A
PRÁTICA DA ESPIRITUALIDADE INACIANA
ENCONTRAR A DEUS NOS EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS
CURSO
DE DONALD L. GELPI, SJ, NA "CONSULTA ROMANA - 2003",
ORGANIZADA PELO
SECRETARIADO DA COMPANHIA DE JESUS PARA A ESPIRITUALIDADE INACIANA
TRADUÇÃO:
R. PAIVA, SJ
|
Pe.
Gelpi é Professor na Jesuit School of Theology em Berkley, Califórnia,
Estados Unidos. Esta é uma instituição de cunho ecumênico,
coligando 19 igrejas cristãs. Pe. Gelpi propõe considera os
Evangelhos, em particular os Sinóticos, do ponto de vista de que
constituem narrativas literárias, fortemente marcadas pelas maneiras
da narrativa oral. Mostra como a análise dos relacionamentos pode
conduzir a um entendimento eficaz dos textos em razão do seu uso
nos Exercícios.
Em razão da
extensão do texto, colocaremos na rede o curso integral dividido
em segmentos.
III
JESUS E O PAI
A)
MARCOS
Em
Marcos, o Pai envia Jesus como o Messias à imagem do Servo Sofredor
e Lhe envia o Espírito para que comece Sua revelação
como Espírito batizador.
1
Por conseguinte, Marcos torna inseparáveis a consciência
que Jesus tem do Abba e a consciência que tem de Sua missão
como Messias à imagem do Servo Sofredor.
2
Marcos faz uma afirmação narrativa em seu relato sobre o
batismo de Jesus, a saber, que o batismo no Espírito nos introduz
na experiência que Jesus tem do Abba, mostrando-nos um Jesus que
é o começo de um novo Israel e de uma nova Criação.
a)
Este fato converte o batismo de Jesus no protótipo do batismo
dos membros do novo Israel e da nova Criação.
b)
Marcos faz uma reafirmação narrativa deste
ponto no relato da Transfiguração, quando o Pai repete
a Pedro, Tiago e João as mesmas palavras que disse a Jesus.
3
Em Marcos, Jesus se relaciona com o Pai fundamentalmente de três
modos:
a)
Confiança incondicional;
b)
Obediência perfeita à missão recebida
do Pai;
c)
Amor
que o consome todo.
4
Outros aspectos da relação de Jesus com o Pai:
A
missão messiânica em Marcos põe Jesus imediatamente
em conflito com as forças demoníacas do mal:
a)
Marcos descreve um Evangelho do conflito, no qual Jesus é alienado
sistematicamente de todos, exceto da parte do Pai e do Espírito:
dos escribas e fariseus, de Sua mesma família, da gente de Nazaré,
das multidões, de Seus próprios discípulos, dos
sumos sacerdotes, que tramam sua crucifixão.
b)
O Jesus de Marcos nos é apresentado como o que tem poder sobre
Satanás e o reino dos espíritos do mal, apesar de Sua
alienação (a cura do leproso):
i)
como Aquele que tem poder de perdoar os pecados;
ii)
como Aquele que cria a família de Deus, ensinando
a Seus discípulos a obediência da fé;
iii)
como Aquele que pede a Seus discípulos que se perdoem
uns aos outros com a mesma gratuidade com que o Pai perdoa;
iv)
como Aquele que reafirma a intenção originária
do Pai ao criar o matrimônio e abolir as práticas do
divórcio fixadas por Moisés.
Sumário:
1
Dos três sinópticos, Marcos é o que menos
desenvolve a relação de Jesus com o Pai, ainda que faça
algumas afirmações importantes sobre esta relação,
avalizadas pelos outros evangelistas.
2
Marcos deixa claro que o batismo no Espírito (e, portanto, o conhecimento
interno de Cristo) nos atrai até à experiência que
Jesus faz do Abba.
3
Crescer em consciência do Abba significa aprofundar-se nas três
relações fundamentais de Jesus com o Pai: confiança
incondicional, amor que consome todo e obediência perfeita da missão
recebida do Pai.
B)
MATEUS
Mateus
reproduz as linhas principais do relato de Marcos sobre a relação
de Jesus com o Pai, mas embeleza o material de Marcos com muitos mais
ensinamentos sobre o Pai.
1
Marcos põe em relevo o fato mais que as palavras. Mateus
realça mais as palavras.
2
No evangelho da infância, Mateus somente usa uma vez
o termo Deus: na profecia de Emanuel (Deus conosco).
3
O
batismo de Jesus: Mateus nomeia as tentações que Jesus experimenta,
e todas têm relação com o Pai:
a)
Jesus sofre a tentação não só
como Messias, mas como começo do novo Israel (tentação
no deserto). Portanto, Jesus é para o novo Israel o modelo de
como responder a Satanás e de como relacionar-se com o Pai.
b)
Relação com o tema do cumprimento: Mateus põe na
boca de Jesus palavras da Torá para indicar os mandamentos específicos
da Lei que Ele cumpre:
i)
Primeira
Tentação: ser independente. Jesus responde com confiança;
ii)
Segunda Tentação: por à prova Deus.
Jesus responde com confiança incondicional;
iii)
Terceira Tentação: modelar o Reino segundo
os reinos deste mundo e fundá-lo sobre a lei, a coação
e a violência. Jesus rejeita a tentação como culto
demoníaco e funda o Reino somente sobre o autêntico culto
ao Pai.
iv)
Voltarei sobre as implicações morais das respostas de
Jesus a estas tentações ao falar da relação
de Jesus com Seus discípulos.
5
O ensinamento sobre o Pai: não há tempo de rever
em pormenor o que diz o Jesus de Mateus sobre o Pai. Voltaremos sobre
o tema na apresentação seguinte. As reflexões seguintes
são exemplos do ensinamento de Jesus sobre o Pai:
a)
O Pai Nosso é o modelo da oração cristã,
que resume a relação cristã com o Pai. Em Marcos
não encontramos o Pai Nosso, ainda que a oração
de Jesus no horto que Marcos apresenta ecoa uma das petições
do Pai Nosso.
i)
Pai Nosso: relação comunal (em contraste
com Lucas).
ii)
Nos céus: céu em Mateus é o trono
de Deus. Realça o sentido de reverência como Pai (em
contraste com Lucas).
iii)
Venha o Teu Reino, faça-se Tua vontade assim na
terra como no céu: compromisso de viver e difundir o Reino
de Deus.
iv)
Dá-nos
hoje o pão nosso de cada dia: confiança na providência,
que o fundamento da partilha cristã com os pobres.
v)
Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como perdoamos os que nos
ofendem: condição para aceitar o perdão divino,
a atitude que autentifica a oração, que é fundamento
do Reino. Depois do Pai Nosso, Mateus sublinha a necessidade do perdão
mútuo se esperamos gozar o perdão do Pai.
vi)
Não nos leves à prova, e livra-nos de todo o mal: os
limpos de coração vêem a Deus e os pacíficos
atuam como filhos de Deus.
b)
Duas bem-aventuranças estão inscritas em nossa relação
com o Pai: os limpos de coração vêem a Deus e os
pacíficos atuam como filhos de Deus.
c)
Como em Marcos, o novo Israel exemplifica a família
de Deus.
Sumário:
Que
acrescenta Mateus à nossa compreensão do batismo no Espírito
e, portanto, no conhecimento interno de Cristo?
1
Como Marcos, Mateus quer que Aquele que batiza no Espírito
se relacione com o Pai com confiança incondicional, um amor que
totalmente o consome e com obediência perfeita à missão
que o Pai Lhe conferiu.
2
A narrativa da tentação em Mateus vai mais além
da de Marcos, acrescentando que Aquele que batiza no Espírito não
tem que modelar o Reino pelos reinos tirânicos desta terra, mas
que há de alicerçar sempre o Reino de Deus no autêntico
culto do Pai.
3
O Pai Nosso de Mateus aumenta, ulteriormente, as condições
para crescer no conhecimento interno de Cristo:
a)
Intimidade compartilhada e reverente ao Pai;
b)
Anelo de que todos conheçam a Deus como Abba;
c)
Entrega apaixonada ao advento do Reino de justiça do pai, tanto
na terra como no céu;
d)
Confiança na providência do Pai até às
criaturas;
e)
Perdão
mútuo, que autentifica a oração que fundamenta
o Reino.
C) LUCAS
Também
Lucas avaliza e desenvolve o relato que Marcos apresenta da relação
de Jesus com o Pai.
1
Como Mateus, Lucas caracteriza a relação fundamental de
Jesus com o Pai como uma relação de confiança incondicional,
de amor que o consome todo, de obediência perfeita à missão
recebida do Pai.
2
Mas, em Lucas, se encontram acentos especificamente seus da relação
de Jesus com o Pai:
a)
Em contraste com as narrativas da infância de Mateus,
Lucas alude repetidamente ao Pai e em todas as referências o Pai
aparece como fonte eterna de salvação.
Os
seres humanos deveriam receber a intervenção salvadora de
Deus nos assuntos humanos com uma mescla de reverência e ação
de graças;
b)
Como Mateus, Lucas apresenta uma genealogia de Jesus, Mas elas diferem
bastante:
i)
A genealogia de Mateus abre o seu Evangelho; a de Lucas, é
inserida entre o batismo e as tentações de Jesus;
ii)
A genealogia de Mateus segue a ordem judaica: começa com os
próprios antepassados e termina com a última pessoa
gerada, Jesus. A de Lucas segue a ordem inversa, a dos gentios, começando
com Jesus e remontando aos antepassados.
iii)
Mateus manifesta a pertença judaica de Jesus e começa
sua genealogia com Abraão. Lucas evidencia acentuadamente:
1º)
O caráter universal da salvação de Jesus como
o último Adão;
2º) Como o uso que Paulo faz do imaginário adâmico,
o ser Filho de Deus da parte de Jesus supera o sentido da expressão
Adão, Filho de Deus.
3º) Colocando a genealogia entre o batismo e as tentações,
Lucas afirma o significado salvífico universal de ambos os
eventos.
3
O Jesus de Lucas reza ao Pai mas freqüentemente do que em qualquer
dos outros Evangelhos.
a)
Lucas enfatiza mais que Mateus a importância da oração.
O Jesus de Lucas faz de modelo da oração dos discípulos.
Ele ora no Getsêmani na presença dos discípulos.
b)
Lucas,
com parábolas como a do juiz injusto, realça mais que
Mateus e Marcos a importância de perseverar na oração.
4
Os três Evangelistas sinópticos fazem constar o sim total
de Jesus ao grande Mandamento e todos os três afirmam que este há
de ser interpretado à luz da proclamação que Jesus
faz do Reino de Deus.
a)
Em Marcos, Jesus pede ao que lhe coloca perguntas o que pensa sobre
o maior dos Mandamentos, e logo acrescenta: Não estás
longe do Reino de Deus.
b)
Em Mateus, Jesus acrescenta que a Lei e os profetas dependem do grande
Mandamento, recordando ao leitor que Jesus cumpre os dois.
c)
Em
Lucas, o interpelante que coloca a pergunta Quem é o meu próximo?
Jesus responde com a parábola do Bom Samaritano.
d)
Em outras palavras, Marcos afirma, simplesmente que o Reino
dá sentido último aos grandes Mandamentos. Mateus se serve
da história para desenvolver seu tema de que Jesus vem dar cumprimento
à Lei e aos Profetas. Lucas, como é típico dele,
recorre à entrega de amor pelo próximo como significado
último da universalidade da salvação que Jesus
traz.
5
No grande discurso sobre o caminho, somente o Jesus de Lucas
instrui a Seus discípulos sobre como relacionar-se com as três
Pessoas divinas durante a perseguição:
a)
Têm de ter mais reverência ao Pai do que aos perseguidores;
b)
Devem ser testemunhas fiéis e valentes de Jesus;
c)
Não devem blasfemar o Espírito com o pecado da apostasia,
mas que devem voltar o olhar para o Espírito a fim de que Ele
lhes ensine como testemunhar Jesus.
6
Tanto Mateus como Lucas insistem em que os discípulos
de Jesus têm de escolher entre Deus e a riqueza. Lucas, no entanto,
sublinha este ponto mais ainda nas parábolas do jovem rico e de
Lázaro.
7
Tanto Mateus como Lucas ensinam a confiar na providência do Pai,
contando a parábola dos lírios do campo. Lucas, porém,
mais do que Mateus, põe em evidência que Deus cuida também
daqueles que, pela Torá, são tidos como ritualmente impuros.
8
Lucas escreve o Evangelhos dos grandes perdões e evidencia, mais
que Mateus o desejo que o Pai tem de perdoar e se reconciliar com os pecadores:
parábola do filho pródigo.
Sumário:
No
seu relato da relação de Jesus com o Pai, Lucas concorda
com Marcos ao afirmar que Jesus e o Espírito - Batizador se relacionam
com o Pai numa atitude de confiança incondicional, de amor que
O consome todo e de perfeita obediência à missão recebida
do Pai.
a)
Lucas desenvolve ulteriormente as condições para criar
o conhecimento interno de Cristo, insistindo como mais força
ainda que Mateus em que o Pai deseja que todos tenham a experiência
que Jesus teve do Abba e cresçam no conhecimento interno de Cristo.
b)
Mais
que os outros sinópticos, Lucas considera a perseverança
na oração como o núcleo fundamental do conhecimento
interno de Cristo.
c)
Somente Lucas interpreta o amor ao próximo à
luz da parábola do Bom Samaritano e assim nos mostra que amar
como Cristo ama supõe amar aos inimigos e hereges.
IV
JESUS E O ESPÍRITO
Como
ocorre nas demais relações dramáticas positivas,
Marcos faz algumas afirmações fundamentais sobre a relação
de Jesus como Espírito, que os outros sinópticos desenvolvem.
1
O Espírito procede à unção messiânica
de Jesus como Filho amado do Pai e como o Messias, à imagem do
Servo Sofredor.
a)
Este evento supõe que o Espírito preside todo o ministério
de Jesus.
b)
Este mesmo evento batismal revela a Jesus e somente a Jesus como Aquele
que batiza no Espírito.
c)
Somente em Marcos, o Espírito conduz Jesus ao deserto
para que enfrente Satanás.
d)
Descrevendo a ação do Espírito, Marcos diz somente
que o Espírito inspirará o testemunho dos discípulos
sob a perseguição.
2
Marcos, pois, ensina claramente que o batismo no Espírito e
o conhecimento interno de Cristo derivam da inspiração
e da guia do Espírito e que isto, necessariamente, implica o enfrentar-se
com as mesmas forças do mal que crucificaram Jesus.
3
Mateus
confirma os tr6es pontos, porém acrescentando alguns próprios
seus:
a)
A concepção de Jesus por obra do Espírito revela
a origem divina e transcendente e descarta uma leitura adocionista
do batismo de Jesus.
b)
Jesus se relaciona com o Espírito de modo distinto que nós:
sob o sinal da pomba e não do fogo.
c)
O Espírito inspira as respostas de Jesus a Satanás
e inspirará também as respostas dos discípulos,
já que Jesus responde como o começo do novo Israel.
4
No que se refere ao conhecimento interno de Cristo:
a)
Mateus, dos três sinópticos, é o que põe
mais em evidência que o conhecimento interno de Cristo
se enraíza numa confissão da divindade de Jesus, ainda
que tanto Marcos quanto Lucas usem estratégias narrativa para
afirma a divindade de Jesus.
b)
Mateus, além disto, insiste mais claramente do que Marcos
em que o batismo no Espírito (conhecimento interno de Cristo)
supõe purificação.
c)
Como
em Marcos, nos momentos de prova devemos olhar o Espírito para
que inspire nossas respostas aos inimigos do Evangelho.
5
Dos três Evangelhos sinópticos, Lucas é o que apresenta
o relato mais detalhado da relação de Jesus com o Espírito.
Somente
Lucas descreve a experiência do batismo no Espírito no
segundo capítulo dos Atos.
No
Pentecostes, o Espírito chega sob o sinal do vento e do fogo,
como havia anunciado o Batista.
a)
Línguas de fogo descem sob a cabeça dos discípulos,
Elas transformam os discípulos numa comunidade profética
enviada a testemunhar o mistério pascal e a prolongar a missão
de Jesus no espaço e no tempo, encarnando e proclamando o Reino.
b)
As línguas sobre as cabeças dos discípulos aludem
também ao cometa luzente sobre a cabeça do Imperador
nas moedas romanas a partir de César, símbolo de sua
divindade. Há que se escolher entre a chama imperial e o Espírito
de Jesus.
c)
Lucas não identifica o batismo no Espírito com
a glossolalaia (o falar em línguas). O termo batismo não
se encontra no seu relato de Pentecostes até o final do sermão
de Pedro, onde se refere ao ritual do batismo.
d)
O primeiro efeito do batismo não é que os batizados
falem em línguas, mas que vivam a visão do Reino (At
4,42-47).
e)
A abundância dos carismas cria uma comunidade de fé,
na qual é possível receber o batismo. Isto é,
transforma o movimento de Jesus numa Igreja.
f)
O milagre de falar línguas estrangeiras não acontece
de novo em Atos e difere da descrição do dom das línguas
que faz Paulo.
g)
O milagre de falar línguas estrangeiras poderia exemplificar-se
como uma alusão midrashica à torre de Babel.
h)
Em Babel, Deus confundiu as línguas como um sinal da pecaminosidade
humana. Em Pentecostes, a confusão das línguas humanas
em glossolalaia dá começo à reunificação
de Israel, que culminará no Pentecostes dos gentios: batismo
de Cornélio e família.
6
Lucas, portanto, nos faz compreender melhor o significado do
batismo no Espírito e o crescimento no conhecimento interno
de Cristo:
a)
Insistindo no seu caráter comunitário: o Espírito
Pentecostal desce, primeiro, sobre a comunidade. Por conseguinte,
o batismo no Espírito e o conhecimento interno de Cristo
requerem a incorporação ritual na comunidade do Espírito.
b)
Insistindo
em que o conhecimento interno de Cristo tem um caráter
eclesial.
c)
Insistindo em que o batismo no Espírito (e, por conseguinte,
o conhecimento interno de Cristo) requer uma participação
ativa na comunidade profética que proclama, universalmente,
o Senhor ressuscitado.
d)
Insistindo
em que o batismo no Espírito e o conhecimento interno de
Cristo têm uma dimensão política:
1º)
Obriga a eleger entre o Reino de Deus e as forças
institucionais satânicas deste mundo;
2º)
Do
mesmo modo como Jesus, fazem com que enfrentemos profeticamente
essas mesmas forças , nos mesmos termos em que Ele as enfrentou.
7
Nesta apresentação, estivemos refletindo sobre
como as relações dramáticas positivas na cristologia
narrativa sinóptica lançam luz sobre as condições
de fundo para entra e crescer no conhecimento interno de Cristo.
Na
apresentação que se segue, examinaremos como a relação
de Jesus com seus discípulos aprofunda estas mesmas intuições,
dando-lhes um significado prático.
QUINTA
APRESENTAÇÃO
O SIGNIFICADO PRÁTICO DO CONHECIMENTO INTERNO DE CRISTO
I
RECAPITULANDO BREVEMENTE
Na
última apresentação, sugeria que as relações
dramáticas positivas nos Evangelhos sinópticos, a saber,
como Jesus se relaciona com João Batista, com o Pai e com o Espírito,
descrevem as condições básicas para entra e avançar
no conhecimento interno de Jesus Cristo.
A)
A relação de Jesus com João deixa claro
que Ele, e não João, batiza com o Espírito que
santifica e purifica.
B)
O batismo no Espírito nos leva até a mesma experiência
do Abba de Jesus e nos ensina a nos relacionarmos com o Pai com a
mesma confiança incondicional, o amor que O consome todo e
a obediência perfeita à missão recebida do Pai,
como fez Jesus.
C)
Entrar
na relação de Jesus com o Pai no poder do Espírito
nos introduz na experiência de conhecê-lo mediante a assimilação
prática a Ele no poder do Seu Espírito. Quando esta experiência
cresce, cresce o conhecimento interno de Cristo.
II
COMO, NA PRÁTICA, SE CRESCE NO CONHECIMENTO INTERNO DE CRISTO
A) Para fazê-lo, examinarei
as relações narrativas interrelacionadas: como Jesus
se relaciona com seus discípulos nos sinópticos e como
Seu ensinamento ilumina o significado prático do conhecimento
interno de Cristo.
B)
esta
apresentação se divide em duas partes:
1ª)
Uma primeira parte na qual se resume o que os sinópticos
nos têm a dizer sobre como Jesus se relaciona com os seus
discípulos.
2ª)
Uma segunda parte em que se resume o que o Jesus dos sinópticos
nos tem a dizer sobre a prática do que chamo conhecimento
interno de Cristo.
III
COMO Jesus SE RELACIONA COM SEUS DISCÍPULOS?
Jesus
disse a Seus discípulos a verdade sobre Sua relação
com o Pai e sobre as exigentes demandas que esta relação
imporia.
A)
O Jesus dos sinópticos insiste em que Seu seguimento
supõe empreender o caminho da Cruz.
1
Jesus teve dois tipos de discípulos
1º)
Discípulos comuns, como Marta, Maria, Lázaro,
que creram nele e procuraram viver sua mensagem em suas casas, ocupações,
trabalhos, etc.
2º)
Discípulos
chamados a acompanhá-lo na missão, deixando a vida comum,
e O ajudando na proclamação da Boa Nova.
a)
Por sua entrega à obra da evangelização,
Jesus tinha exig6encias particulares quando a estes discípulos
chamados a acompanhá-lo na missão.
b)
Jesus pedia aos outros discípulos, que permaneciam em suas
casas, que compartilhassem com os pobres segundo as necessidades
deles e não segundo o merecimento que tivessem. Dos que O
acompanhavam na missão exigia que vendessem o que possuíssem,
dessem aos pobres e que entrassem no círculo que O ajudava
na evangelização. Viviam das esmolas e da beneficência.
Compartilhavam com os pobres e necessitados.
c)
Jesus
mesmo, muito provavelmente, praticou o celibato pelo Reino. Não
pediu aos discípulos que O acompanhavam o celibato, mas que
antepusessem a obra da evangelização à mais
sagrada relação familiar.
d)
Jesus
chamou estes discípulos a que O seguissem profeticamente
e não aceitou automaticamente como discípulos íntimos
a quantos voluntariamente se ofereceram para sê-lo
e)
Jesus
os inseriu na obra da evangelização e supervisionou
o trabalho deles.
i)
Lucas nos conta que teve um momento em que Jesus enviou
72 discípulos para que preparassem as pessoas para que
O ouvissem proclamar o Reino.
ii)
Isto
sugere que os que O acompanhavam eram 72 ou mais.
iii)
Estes discípulos eram tanto homens quanto mulheres
1
Os Doze pertenciam a este círculo e exerciam
liderança entre eles, mas não esgotavam seu número.
2
Lucas
nos diz que as mulheres discípulas pertencia a esse círculo
"interno" dos discípulos. Um fato que deve
ter chocado aos judeus palestinos do 1º século.
3
Lucas nos diz também que havia mulheres ricas
entre essas discípulas.
4
A presença de mulheres neste círculo
dos que acompanhavam Jesus na missão põe em manifesto
o caráter igualitário da visão de Jesus:
tratava a todos por igual.
f)
Este discipulado de seguimento na evangelização
exige uma relação pessoal mais íntima com o Senhor.
2
Jesus advertiu tanto aos discípulos que deviam permanecer em
suas casas e ocupações comuns quanto aos que chamava à
acompanhá-lo na obra da evangelização que o fato
de se comprometerem por Ele e por Sua causa poderia afastá-los
de suas próprias famílias, assim como, aparentemente,
Seu compromisso Lhe alienou os membros de Sua própria família.
3
Jesus avisou a todos os seus discípulos e discípulas que
Sua proclamação do Reino acabaria em Sua própria
morte e o serem Seus discípulos os ia levar a enfrentar as mesmas
forças do mal que orquestrariam Sua morte.
B)
Ainda que o ser membro do Reino de Deus imponha exigentes
demandas aos discípulos de Jesus, Ele e Seus seguidores demonstraram,
vivendo-as, que o que Jesus trouxe a Israel era, na verdade, Boa Nova.
1
Jesus
não se limitou apenas a proclamar o Reino, mas viveu a mensagem
que proclamou e pediu a Seus discípulos e discípulas
que O acompanhavam na missão que fizessem o mesmo.
2
Pediu
a todos os Seus discípulos e discípulas o arrependimento
e a submissão às condições morais da
vida no Reino de Deus.
a)
A história do cristianismo mostra que, quando
as pessoas toam o Evangelho a sério e tratam de vivê-lo,
funciona.
b)
Ver viver o Evangelho proporciona os motivos mais básicos
para converter-se e viver segundo o mesmo Evangelho.
C)
Jesus não aceitou comprometer, Seu sentido de missão,
ou a visão que o inspirou nesta missão, apesar da constante
pressão por parte dos Seus discípulos e de outros para
que condescendesse. Os sinópticos dão a impressão
que a confissão de Pedro estabeleceu um marco no relacionamento
de Jesus com Seus discípulos, que o acompanhavam na missão.
a)
Pedro
e os demais parecem ter confundido as pretensões messiânicas
de Jesus com o messianismo davídico, que esperava a vinda
de um rei guerreiro, tal como Davi, para libertar Israel do poder
dos romanos.
b)
Jesus
não teria nada a ver com este tipo de messianismo e parece
que se viu mais como o Messias da profecia de Zacarias (Zc 9,9).
D)
Enfrentando a hostilidade dos inimigos do Evangelho, Jesus
parece ter ensinado a Seus discípulos a escolher o termo médio
entre a fuga e a luta. O andar mais uma milha além da exigida
ilustra este estratégia: os soldados romanos em marcha podiam
obrigar os civis a levarem sua bagagem uma milha, porém não
mais.
a)
O
soldado que forçasse o civil a carregar por mais de uma
milha sua bagagem iria ser castigado, provavelmente flagelado.
b)
O
termo médio entre a luta e a fuga exigia a alguém
que experimentasse uma situação de opressão
a fazer algo de surpreendente, que instasse o opressor a reconhecer
a dignidade do oprimido como pessoa, e que reconhecesse o caráter
opressor de sua ação, para que se arrependesse.
E)
Parece sumamente plausível que, chegando o tempo do ministério
final de Jesus em Jerusalém, Ele intensificasse a instrução
a Seus discípulo sobre a vida no Reino de Deus.
1
Marcos
e Lucas o afirmam do modo mais claro:
a)
Na
seção da viagem no seu Evangelho, Marcos divide
os ensinamentos de Jesus em três partes, pontuadas por uma
profecia da iminente paixão e morte de Jesus em Jerusalém:
1ª)
No primeiro segmento sobre a viagem, os discípulos
têm de aprender umas verdades de fundo sobre a vida no
Reino de Deus.
i)
Isto
exige estar dispostos a empreender o caminho da Cruz;
ii)
O caminho da Cruz culmina com a glória da Ressurreição.
iii)
Jesus,
como o Filho amado de Deus, fala com autoridade maior que
a da Lei e dos profetas.
iv)
Apesar da falta de fé dos discípulos, Jesus
tem o poder de libertá-los de Satanás e capacitá-los
a ouvirem o Evangelho.
b)
No segundo segmento de Marcos sobre a viagem, Jesus
instrui Seus discípulos sobre como viver em comunidade.
i)
Devem
servir os últimos e os mais vulneráveis da comunidade.
ii)
Devem
evitar um estreito exclusivismo reconhecendo os fatos da fé
ali onde se encontram, inclusive entre os que estão
fora do círculo dos que O acompanhavam na missão.
iii)
Devem
cultivar atos de caridade mútua.
iv)
Devem
evitar dar escândalo
v)
Têm
de acolher também aos menores no Reino (o batismo de
famílias inteiras na Igreja apostólica).
vi)
Têm
de cultivar o desprendimento de riquezas e possessões.
vii)
Têm
de encontrar sua verdadeira família na comunidade dos
discípulos.
c)
O terceiro segmento, trata da liderança cristã:
i)
Os
que ocupam funções de liderança, como
os Doze, devem evitar toda ambição.
ii)
Os
líderes não devem nunca tomar como modelo aos
reis dos gentios para o exercício de sua liderança
cristã.
iii)
Os
líderes cristãos hão de ter como único
modelo Jesus, o Messias servido que veio não para ser
servido, mas para servir e dar a Sua vida para a redenção
de muitos.
2
No discurso no caminho para Jerusalém, o Jesus
de Lucas inculca a seguinte lição prática sobre
o discipulado:
a)
O
discipulado comporta exigências, responsabilidades e privilégios.
A não violência constitui uma exigência fundamental.
b)
os
discípulos devem cultivar a pobreza cristã.
c)
A
fé constitui a medula do discipulado.
d)
Os
discípulos devem cultivar a oração de maneira
constante, expectante e persistente.
e)
Os discípulos devem viver com prontidão
escatológica para o juízo final.
f)
O
Reino é para abarcar a todos.
g)
O
Reino está presente já, e ainda não.
h)
Entrar
no Reino não é fácil, e requer verdadeiros
sacrifícios.
i)
Apesar da oposição, o reino de Deus triunfará.
j)
Os discípulos devem reconhecer que são
pecadores e cultivar o arrependimento verdadeiro para obter o
perdão e a justificação divinas.
k)
Em
concreto, os discípulos devem renunciar o mal da hipocrisia,
do legalismo e do farisaísmo.
l)
Os discípulos não devem dar escândalo
e devem viver em uma atitude de perdão e reconciliação.
m)
Os discípulos deveriam reconhecer em Jesus uma
Presença salvadora e libertadora.
n)
Os discípulos casados devem cultivar a fidelidade
mútua por toda a vida.
o)
Os discípulos - em especial os líderes
da comunidade - devem cultivar a humildade.
p)
Os discípulos devem reconhecer e aceitar a realidade
e a gratuidade do perdão de Deus.
q)
Todos os seguidores de Jesus terão parte na Sua
Cruz.
r)
A Nova Aliança dá cumprimento à
Antiga.
s)
Há que usar os próprios dons para colocá-los
a serviço dos demais, se esperamos evitar a condenação
divina.
F)
Jesus cuidou de preparar Seus discípulos para a
terrível experiência que iam enfrentar, quando se aproximava
Sua Paixão.
1
Jesus
parece ter avisado a Seus discípulos, mais de uma vez, que
Seu ministério acabaria com Sua morte violenta.
2
Suas
palavras e ações eucarísticas nos dão
clara indicação de como Ele se aproximou da própria
morte:
a)
O
pão: Ele esperava que o Pai transformasse Sua morte num evento
doador de vida para Seus discípulos.
b)
O
cálice: Ele esperava que o derramamento do Seu sangue, como
o rito de expiação, ia comprometer de novo Seus discípulos
com o Pai, com Sua mensagem em um compromisso de Aliança.
IV
NA PRÁTICA, O QUE QUIS DIZER JESUS QUANDO FALAVA DO REINO DE
DEUS?
A)
Os exegetas estão, geralmente, de acordo que Jesus proclamou
o Reino de Deus, mas discordam sobre o que quis dizer quando falava
do Reino de Deus.
B)
Uma leitura literária comparativa dos Evangelhos nos dá
idéia de como Jesus concebia o Reino de Deus.
1
Nos sinópticos, o batismo e as tentações
de Jesus introduzem ao ministério de Jesus como um todo.
2
Mais ainda, esta introdução encerra uma importante
chave para entender o significado do ministério de Jesus como
um todos.
a)
Para Marcos, as tentações de Jesus no deserto
começam com uma confrontação violenta das forças
do mal, que culminaria na morte de Jesus.
b)
Como vimos, tanto Marcos quanto Lucas descrevem com mais pormenores
os tipos de tentação que Jesus sofre como começo
de um novo Israel e afirma que estas tentações são
dirigidas para afetar sua relação (e, implicitamente,
a de qualquer cristão) com o Pai. Portanto, as tentações
afetam também a experiência do conhecimento interno
de Cristo, que atrai para a experiência do Abba de Jesus.
c)
Além disso, em Mateus e Lucas, Jesus, como o começo
do novo Israel mostra a Seus membros como responder às tentações
de Satanás.
i)
Jesus responde a Satanás citando o Antigo Testamento.
ii)
O
método histórico-crítico lê de maneira
retrospectiva as respostas de Jesus e suas tentações,
colocando-as no contexto no Antigo Testamento.
iii)
Uma leitura literária dos Evangelhos vê,
na narrativa das tentações, uma introdução
ao Evangelho como um todo e, assim, busca o sentido total das
respostas de Jesus às tentações na seqüência
narrativa.
iv)
Quando se lêem as respostas de Jesus a Satanás à
luz de Seus ensinamentos, eles oferecem uma importante chave de
leitura para compreender o que Jesus quer dizer, quando fala do
Reino de Deus.
C)
Jesus cita sempre o Antigo Testamento, quando responde
às tentações de Satanás, tanto em Marcos
quanto em Lucas. Mateus, bem como Marcos, desenvolvem uma teologia
de cumprimento da missão, ainda que Mateus dê a esta
relação temática mais relevância que Lucas.
1
Em
Mateus, Jesus vem dar cumprimento a Lei e aos profetas.
2
O fato de Jesus citar a Torá para responder a Satanás
faz entrar em jogo o tema do cumprimento.
3
Se lemos as citações que Jesus faz à
luz dos seus ensinamentos, vemos que oferecem uma importante chave
de leitura para ver como Ele dá cumprimento à Lei e
aos profetas.
4
Mateus e Lucas organizam de modo distinto as tentações
de Jesus, como já vimos. No que segue, me cingirei à
ordem de Mateus.
D)
Satanás,
primeiro, põe Jesus à prova, tanto em Mateus como em
Lucas, convidando-O a que confie em si e não no Pai, quanto
ao cumprimento da missão, que acaba de receber do Pai depois
do Seu batismo.
1
Jesus, no deserto, começa um jejum de quarenta dias
a)
O jejum de quarenta dias recorda os quarenta anos em que Israel
vagou pelo deserto e devia depender de Deus para sobreviver.
b)
Os judeus não jejuavam para controlar seus apetites
carnais, mas para recordar o Êxodo, durante o qual viveram
numa dependência total de Deus para que a nação
sobrevivesse.
c)
Portanto, o jejum era uma expressão de confiança
em Deus. O fato de que Jesus começasse o ministério
com um jejum atípico, indica sua determinação
em realizar a missão que o Pai Lhe havia encomendado, com
confiança no Pai.
d)
Tentando que Jesus interrompa o jejum, Satanás
está, então, pressionando Jesus para que deixe de
confiar no Pai e confie apenas em si.
e)
Nas três tentações a resposta de Jesus
esclarece o verdadeiro significado da tentação. Que
Satanás, na primeira tentação, quer que Jesus
deixe de confiar no Pai fica manifesto pela resposta de Jesus: Nem
só de pão vive o homem; mas de toda a palavra que sai
da boca de Deus.
2
Uma leitura prospectiva e literária das tentações
nos convida a buscar os ensinamentos de Jesus para compreender melhor
esta primeira tentação já que ela e as restantes
dão o contexto da narrativa que se segue.
Das
três relações que Jesus tem com o Pais nos sinópticos,
a confiança incondicional, o amor que O consome todo e a obediência
perfeita à missão, aquela da qual Jesus mais fala é
a confiança incondicional.
3
No
ensinamento de Jesus como nas parábolas dos lírios do
campo, a confiança no Pai significa confiança no cuidado
providencial que Ele tem de cada um dos Seus.
a)
A confiança no Pai nos ensina a olhar para Ele e não
considerar as posses materiais como fontes eternas da própria
vida.
b)
Tal confiança chega a ter uma expressão
prática na disponibilidade de compartilhar o próprio
pão e outras posses físicas com os que tem menos do
que nós, em particular com os pobres, os marginalizados,
com aqueles de quem se prescinde.
c)
A partilha cristã transforma o objetivo da fadiga
humana: é impróprio para o cristão cansar-se
para ficar rico.
i)
Tanto
em Mateus quanto em Lucas, o discípulo de Jesus tem de
eleger entre Deus e a riqueza (Mammón)
ii)
Em outras palavras, ele se cansa não para acumular
riquezas, como o rico insensato de Lucas , mas para sustentar-se
e para ter algo que possa partilhar com os necessitados.
iii)
Assim
como o partilhar não exclui esmolas (um copo d'água
dado em meu nome terá recompensa), o tipo de partilha de
que fala Jesus, geralmente, sucede em torno da mesa, e supõe
hospitalidade.
iv)
Em outras palavras, Jesus esta cuidando que nasça uma comunidade
que partilhe com os pobres, os marginalizados, aqueles dos quais
se prescinde, para que encontrem acolhida nos lares dos mais afluentes.
v)
Numa comunidade assim nada faltará a ninguém.
Todos terão satisfeitas suas necessidades básicas,
E)
Em Mateus, Satanás põe à prova Jesus
insinuando que se atire desde o pináculo do Templo, e assim
forçando o Pai a enviar-lhe anjos que o resgatem.
1
Mais uma vez, a resposta de Jesus desmascara sua verdadeira intenção:
a)
Satanás está tentando Jesus para que ponha à
prova Deus. Por à prova Deus significa, na Bíblia,
impor condições para confiar em Deus.
b)
Deste
modo, Satanás diz: Confia, então, no Pai, se é
que deves. Mas, primeiro assegura-te que ele esteja a teu lado.
Obriga-o a resgatar-te quando te atires do pináculo do Templo.
Assim terás certeza de que realmente podes confiar nele.
c)
A
resposta de Jesus - Não tentarás o Senhor, teu Deus
- rechaça a tentação, porque ela eqüivale
ao ceticismo. Não somente Ele afirma que confia em Deus,
mas que confia incondicionalmente.
2
No ensinamento de Jesus, a confiança na divina Providência
se expressa no partilhar ajudas físicas em favor da vida dos
necessitados.
a)
A confiança incondicional requer, portanto, compartilhar
incondicionalmente.
b)
Partilhar
incondicionalmente não exige dar tudo o que se tem e passar
fome:
i)
Exige que os discípulos em geral que partilhem
com os outros não apenas segundo o mérito, mas segundo
as necessidades.
ii)
Exige dos discípulos escolhidos para a missão
que vendam suas posses, as dêem aos pobres e sigam Jesus
em Sua existência errante, ajudando, ao mesmo tempo, na
proclamação do Reino de Deus.
c)
A partilha incondicional trata de derrubar todas as barreiras
do pecado, que nos separam uns dos outros.
i)
O
partilhar incondicionalmente une a Jesus que se senta à
mesa com os pecadores.
ii)
Jesus
ignora o código de santidade de sua gente, porque o novo
Israel, que ele cuidava de trazer à vida, deve incluir
todos os socialmente excluídos dos benefícios da
sociedade: pecadores, escravos, marginalizados, desterrados, pessoas
consideradas desnecessárias.
d)
O partilhar incondicionalmente trata de dar vida a uma
comunidade internacional, que inclui a todos.
i)
Jesus limita Seu ministério aos judeus palestinenses,
porém o contato com os gentios e samaritanos de fé
parece tê-lo feito cair em conta de que, um dia, os pagãos
se congregariam no novo Israel ao qual Ele estava a ponto de trazer
à vida.
ii)
A visão de uma comunidade universal, que abrange
a todos, oferece o contexto para compreender o dito que Jesus
repete freqüentemente nos Evangelhos: Os últimos serão
os primeiros.
1)
Lido no contexto do século 1 na Palestina, este
ditado significa que Jesus subvertia a estrutura hierárquica,
socialmente estratificada, do Império Romano.
2)
No novo Israel de Jesus, os pobres, os marginalizados,
os escravos, os desnecessários contam como as pessoas mais
importantes da comunidade, enquanto que os ricos devem, livremente,
fazer-se escravos dos mais pobres, dos últimos.
3)
Aqui encontramos uma importante razão pela qual
Cristo foi crucificado.
F)
Satanás, por fim, oferece a Jesus os reinos deste
mundo, se Jesus se prostrasse e lhe rendesse homenagem.
1
De
fato, Jesus diz: Muito bem! Se queres estabelecer um reino, faze-o
Rende-me culto e eu te darei os verdadeiros reinos baseados no poder,
na lei e na força.
2
Jesus replica: Ao Senhor teu Deus renderás homenagem
e só a Ele prestarás serviço.
a)
Jesus reconhece que fundar um reino segundo a lei, a
força e a violência significa render culto a mal, e
que Ele nada tem com isto.
b)
Pelo contrário, Jesus insiste que o Reino de Deus
não pode ter senão um fundamento sólido: o
culto ao Pai.
i)
Além disto, no ensino de Jesus nos sinópticos,
só o perdão mútuo pode dar um autêntico
culto ao Pai.
ii)
No Sermão da Montanha, o Jesus de Mateus diz
a Seus discípulos que se estamos indo ao templo para rezar
e nos damos conta de que alguém tem alguma coisa contra
nós, primeiro devemos nos reconciliar com esta pessoa,
porque, se não o fazemos, a oração é
um engano. Nos sinópticos, Jesus insiste uma e outra vez
que o Pai não pode perdoar aos que não aceitam se
perdoarem mutuamente, porque os que se recusam a fazê-lo
se opõem a Deus, determinado em perdoar.
iii)
O
mútuo perdão dá autenticidade à oração
cristã:
1)
Proporciona
o contexto definitivo para compreender em que consiste o partilhar
incondicional do cristão: ele deve expressar-se no perdão
e na reconciliação de uns com os outros.
2)
Por
isto o banquete se torna o contexto prioritário da vida cristã
partilhada.
c)
Então,
se o perdão mútuo autentica o culto ao pai, o amor
aos inimigos autentica o perdão mútuo. Aqui nos deparamos
com a exigência mais forte que Jesus impõe a Seus discípulos.
i)
Deixados a si mesmos, os seres humanos não sabem amar
universalmente: amam a seus amigos, benfeitores e alguns familiares.
ii)
Deixados a suas forças naturais, os seres humanos
não amam aos estrangeiros nem aos inimigos: temem aos estrangeiros
e temem e odeiam aos inimigos.
iii)
O Evangelho, pelo contrário, chama a um amor
universal, que só o Espírito de Cristo pode nos
dar.
iiii)
Pela mesma razão, o amor aos inimigos nos oferece a prova
definitiva do conhecimento interno de Cristo.
3)
A recusa de Jesus ao modelo de reino de Deus segundo os
modelos deste mundo concorda plenamente com Sua proibição
aos líderes cristãos de moldar sua relação
pelos padrões dos reinos pagãos. E também concorda
plenamente com seu repúdio ao clericalismo dos sacerdotes do
Templo e o abuso destes da autoridade religiosa, que oprime aos demais
e, sobretudo, aos pobres.
G)
Nesta
apresentação, defendi que uma leitura literária
da narrativa da tentação nos sinópticos encerra
uma importante chave para compreendermos o significado que Jesus deu
ao Reino de Deus.
1
Convido-os que considerem a visão do Reino à
luz de como Jesus se relaciona com Seus discípulos, segundo
a minha descrição da dita relação na primeira
parte desta apresentação, porque Sua relação
com os discípulos nos oferece o contexto para compreender as
exigências morais da vida no Reino de Deus.
Na
apresentação seguinte, sustentareis que a visão
que Jesus tem do Reino transformou profundamente a religião
judaica, de uma religião fundada em leis e regras a uma religião
fundada nos ideais mesmos encarnados na pessoa de Jesus.
Sustentarei
também que a referida transformação da religião
judaica conforma a maneira como a consciência cristã
deve funcionar.
SEXTA
APRESENTAÇÃO
IMAGINAÇÃO
E CONSCIÊNCIA CRISTÃ
A
PRÁTICA DO CONHECIMENTO INTERNO DE CRISTO
I
INTRODUÇÃO
Nesta
última apresentação, em primeiro lugar, tratarei
de resumir o argumento que defendi nas cinco apresentações
anteriores. A seguir, à luz deste argumento, sugerirei um
modelo normativo que a consciência cristã deveria seguir.
Este modelo completará um esboço inicial do significado
prático do conhecimento interno de Cristo.
COMO
CRER INTUITIVAMENTE EM CRISTO TRANSFORMA A CONSCIÊNCIA CRISTÃ
E, POR CONSEGUINTE, AS FORMAS DE CONVERSÃO MORAL
Na
minha primeira apresentação, indiquei uma estrutura
de conversão, que tirei, em parte da reflexão sobre
os Exercícios Espirituais. Esta estrutura reconhece
cinco formas de conversão e sete dinâmicas e contradinâmicas
no processo de conversão:
1
Cinco formas de conversão: afetiva, intelectual,
moral, sócio-política, e religiosa. A conversão
cristã exemplifica um tipo particular de conversão
religiosa.
2
Sustentava que a conversão cristã
contribui com duas dinâmicas o processo completo da conversão:
a)
1ª dinâmica: a conversão cristã media
entre a conversão afetiva e moral. Esta dinâmica
corresponde à fé que justifica.
b)
2ª dinâmica: a conversão cristã
supera as demais formas de conversão, colocando-as num
marco de referência que necessita ser avaliado, de novo,
na fé. Esta dinâmica corresponde à santificação.
3
Nestas apresentações, concentrei-me, sobretudo,
no modo em que a conversão cristã transforma as crenças
intuitivas da mente humana:
a)
As crenças intuitivas procedem do pensamento imaginativo
e dos juízos do sentir.
b)
Examinei as dimensões imaginativas da fé por meio
de uma leitura literária comparativa dos evangelhos sinóticos.
c)
Esta leitura revela que a fé cristã tem
um caráter prático inerente, porque nos compromete
a crescer no conhecimento interno de Cristo: viver a imagem
de Jesus pelo poder e unção de Seu Espírito.
4
Nesta apresentação refletirei sobre como
o crer intuitivamente em Cristo transforma a consciência cristã
e, por conseguinte, as duas formas de conversão moral.
III
A ANÁLISE DA RELAÇÃO DOS TRÊS EVANGELHOS
SINÓTICOS ILUMINA O OBJETIVO DESTES EVANGELHOS
A
análise da relação dos três Evangelhos
sinóticos proposto nestas apresentações ilumina
o objetivo destes Evangelhos.
A)
Permite-nos identificar o público destes evangelistas:
1
Não escreveram para os bons: O Pai, o Espírito,
o Batista, que estava morto.
2
Não
escreveram para os maus, que dramatizam tudo o que um discípulo
não deveria ser.
3
Na medida em que a multidão simboliza convertidos
potenciais, a multidão poderia coincidir com um possível
público.
4
Os evangelistas escreveram, em primeiro lugar, para
discípulos sem fundamento: seguidores de Jesus, que continuam
sendo ambivalentes em suas relações com Ele, o que
requer uma resolução.
B)
A análise de relação esclarece o
porquê esses evangelistas contam a história de Jesus
de modo um tanto distinta: cada comunidade, para a qual escreve
cada um deles, tem necessidade de uma conversão distinta.
a)
Marcos escreveu para um comunidade perseguida, marginalizada.
O Evangelho de Marcos, provavelmente, dirá mais a pessoas
numa situação semelhante: gente que experimentam
opressão, discriminação, marginalização,
ou que está correndo risco ao testemunhar o Evangelho.
b)
Mateus
escreveu o Evangelho da Igreja. Assim é que, provavelmente,
este Evangelho falará mais a pessoas implicadas em diversos
tipos de ministério eclesial. A polêmica de Mateus
contra o clericalismo dirá muito a pessoas comprometidas
em reformar a Igreja.
c)
Lucas escreveu para os cristãos vindos do paganismo,
tentados em se situar muito comodamente neste mundo e não
dar muito importância às demandas exigentes da vida
evangélica. Deste modo, provavelmente, o Evangelho de Lucas
falará mais de perto a cristãos que vivem numa sociedade
secular, inclinados a consentir, com demasiada facilidade, aos valores
e costumes seculares.
C)
A análise de relação esclarece o significado
do conhecimento interno de Cristo, a saber: a assimilação
prática de Jesus no poder de Seu Espírito.
a)
É necessário por-se ativamente a qualquer
instituição satânica, cujos valores contradizem
a vontade de Deus revelada no Evangelho.
b)
Temos de nos arrepender de todas as formas de legalismo
farisaico, da crítica, do farisaísmo, da hipocrisia,
dos ceticismo, de substituir a vontade de Deus por regras humanas,
do desejo de honra, de cobiça, de pôr Deus à
prova, de recusar a perdoar os demais, de ensinamento distorcido
sobre a vontade de Deus, de escandalizar os outros, de solapar
a fé dos outros, do clericalismo.
c)
Temos de nos arrepender, também, dos vícios
dos governantes poderosos, como os de Herodes: superstição,
vacilação, sensualidade, falta de moderação,
vaidade, respeito humano, cobiça, violência, avidez
e abuso do poder para oprimir aos outros.
d)
Os líderes da comunidade cristã devem
arrepender-se, especialmente, dos vícios dos sumos sacerdotes:
avidez, clericalismo, abuso da autoridade religiosa para oprimir
e explorar aos demais, falta de arrependimento, negativa de escutar
vozes proféticas na comunidade cristã, a ambição
política, a vacuidade espiritual, a hipocrisia, a incredulidade,
o ceticismo religioso, a cegueira frente a Jesus e sua imagem.
e)
Todos os cristãos têm de renunciar aos falsos
valores de instituições seculares céticas e
opressoras como o Império Romano: hipocrisia, cobiça
e violência institucionais, abuso da autoridade para oprimir
os demais, farisaísmo e injustiça institucionalizadas.
2
Também as relações ambivalentes
dramatizam os vícios que os discípulos de Jesus têm
de evitar: a torpeza religiosa, a falta de fé, o fracasso
em entender as exigências práticas da vida evangélica,
a negativa para fazer o que os Evangelhos, a negativa de fazer o
que os Evangelhos nos pedem, a solução religiosa intermédia,
o negar-se a levar cruz.
Nestas
apresentações, não desenvolvi este ponto, mas
os sinóticos o indicam claramente.
3
Como vimos também, as relações
dramáticas positivas definem as condições
morais básicas para crescer no conhecimento interno de
Cristo.
a)
Em todos os Evangelhos, João Batista indica claramente
que só Jesus batiza no Espírito Santo.
i)
O batismo no Espírito proporciona, portanto,
o contexto realista para a assimilação prática
de Jesus no poder do Espírito.
ii)
O batismo no Espírito nos situa na tríplice
relação com o Espírito: arrependimento
e conversão inicial (fé que justifica); santificação
e processo contínuo de conversão; capacitação
carismática; ressurreição do corpo.
iii)
Não é possível equiparar o batismo
do Espírito com a recepção de um dom particular.
A conversão cristã adulta, porém, teria
de culminar no momento pentecostal, quando se ouve a chamada
do Espírito e se experimenta a capacitação
do Espírito a um serviço à Igreja ou à
humanidade.
b)
Em todos os Evangelhos, o batismo no Espírito
trata de atrair a pessoa até à mesma relação
que Jesus teve com o Pai.
i)
Em todos os Evangelhos, Jesus se relaciona com o
Pai com confiança incondicional, amor que O consome todo,
obediência perfeita à Sua missão de encarnar
a proclamação do Reino.
ii)
Os cristãos, que receberam o batismo no Espírito,
devem fazer o mesmo
4
A relação temática dos ensinamentos
de Jesus esclarece, posteriormente, o significado do conhecimento
interno de Cristo.
a)
Das três relações Ele teve com
o Pai nos sinóticos, aquela da qual Jesus mais fala é
a da confiança no Pai.
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