A
PRÁTICA DA ESPIRITUALIDADE INACIANA
ENCONTRAR A DEUS NOS EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS
CURSO
DE DONALD L. GELPI, SJ, NA "CONSULTA ROMANA - 2003",
ORGANIZADA PELO
SECRETARIADO DA COMPANHIA DE JESUS PARA A ESPIRITUALIDADE INACIANA
TRADUÇÃO:
R. PAIVA, SJ
|
Pe.
Gelpi é Professor na Jesuit School of Theology em Berkley, Califórnia,
Estados Unidos. Esta é uma instituição de cunho ecumênico,
coligando 19 igrejas cristãs. Pe. Gelpi propõe considera os
Evangelhos, em particular os Sinóticos, do ponto de vista de que
constituem narrativas literárias, fortemente marcadas pelas maneiras
da narrativa oral. Mostra como a análise dos relacionamentos pode
conduzir a um entendimento eficaz dos textos em razão do seu uso
nos Exercícios.
Em razão da
extensão do texto, colocaremos na rede o curso integral dividido
em segmentos.
7º
SEGMENTO
B)
O Rei Herodes
Cada
um dos sinópticos trata Herodes de modo um tanto diferente. Mas
nos três, ele é um adversário de Jesus.
1
Como já vimos, o Jesus de Marcos alerta seus discípulos
contra o fermento de Herodes. Mas não é definido seu sentido.
Marcos
quer que o leitor medite o que Herodes diz e faz no seu Evangelho e
reconhece que os vícios e atitudes do rei judeu são totalmente
incompatíveis com um autêntico culto eucarístico.
2
Mateus dá menos a importância ao conflito entre Jesus e
Herodes, já que o Jesus de Mateus alerta os discípulos
contra o fermento dos fariseus e saduceus.
a)
Os saduceus no século 1 resistiram, no judaísmo, às
tendências rigoristas dos fariseus, recusando-se a pedir dos
judeus mais do que o requerido pela Lei.
b)
Ao contrário de Jesus e dos fariseus, os saduceus negavam tanto
a existência dos anjos como a ressurreição do
corpo (o ponto de divergência mais importante para Mateus).
c)
Em todo o seu Evangelho, Mateus une os fariseus aos saduceus,
como símbolos de um ceticismo que espalha falsas doutrinas.
d)
Como vimos, por o fermento dos fariseus e dos saduceus Mateus
quer se referir, precisamente, a uma falsa doutrina, pois ele considera
os líderes fariseus a sinagoga da oposição, herdeiro
espirituais dos saduceus.
1
No tempo de Jesus, os saduceus negavam a possibilidade da
ressurreição do corpo. No tempo em que Mateus escreveu
seu Evangelho, os líderes fariseus da sinagoga de Antioquia tratavam
de persuadir os cristãos de que Jesus tivesse ressuscitado dos
mortos.
2
Ambos
os grupos simbolizavam a falta de fé na Ressurreição.
e)
Já que Mateus põe em guarda contra o fermento
de Herodes, Herodes desempenha um papel simbólico sem destaque
no seu Evangelho
1
Mateus escreveu em um tempo quando a Igreja começava
a consolidar suas estruturas institucionais.
2
Além
disso, encontramos forte polêmica em Mateus contra o pecado do
clericalismo, que ele atribui aos líderes cristãos, querendo
imitar o estilo de liderança dos fariseus da sinagoga judaica.
3
Em todos
os três sinópticos, Jesus admoesta os Doze a nunca imitarem,
no exercício da liderança cristã, o estilo dos
reis gentios, como o tirânico Herodes.
f)
Como símbolo
moral, pois, em Mateus, Herodes funciona como o oposto da liderança
cristã: o tirânico rei encarna todos os vícios que
os líderes cristãos hão de evitar, principalmente
o abuso de autoridade em benefício próprio, oprimindo
os demais.
3
Lucas intensifica a hostilidade e o conflito entre Jesus e Herodes.
a)
Somente ele apresenta Herodes como querendo matar Jesus.
b)
Somente
em Lucas, Herodes intervém no processo contra Jesus.
1
Quando Pilatos se inteira de que Jesus era da jurisdição
de Herodes, ele o envia ao rei para que o julgue.
2
Em vez de libertar Jesus, como teria podido fazer, Herodes
o devolve a Pilatos e assegura a crucifixão.
3
Nos Atos,
Lucas apresenta a morte de Jesus como o resultado de uma conspiração
entre Herodes e Pilatos para destruir o Filho messiânico de Deus.
c)
Tanto Marcos quanto Lucas representam o Império Romano
como uma organização satânica.
1
Marcos o faz no exorcismo dos endemoninhados gerasenos, que se atribuem
o nome de Legião.
a)
Roma
conquistou outros povos com suas legiões e, por meio delas,
controlou brutalmente seu império.
b)
Em Marcos, quando a Legião morre com os porcos no
mar da Galiléia, este evento revela que Jesus fará,
provavelmente, com Roma o que Javé fez com Faraó e seu
exército.
c)
Marcos considera Roma como satânica porque o imperador Nero
acabava de aniquilar a Igreja romana com sua perseguição.
2
Lucas insiste mais do que Marcos no caráter satânico não
só de Roma, mas de qualquer instituição que encarne
os mesmos pecados que o Império Romano.
a)
Somente em Lucas, em sua narrativa sobre as tentações,
Satanás, quando oferece a Jesus todos os reinos do mundo, lhe
afirma que o pode fazer porque todos eles pertencem realmente ao príncipe
dos demônios.
2)
Em outros
termos, Lucas, em contraste com Marcos, considera todas as instituições
opressivas como o Império Romano como a encarnação
institucional do Anticristo.
d)
Lucas põe às claras o conflito entre Jesus
e Herodes, porque Herodes, sendo um dos reis clientes do Império
Romano, pertence ao reino de Satanás.
1
Em Lucas, o papel de Herodes, assegurando a crucifixão
de Jesus, dramatiza o que na sua narrativa evangélica, ele afirma
sobre as tentações: quem quer que opte por seguir Jesus
deve rechaçar todos os valores satânicos encarnados nas
instituições políticas e econômicas opressoras
como o Império Romano.
2
Assim, o Evangelho de Lucas politiza mais do que os outros
o arrependimento cristão: os cristão devem arrepender-se
não somente do pecado pessoal, mas devem também rejeitar
o pecado institucional.
e)
O Evangelho de Lucas censura, em particular, a cobiça
e a violência, substituindo-as com a inquietude ativa pelos pobres
e o perdão mútuo.
Sinopse:
se juntarmos os três retratos de Herodes que encontramos nos
sinópticos, vemos que o Herodes de Marcos simboliza a superstição,
a vacilação, a sensualidade, a vaidade, o respeito humano,
a cobiça, a ambição, a ânsia pelo poder e
o uso inescrupuloso do poder para oprimir e matar. A teologia de Mateus
transforma Herodes em símbolo do que se opõe a uma liderança
cristã. Por sua vez, Lucas se serve de Herodes para desafiar
os cristãos a rejeitar todos os valores pecaminosos encarnados
nas instituições tirânicas como o Império
Romano, em particular a cobiça e a violência.
8º
SEGMENTO
C)
Os sumos sacerdotes
Provavelmente,
Marcos escreveu o primeiro evangelho. Mateus e Lucas o usaram, provavelmente,
como fonte, Mateus e Lucas reproduzem o relato de Marcos sobre as
questões que separavam Jesus dos sumos sacerdotes.
1
Provavelmente, Jesus orquestrou a entrada triunfal para
que se cumprisse Zc 9,9. Se for assim, então a entrada triunfal
teria certas pretensões messiânicas.
a)
Jesus rejeita o messianismo davídico, mas não
encontramos uniformidade na esperança messiânica do
século 1.
b)
N. T. Wright interpreta corretamente a reposta de Jesus
à pergunta de João (Batista) como mostrar pretensões
messiânicas.
c)
Jesus redefiniu o significado de Messias e encarnou e proclamou
um reino de paz, justiça e não violência.
2
A purificação do Templo tinha implícitas pretensões
messiânicas: supunha-se que o Messias tinha de purificar o culto.
Na
purificação do Templo e na história do óbolo
da viúva, Jesus denunciou o uso que os sacerdotes faziam do
Templo e do imposto pago ao Templo para enriquecer-se, desprezando
o pobres.
3
Outros
problemas entre Jesus e os sacerdotes:
a)
Os sacerdotes não haviam conseguido arrepender-se
e escutar a mensagem de João e de Jesus
b)
Jesus
profetizou a destruição do Templo e considerou os
sacerdotes os principais responsáveis pelo acontecimento.
c)
Jesus reprovou o ceticismo dos saduceus, que negam a
ressurreição do corpo.
4
John P. Meier insiste, corretamente, sobre o estado laical
de Jesus.
a)
Jesus não pertencia à tribo de Levi e nunca
atuou como um sacerdote levita.
b)
No ministério de Jerusalém, um profeta
leigo de Nazaré se defrontou com uma hierarquia sacerdotal
poderosa. Um homem do povo leigo, filho de um carpinteiro de povoado
denunciou a cobiça e a avareza de uma aristocracia sacerdotal
rica e proprietária de terras. Um visionário profeta
leigo, com um sonho religioso de um Israel tão transformado
que poderia ser instrumento de Deus para a salvação
mais universal, defrontou-se com uma elite sacerdotal, que colaborou
com os tirânicos romanos e que conhecia ouso do poder e do
compromisso religioso e político.
Sumário:
em conjunto, portanto, os sumos sacerdotes funcionam nos sinópticos
como o oposto aos líderes cristãos, que devem evitar todo
vazio religioso, encarnado no culto do Templo; a falta de arrependimento
e o ceticismo dos sacerdotes; seu abuso de autoridade religiosa para
oprimir os pobres e os vulneráveis. Além disso, o conflito
de Jesus com os sumos sacerdotes põe às claras que o Deus
cristão a quem Jesus encarna e revela abomina o pecado do clericalismo.
D) Pilatos e o Império Romano
1
A história de Josefo sobre as guerras romanas na
Judéia nos dá mais informações sobre Pilatos
do que as encontradas nos Evangelhos. Parece-me que esta informação
seja compatível com o que dizem os Evangelhos
O
Pilatos
da história de Josefo se parece com o típico burocrata
romano, que empreendeu várias obras públicas com a intenção
de que seus súditos se aproveitassem, insensível aos
sentimentos religiosos dos judeus, aos quais governava, um homem que
vacilava, especialmente ao defrontar-se como o que considerava fanatismo
religiosos, um administrador capaz de tomar medidas violentas e desapiedadas
para alcançar seus fins, um oficial romano, que, provavelmente,
mantinha boas relações de trabalho com Caifás,
o sumo sacerdote.
2
Cada um dos evangelistas sinópticos, como é
previsível, apresenta mais ou menos o mesmo relato do processo
e da morte de Jesus. No entanto, cada qual dá ao relato um
matiz distinto e um aspecto teológico distinto.
a)
Marcos mostra que, durante o processo de Jesus, Pilatos
tenta, sem consegui-lo, livrar-se de Jesus.
1
Alguns exegetas sustentam que os evangelistas estavam pintando
um retrato de Pilatos mais favorável do que o dos sumo sacerdotes,
para ganhar o favor das autoridades romanas.
2
Visto que Marcos, provavelmente, escreveu para uma comunidade
dizimada pela perseguição de Nero, duvido que tenha
tido muito interesse em afagar o Império Romano. Ele, talvez,
apresenta seu mais claro juízo sobre o Império quando
prediz que Jesus destruirá Roma e suas legiões assim
como Deus destruiu Faraó, seus cavaleiros e seus carros de
guerra.
3 Sabemos
que não é de se supor que magistrados romanos se intrometessem
em questões religiosas dos povos que governavam.
4 Neste
contexto, acho totalmente plausível que Pilatos se desse conta
de que Jesus não apresentava sério perigo para Roma,
visse que os sacerdotes queriam sua crucifixão por motivos
religiosos e se sentisse contrário a envolver-se numa peleja
religiosa interna dos judeus.
b) Marcos apresenta o processo de Jesus e a crucifixão
como a culminância de sua marginalização e exclusão
sistemática.
c) O
Jesus de Marcos recita, antes de morre, a oração do
pobre inocente, que não tem ninguém a quem apelar,
a não ser a Javé e que pode esperar a justificação
divina.
d)
O
Jesus de Marcos morre logo, lançando um grito violento, que
dramatiza a violência de sua luta contra as forças
do mal.
e)
Em Marcos, portanto, o rasgar-se do véu do Templo,
após a morte de Jesus é um sinal de que Ele fora escutado
nos céus.
1
O rasgar-se
do véu pressagia a destruição do Templo e simboliza
o final de uma ordem religiosa e o amanhecer de uma ordem nova.
2
Já
que o rasgar-se do véu do templo esteve coberto de estrelas,
alguns vêem também nisto uma referência ao batismo
de Jesus, no qual os céus se abriram, o Espírito desceu
sobre Jesus, como um sinal de que Ele é o Filho amado de Deus
e o começo do novo Israel, assim como o Messias, imagem do
Servo Sofredor.
3 Sendo
assim, o rasgar-se do véu do Templo em Marcos recorda, então,
ao leitor, no momento da morte de Jesus, que sua morte forma parte
de uma economia divina de salvação.
f) Mateus, quando trata do processo de Jesus, põe
em relevo a desobediência de Pilatos a Deus e sua hipocrisia.
1
Em Mateus, os sonhos dão um acesso privilegiado ao conhecimento
da vontade de Deus (pensemos na narrativa da infância de Jesus).
a) Desobedecendo à advertência de Deus no
sonho de sua mulher para que não tivesse nada a ver com a condenação
de Jesus, Pilatos desobedece a Deus e, em última análise,
mata Jesus.
b) Logo Pilatos dá um jeito em sua vilania, lavando,
hipocritamente, as mãos e proclamando-se inocente do sangue
de Jesus.
2
Em Mateus, as multidões, quando pedem a morte de
Jesus, pedem que Seu sangue se derrame sobre si e sobre seus filhos.
a) No correr do tempo este texto tem sido usado para justificar
a perseguição ao povo judeu.
b) Em Mateus, este evento funciona como parte de sua polêmica
com a sinagoga da oposição.
c) A
história alude ao anúncio do nascimento de Jesus feito
a José, no qual se promete que Jesus salvará o povo
dos seus pecados, porque Mateus usa o mesmo termo no processo de Jesus
para designar a multidão.
d) De
fato, por meio da história, Mateus diz a seus contemporâneos
judeus: Pedistes que o sangue de Jesus se derramasse sobre vocês
em retribuição. Vejam o que ocorreu: Jerusalém
caiu, o Templo deixou de existir. Pois bem, se vocês se converterem
com fé a Jesus, experimentareis seu sangue como uma realidade
de expiação e salvação.
e) O
manto de púrpura que os soldados colocaram nos ombros de Jesus,
caçoando dele (que continua na cena) poderia aludir ao manto
de púrpura usado no rito judaico da expiação.
f) Mateus descreve a morte de Jesus como um evento de juízo
apocalíptico (claramente revelatório).
1 Um
terremoto apocalíptico se segue à morte de Jesus.
2 Os
sepulcros se abrem e muitos santos ressuscitam quando Jesus morre:
claro sinal de que Sua morte trás ressurreição.
3 Outro
terremoto acompanha a descoberta do sepulcro vazio e manifesta que
não é possível separar a morte salvadora de Jesus
de sua ressurreição.
4 Os
terremotos em Mateus ligam a morte e a ressurreição
de Jesus com os dois outros terremotos em Marcos:
a) No
relato em que Marcos descreve Jesus acalmando as ondas, um terremoto
agita o mar e quase afunda o barco em que se encontravam Jesus e seus
discípulos. A tormenta acalmada é presságio da
manifestação da divindade de Jesus durante o caminhar
sobre as águas, dele e de Pedro, e a segunda tempestade serenada
da história.
b) Jesus
provoca um terremoto social em Mateus, quando entra triunfante em
Jerusalém, fato que dota este evento de um significado crítico
e apocalíptico.
c)
Lucas,
no relato que faz do processo de Jesus, mostra Pilatos ameaçando
fazer flagelar Jesus, mas não mostra a execução.
1 Somente Lucas descreve o encontro de Jesus com as mulheres
discípulas, em lágrimas, no caminho do Calvário.
2 Lucas
escreve o evangelho dos grandes perdões, em parte para animar
a comunidade a que siga mais o perdão de Jesus que a violência
e a vingança da sociedade pagã, e, mais tipicamente
ainda apresenta a morte de Jesus como a suprema expressão do
amor divino.
a) Em alguns manuscritos do Evangelho de Lucas (mas não
em todos), Jesus pede ao Pai que perdoe a seus assassinos.
b) Somente
Lucas indica claramente que Jesus perdoe ao bom ladrão crucificado.
c) Lucas
também indica claramente que Jesus morreu confiando totalmente
no Pai.
d) Em
Lucas, o modo de Jesus morrer motiva o testemunho do centurião
e pressagia a conversão dos gentios.
e) Em
Lucas, o modo de Jesus morrer faz com que a multidão se arrependa
sobre o Calvário e pressagia das conversões maciças
do dia de Pentecostes.
Sumário:
se unimos os traços de Pilatos nos três sinópticos
num retrato coletivo, o governador romano dramatiza o que significa
governar como um dos reis pagãos e serve de contraste a todos
os líderes cristãos. Seu crime legalizado contra o Filho
de Deus serve também, sem que ele o pretendesse, de instrumento
de Deus para a salvação.
9º
SEGMENTO
E)
Satanás
Poder-se-iam
dizer muitas coisas sobre a relação de Jesus com Satanás
nos sinópticos, mas, para sermos breves, limito-me às
tentações de Jesus no deserto.
1
Marcos coloca as tentações logo depois do
Seu batismo.
a)
Em
Marcos, o Espírito leva Jesus ao deserto, expressando assim
a violência da confrontação de Jesus com as
forças do mal.
b)
Tanto Mateus quanto Lucas usam um termo mais suave, porém
por distintas razões:
1
Mateus não acrescenta nenhuma observação
sobre o conflito dos exorcismos de Jesus, porque julga indecoroso
que o Emanuel ("Deus conosco") discuta com os demônios
como faz Jesus em Marcos. O Jesus de Mateus exorciza os demônios
com suprema autoridade divina por uma simples ordem.
2)
Lucas quer descrever Jesus como o profeta gozoso da boa
nova e o faz sempre conquistar Satanás no deserto.
3)
No final das tentações, Satanás retira-se
até um momento mais oportuno, isto é, no tempo da paixão
de Jesus.
2
Jesus enfrenta Satanás no deserto como sinal
do começo do novo Israel e mostra a seus discípulos
como resistir a Satanás, a suas obras e suas pompas. Tanto
Mateus quanto Lucas desenvolvem este tema de modo mais pormenorizado,
descrevendo as tentações que Jesus sofre.
a)
Tanto em Mateus como em Lucas, a tentação
em Jesus pressagia os tipos de tentações que o novo
Israel enfrentará, enquanto que Suas respostas são
modelo de como responder a Satanás.
b)
Tanto em Mateus como em Lucas, as tentações
desmascaram a estratégia de Satanás de solapar a fé.
1
A última tentação em ambos os Evangelhos faz de
tentação culminante de Jesus e do novo Israel, ao qual
Ele dá começo.
2
A polêmica de Mateus contra o clericalismo o leva a
considerar a tentação de moldar o Reino de Deus à
imagem dos reinos deste mundo como o cúmulo da tentação
cristã.
3
Lucas põe em último lugar a impor provas a
Deus, porque, para ele uma condição para confiar em Deus
encontra expressão prática em pouco menos que uma generosidade
total para com os pobres (lembrar a história de Ananias e Safira
nos Atos).
Sumário:
voltarei ao significado profundo da narrativa das tentações
em outro contexto. Aqui, basta notar que, tanto para Mateus quanto para
Marcos, Satanás trata de solapar a fé em Jesus:
1
Tentando os cristãos para que confiem mais em si do
que em Deus.
2
Pondo condições a sua disponibilidade para
confiar em Deus.
3
Fundamentando o Reino de Deus sobre a Lei, a coação,
os poderes políticos.
IV
Crescer no conhecimento interno de Cristo
Nesta 3ª apresentação, sugeri
algumas das coisas que os Evangelhos têm a nos dizes sobre o tipo
de arrependimento que deve cimentar o crescimento no conhecimento interno
de Cristo pela assimilação a Ele pelo poder do Seu Espírito.
Na
apresentação seguinte, gostaria de sugerir a vocês
o que eles têm a dizer-nos sobre as relações dramáticas
positivas de Jesus com o Batista, com o Pai e com o Espírito
sobre as condições realistas para crescer no conhecimento
interno de Cristo.
10º
SEGMENTO
QUARTA
APRESENTAÇÃO
AS
CONDIÇÕES INTERNAS PARA AVANÇAR
NO
CONHECIMENTO DE CRISTO
I
COMPREENDER O MODO PELO QUAL OS/AS EXERCITANTES ENCONTRAM A CRISTO NOS
EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS
Estamos
tratando de compreender o modo pelo qual os/as exercitantes encontram
a Jesus nos Exercícios Espirituais.
A)
Para que se dê este encontro, Inácio dedica a Segunda,
a Terceira e a Quarta Semanas dos Exercícios à contemplação
dos Evangelhos.
B)
Sugeri que uma leitura literária dos Exercícios ilumina
este encontro, porque todos os Evangelhos contam a história de
Jesus procurando desenvolver o conhecimento interno de Cristo, ou a
assimilação prática de Jesus pelo poder do seu
Espirito.
C)
Estamos nos concentrando os Evangelhos sinópticos, porque fazem
do crescimento prático no conhecimento interno de Cristo o enfoque
principal de como contam a história de Jesus.
D)
Expliquei um método de ler os Evangelhos como narrativa. Dei-lhe
o nome de análise da redação. Identifiquei três
tipos distintos de análise de relação: relações
dramáticas, relações temáticas e relações
alusivas.
E)
Na última apresentação sugeri que as relações
negativas nos sinópticos, o como Jesus se relaciona com seus
inimigos e com seus adversários, dramatiza os tipos de ações
pecaminosas, os compromissos, as atitudes a que devem renunciar qualquer
pessoa que deseje conhecer Jesus pela assimilação prática
do Seu Espírito.
F)
Nesta quarta apresentação, gostaria de concentrar-me nas
relações dramáticas positivas nos Evangelhos sinópticos:
como Jesus se relaciona com João Batista, com o Pai e com o Espírito
Santo nos Evangelhos sinópticos.
1
Sustentarei que as relações dramáticas
positivas nos Evangelhos sinópticos, quando submetidas a uma
leitura literária comparativa, fixam as condições
mais fundamentais para entrar e avançar conhecimento interno
de Cristo.
2
Refletirei sobre cada uma das relações positivas: primeiro,
a relação de Jesus com João Batista, e, a seguir,
com o Pai e com o Espírito.
III
JESUS E JOÃO BATISTA
A)
Marcos: o prólogo do Evangelho de Marcos apresenta, simultaneamente,
o Evangelho como um todo e o ministério de João Batista:
O começo da Boa Nova de Jesus Cristo, Filho de Deus.
1
A expressão Filho de Deus não aprece em todos os manuscritos
de Marcos e pode ter sido acrescentado mais tarde por um copista.
Mas, certamente, concorda com a visão que Marcos apresenta
de Jesus e de sua missão.
2
A Boa Nova de Jesus Cristo significa, em primeiro lugar, para Marcos,
Jesus mesmo: Ele encarna a Boa Nova que proclama.
Suspeito
que o caráter de encarnação na visão que
Marcos tem de Jesus, isto é, que veja em Jesus a encarnação
humana do Evangelho, ajuda a explicar porque conta a história
de Jesus enfatizando mais Suas ações que Seu ensinamento.
3
Em segundo lugar, a Boa Nova sobre Jesus significa a mensagem mesma
de Jesus.
4
Em terceiro lugar, a Boa Nova sobre Jesus significa a proclamação
apostólica de Cristo ressuscitado.
B)
Depois do versículo introdutório, Marcos começa
a relatar o ministério de João, o Batista.
1
Marcos começa, citando brevemente uma passagem de Isaías,
que indica, claramente, que Deus enviou Jesus para preparar o caminho
do Senhor, isso é, de Jesus.
2
A seguir, também brevemente, Marcos descreve o ministério
de João. E observa que João administra um batismo para
o perdão dos pecados.. Faz constar o entusiasmo e a expectativa
que suscita o ministério profético de João.
a)
João pregava no deserto a oriente de Jerusalém,
provavelmente por rotas comerciais e de peregrinação.
O lugar onde prega o Batista tem sua significação
1
Israel esperava a salvação da opressão
que estava padecendo alvorecesse no deserto, o lugar onde o povo havia
encontrado Deus pela primeira vez.
2
Pregando a oriente de Jerusalém, João, implicitamente,
estava lançando um desafio aos sacerdotes, já que suas
pretensões proféticas ofereciam ao povo uma autoridade
religiosa a que havia de escutar e obedecer, distinta da dos sacerdotes
do Templo.
b)
Marcos descreve João em termos que evocam o profeta
Elias, o qual, supunha-se, deveria voltar um dia.
c)
Por último, Marcos é o Evangelho sinóptico
que apresenta o mais breve relato sobre a mensagem de João.
Faz constar apenas que João profetizava que outro maior do
que ele estava vindo e que batizaria não com água,
mas com o Espírito Santo.
3
Depois de ter feito constar que João profetizava
que outro, maior do que ele, chegaria para substituí-lo, Marcos,
imediatamente, introduz a figura de Jesus como o que cumpre esta profecia.
Marcos
diz que, nesse tempo, Jesus vem da Galiléia para receber o Batismo
de Jesus.
a)
Penso que podemos dar por certo que Jesus se submeteu de
fato ao batismo de João, pois desconcertou aos primeiros cristãos
que o fundador do cristianismo se submetesse ao batismo de outro líder
religioso de Israel.
b)
Depois de ter admitido o fato do batismo de Jesus pelas
mãos de João, Marcos descreve o batismo mesmo de Jesus
em termos que não deixam dúvidas sobre o fato de que
Jesus, realmente, cumpria o profetizado pelo Batista, isto é,
alguém maior do que ele substituiria João e batizaria
com um Espírito santificador.
1
Depois de ter recebido o batismo de João, Jesus emerge das
águas do Jordão. Neste momento os céus se rasgam.
i)
O abrir-se dos céus alude a uma profecia de
Isaías e tem significado apocalíptico e de revelação.
ii) O abrir-se dos céus
dá começo ao final dos tempos, a era final da salvação.
iii) O abri-se dos céus
também tem um significado de revelação: eles
se abrem para que o Pai possa começar a revelação
de Jesus, como o que batiza com o Espírito que João
profetizara.
2
O Espírito Santo, com quem Jesus batizará
aos demais, desce sobre Jesus dos céus apocalipticamente
rasgados.
i)
Este conjunto de imagens ilustra sumamente bem como
Marcos, com poucas imagens, consegue encerrar uma quantidade de
significados nesta passagem.
ii) O Espírito Santo
chega a Jesus com o sinal da pomba, para revelar-Lhe que Ele é
o Filho amado de Deus e o começo do novo Israel.
3
Os israelitas consideravam as pombas como animais favoritos
e mimados. Um dos Salmos chama Israel de a pomba de Deus, significando
o amor preferencial de Deus por Israel.
a)
Nas palavras do Pai ressoa essa idéia, quando
chama Jesus de Filho amado no qual se compraz.
b)
Como Filho de Deus, especialmente predileto, Jesus
nos é apresentado como o "Filho favorito do Pai",
como aquele com quem o Pai se deleita de modo particular.
c)
Já que a pomba simboliza Israel no Antigo Testamento,
o Espírito desce sobre Jesus para revelar a Ele, e não
a João, como Aquele que batiza com o Espírito.
4
A imagem da pomba sobre as águas tem outras conotações.
Recorda a pomba que voltou à arca de Noé, depois do
dilúvio, trazendo no bico um ramo, sinal, para Noé,
de que as águas retrocediam.
a)
O
fim do dilúvio é um prelúdio da Aliança
que Deus faz com Noé, prometendo que nunca mais devastará
o mundo com um dilúvio.
b)
A pomba sobre as águas mostra, portanto, que
Jesus, e não João , como Aquele mediante o qual
selará uma Nova Aliança com a humanidade.
5
O Espírito sobre as águas tem também
outras conotações, pois, no primeiro relato da criação
no Gênesis, o Espírito plana sobre as águas
do caos, aparentemente para que se tornem dóceis às
palavras criadoras que Deus está prestes a pronunciar.
a)
A imagem do Espírito sobre as águas representa,
portanto, a Jesus, que batiza com o Espírito, como o começo
de nova criação.
b)
Como o começo do novo Israel e da nova Criação,
o batismo de Jesus serve de protótipo do batismo cristão,
que introduz aos crentes no Novo Israel e os transforma em nova
Criação.
4
As palavras do Pai a Jesus têm outras conotações,
porque combinam dois versículos do Antigo Testamento: um Salmo
messiânico e um dos cantos do Servo Sofredor do segundo Isaías.
a)
A segunda parte do livro de Isaías, contem vários
cânticos sobre um Servo de Deus, que, por meio do sofrimento
inocente expia os pecados do povo e o reconcilia com Deus.
b)
As palavras do Pai, portanto, designam a Jesus como Messias
(Cristo), um Messias, porém, à imagem do Servo Sofredor.
c)
Somente Jesus ouve o que o Pai diz, constituindo-O como
Messias, porém como um Messias à imagem do Servo Sofredor.
i)
As
palavras do Pai introduzem, então, implicitamente, o tema
do segredo messiânico em Marcos, porque apenas neste momento
Jesus conhece o segredo e porque, no coração do segredo
messiânico, se encerra a inesperada verdade de que o Messias
e o Servo Sofredor coincidem.
ii)
Desde o momento de receber Sua missão como Messias, o Jesus
de Marcos se defronta com a máxima marginalização
e a Cruz.
iii)
O Mistério Pascal revelará a verdade última
sobre Jesus. A saber: o Messias , o Servo sofredor e Aquele que
batiza segundo o Espírito, como havia sido profetizado, coincidem.
5
Marcos diz outras coisas sobre a relação de
Jesus com João. No entanto, para esta apresentação
basta referir aos relatos sinópticos sobre o Batismo de Jesus.
Sumário:
Marcos conta a história do Batismo de Jesus por mãos
de João de um tal modo que expressa alguns pontos importantes
sobre o que exige o conhecimento interno de Cristo.
1
João batizou com água, mas somente Jesus nos
é apresentado como Aquele que é o maior e que batizará
com água e com o Espírito que santifica.
2
Como Aquele
que batiza com o Espírito Santo, Jesus começa a última
era da salvação.
3
Como Aquele que batiza com o Espírito Santo, Jesus
nos é apresentado como o Filho predileto de Deus e como o começo
do novo Israel, cheio do Espírito.
4
Como Aquele
que batiza com o Espírito Santo, Jesus sela a Nova Aliança
com o novo Israel.
5
Como Aquele que batiza com o Espírito Santo, Jesus
confronta todos os que crêem nele como o começo de uma
nova Criação.
6
Como Aquele
que batiza com o Espírito Santo, Jesus confronta a quantos crêem
nele como o Filho messiânico de Deus, mas como o Messias à
imagem do Servo Sofredor.
7
Como o Batismo de Jesus Lhe revela todas estas coisas, também
o batismo cristão atrai aos que crêem n'Ele na experiência
batismal, incorpora-os no novo Israel e na nova Criação,
que Ele inicia, sela a Nova Aliança e, inevitavelmente os atrai
à Paixão do Messias sofredor.
8
Ainda
que sumamente breve, o relato de Marcos fixa as condições
para entrar e avançar no conhecimento interno de Cristo:
1ª)
Há que entra na própria experiência batismal,
unindo-se ao novo Israel, ao qual Ele dá começo, aceitando
o Batismo com o Espírito e deixando-nos ser mudados na nova
Criação e que seja selada uma nova Aliança espiritual
entre nosso ser e Deus.
2ª)
Como veremos,
os outros sinópticos têm as mesmas intuições
que Marcos e as desenvolvem.
11º
SEGMENTO
C)
MATEUS
Mateus
reproduz uma grande parte do relato de Marcos sobre o ministério
de João, o Batista. Difere, fundamentalmente de Marcos, no seu
desejo de fornecer um relato mais completo do que o de Marcos quanto à
mensagem de João.
1
Mateus nos diz que João insistia em que ser membro físico
do novo Israel nada significa e que os verdadeiros membros de Israel produzem
o fruto de boas obras.
a)
Penso ser muito provável que João pregasse
esses sentimentos e que Jesus absorvesse tal aspecto do ensinamento
de João, que desenvolve temas já presentes na tradição
judaica.
b)
No entanto, de modo significativo, Mateus põe na boca
de João esta mensagem para que o pregue aos fariseus e saduceus
, que ele une repetidamente como símbolos do ceticismo, mais
concretamente, da falta de fé na ressurreição.
i)
O João de Mateus, denunciando o vazio espiritual
dos fariseus e dos saduceus os denomina ninho de cobras, uma presença
perigosa e venenosa em Israel.
ii)
Mateus aplicará mais duas vezes este epíteto
aos fariseus, símbolo dos líderes hostis da sinagoga
da oposição, a comunidade judaica de Antioquia, que
tentavam persuadir os cristãos de Mateus de que a ressurreição
de Jesus era um logro.
iii)
Quando teve de confrontar João com as mesmas forças
hostis que se opunham a Jesus, Mateus considera Jesus e João
como parte do mesmo movimento de salvação, porém,
apresenta Jesus e não João como Aquele que batiza com
o Espírito.
2
Além disso, Mateus modifica a profecia de João
sobre alguém maior do que ele mesmo, que batizaria com o Espírito
e que viria depois dele.
a)
Citando, possivelmente, uma versão mais antiga da
profecia de João, Mateus faz João profetizar que Aquele
que batiza com o Espírito não batizará somente
com o Espírito, mas também com o fogo.
b)
Freqüentemente, na Bíblia, o fogo simboliza a
santidade de Deus, vista como princípio de purificação
e juízo.
c)
A imagem
do fogo tem estas duas conotações na versão de
Mateus da profecia de João:
1º)
O Espírito com que Jesus batizará vem para
santificar os batizados. Portanto, aos crentes o Espírito chega
como uma força de purificação.
2º)
Os que resistem ao Espírito (os fariseus, os saduceus,
os que se recusam a crer) serão consumidos nos fogos do juízo
divino, como admoesta, explicitamente, o Batista aos incrédulos
fariseus e saduceus.
3
Mateus também transforma o relato em que Marcos apresenta
o batismo de Jesus.
a)
Antes de que João batize Jesus, os dois têm
um breve diálogo, no qual João protesta contra a impropriedade
dele batizar Jesus. Esta inserção oferece maior evidência
ainda de que o batismo de Jesus por mãos de João desconcertava
os primeiros cristãos.
b)
Jesus replica que aquilo que estão prestes a fazer
cumprirá toda a justiça.
1
A resposta de Jesus liga o batismo de João com o
tema teológico do cumprimento que tanto caracteriza o Evangelho
de Mateus.
2
A reposta de Jesus apresenta vários pontos teológicos:
i)
O batismo com o Espírito de Jesus cumpre o batismo
com água de João e cumpre com a Lei e os Profetas.
ii)
Mateus também indica como o batismo de Jesus cumpre
o batismo de João.
iii)
Marcos descreve o batismo de João, como um batismo
para o perdão dos pecados. Mateus transporta esta expressão,
para o perdão dos pecados, às palavras eucarísticas
sobre o Cálice.
iv)
Para Mateus, então, somente o Mistério
Pascal perdoa os pecados. O ritual com água de João
não o fez.
v)
Somente Jesus, por conseguinte, confronta o crente com
o Espírito batizador prometido.
c)
Em Marcos, o Pai fala somente a Jesus e Lhe diz: Tu és
o meu Filho muito amado... Em Mateus, o Pai diz: Este é o meu
Filho amado...
1
Em Marcos, o pai fala somente a Jesus e assim ocorre, implicitamente,
o tema do segredo messiânico.
2
Em Mateus, o pai fala ao leitor e, mediante o leitor, ao
mundo.
i)
Este deslocamento antecipa o Grande Envio, que fecha
o Evangelho de Mateus, no qual Jesus reconstitui o novo Israel,
unindo-se a ele como o décimo segundo apóstolo, e,
a seguir, os envia adiante com a missão universal de proclamar
o Evangelho a todos os povos.
ii)
Além disso, para Mateus, o Grande Envio, revela
a Jesus como Aquele que batiza com o Espírito. Em outras
palavras: o batismo em Nome da Trindade 'da cumprimento ao batismo
ministrado por João.
iii)
O
Grande Envio, por outra parte, revela a divindade de Jesus. Em outras
palavras, o fato de que Jesus Ressuscitado envie o Espírito
revela Sua divindade, Sendo divino, Jesus abrange tanto a Igreja,
quanto a última era da Salvação (Eu convosco
SOU).
4
É claro que, para Mateus, que provavelmente escreveu
tendo diante de si o Evangelho de Marcos, quis matizar, teologicamente,
o que Marcos dissera sobre o batismo de Jesus.
SUMÁRIO:
1
Mateus confirma, no entanto, a substância do relato de
Marcos sobre a relação de Jesus com João.
2
Mateus insiste, mais incisivamente ainda, que João Evangelista,
que só Jesus batiza com o Espírito santificador.
3
Mateus insiste, mais fortemente que Marcos, sobre o caráter
prático do conhecimento interno de Cristo: para que este cresça
necessita das boas obras.
4
Diferentemente de Marcos, Mateus distingue a relação
de Jesus com o Espírito de nossa relação: o Espírito
desce sobre Jesus como o Filho amado de Deus e o começo do novo
Israel, como o Messias e Servo Sofredor mas o Espírito desce sobre
nós como purificação e juízo.
5
Mateus muda o tema do segredo messiânico e enfatiza mais
a universalidade da salvação. que Jesus realizará
quando batize com o Espírito.
6
Mateus afirma mais claramente que Marcos que o batismo de Jesus
revela Sua divindade.
7
Todos estes
matizes fazem compreender melhor o que Marcos diz sobre as condições
para entrar e crescer no conhecimento interno de Cristo.
12º
SEGMENTO
D)
LUCAS
Lucas
data, mais exatamente do que os demais evangelistas o começo do
ministério de João.
1
Diferentemente de Mateus, Lucas não tem problemas em avalizar a
afirmativa de Marcos, segundo a qual João pregou um batismo para
o perdão dos pecados, provavelmente porque foi o que João
de fato.
2
Lucas omite a descrição que Marcos faz de João, que,
implicitamente, o designa como o esperado Elias, possivelmente porque
duvidava que os gentios entendessem as alusões bíblicas
de Marcos.
3
Como Mateus, Lucas vê que João cumpre a mesma profecia de
que fala Marcos, tirada do segundo livro de Isaías. Lucas cita
a profecia mais extensamente, e assim evidencia a salvação
universal de Jesus, um tema muito do gosto do coração paulino
de Lucas.
4
Lucas apresenta o relato mais completo da pregação de João.
a)
O prefácio ao Evangelho (e aos Atos) de Lucas, sugerem que ele
tinha mais pretensões a historiador erudito do que Marcos ou
Mateus.
b)
Lucas descobre os temas seguintes na pregação do Batista:
i)
A raça não determina o ser judeu. Isto se deve, apenas,
à vida reta, O poder que Deus tem de tirar judeus de pedras
pressagia a conversão dos gentios.
ii)
Lucas chama os gentios - as nações - à conversão,
e não a fariseus e saduceus, ninho de víboras, mas eles
se arrependem como no Calvário e em Pentecostes.
iii)
Lucas apresenta um exemplo do ensinamento moral de João: o
cuidado para com os pobres e a condenação do uso do
poder para oprimir. Lucas sugere que a mensagem do Batista antecipou
a proclamação da Boa Nova de Jesus.
iv)
O João de Lucas tem uma veia messiânica no seu ensinamento:
1º)
João reconhece não ser ele o Messias;
2º)
Prediz a vinda daquele que é maior e que batizará
com o Espírito: um Espírito santificador e com fogo.
Lucas confirma a afirmativa de Mateus, a saber, que o Espírito
se relaciona de modo diferente com Jesus e conosco.
v)
Em Lucas, a elaboração que João faz sobre o significado
da imagem do fogo (passando pelo vento e pelo fogo) é presságio
de Pentecostes nos Atos.
vi)
Lucas politiza a João, insistindo em que ele criticou Herodes
não só por seu adultério, mas por todos os crimes
que havia cometido. Josefo tende a concordar e diz que Herodes fez
prender João porque temia sua pregação pudesse
provocar uma rebelião.
5
Lucas situa a descida do Espírito não somente após
o batismo de Jesus, mas também depois do batismo de todos.
a)
Lucas não afirma nunca que João batizou Jesus,
ainda que o contexto implique que João o tenha feito.
b)
O Espírito desce sobre o Jesus de Lucas enquanto ele reza, um
presságio de Pentecostes, quando o Espírito descerá
sobre os discípulos reunidos em oração.
c)
Lucas acentua o tom apocalíptico do relato do batismo em Mateus,
apresentando a pomba que assume forma física. Fará o mesmo
com as trevas que acompanham a crucifixão de Jesus. Em Marcos
e Mateus as trevas, provavelmente, simbolizam o juízo divino.
Lucas diz que é resultado de um eclipse do sol.
6
Lucas apresenta o batismo de Jesus de modo análogo ao de Mateus"
confirma as linhas principais do relato de Marcos com suas próprias
qualificações teológicas.
a)
Contudo, como Mateus e Marcos, Lucas reafirma os pontos teológicos
principais sobre o batismo de Jesus.
b)
Voltaremos a falar sobre a abordagem que Lucas faz do batismo com o
Espírito ao falarmos da relação de Jesus com o
Espírito.
Sumário:
Podemos,
portanto concluir que:
1
Lucas, como Mateus, avaliza a teologia de Marcos, que apresenta o batismo
com o Espírito e por conseguinte as condições necessárias
para entrar e crescer no conhecimento interno de Cristo.
2
Lucas põe
em relevo, mais do que Mateus, o fim universal do batismo com o Espírito
Santo: Deus o quer para todos.
3
Também Lucas vai mais além do que Mateus quando liga o batismo
no Espírito com Pentecostes. Para Mateus, o batismo no Espírito
significa o batismo em Nome da Trindade.
CONTINUA
NO PRÓXIMO SEGMENTO
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