CARTA A UM CANDIDATO

Pe. Armando Cardoso, SJ

Nossa sessão "Textos Inacianos", criada por inspiração do Pe. Ramón, acolhe esta interessante seleção do Pe. Cardoso, muito útil para formadores, promotores vocacionais e, sem dúvida, candidatos.

Antes de apresentar a carta, apresentemos em breves linhas seu autor. A vida do Bº Pedro Fabro é descrita por ele próprio no livro chamado Memorial. Nascido a 13 de abril de 1506, em Villaret na Sabóia, região entre a França e a Itália, depois das primeiras letras em Thones, seguiu o curso de Humanidades em La Roche com ótimo mestre Pedro Velliard, dos 11 aos 19 anos de idade. Aos 12 anos fizera voto de castidade que, mais tarde lhe seria fonte de escrúpulos. Aos 19 anos, graças à proteção de um tio abade, está em Paris matriculado no Colégio de Santa Bárbara, onde se encontra com o navarro Francisco Xavier e quatro anos mais tarde com o basco Inácio de Loyola que trará paz à sua alma.

Em 1530, aos vinte e quatro anos de idade, é bacharel e, pouco depois, licenciado em Filosofia, seguido pelo estudo de Teologia. Passa um ano na Sabóia com a família e volta a Paris em 1534. Aí, dirigido por Inácio, faz os Exercícios Espirituais com extraordinário fervor. Resolve-se pelo sacerdócio e a 30 de maio recebe as últimas ordens sacras. É ele quem celebra a célebre missa de Montmartre para os seis companheiros conquistados, como ele, por Inácio. É ele que, na ausência deste, faz as vezes de chefe ou irmão mais velho do grupo, que aumenta com a conquista de mais três, pelos Exercícios dados pelo próprio Fabro.

Em 1537, encontram-se os dez Companheiros em Veneza que, depois de ir a Roma e de ordenados sacerdotes, esperam um ano com o desejo de embarcar para a Terra Santa, objeto de um voto condicional ; porque, se não o puderem fazer, colocar-se-ão às ordens do Sumo Pontífice para o que ele achar ser a maior glória de Deus. Em reunião no norte da Itália e em Roma, resolvem chamar-se Companhia de Jesus, nome confirmado pela visão de Santo Inácio na capela de La Storta, perto de Roma.

Em 1539, antes de apresentar-se ao Papa, resolvem tornar definitiva sua união "de amigos no Senhor", como Ordem religiosa, determinando os pontos principais para a aprovação papal. Antes mesmo de terminar a reunião, Pedro Fabro e Diogo Laínez são mandados por Paulo III à República de Parma, para reforma de conventos e reafervoramento do povo cristão. Após esta primeira missão pontifícia, ainda em 1540, Fabro é enviado à Alemanha como assessor do doutor Pedro Ortiz, embaixador de Carlos Vº aos Colóquios de Vormácia e Ratisbona; conheceu então outras cidades alemãs, especialmente Espira.

Já em fins de 1541, recebe ordem de acompanhar o Doutor Ortiz à Espanha por quase um ano inteiro. Por toda parte deixa o perfume de sua passagem, a impressão de santidade e o conhecimento da nova Ordem a que pertence, a Companhia de Jesus. Exerce uma influência irresistível sobre os jovens, principalmente. Em Toledo, dois jovens sacerdotes fazem questão de o seguir. Renunciam aos seus postos e rendas e trocam a Espanha pela Alemanha, para a qual Fabro é chamado novamente. Foi neste momento que ele escreveu esta longa carta ou instrução em favor dessas vocações.

A Álvaro Alfonso(1)

Toledo, fins de janeiro e princípios de fevereiro de 1542(2).

Exemplar da carta do R. P. Pedro Fabro que se achou no antigo livro do Noviciado de Verdún.

Sobre a caridade fraterna. (MF 145-149)

A graça e a paz de Nosso Senhor e a comunicação do Espírito Santo estejam contigo para sempre. Amém!

Se daqui por diante, Irmão caríssimo, desejas ser inscrito na comunidade dos bons e levar uma vida, como convém, unânime e concorde com eles, ajuntando num só corpo tudo o que tens, à maneira dos Apóstolos, é necessário, em primeiro lugar, que observes os mandamentos de Deus e da Igreja com amor. Persuade-te com certeza de que és membro de uma mesma Companhia(3). Não terás vida nem funções algumas como próprias, mas só aquelas que promanam do coração da Companhia e suas obras, embora não nos atinjam os mandamentos de Deus nem os da Igreja nem a razão do múnus sacerdotal.

Portanto, como fundamento, deves conceber um desejo veemente de conservar e aumentar a paz e a concórdia dessa Companhia(4), não só por teu esforço, mas ainda pelo esforço de cada um dos que vivem na Companhia. Assim promoverás, com todo o teu cuidado, a perseverança e o progresso, esta humildade e união dos membros com o corpo, conforme a necessidade o exigir. Pois não é menos necessário que quem deseja entregar-se às obras exteriores cuide da própria perfeição do seu corpo e dos seus sentimentos.

Contudo o homem inimigo(5), por seu próprio dano, freqüentemente ensinado de quanto bem se encerra na concórdia e na paz dos unidos em Cristo como membros de uma corporação, costuma impugnar esses bens com todas as forças e maquinações. Para essa finalidade ele espalha a cizânia a fim de cobrir a boa semente. Com isso deseja arrancar, dispersar, perder aqueles que Deus uniu.

Assim pois, para a conservação integral desse santo propósito, muito te aproveita notar com atenção e confiar fielmente à memória alguns pontos mais escolhidos, como armas melhor preparadas para evitares o que se esconde naquelas ciladas e deste modo repelires do teu coração as sugestões dos inimigos(6).

Nem por separação corporal ou espiritual nunca te afastes desta corporação, antes permanece nesta profissão firmemente pela verdade do espírito, consenso do juízo e conformidade de opinião. Portanto:

1º. Deves saber e executar o que se encerra naquele sentencioso axioma : queiras sempre, defendas, fomentes e executes a vontade de teu irmão, mesmo lutando contra toda opinião e juízo(7).

2º. Se tua opinião te parecer mais conforme à razão para pedir ou querer alguma coisa, mas a vontade ou razão do irmão é contrária à tua, deves usar de cautela : não discordes com ele não só por palavra, mas até em teu pensamento. Embora julgues ter motivo justo de o contradizer, responde a ti próprio não teres motivo bastante de concordar tão confiantemente com teu juízo e de exprobrar tão facilmente a opinião de teu irmão(8).

Acrescenta, além disso, ser injusto suscitar uma animosidade ou indignação contra o outro, sem causa precedente. Não mudes a paz, benevolência e boa propensão que tinhas para com teu irmão, a qual deves preferir certamente ao teu próprio juízo e vontade, tanto mais quanto menos se discorde sobre fé e costumes necessários à salvação.

3º. Nunca prestes atenção aos defeitos de teus irmãos, exceto se te for confiado o governo e a correção deles. Mas descobre e imita as suas virtudes e costumes mais semelhantes às regras, com olhos perspicazes, quando e quantas vezes puderes.

4º. Com afinco te esforçarás para avançar de virtude em virtude, para não resfriares nunca na caridade e benevolência que abraçaste com intenção tão ardente, de sorte que te conserves em fervor de espírito a ponto de crescer cada dia mais.

Igualmente observarás quanto se refere à boa opinião e respeito que, uma vez sinceramente alcançados, te esforçarás por reter e aumentar. Se esse bom juízo nasceu do íntimo da humildade, paciência e caridade, da mesma prática e sempre maior desejo da própria abnegação receberá seu aumento. Para isto alcançares muito importa examinares com cuidado e descobrires, não em que virtude és excelente e te pareça teres de ser preferido aos outros, mas a que vício és mais inclinado, a fim de te julgares o último de todos. De modo contrário, observas a virtude própria e não o vício próprio e olhas para o alforge que está nas costas de teu precedente(9), porque então se incham o orgulho, o amor próprio, o desprezo e o desagrado para com o outro.

5º. Com atenção ponderarás o que suspeitares excessivo ou errado em teu irmão e o que te parecer um tanto aborrecido, estúpido ou imprudente, não só com teu julgamento mas ainda com a opinião dos outros, com um cuidado maior do ordinário prestarás atenção para não imitar os que se deixam arrastar pelo espírito da sabedoria mundana ou os que proferem opiniões com olhos cegados freqüentemente com o pez da soberba(10); a esses sacudirás de ti, para não seres inscrito em sua lista.

Por isso julgo necessário que, apenas se introduza semelhante náusea ou indignação de alma, não a voltes contra o irmão, mas contra ti mesmo; e resolutamente acuses e repreendas, não ao irmão, mas a ti mesmo que julgas tão temerariamente e conservas tal rancor no coração.

6º. É certo conselho geral que, logo que brota essa amargura do coração, a extirpes em sua raiz e não descanses enquanto não a arrancares radicalmente. São palavras de São Paulo: "O sol não descambe sobre vossa iracúndia, antes de expulsar de vossos corações toda a amargura"(11). Queres para isso uma foice ? Expõe logo esses defeitos e imperfeições a quem é perito em extirpá-los. Tal foice, instrumento espiritual, se a aplicares pela prática à obra, tirarás de tua alma o veneno de víbora desses sentimentos.

Resta outro caminho tanto mais eficaz quanto mais difícil, a saber : todas essas doenças e fraquezas, revela-as não só a quem pode curar, mas também ao teu irmão, a quem te sentes mal afeiçoado, antes de te deitares para dormir, com liberdade e humildade. Isso é para que o incentivo do amor, apagado das centelhas da consolação e benevolência fraterna, ateie novo fogo. E também para que o soberbo inimigo, por esta humildade, que o molesta por estar junto com a reconciliação, seja esbofeteado com a maior desonra.

7º. Tudo quanto te desagrada no outro em obras ou palavras ou desperta alguma ojeriza de alma, julga-o como suspeito: pois aquilo que na boca do irmão te parece mau ou indecente não pode por acaso estar em tua alma muito pior e indecoroso ? Portanto considera muito como exercitas mente tão depravada e espírito tão corrompido.

8º. Geralmente se deve pensar que alguém se torna tanto mais vil e abjeto quanto mais inspeciona as imperfeições e vaidades do outro. Quem, com a alma elevada para o alto, contempla as realidades celestes e divinas, por espécie de metamorfose, se transforma em ser celeste e divino, principalmente pela comunicação de Deus cheia de gosto e doçura. Pelo contrário, quem está deprimido para a terra pelo peso de suas más afeições, vemo-lo prestar atenção só para os pés, isto é, para os defeitos dos companheiros, ficando ele mesmo a arder de muito mais paixões.

9º. Com cuidado convém observar quanto foi dito e quanto se refere à conservação e aumento de tão grande bem qual é a paz fraterna. Mas antes de tudo é preciso praticar tudo o que te torna aceito a Deus e aos Santos, benigno para com o próximo, tratável com os Superiores, afetuoso com os iguais e inferiores.

Para isso em primeiro lugar te deves persuadir de travar guerra contigo mesmo, sem esperança alguma de paz, refreando os maus desejos sensuais, coibindo teus sentidos externos, lutando contra teu próprio juízo e vontade. Por juízo entendo não só aquilo em que manifestamente se vê o espírito de pecado da carne e do mundo, mas também aquilo em que ainda não foi cortada ao vivo a própria vontade : chama-se própria a que não nasce senão do teu espírito.

10º. Portanto, permanece sempre de cinto e armas postas, persegue o inimigo interior e tem-no preso até que te deixe em paz, emprega todas as tuas forças para gloriosamente deitares a teus pés a ti próprio e enclausurares fortemente a ti mesmo dentro de ti. Em segundo lugar, trata com teus Superiores de modo a seguires seus passos e subires sempre ao degrau superior da abnegação(12).

 

NOTAS

(1) Álvaro Alfonso e João de Aragão eram capelães das infantas Maria e Joana, filhas de Carlos Vº. Entusiasmados pela vida de Fabro, seguiram-no de Toledo na Espanha até Espira na Alemanha e aí fizeram os Exercícios Espirituais completos e foram recebidos na Companhia como noviços e provados com os experimentos inacianos. Ambos, repassados os estudos, tornaram-se insignes operários da 2ª geração de Jesuítas. Cf. Memoriale índice de nomes.

(2) Data provável, apoiada no historiador Orlandini em sua Vida de Pedro Fabro. A carta encontrada no antigo Noviciado de Verdún traz o título De Charitate fraterna, escrita em latim apurado.

(3) Recordação da Fórmula do Instituto da Companhia de Jesus, aprovada por Paulo III, nº 1.

(4) Lembrança da união dos "amigos do Senhor", os Companheiros de Paris : nela viveram, por toda a vida, os primeiros jesuítas e desejavam que os segundos os seguissem. Por isso essa insistência da carta sobre a união, a caridade fraterna, fundada na humildade e na abnegação, a toda prova.

(5) Alusão à parábola da cizânia ou do joio que o "homem indigno" semeou sobre a boa semente do dono da messe (Mt 13, 25).

(6) Nesses pontos Fabro se descreve a si próprio, sem o pensar, com sua índole e caráter de homem que sempre procurou a paz para si mesmo e para os outros. Isso lhe comunicou uma delicadeza de trato, a que não se resistia.

(7) Fabro acredita nas boas intenções naturais de todo homem, que apesar de todos os seus defeitos e maldades deixam sempre um resto de bom no íntimo da alma.

(8) Um segundo passo para Fabro, em favor da paz, é evitar as discussões que danificam geralmente a concórdia, até podendo ficar com a própria opinião e ao mesmo tempo não confiando cegamente nela.

(9) Da fábula antiga : Júpiter, criando-nos, colocou em nossos ombros dúplice alforge : o dos vícios próprios nas nossas costas, aos quais não vemos ; e o das virtudes em nossa frente que vemos sempre. E ao contrário para os outros: na frente seus vícios e nas costas suas virtudes.

(10) Eram os que Santo Inácio detestava e chamava "decretistas".

(11) Ef 4, 26 e 31.

(12) Portanto, para Fabro o fundamento ou meio principal para a caridade fraterna é a abnegação, negar-se a si próprio, sair de si para doar-se aos outros, interior e exteriormente ; vivia aquele título dos "Exercícios Espirituais para o homem vencer-se a si mesmo" (EE 21).


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