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CARTA
A UM CANDIDATO Pe.
Armando Cardoso, SJ Nossa
sessão "Textos Inacianos", criada por inspiração
do Pe. Ramón, acolhe esta interessante seleção
do Pe. Cardoso, muito útil para formadores, promotores vocacionais
e, sem dúvida, candidatos.
Em
1530, aos vinte e quatro anos de idade, é bacharel e, pouco
depois, licenciado em Filosofia, seguido pelo estudo de Teologia. Passa
um ano na Sabóia com a família e volta a Paris em 1534.
Aí, dirigido por Inácio, faz os Exercícios Espirituais
com extraordinário fervor. Resolve-se pelo sacerdócio
e a 30 de maio recebe as últimas ordens sacras. É ele
quem celebra a célebre missa de Montmartre para os seis companheiros
conquistados, como ele, por Inácio. É ele que, na ausência
deste, faz as vezes de chefe ou irmão mais velho do grupo, que
aumenta com a conquista de mais três, pelos Exercícios
dados pelo próprio Fabro. Em
1537, encontram-se os dez Companheiros em Veneza que, depois de
ir a Roma e de ordenados sacerdotes, esperam um ano com o desejo de
embarcar para a Terra Santa, objeto de um voto condicional ; porque,
se não o puderem fazer, colocar-se-ão às ordens
do Sumo Pontífice para o que ele achar ser a maior glória
de Deus. Em reunião no norte da Itália e em Roma, resolvem
chamar-se Companhia de Jesus, nome confirmado pela visão de Santo
Inácio na capela de La Storta, perto de Roma. Em
1539, antes de apresentar-se ao Papa, resolvem tornar definitiva
sua união "de amigos no Senhor", como Ordem religiosa,
determinando os pontos principais para a aprovação papal.
Antes mesmo de terminar a reunião, Pedro Fabro e Diogo Laínez
são mandados por Paulo III à República de Parma,
para reforma de conventos e reafervoramento do povo cristão.
Após esta primeira missão pontifícia, ainda em
1540, Fabro é enviado à Alemanha como assessor do doutor
Pedro Ortiz, embaixador de Carlos Vº aos Colóquios de Vormácia
e Ratisbona; conheceu então outras cidades alemãs, especialmente
Espira. Já
em fins de 1541, recebe ordem de acompanhar o Doutor Ortiz à
Espanha por quase um ano inteiro. Por toda parte deixa o perfume de
sua passagem, a impressão de santidade e o conhecimento da nova
Ordem a que pertence, a Companhia de Jesus. Exerce uma influência
irresistível sobre os jovens, principalmente. Em Toledo, dois
jovens sacerdotes fazem questão de o seguir. Renunciam aos seus
postos e rendas e trocam a Espanha pela Alemanha, para a qual Fabro
é chamado novamente. Foi neste momento que ele escreveu esta
longa carta ou instrução em favor dessas vocações. A Álvaro Alfonso(1) Toledo,
fins de janeiro e princípios de fevereiro de 1542(2). Exemplar
da carta do R. P. Pedro Fabro que se achou no antigo livro do Noviciado
de Verdún. Sobre
a caridade fraterna. (MF 145-149) A
graça e a paz de Nosso Senhor e a comunicação
do Espírito Santo estejam contigo para sempre. Amém! Se
daqui por diante, Irmão caríssimo, desejas ser inscrito
na comunidade dos bons e levar uma vida, como convém, unânime
e concorde com eles, ajuntando num só corpo tudo o que tens,
à maneira dos Apóstolos, é necessário, em
primeiro lugar, que observes os mandamentos de Deus e da Igreja com
amor. Persuade-te com certeza de que és membro de uma mesma Companhia(3).
Não terás vida nem funções algumas como
próprias, mas só aquelas que promanam do coração
da Companhia e suas obras, embora não nos atinjam os mandamentos
de Deus nem os da Igreja nem a razão do múnus sacerdotal. Portanto,
como fundamento, deves conceber um desejo veemente de conservar
e aumentar a paz e a concórdia dessa Companhia(4), não
só por teu esforço, mas ainda pelo esforço de cada
um dos que vivem na Companhia. Assim promoverás, com todo o teu
cuidado, a perseverança e o progresso, esta humildade e união
dos membros com o corpo, conforme a necessidade o exigir. Pois não
é menos necessário que quem deseja entregar-se às
obras exteriores cuide da própria perfeição do
seu corpo e dos seus sentimentos. Contudo
o homem inimigo(5), por seu próprio dano, freqüentemente
ensinado de quanto bem se encerra na concórdia e na paz dos unidos
em Cristo como membros de uma corporação, costuma impugnar
esses bens com todas as forças e maquinações. Para
essa finalidade ele espalha a cizânia a fim de cobrir a boa semente.
Com isso deseja arrancar, dispersar, perder aqueles que Deus uniu. Assim
pois, para a conservação integral desse santo propósito,
muito te aproveita notar com atenção e confiar fielmente
à memória alguns pontos mais escolhidos, como armas melhor
preparadas para evitares o que se esconde naquelas ciladas e deste modo
repelires do teu coração as sugestões dos inimigos(6). Nem
por separação corporal ou espiritual nunca te afastes
desta corporação, antes permanece nesta profissão
firmemente pela verdade do espírito, consenso do juízo
e conformidade de opinião. Portanto:
Acrescenta,
além disso, ser injusto suscitar uma animosidade ou indignação
contra o outro, sem causa precedente. Não mudes a paz, benevolência
e boa propensão que tinhas para com teu irmão, a qual
deves preferir certamente ao teu próprio juízo e vontade,
tanto mais quanto menos se discorde sobre fé e costumes necessários
à salvação.
Igualmente
observarás quanto se refere à boa opinião e
respeito que, uma vez sinceramente alcançados, te esforçarás
por reter e aumentar. Se esse bom juízo nasceu do íntimo
da humildade, paciência e caridade, da mesma prática e
sempre maior desejo da própria abnegação receberá
seu aumento. Para isto alcançares muito importa examinares com
cuidado e descobrires, não em que virtude és excelente
e te pareça teres de ser preferido aos outros, mas a que vício
és mais inclinado, a fim de te julgares o último de todos.
De modo contrário, observas a virtude própria e não
o vício próprio e olhas para o alforge que está
nas costas de teu precedente(9), porque então se incham o orgulho,
o amor próprio, o desprezo e o desagrado para com o outro.
Por
isso julgo necessário que, apenas se introduza semelhante
náusea ou indignação de alma, não a voltes
contra o irmão, mas contra ti mesmo; e resolutamente acuses e
repreendas, não ao irmão, mas a ti mesmo que julgas tão
temerariamente e conservas tal rancor no coração.
Resta
outro caminho tanto mais eficaz quanto mais difícil, a saber
: todas essas doenças e fraquezas, revela-as não só
a quem pode curar, mas também ao teu irmão, a quem te
sentes mal afeiçoado, antes de te deitares para dormir, com liberdade
e humildade. Isso é para que o incentivo do amor, apagado das
centelhas da consolação e benevolência fraterna,
ateie novo fogo. E também para que o soberbo inimigo, por esta
humildade, que o molesta por estar junto com a reconciliação,
seja esbofeteado com a maior desonra.
Para
isso em primeiro lugar te deves persuadir de travar guerra contigo
mesmo, sem esperança alguma de paz, refreando os maus desejos
sensuais, coibindo teus sentidos externos, lutando contra teu próprio
juízo e vontade. Por juízo entendo não só
aquilo em que manifestamente se vê o espírito de pecado
da carne e do mundo, mas também aquilo em que ainda não
foi cortada ao vivo a própria vontade : chama-se própria
a que não nasce senão do teu espírito.
NOTAS (1)
Álvaro Alfonso e João de Aragão eram capelães
das infantas Maria e Joana, filhas de Carlos Vº. Entusiasmados
pela vida de Fabro, seguiram-no de Toledo na Espanha até Espira
na Alemanha e aí fizeram os Exercícios Espirituais completos
e foram recebidos na Companhia como noviços e provados com os
experimentos inacianos. Ambos, repassados os estudos, tornaram-se insignes
operários da 2ª geração de Jesuítas.
Cf. Memoriale índice de nomes. (2)
Data provável, apoiada no historiador Orlandini em sua Vida de
Pedro Fabro. A carta encontrada no antigo Noviciado de Verdún
traz o título De Charitate fraterna, escrita em latim apurado. (3)
Recordação da Fórmula do Instituto da Companhia
de Jesus, aprovada por Paulo III, nº 1. (4)
Lembrança da união dos "amigos do Senhor", os
Companheiros de Paris : nela viveram, por toda a vida, os primeiros
jesuítas e desejavam que os segundos os seguissem. Por isso essa
insistência da carta sobre a união, a caridade fraterna,
fundada na humildade e na abnegação, a toda prova. (5)
Alusão à parábola da cizânia ou do joio que
o "homem indigno" semeou sobre a boa semente do dono da messe
(Mt 13, 25). (6)
Nesses pontos Fabro se descreve a si próprio, sem o pensar, com
sua índole e caráter de homem que sempre procurou a paz
para si mesmo e para os outros. Isso lhe comunicou uma delicadeza de
trato, a que não se resistia. (7)
Fabro acredita nas boas intenções naturais de todo homem,
que apesar de todos os seus defeitos e maldades deixam sempre um resto
de bom no íntimo da alma. (8)
Um segundo passo para Fabro, em favor da paz, é evitar as discussões
que danificam geralmente a concórdia, até podendo ficar
com a própria opinião e ao mesmo tempo não confiando
cegamente nela. (9)
Da fábula antiga : Júpiter, criando-nos, colocou em nossos
ombros dúplice alforge : o dos vícios próprios
nas nossas costas, aos quais não vemos ; e o das virtudes em
nossa frente que vemos sempre. E ao contrário para os outros:
na frente seus vícios e nas costas suas virtudes. (10)
Eram os que Santo Inácio detestava e chamava "decretistas". (11)
Ef 4, 26 e 31. (12) Portanto, para Fabro o fundamento ou meio principal para a caridade fraterna é a abnegação, negar-se a si próprio, sair de si para doar-se aos outros, interior e exteriormente ; vivia aquele título dos "Exercícios Espirituais para o homem vencer-se a si mesmo" (EE 21). |