃO

Nesta última apresentação, em primeiro lugar, tratarei de resumir o argumento que defendi nas cinco apresentações anteriores. A seguir, à luz deste argumento, sugerirei um modelo normativo que a consciência cristã deveria seguir. Este modelo completará um esboço inicial do significado prático do conhecimento interno de Cristo.

COMO CRER INTUITIVAMENTE EM CRISTO TRANSFORMA A CONSCIÊNCIA CRISTÃ E, POR CONSEGUINTE, AS FORMAS DE CONVERSÃO MORAL

Na minha primeira apresentação, indiquei uma estrutura de conversão, que tirei, em parte da reflexão sobre os Exercícios Espirituais. Esta estrutura reconhece cinco formas de conversão e sete dinâmicas e contradinâmicas no processo de conversão:

1 Cinco formas de conversão: afetiva, intelectual, moral, sócio-política, e religiosa. A conversão cristã exemplifica um tipo particular de conversão religiosa.

2 Sustentava que a conversão cristã contribui com duas dinâmicas o processo completo da conversão:

a) 1ª dinâmica: a conversão cristã media entre a conversão afetiva e moral. Esta dinâmica corresponde à fé que justifica.

b) 2ª dinâmica: a conversão cristã supera as demais formas de conversão, colocando-as num marco de referência que necessita ser avaliado, de novo, na fé. Esta dinâmica corresponde à santificação.

3 Nestas apresentações, concentrei-me, sobretudo, no modo em que a conversão cristã transforma as crenças intuitivas da mente humana:

a) As crenças intuitivas procedem do pensamento imaginativo e dos juízos do sentir.

b) Examinei as dimensões imaginativas da fé por meio de uma leitura literária comparativa dos evangelhos sinóticos.

c) Esta leitura revela que a fé cristã tem um caráter prático inerente, porque nos compromete a crescer no conhecimento interno de Cristo: viver a imagem de Jesus pelo poder e unção de Seu Espírito.

4 Nesta apresentação refletirei sobre como o crer intuitivamente em Cristo transforma a consciência cristã e, por conseguinte, as duas formas de conversão moral.

III
A ANÁLISE DA RELAÇÃO DOS TRÊS EVANGELHOS SINÓTICOS ILUMINA O OBJETIVO DESTES EVANGELHOS

A análise da relação dos três Evangelhos sinóticos proposto nestas apresentações ilumina o objetivo destes Evangelhos.

A) Permite-nos identificar o público destes evangelistas:

1 Não escreveram para os bons: O Pai, o Espírito, o Batista, que estava morto.

2 Não escreveram para os maus, que dramatizam tudo o que um discípulo não deveria ser.

3 Na medida em que a multidão simboliza convertidos potenciais, a multidão poderia coincidir com um possível público.

4 Os evangelistas escreveram, em primeiro lugar, para discípulos sem fundamento: seguidores de Jesus, que continuam sendo ambivalentes em suas relações com Ele, o que requer uma resolução.

B) A análise de relação esclarece o porquê esses evangelistas contam a história de Jesus de modo um tanto distinta: cada comunidade, para a qual escreve cada um deles, tem necessidade de uma conversão distinta.

a) Marcos escreveu para um comunidade perseguida, marginalizada. O Evangelho de Marcos, provavelmente, dirá mais a pessoas numa situação semelhante: gente que experimentam opressão, discriminação, marginalização, ou que está correndo risco ao testemunhar o Evangelho.

b) Mateus escreveu o Evangelho da Igreja. Assim é que, provavelmente, este Evangelho falará mais a pessoas implicadas em diversos tipos de ministério eclesial. A polêmica de Mateus contra o clericalismo dirá muito a pessoas comprometidas em reformar a Igreja.

c) Lucas escreveu para os cristãos vindos do paganismo, tentados em se situar muito comodamente neste mundo e não dar muito importância às demandas exigentes da vida evangélica. Deste modo, provavelmente, o Evangelho de Lucas falará mais de perto a cristãos que vivem numa sociedade secular, inclinados a consentir, com demasiada facilidade, aos valores e costumes seculares.

C) A análise de relação esclarece o significado do conhecimento interno de Cristo, a saber: a assimilação prática de Jesus no poder de Seu Espírito.

a) É necessário por-se ativamente a qualquer instituição satânica, cujos valores contradizem a vontade de Deus revelada no Evangelho.

b) Temos de nos arrepender de todas as formas de legalismo farisaico, da crítica, do farisaísmo, da hipocrisia, dos ceticismo, de substituir a vontade de Deus por regras humanas, do desejo de honra, de cobiça, de pôr Deus à prova, de recusar a perdoar os demais, de ensinamento distorcido sobre a vontade de Deus, de escandalizar os outros, de solapar a fé dos outros, do clericalismo.

c) Temos de nos arrepender, também, dos vícios dos governantes poderosos, como os de Herodes: superstição, vacilação, sensualidade, falta de moderação, vaidade, respeito humano, cobiça, violência, avidez e abuso do poder para oprimir aos outros.

d) Os líderes da comunidade cristã devem arrepender-se, especialmente, dos vícios dos sumos sacerdotes: avidez, clericalismo, abuso da autoridade religiosa para oprimir e explorar aos demais, falta de arrependimento, negativa de escutar vozes proféticas na comunidade cristã, a ambição política, a vacuidade espiritual, a hipocrisia, a incredulidade, o ceticismo religioso, a cegueira frente a Jesus e sua imagem.

e) Todos os cristãos têm de renunciar aos falsos valores de instituições seculares céticas e opressoras como o Império Romano: hipocrisia, cobiça e violência institucionais, abuso da autoridade para oprimir os demais, farisaísmo e injustiça institucionalizadas.

2 Também as relações ambivalentes dramatizam os vícios que os discípulos de Jesus têm de evitar: a torpeza religiosa, a falta de fé, o fracasso em entender as exigências práticas da vida evangélica, a negativa para fazer o que os Evangelhos, a negativa de fazer o que os Evangelhos nos pedem, a solução religiosa intermédia, o negar-se a levar cruz.

Nestas apresentações, não desenvolvi este ponto, mas os sinóticos o indicam claramente.

3 Como vimos também, as relações dramáticas positivas definem as condições morais básicas para crescer no conhecimento interno de Cristo.

a) Em todos os Evangelhos, João Batista indica claramente que só Jesus batiza no Espírito Santo.

i) O batismo no Espírito proporciona, portanto, o contexto realista para a assimilação prática de Jesus no poder do Espírito.

ii) O batismo no Espírito nos situa na tríplice relação com o Espírito: arrependimento e conversão inicial (fé que justifica); santificação e processo contínuo de conversão; capacitação carismática; ressurreição do corpo.

iii) Não é possível equiparar o batismo do Espírito com a recepção de um dom particular. A conversão cristã adulta, porém, teria de culminar no momento pentecostal, quando se ouve a chamada do Espírito e se experimenta a capacitação do Espírito a um serviço à Igreja ou à humanidade.

b) Em todos os Evangelhos, o batismo no Espírito trata de atrair a pessoa até à mesma relação que Jesus teve com o Pai.

i) Em todos os Evangelhos, Jesus se relaciona com o Pai com confiança incondicional, amor que O consome todo, obediência perfeita à Sua missão de encarnar a proclamação do Reino.

ii) Os cristãos, que receberam o batismo no Espírito, devem fazer o mesmo

4 A relação temática dos ensinamentos de Jesus esclarece, posteriormente, o significado do conhecimento interno de Cristo.

a) Das três relações Ele teve com o Pai nos sinóticos, aquela da qual Jesus mais fala é a da confiança no Pai.

i)