São Alberto Hurtado nos fala, com conhecimento de causa do que é uma espiritualidade sadia. O Santo jesuíta, que tanto trabalhou pela reforma social do Chile e para dar um abrigo decente ao povo da rua em sua pátria, o Chile, fundando com o laicato católico o “Hogar dl Cristo” para eles, sabe o que vale uma espiritualidade encarnada.

R. Paiva, SJ.

UMA ESPIRITUALIDADE SÃ

São Alberto Hurtado
Reflexão pessoal escrita em novembro de 1947

Aqueles que se preocupam da vida espiritual não são muitos; e, desgraçadamente, entre estes nem todos vão pelo caminho seguro. Quantos, durante dezenas de anos, fazem meditação e leitura sem tirar grande proveito! Quantos, mais preocupados em seguir um método que o Espírito Santo! Quantos querem imitar literalmente as práticas de tal ou qual santo! Quantos aspiram a estados extraordinários, ao maravilhoso, às graças sensíveis! Quantos esquecem que formam parte de uma humanidade dolorida e fabricam-se uma religião egoísta que não se lembra dos seus irmãos! Quantos lêem e relêem os manuais, ou buscam receitas, sem conhecerem o Evangelho, sem recordarem-se de São Paulo!

Para outros, a vida espiritual confunde-se com os exercícios de piedade: leitura espiritual, oração, exames. A vida ativa vem a ser um emplastro que se agrega, mas não uma prolongação, ou uma preparação da sua vida interior. As preocupações da sua vida ordinária, as dificuldades que têm que vencer, o seu dever de estado, são deixados fora da oração: parece-lhes indigno misturar Deus a essas banalidades.

Assim chegam a forjar-se uma vida espiritual complicada e artificial. Em lugar de buscar a Deus nas circunstâncias em que nos pôs, nas necessidades profundas da minha pessoa, nas circunstâncias do meu ambiente temporal e local, preferimos atuar como homens abstratos. Deus e a vida real não aparecem jamais no mesmo campo de pensamento e de amor. Lutam para manter em si um sentimentalismo afetivo de orientação divina, para manter, com esforço, o olhar fixo em Deus, para sublimar-se intensamente; ou então contentam-se com as fórmulas açucaradas de livros chamados de piedade. Isto faz pensar na afirmação de Pascal: o homem não é nem anjo nem besta, mas quem quer ser como anjo, obra como besta.

Uma coisa mais grave: sacerdotes, homens de estudo, que trabalham materiais sobrenaturais, pregadores que preparam as suas pregações a manhã… não terão sequer a idéia de introduzir estas matérias na sua vida de oração.

Leigos que dirigem obras de ação proibir-se-ão de pensar nestas matérias durante a sua oração. Homens que passam o seu dia sobre as misérias do próximo, para socorrê-la, afastarão a lembrança dos pobres, enquanto assistem a missa. Apóstolos carregados de responsabilidades com miras ao Reino de Deus, considerarão quase uma falta o ver-se acompanhados pelas suas preocupações e as suas inquietações .

Como se toda a nossa vida não devesse ser orientada para Deus, como se pensar em todas as coisas por Deus não fosse já pensar em Deus; ou como se pudéssemos libertar-nos, segundo o nosso arbítrio, das preocupações que Deus mesmo nos pôs. É tão fácil, por outro lado, tão indispensável, elevar-se a Deus, perder-se nele, partindo da nossa miséria, dos nossos fracassos, dos nossos grandes desejos. Por que, pois, jogá-los fora de nós, em lugar de servir-nos deles como de um trampolim? Com simplicidade, pois, arrojar a ponte da fé, da esperança, do amor, entre a nossa alma e Deus.

Uma espiritualidade sã dá aos métodos espirituais a sua importância relativa, mas não a exagerada que alguns lhe atribuem. Uma espiritualidade sã é a que se acomoda às individualidades e respeita as personalidades. Adapta-se aos temperamentos, às educações, culturas, experiências, meios, estados, circunstâncias, generosidades… Toma cada um como ele é, em plena vida humana, em plena tentação, em pleno trabalho, em pleno dever. O Espírito que sopra sempre, sem que se saiba de onde vem e para onde vai (cf. Jo 3,8), serve-se de cada um para os seus fins divinos, mas respeitando o desenvolvimento pessoal na construção da grande obra coletiva que é a Igreja. Todos servem nesta caminhada da humanidade para Deus; todos encontram trabalho na construção da Igreja; o trabalho de cada um, o querido por Deus, será o que a cada um se revelará pelas circunstâncias em que Deus o colocará, e pela luz que a ele dará em cada momento. A única espiritualidade que nos convém é a que nos introduz no plano divino, segundo as minhas dimensões, para realizar esse plano em obediência total.

Todo método demasiado rígido, toda dimensão demasiado definitiva, toda substituição da letra ao espírito, todo esquecimento das nossas realidades individuais, não conseguem senão diminuir o ímpeto da nossa caminhada para Deus.

Serão, pois, métodos falsos todos os que sejam impostos com uniformidade; todos os que pretendam dirigir-nos para Deus fazendo-nos esquecer nossos irmãos; todos os que nos façam fechar os olhos sobre o universo, em lugar de ensinar-nos a abri-los para elevar tudo ao Criador de todo ser; todos os que nos façam egoístas e nos façam recolher-nos dentro de nós mesmos; todos os que pretendam enquadrar a nossa vida desde fora, sem penetrá-la interiormente para transformá-la; todos os que dêem ao homem a vantagem sobre Deus.

Ao comparar o Evangelho com a vida da maior parte de nós, os cristãos, sente-se um mal-estar… A maior parte de nós esqueceu que somos o sal da terra, a luz sobre o candelabro, o levedo da massa… (cf. Mt 5,13-15). O sopro do Espírito não anima muitos cristãos; um espírito de mediocridade consume-nos. Há entre nós ativos, e mais que ativos, mais ainda, agitados, mas as causas que nos consumem não são a causa do cristianismo.

Depois de olhar e voltar a olhar-se a si mesmo e o que se encontra em redor de si, pego o Evangelho, vou a São Paulo, e ali encontro um dinamismo todo fogo, todo vida, conquistador; um cristianismo verdadeiro que toma o homem todo, retifica toda a vida, esgota toda atividade. É como um rio de lava ardendo, incandescente, que sai do fundo mesmo da religião.

A entrega ao Criador! Em todo caminho espiritual reto, está sempre no princípio o dom de si mesmo. Se multiplicamos as leituras, as orações, os exames, mas sem chegar ao dom de si mesmo, é sinal de que nos perdemos… Antes que toda prática, que todo método, que todo exercício, impõe-se um oferecimento generoso e universal de todo nosso ser, do nosso ter e possuir… Neste oferecimento pleno de si mesmo, ato do espírito e da vontade, que nos leva na fé e no amor ao contato com Deus, reside o segredo de todo progresso.


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