Gina Torres Rego Monteiro Gina é Leiga, Médica, membro atuante da CVX e também dá os Exercícios, sobretudo na Vida Corrente. Este trabalho que ela, cooperativamente, nos cedeu, é a síntese de seu curso de Teologia, feito na Universidade Santa Õrsula do Rio de Janeiro, sob a orientação do Prof. Medoro de Oliveira Souza Neto. Introdução O
primeiro passo no que se refere à religiosidade é uma experiência
pessoal de Deus. Esta experiência automaticamente leva ao louvor
que ultrapassa o individual pois o ser humano é um ser social em
sua própria essência. Daí que os homens e mulheres
se organizam em comunidades onde partilham suas experiências de
fé, onde se reúnem para louvar. a partir desta realidade
é que se elaboram as doutrinas, isto é, se procura sistematizar
a vivência pessoal e comunitária da fé. Este trabalho pretende refletir sobre o Deus da vida que é o protótipo da vida comunitária, partindo do pressuposto colocado no parágrafo anterior que a experiência pessoal e comunitária precede toda elaboração teórica. A primeira parte do trabalho reflete sobre a experiência original de fé do povo judeu que experimentou a Deus como libertador e a si mesmo como povo eleito. Depois este povo se distanciou de sua vivência de fé e mais tarde, refletindo sobre isto reconheceu em Javé, além de libertador, o próprio Criador, a origem da vida. Contemplando a Criação, Israel encontrou sinais de vida e de morte fazendo então, uma reflexão sobre o pecado. Não obstante compreendeu que o Senhor continua chamando à vida. A segunda parte relata a experiência de vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Deus se encarnou para fazer presente Sua palavra entre os homens e mulheres, para trazer nova vida. A partir de Jesus Cristo se conheceu a Deus como Trindade, comunidade de amor. Isto traz implicações imediatas com relação ao modo de se viver a fé - sendo a terceira parte do trabalho uma reflexão sobre os seguidores de Jesus na comunidade eclesial. A última parte mostra que Deus é origem e meta da vida dando, portanto, sentido à História. As pessoas que têm fé em Deus encontram nele o sentido da vida. Entretanto a inquietação não é exclusiva dos crentes, mas todo ser pensante se pergunta pelo sentido da vida e as diferentes tentativas de respostas podem ser exemplificadas por uma música popular brasileira contemporânea: "O que é que é" de Luiz Gonzaga Jr. (disco "Caminhos do Coração", EMI ODEON, 1982)
E a vida? Mas
e a vida?
eu só sei que confio na moça
sempre desejada
e a pergunta roda viver
e não ter a vergonha de ser feliz
O povo judeu era monoteísta em uma época nitidamente politeísta. Os politeístas reconheciam na natureza a presença de seus deuses: o deus do mar, do vento, da floresta etc. Israel percebe a presença de Deus na sua história, ou seja, os acontecimentos históricos são entendidos como sinais da aprovação ou reprovação do Senhor em relação à sua conduta. Além de sentir-se escolhido, Israel conhece sua origem, enquanto povo, na aliança selada por Deus com Abraão e sua descendência (Gen 15, 18). Abraão é aquele que acolhe prontamente o chamado do Senhor para que deixe sua pátria (Gen 12, 1), sendo depois abençoado por Javé com uma aliança (Gen 17, 1) que é feita não só com ele mas com toda sua descendência, que iniciará o povo da promessa (Gen 17, 8). Israel reconhece Deus como origem da vida humana (Gen 1, 7) e como Aquele que faz surgir a vida onde parece impossível: Sara, mulher de Abraão, era tida como estéril e dá à luz em idade muito avançada (Gen 18, 11); na história do sacrifício de Isaac, quando Javé submete Abraão a uma grande prova, uma vez mais Sua opção pela vida é confirmada (Gen 22, 12). Este
povo cede ao pecado e à morte Este
mesmo povo que reconhece em Deus o princípio da vida, em dado momento
abandona sua fidelidade a Javé deixando de percebê-Lo como
Senhor da história. Assim,
aquele povo que recebia a vida de Javé, experimenta a morte como
conseqüência de seu pecado, sendo que os profetas procuram
alertar para a ligação existente entre a desestruturação
do povo e a sua infidelidade ao Deus da vida (Jer 21, 4-8). Os
profetas denunciam a idolatria geradora No
decorrer de sua história, o povo de Israel às vezes opta
por não acolher o Deus único e verdadeiro, caindo em idolatrias,
arriscando sua liberdade, voltando à opressão. Nestas condições,
sempre há aqueles que conservam a fidelidade a Javé e por
sua atuação são chamados profetas. Profeta é
quem fala a palavra de Deus para iluminar o presente, o futuro ou o passado.
Outra característica do profeta é que à sua denúncia
segue-se um anúncio. Há vários textos bíblicos que anunciam a vida através da denúncia de situações de morte. Alguns exemplos selecionados: "Vê,
Eu te proponho, hoje, a vida e a felicidade ou a morte e a desgraça"
(Dt 30, 15). "Pois Deus não fez a morte nem se alegra com a ruína dos vivos" (Sab 1, 13). "Meu povo cometeu um duplo crime: abandonaram a Mim, fonte de água viva e foram cavar cisternas, cisternas rachadas que não seguram água" (Jer 2, 13). "E
a este povo dirás: Assim fala Javé: Eis que vos proponho,
à escolha, o caminho da vida e o caminho da morte" (Jer 21,
8). "Ele destruirá a Morte para sempre. O Senhor Javé enxugará as lágrimas de todas as faces; tirará o opróbrio de seu povo e de toda a terra porque Javé falou" (Is 25, 8). "Vai
dizer a Ezequias: Assim diz Javé, Deus de teu pai, Davi: escutei
as tuas preces e vi as tuas lágrimas. Eis que te vou curar; dentro
de três dias poderás subir ao Templo de Javé"
(Is 38, 5). "Dize-lhes o seguinte: Assim fala o Senhor Javé: Juro por minha vida que não encontro prazer na morte do ímpio, mas desejo que ele deixe o mau caminho e assim conserve a vida" (Ez 33, 11). "Porque
assim fala Javé à casa de Israel: Procurai-me e vivereis"
(Am 5, 4). "Vinde,
voltemos para Javé. Ele dilacerou, Ele nos curará. Ele feriu,
Ele nos aplicará o curativo. Daqui a dois dias Ele nos fará
reviver, ao terceiro dia Ele nos ressuscitará e nós viveremos
na Sua presença" (Os 6, 1-2). "(Os
ímpios) apagados fiquem do Livro da Vida e entre os justos não
sejam inscritos" (Sl 69, 29). "Pois em ti está a fonte da Vida: é em tua Luz que a luz nós vemos" (Sl 36, 10). Contudo,
freqüentemente, o povo judeu não ouve os profetas, mas segue
vivendo sem confrontar sua história com o projeto de Deus. Ao
deixar a referência ao divino, Israel vai perdendo todos os valores
que possuía até que se encontra no exílio, sob a
opressão do faraó, quando vê que não possui
mais sua terra, que já não percebe a presença de
Javé, que não vive mais como povo eleito, o povo da Aliança. No
exílio o povo reconhece Deus como criador da vida Estando
no exílio, o povo judeu experimenta a saudade de sua terra, de
sua cultura, de sua religião, de sua experiência tão
próxima do Deus libertador. Ao se conscientizar de que não era mais um povo livre e sim oprimido e escravizado, Israel clama a Deus por libertação (Ex 2, 23). Javé ouve as súplicas de seu povo e decide intervir para ajudá-lo na busca da liberação (Ex 3, 8). Para isto, dá a Moisés a missão de tirar o povo do Egito e guiá-lo até à Terra Prometida (Ex 2, 10). Aprofundando sua experiência de fé, Israel experimenta Deus como Criador de todas as coisas (Gen 1, 1) e mais especificamente como Aquele que deu a vida à criatura humana (Gen 2, 7). Reafirma-se como povo escolhido por Javé (Ex 2, 10), que não admite idolatrias (Ex 20, 5) pois elas não trazem a vida, mas a morte. Contemplando
a criação da Vida, o povo de Deus aprofunda Conhecendo Deus como Criador da vida, Israel se pergunta sobre as raízes das situações contrárias à plenitude da vida, refletindo sobre a origem do mal, do pecado. Esta reflexão está descrita nos primeiros livros da Bíblia e é analisada de maneira muito feliz por Carlos Mesters em seu livro "Abraão e Sara" (Vozes, 6ª ed., 1968). Refletindo sobre a situação vigente de dominação e exploração de alguns homens sobre outros, Israel percebe que isto ocorre pelo desejo daqueles homens de se tornarem tão poderosos que poderiam até ocupar o lugar de Deus. Os teólogos de então descrevem esta reflexão na história da Torre de Babel (Gen 11, 1-9): cada um defende egoisticamente os próprios interesses, não querendo ouvir o outro, cada um tem sua própria fala. Aqueles homens que estão dominando os outros não procuram conhecer a vontade do Senhor (nem ignoram a religião), mas tentam instrumentalizá-Lo - não percebem a criatura humana como imagem de Deus mas constroem um deus à sua imagem e semelhança. O dilúvio (Gen 6, 5-9, 29) relata a percepção de Israel de que só é salvo do castigo de Deus aquele que permanece atento à Sua palavra. É um protesto contra os que utilizam a religião em proveito próprio, o que é uma forma de idolatria. Ao procurarem a causa desta instrumentalização de Deus, os teólogos compreendem que os homens já não se relacionam como irmãos ou amigos mas têm medo, insegurança , sentem-se ameaçados pelos outros e então buscam a proteção de deuses através de feitiços. A descrição da inveja, da falta de amor pelo outro, da mentira se faz no relato de Caim e Abel (Gn 4, 1-24). Neste contexto encontra-se a morte e não a vida. Aprofundando
esta reflexão, os teólogos daquele tempo concluem que a
origem do pecado está em pretender desligar-se da fonte da vida,
que é Deus. Em não querer ser povo mas desejar ser Deus.
Esta reflexão é descrita no pecado de Adão, o pecado
original, pelo qual o homem quer ocupar o lugar de Deus (Gen 3, 5) sem
se lembrar que ao separar-se do Deus da vida, vai encontrar a morte (Gen
2, 17). O
Deus da vida não deixa Seu povo Israel sabe que se libertou da escravidão do Egito pela força de Javé (Ex 13, 14), que sendo Deus da vida deu-lhe, na travessia do deserto, água (Ex 15, 17) e comida (Ex 16, 12). Contudo o êxodo foi longo, difícil e muitas vezes o povo se revoltou contra seu Deus (Num 11, 1.4; 14, 1; 16, 3; 20, 3; 21, 5). Inclusive Moisés teve momentos de falta de fé, não tendo, por esse motivo, acesso à Terra Prometida (Ex 20, 12). Entretanto,
o Senhor protege este povo e através dos profetas transmite a esperança
da vinda do Messias, que receberá a honra e a realeza sobre todos
os impérios eternamente e construirá um reino que não
será destruído (Dan 7, 13-14). Este reino será consolidado
no direito e na justiça (Is 9, 5-6); 11, 1-5; Jer 33, 14-15), pois
só com justiça se tem vida, luz e liberdade (Is 42, 1-9). O
enviado de Javé será, para o povo de Deus, como um Pastor
que reúne seu rebanho (Ez 34, 23.31) para conduzi-lo à sua
terra, em aliança nova e eterna (Ez 37, 21-28). Este Messias virá
com a missão de anunciar a boa nova aos pobres, curar os corações
contritos, proclamar a libertação dos presos e deportados,
assim como um ano de graça do Senhor e um dia de vingança
para confortar os aflitos, a fim de que não mais se desesperem
no luto mas louvem com alegria (Is 61, 1-3). 2.
Jesus vem ao mundo trazer nova vida. O
povo que conseguira sair do Egito e se instalara na terra Prometida não
se livrou para sempre da opressão. Depois da dura experiência
do exílio, os romanos, que ocuparam quase a totalidade do mundo
conhecido de então, tomaram também Israel que ficou sob
seu domínio. As
análises histórico - culturais de Israel daquele tempo,
apontam para uma sociedade dividida em classes, governada por estrangeiros,
o que para um povo que desejava apenas o governo de Deus constituía
grande problema (Cf. H. Echegaray, "A prática de Jesus",
Vozes, 2ª ed., 1986). A
ocupação romana levou a um processo de eliminação
progressiva da propriedade comunal e formação de latifúndios,
uma vez que eram cobrados altos impostos sobre os pequenos proprietários.
Isto contrariava uma das mais caras convicções do povo camponês:
a de que de Javé recebera a terra por herança e que esta
era um bem inalienável. Configurava-se, portanto, uma usurpação
violenta de direitos ancestrais e uma profanação religiosa,
pois contrária à vontade divina. Jesus
de Nazaré nasceu em uma época de grande efervescência
popular, quando ressurgia no meio do povo a esperança messiânica.
A Galiléia ganhou, então, fama como foco de agitações. Naquele
tempo, havia alguns grupos sociais historicamente significativos com os
quais Jesus entrou em contato em sua vida pública: a classe rica
ligada ao Templo, os escribas, os fariseus, os essênios e os zelotas.
Cada um destes grupos possuía uma orientação ideológica
segundo a qual criticava (ou acatava de maneira mais ou menos sutil) o
regime governamental romano e apresentava alguma proposta de um novo sistema
para Israel. Além disso, tentaram em algum momento atrair Jesus
para suas próprias propostas (Lc 7, 36; 19, 1-9). Contudo Jesus
foi percebendo que sua missão era mais ampla, que não podia
restringir-se a um daqueles grupos. Ademais, não deixava de questionar
suas atitudes egoístas ou hipócritas o que resultou em tê-los
por inimigos (Lc 11, 37ss; 14, 1-6; 22, 2; 23, 10). Dentro deste contexto,
Jesus se pôs a pregar a instauração do Reino da Vida. Jesus
prega o Reino de Amor e Vida Plena Nunca é demais recordar que os textos no Novo Testamento são escritos pós-pascais, ou seja, primeiro se vivenciou uma realidade que, após reflexão, se sistematizou em uma doutrina. O
cerne da mensagem de Jesus encontra-se na conversão ao iminente
Reino de Deus, que para os judeus daquele tempo significava a superação
de todas as alienações humanas, não possuindo a conotação
de "céu" ou de "outra vida após a morte"
tão correntes nos dias atuais (Cf. L. Boff, "Jesus Cristo
Libertador", Vozes, 7ª ed., 1979). No
judaísmo tradicional Reino significava o laço dinâmico
entre Deus e a humanidade em processo (Lc 14, 15). Jesus radicaliza esse
aspecto dinâmico do Reino, referindo-o tanto ao presente como ao
futuro do povo (Lc 4), em um momento histórico no qual o conceito
de Reino estava em plena crise. Os fariseus entendiam que já havia
passado o tempo do profetismo e que agora bastava seguir a Lei - o que
reduzia o Reino a uma abstração de caráter moral
e individualista. Os essênios esperavam o Reino do "fim dos
tempos" - o que debilitava o seu significado ao se perder a tensão
entre o presente e o futuro. Os zelotas reviviam o anúncio do Reino
que, entretanto, restringiam a Israel. Com
Suas palavras e Seu próprio estilo de vida, Jesus prega, presencia
e inaugura o Reino que não é um lugar geográfico
mas uma nova ordem a ser instaurada. Os sinais referentes à presença
do Reino são sinais de vida (Mt 11, 5): as doenças são
curadas (Mt 8, 16-17), o luto se transforma em alegria (Lc 7, 11-17);
Mc 5, 41-42), a morte se transforma em sono (Mc 5, 39), é tempo
de alegria e não de jejuns (Mc 2, 9; Lc 6, 20-21). Com a instauração
do Reino, os fundamentos da velha ordem serão abalados (Mt 5, 3-12;
Mc 10, 31; Lc 13, 29), os oprimidos serão libertados (Lc 4, 18),
os eleitos dispersos serão reunidos (Lc 13, 29), os filhos de Deus
se encontrarão na casa paterna (Lc 15, 19-20). Para
cumprir sua missão de anunciar a Boa Nova, a proximidade da chegada
do Reino, Jesus não vacilou em deixar a casa de Seus pais (Mc 3,
21. 31-35) mesmo "não tendo onde apoiar a cabeça"
(Lc 9, 58), fazendo Sua pregação em lugares públicos
(Mt 5, 1ss; 13, 1ss) ou nas sinagogas (Mt 9, 35; Mc 1, 21). Ao anunciar o Reino, Jesus utiliza freqüentemente as parábolas que, aliás, eram de uso comum entre aqueles que ministravam o ensino religioso naquela época. Ele ensina que as pequenas atitudes contribuem muito para a construção do Reino (Mt 13, 31-33). Ensina, ainda, que o Reino da Vida é a um só tempo dom, gratuidade (Mt 13, 44.45) e fruto do trabalho (Mt 21, 28-29). As parábolas mostram, também, a dialética do Reino "já aqui" e "ainda não" pois Jesus refere que ele está presente no meio deles (Mt 24, 32-34; Lc 17, 21) mas sua plenitude será no fim dos dias (Mt 13, 47-50). Jesus
vive de modo coerente com sua proclamação à Vida Os
escritos neo-testamentários retratam mais do que a pregação
de Jesus, Seu estilo de vida que fortalecia as Suas palavras, dando-lhes
mais veracidade (Mt 7, 28-29; Jo 7, 40-42). Os diversos relatos de curas
(já abordados no item anterior) mostram a fortíssima ligação
existente entre Sua palavra e Sua atuação. O evangelho de
João descreve de forma muito apropriada esta união, ao contar
o início da vida pública de Jesus nas Bodas de Caná
(Jo 2, 1-11). As
provações sofridas por Jesus no deserto (Mt 4, 1-11), ainda
que descritas como um acontecimento pontual, significaram tentações
que perpassaram toda Sua vida: utilizar em seu próprio benefício
o saber, o poder e o ter que, é bom que se diga, não são
intrinsecamente maléficos mas assim se tornam quando não
são subordinados ao fim último que o Senhor planejou para
todos os homens: a vida plena no Amor. Jesus
não apenas discursa contra as discriminações mas
toma atitudes concretas em Seus contatos com aqueles que eram menosprezados
pela sociedade de então: valorizou a viúva pobre (Lc 21,
1-4), sentou-se à mesa com os pecadores (Mt 9, 10), dirigiu a palavra
a uma mulher samaritana (Jo 4, 5-9), não condenou a adúltera
mas recomendou que não tornasse a pecar (Jo 8, 10-11), convidou-se
para comer na casa do cobrador de impostos Zaqueu (Lc 19, 1-5), realizou
uma cura em dia de sábado, mostrando a primazia da criatura humana
sobre a Lei (Mt 12, 10-13), chamou para perto de si as crianças
(Lc 18, 15-17). Jesus
mostra-se como alguém que possui grande liberdade interior, quando
não escolhe seus discípulos entre os piedosos, religiosos
ou sábios mas entre pessoas do povo, a maior parte deles, inclusive,
sem grande cultura (Mc 3, 13-21). Sendo Mestre "assume condição
de servo" (Fil 2, 6-7) trazendo nova dimensão ao serviço. Sua
pregação pela Vida O condena à morte Jesus viveu numa sociedade onde a classe religiosa detinha grande poder sobre todo o povo. Com Sua práxis Ele questionou a situação de pecado gerada ou tolerada por esses religiosos. Mais ainda, Ele atribuiu aos poderosos uma manipulação do Deus verdadeiro em proveito próprio (Mc 6, 6-7). O
motivo da polêmica entre Jesus e os religiosos refere-se à
concepção de Deus e à maneira de render-lhe culto.
Enquanto para Ele a religião é algo dinâmico que traz
vida ao crente, os religiosos a concebiam como um conjunto de leis, de
rituais. Quando Jesus subordina os rituais à pessoa, escandaliza.
Quando muitos O seguem, os religiosos sentem-se ameaçados (Mc 3,
6-8). Jesus
é zeloso com o Templo (Mc 11, 15-18), com a oração
(Mt 6, 7_15), com os pobres e perseguidos (Mt 5, 1-12), com a priorização
da pessoa (Mc 3, 1-5). Acusa os religiosos de não darem a estas
coisas os devidos valores (Mt 21, 13; 23, 17.19; Jo 9, 40-41; Lc 13, 15-16),
sendo a parábola do samaritano o paradigma da alienação
a que haviam chegado (Lc 10, 30-35). No
entanto, Ele percebe que com o desenvolvimento de Sua pregação
aumentaram as tensões com os fariseus e que isto vai terminar em
sacrifício (Jo 7, 33). A princípio Ele continua pregando
embora evitando ser preso (Jo 8, 59; 10, 39), mas depois decide voltar
à Judéia, sendo este episódio descrito por João
no significativo relato da morte de Lázaro (Jo 11, 1-44). Neste
texto destacam-se o risco de voltar à Judéia (vers 8), a
decisão dos discípulos de morrerem com Jesus (vers 16),
Suas lágrimas pelo amigo morto (vers 35), Seu poder sobre a morte,
ao trazer Lázaro novamente à vida (vers 44). Vale
ressaltar a pedagogia existente nos Evangelhos, ao procurarem mostrar
a percepção progressiva de Jesus quanto à proximidade
do confronto que O levaria à morte, através dos sucessivos
anúncios da Paixão (Mt 16, 21; 17, 22-23; 20, 17-19; Cf.
paralelos em Marcos e Lucas) e da instituição da eucaristia
(Mt 26, 26-30). Após
esta ceia pascal, Jesus afasta-se para orar no Getsêmani (Mt 26,
36), como fizera muitas vezes em Sua vida. Ele está triste, angustiado
(Mt 26, 37), mas decide levar até o fim a Sua missão, embora
não desejasse passar por momentos tão difíceis quanto
os que se aproximam (Mt 26, 39-46). Jesus
é preso a mando dos sacerdotes-chefes e anciãos do povo
(Mt 26, 47), que haviam subornado um de Seus seguidores (Mt 26, 14-15;
27, 3-4). Em seguida é levado ao sumo sacerdote onde passa por
uma inquisição com o objetivo de enquadrá-l'O como
blasfemo (Mt 26, 62-65), sendo então desautorizado pelo sinédrio
como religioso. A resposta de Jesus, que vai custar-lhe a vida, é
marcada tanto pela profunda coerência com o que viveu e pregou,
quanto pelo respeito para com seus seguidores (Cf. texto paralelo: Jo
18, 19-24). Decidem
matar Jesus (Jo 18, 14), mas como não podiam fazê-lo (Jo
18, 31), levam-no ao governador, Pôncio Pilatos, acusando-o de agitador
político. Pilatos faz um interrogatório onde conclui pela
Sua inocência (Jo 18, 28-38) e tenta libertá-lo (Jo 19, 8.
12a). Contudo, o entrega à morte quando os judeus ameaçam
comunicar ao poder romano sua postura tíbia frente a um possível
opositor de Cesar (Jo 19, 12b. 15-16). A
atitude de Pilatos, ao condenar um inocente à morte (mesmo estando
convicto de sua inocência!), contrasta com a opção
de Jesus pela vida e demonstra a cumplicidade do poder religioso e político
nesta morte (Jo 19, 19-22). A
morte de Jesus não é suave, mas o momento mais duro de sua
vida. Pregado na cruz Ele não responde aos insultos que recebe
(Mt 27, 38-44). Em determinado momento, grita Sua angústia ao sentir-se
abandonado pelo Pai (Mt 27, 46), que fora sempre presença tão
real. Morre após um segundo brado (Mt 27, 50). O silêncio,
a ausência de Deus, é descrita pelas trevas que cobrem toda
a terra (Mt 27, 45). A
morte de Jesus é uma ruptura na história da salvação
do povo de Deus, que só não é eterna porque o Deus
da vida vence a morte ressuscitando Seu Filho. Na
ressurreição de Jesus, o Deus da Vida vence a Depois
da morte de Jesus os discípulos ficam amedrontados e fecham-se
no cenáculo onde Ele vai encontrá-los. Após desejar-lhes
a paz, envia-os em missão como o Pai o enviara, dando-lhes o Espírito
Santo (Jo 20, 19-23). Com
a presença do Espírito Santo neles (At 2, 4), perdem o medo
e saem a pregar. Aqui acontece o contrário de Babel: eles falam
a língua do Amor, portanto todos os entendem (At 2, 9-12). Pode-se
perceber uma mudança radical no comportamento dos discípulos,
devido à convicção de serem testemunhas de que Deus
havia ressuscitado Jesus (At 2, 24.32). Os
Atos dos Apóstolos não relatam que "Jesus ressuscitou",
mas que "Deus o ressuscitou". Portanto, o Pai que havia ficado
em silêncio na hora da cruz, não se deixa vencer pela morte,
mas traz novamente Seu Filho à vida. O Novo Testamento tem diversas
passagens referentes à presença real de Jesus após
Sua paixão e morte (Mt 28, 9; Mc 16, 9.12.14; Lc 24, 31.33.36;
Jo 20, 29; 21, 1; At 1, 3; 9, 3-5.) Na
realidade, os discípulos só compreendem realmente que Jesus
de Nazaré é o Cristo após Sua ressurreição
e então procuram proclamar a Boa Nova a todos. Primeiramente, formam-se
comunidades a partir desta convicção. Só mais tarde
serão escritos os Evangelhos, para que se conheça a vida
de Jesus de acordo com o testemunho daqueles que viveram próximo
a Ele (Lc 1, 1-4). Da
ressurreição de Jesus os cristãos herdam a esperança
da participação eterna na vida divina (1 Ped 1, 4). Jesus é a revelação de Deus para os homens (Jo 1, 18). Ele ensina que Deus é o Pai que, por amor, envia Seu Filho para revelá-lo aos homens e mulheres (Jo 14, 6-7), e manda Seu Espírito para acompanhá-los para sempre (Jo 14, 16-17). Jesus sabe que não é possível entender plenamente Sua mensagem então, mas afirma que, por obra do Espírito enviado pelo Pai em Seu nome, ela será compreendida (Jo 14, 26). Aí contempla-se o mistério da Trindade. Este Texto Continua no mês de Março e faz parte da Revista Itaici nº 10 |