ARTIGO

A PRIMEIRA SEMANA DOS EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS (EE 45-72)
NO CONTEXTO DA REALIDADE LATINO-AMERICANA.

Ir. Maria Fátima Maldaner, SND

I. O Pecado e a Misericórdia: sua dimensão teológica

Hoje, prefere-se considerar o pecado como uma ruptura do homem ao plano de Deus à sim-plesmente chamá-lo de uma violação da lei divina. Pecado é a desfiguração visível do ho-mem, visto em Cristo, que impede a presença visível do Deus trino. Jesus nos veio desco-brir o pecado: do coração humano sai o bem e o mal.

O homem de que fala a teologia cristã é o que, desde o início, já foi atingido pela realidade do pecado, o homem caído, porém redimido e em caminho para a recuperação escatológi-ca, é o homem que se converte a partir de sua pecaminosidade. É o homem constituído por duas realidades: o pecado original, como realidade intrínseca de todo o ser humano; e a liberdade do homem, capaz de negar-se a uma relação com Deus; é o homem que, desde o primeiro, vive a história da graça simultaneamente com a história do pecado.

Toda a ação livre de um homem afeta mais ou menos a realidade da história, que se consti-tui pela situação de graça e de pecado. Todo o ser humano está afetado por esta dupla situ-ação e é por isso que é o único ser que pode fazer uma opção ante Deus. A condição de criatura humana traz em si a da pecaminosidade. À medida que o homem faz opções para estabelecer sua relação com Deus, vai diminuindo a distância de sua pecaminosidade com a plenitude de Deus.

O homem é um vir-a-ser, isto é, um ser em processo de sua plenificação. A eleição como ser cristão reside, sobretudo, na graça, no amor, na benevolência de Deus; Ele quer que este cristão seja mensageiro deste perdão, desta salvação para os outros. O homem madu-ro opta por Cristo e nele começa a assumir a transformação de sua pecaminosidade até chegar à maturidade do homem perfeito em Cristo, unido ao Pai e movido pelo seu Espírito. Não entrar neste processo de conversão é negar-se à graça oferecida em Cristo Salvador, é recusar a luz e viver as trevas, o pecado. Quanto mais o cristão experimentar a salvação em si, tanto mais pode transmitir a experiência do Deus que salva. É através deste homem, em processo de conversão, que se efetua a incorporação do universo a Deus. É ao cristão que cabe a tarefa da restauração de tudo em Cristo. Daí se explica o efeito social do pecado.

O homem talvez não consiga definir o que é seu pecado, mas reconhece que é pecador ao sentir-se na presença da santidade de Deus. Suas atitudes éticas não são conseqüência de um código de leis, mas o efeito de uma conseqüência guiada pelo Espírito de Jesus. A liber-dade dos filhos de Deus é, antes de tudo, a submissão da vontade à ação do Espírito. O homem livre em Cristo está totalmente submetido à ação divina, a saber: uma ação do ho-mem conjunta com a ação do Espírito nele. Há de se observar a lei, sim, é ela, contudo, a concretização do Espírito de amor, da vontade divina: a virtude, por sua vez, não se reduz a um hábito adquirido por esforço humano, mas é um procedimento adquirido pelo cristão, movido pelo Espírito. Daí constatar-se na história linhas de comportamento semelhantes entre os cristãos.

É nesta sociedade, marcada por diversos critérios éticos, que o cristão pode agir segundo o Espírito ou onde ele pode pecar. Ordinariamente, o cristão pode exercer sua opção positiva ou negativa perante Deus. Se continuamente rejeita seu irmão, se viola seus direitos e prati-ca a injustiça, sua opção fundamental deixa de ser positiva. Pelo contrário, comprometendo-se como outro, sua opção vai-se fazendo positiva em relação a Deus.

A reconciliação é a incorporação do cristão no processo da graça, da misericórdia, que se inicia no batismo.

II. Conteúdo da Primeira Semana: enfoque metodológico

A matéria dá primeira semana é o pecado e a misericórdia de Deus.

Requer-se partir de uma concepção objetiva do pecado, à luz da revelação, para depois personalizá-lo na própria vida e situação, constatar a história do pecado na humanidade, desde o pecado dos primeiros homens, o pecado do povo de Israel, o pecado de toda a hu-manidade hoje. Assim, o exercitante se dá conta de sua participação nesta história do peca-do; se dá conta também de que sua liberdade é capaz de negar a relação com Deus, nega-ção esta que é propriamente o pecado; constata ainda a história da graça, em Jesus Cristo Salvador, que acontece simultaneamente com a história do pecado, desde o primeiro.

O 1º Exercício sobre o pecado (EE nº 50-52), transportando o exercitante ao universo dos anjos, ao jardim do Éden e à humanidade decaída e pecadora, tem como objetivo levá-lo a perceber a presença do pecado na história, no mundo, que é anterior à experiência do mal na sua própria vida; é anterior a qualquer decisão pessoal. A realidade do pecado afeta a humanidade toda e pode condicionar o homem individualmente e sobre ele exerce sua in-fluência. Por sua vez, cada qual é um dos que faz o mal, participa, colabora para a existên-cia e propagação deste mal. Por suas atitudes o homem participa do pecado que existe no mundo invisível: constrói seu deus, faz escolhas a seu bel-prazer, satisfaz-se na autocon-templação, centraliza-se em si mesmo e se fecha sobre sua própria riqueza, sobre seus dons, chegando a apropriar-se deles, excluindo a partilha, excluindo o outro. É perceber ainda a presença da divisão, da dualidade no coração da humanidade que se alterna na luta entre o fechamento sobre si mesma e a abertura para Deus.

Sto. Inácio propõe que a meditação seja feita envolvendo todo o ser: a memória, a inteligên-cia, a vontade. Recordando a verdade que a fé revela, considera-se o pecado não tanto com a inteligência que raciocina mas com a inteligência que "rumina", contempla e se deixa im-pregnar pela graça de Deus. A compreensão, que acontece neste confronto, leva então a respostas afetivas de louvor, de contrição, de adesão a Deus.

As meditações sobre o pecado não podem ser uma simples reflexão ou introspecção sobre o mal existente na história. Daí a propriedade da forma como é proposta a oração preparató-ria (EE 46); ela visa o recolhimento profundo pela canalização de todos os desejos, tendên-cias, aspirações, pensamentos e forças para esta oração, a fim de se porem a serviço e gló-ria de Deus.

Tratando-se ainda, nesta meditação, do conhecimento sobrenatural de uma realidade invisí-vel com repercussões no pessoal e no social, é preciso dar importância à petição da graça de que falam os Exercícios de Sto. Inácio (EE 48) - "pedir o que quero" - isto é, o desejo de reconhecer-se "pecador", de reconhecer o povo - do qual faz parte - "pecador diante de Deus; pedir "dor, lágrimas, confusão" pelos pecados supõe um conhecimento interno deles e da pessoa do Crucificado, que redimiu a humanidade de seus pecados. Neste colóquio com Jesus na cruz, vai adquirindo experiência clara de sua pobreza radical em nível pessoal e coletivo e se abre ao amor salvador de Deus em Jesus Cristo com a integração do que tem feito, do que faz e deve fazer por Jesus Cristo, através de uma pergunta impregnada de es-perança (EE 53-54).

Ao considerar a situação de pecado, a saber, o pecado estrutural, no qual está inserido o exercitante, dá-se nele o reconhecimento de que seu pecado pessoal reforça a situação do pecado coletivo. Trata-se aqui (EE 55) de a pessoa reconhecer a sua história de não-salvação e as conseqüências pessoais e sociais deste estado. É descobrir-se pecador, nes-ta oração, não tanto reconhecendo suas limitações, quedas específicas mas se dar conta de um relacionamento pecador, de atitudes pecaminosas, de hábitos e dinamismos negativos ante a manifestação do Deus de amor. Pecado é recusar-se a amar, de modo consciente, procurando a própria realização. Intenciona-se que o exercitante passe da experiência de “ser pecador” para a experiência do amor gratuito e generoso de Deus que perdoa sempre. Ao fazer esta experiência da misericórdia de Deus, que perdoa totalmente, é o exercitante capaz de mudança, de compromisso, de situar-se na dimensão de criatura dependente, de filho "pecador", mas amado por Deus.

As meditações sobre o pecado não visam propriamente o exame de consciência para a re-cepção do sacramento da penitência, mesmo que, na estrutura dos Exercícios, aparecer, neste momento, a referência ao Exame Geral de consciência e ao Exame Particular; eles são tratados como instrumentos para levar-se uma vida de saúde espiritual, num processo de discernimento e conversão.

O fruto a alcançar nas meditações sobre o pecado, na 1ª semana dos EE, é a erradicação do pecado na vida pessoal e da sociedade e com Jesus e como Jesus denunciar a presença deste mal no mundo a partir do amor misericordioso de Deus.

Depois das meditações sobre o pecado estrutural e pessoal, segue, como 3º Exercício, a repetição (EE 62). O Exercício de repetição é uma oração em que o exercitante volta aos momentos em que Deus começou a manifestar-lhe sua vontade. Estes momentos podem ser os de maior consolação como também os de secura, de tentação e de resistências; logo, é uma oração acompanhada de discernimento dos espíritos. Acontece ao nível do coração, onde Deus se torna íntimo e onde o exercitante sente o que é diante de Deus. Aqui, confor-me Sto. Inácio, a repetição se destina a fazer acontecer uma conversão sincera e profunda, confiando, nesta tarefa, unicamente na graça do Senhor. O principal é que o exercitante se coloque aberto, disponível para reconhecer suas limitações e dar um passo adiante nas exi-gências da fé, criar em si o sincero desejo de conversão, desejo este que já é efeito da gra-ça do Senhor e de sua misericórdia. Neste momento importante, Sto. Inácio nos faz recorrer aos intercessores: à Virgem Maria, a Jesus Cristo, e, por fim, diretamente ao Pai, pedindo a graça do conhecimento interno de nossos pecados, da desordem de nossas operações, da aceitação anti-evangélica do mundo (EE 63).

Ao 4º Exercício (EE 64), resumo dos três primeiros, em que o acento é colocado nos três colóquios acima (EE 63), segue a meditação do inferno. Está prevista, na seqüência das meditações da primeira semana, como uma pausa seria em que a reflexão sobre o pecado universal e pessoal preparou o exercitante para colher o fruto espiritual de entrega ao se-guimento de Cristo, único caminho que pode levar à plenitude da vida.

Neste exato momento de o exercitante dispor-se a empreender este caminho, o 5º Exercício recorda de que a história do mal, desencadeada no passado, desenvolvendo em nossa pró-pria vida hoje, conserva todo o seu poder de voltar a sê-lo no futuro. O futuro que aguarda o exercitante é um futuro onde o amor de Deus não o abandonará; porém, permanece tam-bém a possibilidade, como preço da liberdade, de ele afastar-se livremente deste amor de Deus. Trata-se de considerar até onde leva a história do mal em nós, se chegarmos a trair a fidelidade, o amor, a vida e até a gratuidade do Reino. A seqüência desta oração tende a levar o exercitante ao sentimento de gratidão, por perceber a piedade e misericórdia de Deus que não o deixou ser participante daqueles grupos de que falam os EE (EE 71). Em suma, a morte eterna consiste na separação egoísta de Deus, cuja conseqüência imediata são as separações: de si mesmo, a não realização da comunhão com os irmãos e a não realização da comunhão com o mundo criado.

Sto. Inácio termina a meditação do inferno com um colóquio com Cristo, enfoque cristológico este, essencial na perspectiva histórico-salvífica. Em Jesus de Nazaré se torna possível a acolhida operante, pelo que faz os EE, do Reino da justiça, do amor e da paz.

Em ordem à perspectiva existencial, a meditação do inferno tem um positivo alcance social, podendo traduzir-se em um compromisso de luta pela libertação integral de todo o homem e de todos os homens (Paulo VI, PP,14).

III. Aplicação do conteúdo da Primeira Semana ao contexto da realidade latino-americana

1. Introdução

Os EE não procuram mentalizar para uma determinada direção. É sempre o Espírito que age, desperta disposições e direciona o exercitante na busca da vontade de Deus em sua vida.

O exercitante - aqui o cristão latino-americano - é, porém, um homem situado, imerso numa realidade de problemas sociais; os EE o levam a um discernimento da vontade de Deus, diante de uma comunidade eclesial que se sente interpelada por fatos e situações da histó-ria de nosso Continente e, através deles, interpelado pelo próprio Deus. A Igreja, pelo do-cumento de Puebla, denuncia, oficialmente, a mancha do pecado, impregnada nas estrutu-ras sociais injustas da sociedade latino-americana, estruturas estas que são uma contradi-ção com as exigências da fé.

Tratando-se aqui do desenvolvimento da matéria da 1ª Semana, cremos que os EE podem ser instrumentos para aprofundar o sentido do pecado, tanto do pecado individual quanto do pecado social e, levando a profundas experiências espirituais, podem alimentar e enriquecer as opções pastorais de cada exercitante, segundo as necessidades concretas da Igreja e do povo aqui, neste continente.

Os EE podem servir para formar cristãos alimentados por uma experiência pessoal de Deus e capazes de distanciar-se dos falsos absolutos das ideologias e sistemas, mas também capazes de tomar parte nas reformas estruturais, sociais e culturais necessárias (Congrega-ção Geral 32ª da Companhia de Jesus, 4, nº 58).

O Pe. Arrupe chama o mundo dos pobres e marginalizados lugar privilegiado da experiência religiosa.

Sem uma experiência profunda de Deus na história, que nos leve a viver a solida-riedade com o povo, torna-se impossível responder ao desafio que o ser cristão nos pede hoje. Este desafio é uma experiência de Deus integrada na história e integradora da pessoa no compromisso solidário com o povo. Não se pode encontrar este Deus separado da histó-ria do povo, e não se pode encontrá-lo separando, dessolidarizando-se farisaicamente do pecado do mundo.

2. O pecado no contexto da realidade latino-americana

Os autênticos EE conclamam para a conversão. A fim de que esta conversão atinja o exerci-tante na sua realidade existencial, é preciso situá-lo no contexto amplo em que vive.

Assim como o documento de Puebla, antes de tratar da evangelização, apresentou-nos o quadro dramático da realidade latino-americana, também assim deveria ser o procedimento de quem orienta os EE da 1ª semana em nosso continente. Visualizem-se os rostos das crianças golpeadas pela miséria antes mesmo de nascer; rostos de jovens desorientados e frustrados; rostos de indígenas e afro-americanos, que podem ser considerados os mais pobres entre os pobres; rostos de homens do campo, submetidos a sistemas comerciais que os exploram; rostos de operários mal-remunerados e com dificuldades de organizar-se; ros-tos de marginalizados nos grandes conglomerados urbanos, de subempregados e desem-pregados; rostos de anciãos... (cf Puebla 32-39).

O olhar sobre esta realidade compromete a quem se diz cristão, católico, neste continente latino-americano, pois é uma situação contrária ao plano de Deus. Do ponto de vista teológi-co, este quadro é qualificado como situação de pecado.

Desta forma, o conteúdo da 1ª Semana abre espaço para uma consideração do pecado co-mo recusa do homem na colaboração do projeto salvífico, visto como Princípio e Fundamen-to.

Ora, a vocação do homem e, por conseguinte, a conversão do exercitante, se dá dentro de uma convocação eclesial. A Igreja, em Puebla, claramente percebeu a realidade do pecado na história do nosso continente. Esta Igreja "ad-intra" se reconhece pecadora, desde os iní-cios da evangelização na AL; reconhece que fez alianças com os poderes terrenos, que seus ministros-evangelizadores não foram respeitosos do homem e de sua cultura, e que sua proclamação do Evangelho não foi suficientemente profunda. Ela se humilha pelos seus erros e pecados que obscurecem o rosto de Deus em seus filhos.

O enfoque da conversão recai, sobretudo, no pecado da injustiça, que é, por assim dizer, o termo que melhor expressa a "situação de pecado" do continente. Os pecados contra a jus-tiça tocam os interesses mais queridos por Deus: os pobres. Estes pecados vão diretamente contra o mais íntimo de Deus e do seu reinado: o amor e a justiça. À luz da fé constatamos as dimensões pessoais e sociais amplas deste pecado.

Afirma ainda Puebla que o pecado é a raiz e fonte de toda opressão, injustiça e discrimina-ção (P 517). A injustiça é o resultado de decisões da pessoa, que se imprimem na estrutura da sociedade e produzem o que Puebla denomina injustiça institucionalizada.

Se a Igreja na AL se confessa participante do pecado e da injustiça social, reconhecendo que ela, através de seus filhos, que se dizem "cristãos", origina a sociedade injusta, a con-versão que se pretende nos EE deve levar em conta este pecado estrutural na AL.

Tenta-se fazer o exercitante, consciente de sua participação pecadora na história, experi-mentar Jesus como Salvador- Libertador, experimentar Deus Pai rico em misericórdia, nesta concreta realidade ferida pela malícia do pecado. A conversão pedida ao exercitante é, por-tanto, o retorno mais profundo a Jesus Cristo, que o compromete a construir a realidade eclesial em santidade e graça e a defender os direitos da pessoa humana.

A conversão, por parte da vida religiosa latino-americana, deve confrontar-se com a propos-ta da opção preferencial pelos pobres; esta conversão faz exigências ao estilo de vida dos religiosos e à pobreza professada muitas vezes apenas em nível de desprendimento interior; é, contudo, mais profunda, pedindo solidariedade sempre, partilha e até convivência com os pobres, de acordo com as opções específicas.

A história do pecado, desde suas origens, se apresenta como uma ruptura do plano de Deus. O exercitante é levado a captar e experimentar como se dá esta ruptura, o que ela significa, e a tornar-se consciente de sua participação na história do pecado - o pecado es-trutural - no qual cada pessoa está inserida e reforça, como indivíduo, esta realidade do pe-cado. O exercitante, conforme o plano de Deus, é uma pessoa relacionada (um ser em situ-ação): com Deus, com as pessoas, com o mundo e com toda a existência humana. Relacio-na-se com Deus, na fé, como filho e criatura dependente, com seus semelhantes, na frater-nidade, consigo mesmo, na verdade e com o mundo, como co-criador, pela sua profissão, na construção de uma sociedade justa. No entanto, através da liberdade, o homem pode chegar, e, de fato, tem chegado a organizar a sua vida sem contar com Deus, ignorando-o.

Neste caso, os dinamismos humanos se convertem em forças destruidoras de Deus, dos irmãos, dos bens deste mundo, colocados à sua disposição pelo Criador para a sua própria felicidade e a de seus semelhantes. As relações em todos os seus níveis se deterioram, deturpam, construindo-se, então, um anti-projeto relativamente ao projeto de Deus.

Na AL, este antiprojeto toma matizes características. Talvez a insuficiente evangelização tenha levado a deformações da idéia de Deus, a falsas imagens de Deus, que é visto ora como um ser distante e alheio à condição humana, ora um legislador severo, que domina e manipula o homem, como um guardião disposto a castigar a menor transgressão; outras vezes ele é encarado como um velhinho bonachão, a quem se pode manipular, um deus moldável, feito à imagem e semelhança do homem, um mágico, a quem se acode quando se tem esgotado o estoque de possibilidades humanas, um milagreiro, de quem se espera poder comparar favores com uma oração ou com promessas.

Em conseqüência da substituição do Deus vivo e verdadeiro por estas imagens, estamos diante de uma fé débil, infantil, fatalista, separada da vida, conformista, impedida de influir nas decisões históricas, “ópio do povo”, mantenedora do “status quo”, que aprisiona o crente no tempo, priva-o da condição de testemunha, e produz o escândalo de que se chame cris-tão a um país e uma região do globo dilacerados pela miséria e pela injustiça.

Desta forma, desconhecendo o Deus verdadeiro, o homem constrói para si seus próprios ídolos, seus bezerros de ouro. Quando absolutiza o ter, o prazer e o poder, os seus dons, como a verdade, o saber, a liberdade e a vida se tornam deuses, e deuses tiranos, que es-magam e destroem a sociedade.

O Ter, quando absolutizado, se transforma em cobiça, isto é, em sede insaciável de se ter acima do necessário e do possível, em adulação do rico e em desprezo do pobre; em roubo; em cumplicidade na sonegação de impostos e capitais, nos negócios sujos e no pagamento de salários injustos; em explorações dos mais variados matizes: enriquecimento com o tra-balho alheio mal remunerado, tratamento despótico ao trabalhador, longas jornadas de tra-balho sem descanso suficiente; em pobreza, resultado da espoliação do homem daquilo que tem direito de possuir, do afã de ter sem partilha, da má remuneração do trabalho e da a-propriação do alheio.

O Poder, não estando a serviço do semelhante, se converte em soberba, vaidade, opressão, que impõe fardos insuportáveis, chegando a tratar como escravos os subordinados.

O Prazer, endeusado, leva à preguiça e irresponsabilidade, ao hedonismo e vícios de toda sorte.

O Saber, a Verdade e a Liberdade, considerados como absolutos sem mais referências, tornam-se mentira, covardia, busca da clandestinidade, hipocrisia, enganos, libertinagem escravidão.

Enfim, a Vida, idolatrada, gera a morte, homicídios, abortos, violência, guerras, maus-tratos, dor, desespero, tristeza, suicídios, solidão.

3. O exame de consciência

O livro dos Exercícios Espirituais de Sto. Inácio (EE 24-44), trata do exame de consciência como matéria da 1ª Semana dos EE. O assunto merece ser considerado, seja em prepara-ção à confissão (EE 44), seja para aprender uma eficaz maneira de fazer este exercício na vida diária.

Em cada retiro, é imprescindível dar o devido enfoque ao exame de consciência, verdadeira prática de autocrítica espiritual, e apresentá-lo para que o exercitante se acostume a integrar este exercício como uma experiência necessária para viver a verdade cristã e adquirir uma visão espiritual de suas faltas e pecados. Consiste em entrar no segredo da própria intimi-dade, a fim de encontrar-se a si mesmo na fé, sob a ação redentora de Cristo. Trata-se, não de saber, pela fé, que o Pai tudo dirige para nosso bem (Rm 8,28), mas reconhecê-lo nos acontecimentos do dia-a-dia. E, nestes fatos cotidianos, sejam eles importantes ou triviais, a prática do exame, feito em confronto com Cristo-Luz, leva a descobrir não só as faltas em si mesmas, mas suas raízes, a desordem dos afetos interiores, que desencadeiam atitudes de decisão.

O autêntico exame espiritual de consciência leva a ir ao encontro da recomendação do Se-nhor, quando nos fala da vigilância; consiste, sobretudo, em tomar consciência da obra sal-vadora de Cristo que vai acontecendo em nossa realidade cotidiana.

Enfocamos, a seguir, o exame de consciência no nível da realidade latino-americana e o exame espiritual cotidiano.

3.1. Um enfoque segundo a realidade

O exame de consciência, matéria da 1ª Semana, não ocupa lugar central na ordem dos E-xercícios desta etapa. Não deve, no entanto, ser menosprezado. Havendo sido dado o enfo-que dos EE sobre a realidade da AL, o exame de consciência merece ser relevado. Trata-se de vê-lo, acima de tudo, a partir do pecado social de injustiça, que marca nosso continente. O lugar social, em que vivemos e atuamos, determina uma série de atitudes que, ora cons-ciente, ora inconscientemente, acabamos adotando, sem que nos demos conta de sua pe-caminosidade ou não. Sendo este lugar social na AL aquele onde a brecha entre ricos e pobres apresenta contrastes aviltantes em conseqüência do pecado, esta situação deve ser motivo de confronto, a fim de sensibilizar o exercitante e convertê-lo, sobretudo, para atitu-des de partilha, solidariedade e comunhão.

As perguntas que se seguem, ou semelhantes, podem ser oportunas para que aconteça uma conversão mais ampla e mais profunda:

- estamos conscientes da escravidão e da opressão que existem em nossa sociedade?
- percebemos a ânsia de libertação presente em nossos irmãos oprimidos?
- quem são, aqui e agora, os “faraós” e os “fariseus” que encarnam os princípios do sistema e oprimem, perseguem e assassinam os “Cristos” de hoje?
- quem são, aqui e agora, os oprimidos por estes “faraós” e os “fariseus”?
- quais são as modalidades e os nomes desta opressão, representados em pessoas, institu-ições, organismos nacionais e inter nacionais?
- fizemos a opção pelos pobres ou pelos poderosos?
- nosso Deus é o de Jesus Cristo ou o deus da ambição, do poder, do dinheiro?
- acumulamos bens só para nós e nossa comunidade?
- temos fome e sede de que se faça justiça aos pobres, de vê-los livres da opressão, de go-zar a independência e liberdade, próprias dos filhos de Deus?
- que temos feito, segundo nossos carismas e possibilidades, para erradicar a injustiça do mundo e do nosso meio ambiente?
- temos prestado ajuda material aos necessitados e somos solidários a eles?
- estamos apegados a ídolos: prestígio, poder, riqueza, ambição pessoal?
- colaboramos para que, no plano individual e no social, se viva em paz e num ambiente de prosperidade, tranqüilidade, direito e justiça?
- em que grau vivemos as conseqüências de ter feito uma opção contrária à da sociedade que se baseia na glória, na riqueza, com insultos, perseguições, calúnias...?

3.2. Exame de “consciência espiritual”

Introdução

Devemos aprender a discernir em nossa vida espiritual. Se é um aprendizado, então trata-se de buscar o exercício espiritual apropriado, pedindo, ao mesmo tempo, a graça do Senhor, de nos dar um coração que discerne. O exercício, neste caso, é o exame de consciência espiritual, um discernimento diário, isto é, uma leitura espiritual de nossa própria história da salvação, no contexto da história da salvação de todo o universo e de todos os irmãos.

Propriamente, é o Espírito Santo quem nos conduz com suas inspirações, luzes e graças para descobrir-nos a vontade de Deus aqui e agora. A atenção consciente, a docilidade a esta ação do Espírito de Jesus, que ora sempre em nós, é o que constitui, na sua essência, a oração de discernimento, da qual estamos tratando. Conhecer a ação de Deus e também a do inimigo dentro de nós é mais importante do que descobrir a moralidade de nossa res-posta.

Antes de tudo, é preciso saber qual “espírito” nos move em pensamentos, intenções, pala-vras e obras, e não tanto examinar o ato de pecado ou da desordem que em nós encontra-mos.

Estamos, portanto, nesta oração de discernimento, como podemos chamá-la, diante de uma verdadeira escuta de Deus e de uma confrontação orante de nossa realidade como o Evan-gelho, a fim de discernir a ação do Espírito de forma constante e incondicional.

No livro dos EE, Sto. Inácio propõe cinco passos para este exercício:

1º Ação de graças:

Somente o pobre pode apreciar, de forma justa, correta, o menor dos dons recebidos, e ex-perimentar uma gratidão autêntica. Quanto mais profundamente vivemos nossa fé, mais pobres nos senti mos e, portanto, mais receptivos nos fazemos à graça. A vida toda se con-verte em humilde e alegre ação de graças. Nossa gratidão deveria referir-se aos dons con-cretos e pessoais, que recebemos, sejam eles benefícios importantes ou de aparência muito modesta.

2º Petição da luz:

O cristão deve conhecer-se para além de suas capacidades e tendências naturais. Por isso pedimos, neste segundo passo, LUZ ao Senhor, para que com a ajuda do seu Espírito pos-samos ver-nos como Ele nos vê.

3º Discernimento:

Trata-se de um olhar de fé sobre nossa condição de criaturas limitadas, nossa condição de pobreza, de ser pecadores...

Dois aspectos são importantes:

a) discernimento de nossos chamados (a partir de nosso chamado fundamental, expresso, p.ex., numa Palavra-Vida ou Consigna, observando nossos sentimentos, moções, movimen-tos interiores, apelos acontecidos no correr do dia ou meio dia):

Este discernimento refere-se a nossas disposições interiores diante de Deus, à qualidade de nossa disponibilidade, nossa atenção para fazer sua vontade. Podemos perguntar-nos: - quem é Deus para mim? - que quer de mim? - que me pede hoje? - como me fala? - onde me fala? qual é sua vontade sobre mim?

b) discernimento de nossas respostas:

Não raras vezes nos entregamos a um ativismo, somos auto-ativos e automotivados, sem nos deixar mover pelo Espírito, perdendo a idéia de resposta a um chama-mento de Deus. Infiltra-se, em nossa vida, uma sutil falta de fé para viver como filhos de Deus. À luz da fé, a qualidade de nossa resposta supera a mesma atividade. Aqui nos fixamos em aspectos concretos do nosso dia. O exame de nossas respostas quer ser um encontro pessoal, res-peitoso e leal com o Senhor, em nosso coração.

4º Pedido de perdão:

Consciente de que ser pecador é, aqui, o momento da dor e da admiração por ter, de novo, uma chance; daí a desconfiança em relação a si mesmo, mas a alegria e gratidão por ter a vitória garantida em Jesus.

5º Uma esperança no porvir:

É o momento de confiar em Deus, e de lhe permitir que conduza nossas vidas, confiando-lhe um coração renovado. Cabe aqui a grande pergunta da 1ª Semana dos Exercícios: - que eu tenho feito por Cristo? - que faço por Cristo? - que devo fazer por Cristo? (EE 53).

A resposta se reveste de grande esperança no Senhor, cheia de vontade de nos deixar levar unicamente pelo Espírito Santo, buscando e encontrando a Deus em todas as coisas.

Em resumo, a título de experiência pessoal, apresento agora uma síntese dos elementos acima. Os cinco passos, aos poucos, podem converter-se em uma oração íntima, pessoal, vivencial com o Senhor, sentido como muito próximo, amigo, companheiro de jornada. Em um espaço de tempo relativamente curto, pode acontecer uma oração profunda, condensa-da em cinco palavras-chave, que captam, sucintamente, a vivência acontecida no decorrer do dia. São elas:

1. Obrigado
2. Dá-me Luz
3. Sombras e luzes
4. Amanhã será melhor
5. Fica comigo.

Desta forma considerado, o exame de consciência se torna uma oração estimada por aque-les que o praticam com fidelidade, pois os coloca em estado de discernimento espiritual e lhes vai sendo um eficaz meio para se tornarem “contemplativos na ação”.

4. Composição de lugar

A composição de lugar (EE 47) é um aspecto privilegiado, nas meditações da 1ª Semana, tratando-se de Exercícios Espirituais, no contexto da América Latina. O pecado, como tal, é uma realidade invisível, porém suas conseqüências se traduzem em situações concretas. Assim, a imaginação é convidada a prender-se a um determinado espaço físico ou imaginá-rio e, neste Continente, a tornar presente o imenso cenário de imagens de dor, angústia, tristeza, violência, mortes, pobreza, miséria. O exercitante tenta ver com os olhos da imagi-nação situações de pecado, tanto quanto possível vivenciadas por ele, como:

a) situações de exploração, de manipulação, de prepotência no seu ambiente de trabalho; situações de extrema pobreza e miséria nos barracos das periferias das grandes metrópoles ou cortiços; imagens reais de nosso mundo: destruição, violência, injustiças, morte.

b) perceber e sentir uma situação de inferno, a partir do que vive o homem marginalizado hoje: p.ex., ver, ouvir, cheirar, tocar, acompanhar pessoas em diferentes horas e locais do dia: em ônibus super-lotados, fábricas, barracos, situações escravizantes de trabalho etc.

c) dar-se conta de fatos, notícias de jornais e de outros MCS e neles ler a presença do mal no mundo, no Continente, no país, no Estado, cidade, comunidade, grupo, família e, enfim, na realidade pessoal.

IV. Indicação de textos para a Primeira Semana

1. Textos bíblicos

O pecado na história:
Gn. 2 a 11; Ap. 123,1-13; Ap. 20,7-10; 2 Pd 2,4; Num 13,25-14,4; Ex 32,1-10; Jo (inteiro); Os 1 a 13; 1 Sam 8,3; 1 Ro 21.

Os profetas denunciam os pecados sociais:
Am 2,6-16; 3,9ss; Am 5,7.21-24; 6,1-8; 8,4-8; Jer. 5,26-29; 6,1-8; 8,4-8; Jr 5,26-29; 6,13ss; 7,1-15; 22,13-19; 34,8-22; Ez 34; Mi 3,1-4; Is 1,10-27; 1,21-28; 5,23; 10,1-4; 56,10ss.

A pobreza é um mal que ofende o homem:
Eclo 4,5-6; Ex 21,21-27; Dt 15,11; Is 58,6-7; Sl 72,12-14; Lc 4,2; 7,22.

A riqueza é um mal que desumaniza a pessoa:
Am 6,1.4.6; Hab 2,5-6; Lc 19,16-21; 16,9.14,15; 12,16-21,15, 22-31; Mt 6,19; Lc 22,33; 1 Tim 6,10.

Pobreza e riqueza são geradas dentro de um certo tipo de relacionamento entre as pessoas na mediação dos bens espirituais; pobreza é o empobrecimento, riqueza é o enriquecimento à custa dos pobres:
Is,10,1-2; Am 2,6-7; Jó 24,2-12; Mq 3,1-3; Hab 2,6-8; Lc,16,19-31; Tg 5,1-6; Lc 6,20-26.

A escravidão, extrema marginalização social
Ex 21,20; Lv 25,46; Ecl 8,9 (direito do escravo).

Causas da escravidão:
Dt 7,1s; 20,10; Lv 25,44.

Libertação do escravo:
Dt 23,16; 1Sam 30,15; Dt 23,16; Dt 24,18.22; Lv 25,41; Dt 15, 14s; Dt 5,14; Dt 12,12.18; 16, 11.12.14; Lv 26,13.

Jesus condena o mau uso do poder e do dinheiro, que negam a relação filial com Deus e a fraternal com o semelhante:
Mt 6,24; Lc 16,9.15; Cl 3,5; Ef 5,5; Mt 13,22s; Jo 4,34; Jo 13,22; 15,22-25.

Bibliografia

Livros:

Ricardo Antocichi, SJ, Direção dos Exercícios, Edições Loyola, São Paulo, 1982.

Id., A espiritualidade libertadora nos Exercícios, Edições Loyola São Paulo, 1980.

José Magaña, SJ, Jesus Liberador, pp 85-106, Imprenta Ideal, México, 1985.

Benjamim Gonzalez Buelta, SJ, El Dios oprimido, Ed. Amigo del Hogar, Santo Domingo, 1988 (n.b.: trata da vida religiosa inserida).

Isidro Perez, SJ, Peregrinación interior para un mejor servicio, CIRE, Bogotá, 1987.

R. Bohiges - A.L. Fenoll, Ejercicios de San Ignacio, Ejercicios de oración.

Documento de Puebla

Artigos:

Miguel Elizando, SJ, El pecado y la Ilamada al cambio, in CIRE-3, pp 5-9, CIRE, Bogotá, 1983.

J.Mano Gutierrez, La meditación del infierno ala luz de una compreensión teológica actual, in CIRE-3, pp 31-47, CIRE, Bogotá, 1983.

Experiências espirituales dela Primera Semana de los Exercicios, in Cuadernos de Espiritua-lidad, n 34, CISP, Peru, p. 16.

El pecado en la vida religiosa, in Diakonia nº 1, CICA, Manágua, 1978, pp 11-20.

Notas sobre el pecado colectivo, in Diakonia nº 43, pp 259-272, CICA, Manágua, 1987.

Este Artigo faz parte da Revista de Espiritualidade Inaciana - Número 01 - ESPECIAL

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