PERGUNTAS DE JESUS - 24

Vocês também querem ir embora? (Jo 6,67)

Fernando Montes, SJ
Trad. R. Paiva, SJ

Esta é também uma pergunta do Mestre que ele poderia repetir a um cristão de hoje. Ela aponta para sérias dificuldades, uma crise da Igreja nascente. As pessoas se fechavam. O povo de Israel pedia sinais. Jesus se viu cercado por estas insistências e, compreendendo que era difícil avançar, decidiu aprofundar ainda mais sua revelação. Então, começou a grande debandada. Nesta situação, a crise possibilitou aos discípulos irem mais além dos sinais e chegar ao mistério. Talvez seja este o caminho que cada um de nós tem de atravessar para alcançar a luz.

Vocês também querem ir embora? - esta pergunta não está dirigida aos que não aceitam a fé, mas aos discípulos, meio desorientados, porque o crente também passa por noites escuras e pode sentir distância de seu Deus e de sua Igreja. O seguidor pode cansar-se do caminho e buscar outras direções.

Entre os discípulos de Jesus, alguns se afastaram, porque a doutrina era dura. Outros, como os que tomaram o caminho de Emaús, partiram depois da sexta-feira santa com sua esperança despedaçada.

É humano perder esperanças. Por isso convém refletir sobre os que se decepcionaram. A Igreja, desde os seus começos, sofreu com pessoas que se desgarraram. Grupos inteiros se afastaram dela e procuraram outras tendas. O problema adquire candente atualidade. Talvez haja passado o tempo de cismas e guerras de religião. Muitos dos que, hoje, se afastam, se vão silenciosamente. Parecem haver perdido o encanto. Perdem o interesse. Deixam de participar. E, de repente, se sentem distanciados de sua mãe. Acreditam no Senhor, mas não na Igreja.

Um ponto da doutrina, o modo de governo, as riquezas, um escândalo ou a própria debilidade fazem com que muitos não se sintam em casa neste tempo. Algumas destas desilusões têm também sua origem na dificuldade que nossos contemporâneos têm para crer.

Na verdade, custa a aceitar a pequenez e a opacidade humana como lugar de encontro com Deus. Por isso muitos preferem ir-se. É delicado este partir,que rompe fidelidades muito profundas. Pode haver sementes deste afastamento em nossos próprios corações. É bom, neste caso, reler o Evangelho e nos fazermos pessoalmente a pergunta que Jesus formulou aos Doze: Vocês também querem ir embora?

Por detrás desta pergunta existe um grande conflito. As pessoas não aceitaram que o filho de um humilde carpinteiro, com domicílio conhecido em um pobre povoado, pudesse haver descido do céu e ser o Caminho para chegar a Deus: Mas este não é o filho de José? Conhecemos seu pai e sua mãe! Como ele nos vem dizer agora que desceu do céu? (Jo 6,42)

Era difícil para eles compreender o caminho da Encarnação. Não puderam aceitar Deus feito próximo e débil. Este conflito subsiste em parte também hoje, porque a Igreja, a instituição humana, é o último elo da lógica de Deus. A Encarnação chega até a aceitação de uma instituição formada por seres humanos como Corpo de Jesus de Nazaré e continuadora de sua obra na terra.

Isto é duro de aceitar porque, onde há seres humanos, há divisões, ambigüidades, ambições, defeitos e limitações. Onde há seres humanos, há sempre razões par escândalo e muitos querem ir-se embora.

Vocês também querem ir embora? - Esta pergunta ainda se coloca em nossos dias. Pedro, naquele tempo, respondeu em nome dos Doze: Aonde iremos? Só tu tens palavras de vida eterna! Nesta resposta o apóstolo aceitou o caminho humilde da Encarnação e da Igreja. Reconheceu que a proximidade de Jesus supõe aceitar a humanidade nazarena de Cristo e seguir adiante com o grupo dos Doze.

A fidelidade de Jesus passa pela mediação desta contraditória comunidade humana. Esta comunidade, feita Igreja, escreveu e nos transmitiu os Evangelhos. Hoje, ela nos entrega os sacramentos e nos alimenta com o Corpo de Jesus.

A crise pode ser ocasião para descobrir o mistério deste caminho humano de Deus. Isto nos permite passar da pertença a uma Igreja puramente sociológica a uma adesão de fé mais pessoal, com capacidade de superar os escândalos. Mas esta adesão não é um presente, é uma vocação: Ninguém pode vir a mim se o Pai não o atrair.

Vocês também querem ir embora? - Que Pedro ajude a cada um de nós a responder como ele: A quem iremos? Só tu tens palavras de vida eterna!


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