![]()
Uma conversão que deu o que falar e dá o que pensar: Temperos O Camboja está em vagarosa convalescença Também entre no Islã se veneram santos! DO RIO TÂMISA AO RIO TIBRE Austin
Ivereigh O recente anúncio da adesão de Tony Blair, por muitos anos primeiro ministro pelo Partido Trabalhista, do governo britânico, ao catolicismo, reacendeu no mundo de língua inglesa o debate sobre o papel da fé nas escolhas de um líder político. E dá oportunidade de superar velhos preconceitos.
A acolhida do ex-primeiro ministro inglês, Tony Blair, na Igreja católica, aconteceu no dia 21 de dezembro de 2007. Ela recorda os tempos de John Kennedy, o primeiro presidente estadunidense católico (e até agora, o único), quando foram sepultadas velhas suspeitas de lealdades distintas: ou Roma ou a pátria. Contudo o fato mesmo de que ela tenha acontecido apenas alguns meses depois de ter deixado o cargo, é um sinal das dificuldades que os católicos continuam a ter na vida pública, como explicou o próprio Blair. Sua iniciação formal na doutrina católica foi iniciada quatro meses antes da acolhida, sob a orientação do Padre secretário do Cardeal Arcebispo de Londres, Dom Cormac Murphy-O’Connor. O anúncio da sua adesão à fé católica seria feito em junho, quando ele, ainda primeiro-ministro, encontrou Bento 16 no Vaticano, Mas Blair foi aconselhado a esperar até passar o posto (o que se deu no fim do mesmo mês). Blair tinha declarado ao jornal London Times que “as coisas ainda não estavam resolvidas”, sugerindo a idéia de delicadas negociações. Na sua visita oficial ao Papa, Blair teve um gesto altamente simbólico: ofertou ao Santo Padre três retratos de John Henry Newman, célebre teólogo anglicano do século 19 que deixou a Igreja anglicana, entrou na Igreja católica (1845) e, depois, foi feito Cardeal (1879). Na época, na Inglaterra, se comentava com desprezo: Ele se deu ao Papa. Blair, oferecendo os retratos de Newman, disse ao Papa: Este é um famoso convertido na estrada da santidade. O Papa respondeu: Sim! Mas na Inglaterra os milagres são difíceis. Os jornais ingleses tomaram esta frase como uma repreensão. Um jornal publicou a respeito: Não é o Messias, mas um mau rapaz! Citava o filme do Monty Python: Brian de Nazaré. O jesuíta Frederico Lombardi esclareceu que o diálogo foi intenso, direto e amigável. Foram tratadas questões candentes, nas quais o governo Blair sofria críticas dos católicos: pesquisa com embriões humanos, “casamentto” gay, aborto, guerra do Iraque. O Cardeal Secretário de Estado estava presente nesta parte política e oficial do encontro. Em seguida, o Papa, o Cardeal Murphy-O’Connor e o Primeiro Ministro, tiveram um encontro de dez minutos em particular. Então foi tratado do caminho espiritual de Blair. Um caminho com diversos pontos de partida: crescentes convicções religiosas amadurecidas desde os anos da universidade, sob a influência de um padre anglicano australiano, que o orientou para a política; ocasamento com Cherie em 1980, sendo ela católica; o catolicismo irlandês da classe operária de Liverpool, do qual estava impregnada a família da mulher; a evolução de sua filosofia política pessoal, sempre em maior sintonia com a doutrina social da Igreja. Em 1993, Blair declarou à revista Third Way que a característica distintiva do cristianismo era o modo como se ligavam a responsabilidade pessoal e a da sociedade. Isto o havia conduzido a reinterpretar a mensagem socialista: A responsabilidade social é importante para reforçar a responsabilidade pessoal. Não para substituí-la. Fé e política acima do Canal da Mancha Como primeiro-ministro, Blair sempre esteve atento a manter a própria fé distante de olhares indiscretos. E o fez, como declarou recentemente à BBC, por receio de ser tido por “maluco”. É paradoxal que, nos Estados Unidos, onde a religião e o Estado são separados pela muralha da Constituição, seja útil aos políticos falarem de Deus; enquanto que na Inglaterra, onde a Igreja Anglicana é “instituída por lei” e o Estado é oficialmente cristão, é muito aconselhável aos políticos manter-se distantes destes assuntos. O refrão de Alistair Campbell, estreito colaborador de Blair foi: Nós não nos ocupamos de Deus. Blair explica o que Campbell queria dizer: Se você pertence a os sistema político americano ou semelhantes, então se pode falar da fé religiosa e as pessoas acham isto conveniente; No nosso sistema (britânico), honestamente, as pessoas pensam que você endoidou. Imaginam, talvez que você vai sair, sentar num canto, se coloque em comunhão com quem está lá em cima, volte e diga: “Aqui está minha resposta.” Blair não exagerava. Basta pensar na reação a um outra entrevista na televisão, que se deu este ano, no qual ele falava de suas ansiedades pessoais a respeito da guerra no Iraque: A decisão foi tomada e é preciso que nos convençamos. No final haverá um juízo que, bem, se acreditam nestas coisas... será dado por outros;se acreditam em Deus, será dado também por Ele. E quais foram as manchetes: Blair declarou que Deus lhe disse para ir à guerra. Não há dúvida que, se Blair tivesse dado o passo para a Igreja, enquanto ainda fosse primeiro-minsitro, não faltariam reações contrárias. Haveria uma torrente de questionamentos: como um católico pode supervisionar 200 mil abortos cada ano; ou nomear bispos anglicanos; ou encorajar experiências sobre os embriões; ou aprovar o casamento gay? Estas perguntas não se dirigem a primeiros-ministros anglicanos, ateus ou protestantes, porque se presume que eles não se ligam a nenhuma autoridade maior. Mas um católico praticante não tem saída: ele está em linha com o Vaticano. É um títere Igreja Católica Romana. Se for contra, então é um hipócrita. Politicamente ambos os juízos são fatais. Haveria um obstáculo legal a um primeiro-ministro católico: uma antiga cláusula do Ato de Emancipação de 1829 declara que o Rei não pode ter conselheiros católicos romanos. A Rainha, porém, tem tido vários conselheiros católicos ao longo dos anos, e, portanto, o problema não se põe. Esta é uma das regras não codificada que formam o sistema constitucional britânico e não são discutidas abertamente. Em questões políticas, os ingleses preferem a própria forma de secularismo: um ateísmo prático debaixo de um ligeiro verniz de anglicanismo. Uma pequena indicação do que lhe estaria reservado para o católico Blair – e um motivo para o Cardeal Murphy-O’Connor e o Vaticano terem aconselhado aguardar – foi dado por um recente artigo de The Telegraph, declarando: Para muitos de nós ele não é louco, mas é um hipócrita. Damian Thompson, redator chefe do Catholic Herald, observou que os católicos não esqueceram que o ex-premier, embora afirmasse opor-se ao aborto, votou constantemente com os abortistas mais radicais, enquanto já participava da Missa. Eles consideram isto uma hipocrisia desgostosa, e se perguntam porque o Cardeal não se exprimiu quanto ao assunto. A pergunta pressupõe que Blair teria podido votar nestes temas contra o próprio partido e governo. Seu poder é supervalorizado. Ele perdeu a batalha, nos inícios de 2007, para que fosse concedido às instituições católicas de adoção o direito de recusarem seus serviços a casais gays. Não sabemos o quanto tenha lutado nesta matéria, mas, no ponto da pesquisa com embriões, ele defendeu o ponto de vista que o Estado ultrapassava suas competências neste campo. O caminho para Roma e os obstáculos para os políticos católicos
Podemos imaginar os esforços para do Tâmisa chegar ao Tibre. A formação de Blair no anglo-catolicismo é liberal. Seus teólogos preferidos são Leonardo Boff e Hans Kung e não Joseph Ratzinger ou Hans Urs von Balthazar. Pertence a uma tradição eclesial cujas portas são mais largas e as pontes mais importantes do que os limites. Quando, muitos anos atrás, ele foi repreendido pelo Cardeal Basil Hum, ex-Arcebispo de Westminster por ter recebido publicamente a comunhão na Missa católica, aceitou a repreensão, mas, escrevendo ao Cardeal, perguntou: O que teria feito Jesus?
A maior parte dos anglicanos convertidos ao catolicismo (no ano de 2005 foram 3981 adultos) foi tocada pela clareza doutrinal da Igreja, cansados dos contínuos debates no seio do anglicanismo sobre a ordenação de mulheres, ou de pessoas que vivem publicamente como parceiros homossexuais. Admiram a prática religiosa católica, superior proporcionalmente a anglicana, apesar de estes serem 25 milhões e aqueles 4,2 milhões, e o convicto sentido religios, manifestado no acatamento dos sacramentos, no misticismo, no sentido do sobrenatural, tão pouco britânico. Contudo, o que mais fascina Blair é a dimensão internacional da Igreja, sem empenho pelos pobres, sal capacidade de mobilização contra a injustiça e a coragem de manter posições firmes em questões impopulares. Para ele, certamente, é um passo difícil aceitar o magistério, crer nos dogmas, prometer obediência a posições, que, se ele as tivesse adotado antes publicamente, teria destruído sua carreira política. Por isso não parece generoso falar de hipocrisia. Uma coisa é cobrar dos católicos suas posições na vida pública. Por exemplo, perguntar como o juiz da Suprema Corte americana, Antonin Scalia possa ser favorável à pena de morte, ou John Kerry ao aborto. Mas outra cosia é chamá-los de hipócritas, e fazer de conta de desconhecer as escolhas que tiveram de enfrentar e porque tomaram determinadas decisões. Os políticos devem governar para o bem comum numa sociedade pluralista. Se um católico apenas puder participar de um governo se todas as posições deste governo forem de acordo com sua consciência e com o ensino da Igreja, então, provavelmente não é haverá católicos nos governos. Perscrutar a consciência de alguém é alguma coisa que nos deve fazer ter medo de nos enganarmos. Daí que seja da alçada do diretor espiritual ou do confessor, no segredo da confissão. Tony Blair assegurou conformar-se com tudo o que a Igreja crê e ensina da Revelação de Deus. A nós pertence estender-lhe a mão em sinal de boas vindas, alegrando-nos com sua vinda a nossa casa, felizes porque nosso “momento Kennedy”, quando um católico feito primeiro-ministro britânico puder morar no número 10 de Downing Street, estiver próximo. Berberé
picante para os etíopes e eritreus POPOLI
abril de 2008
As especiarias atraíram, desde séculos, os estrangeiros à Índia. Já os antigos romanos eram interessados nos produtos indianos para sua cozinha. Modernamente, ingleses e holandeses competiam para controlar o comércio das especiarias. Elas estão ligadas de modo indissolúvel às tradições gastronômicas do subcontinente indiano. Sua culinária é marcada pelo infinito uso de gengibre, páprica, cominho, noz moscada, coentro, etc. Mas as especiarias são empregadas, há milênios, também por suas propriedades medicinais. Ainda hoje, a Índia produz 60% das especiarias do mundo, num valor (agência Reuters) que deve atingir cerca de um bilhão de dólares. O governo indiano tem uma agência com sede em Kochi, no Kerala, que regulamenta e promove o comércio das especiarias. Cominho, o tempero internacional Seu gosto particular conseguiu consenso geral, tornando-se um ingrediente comum em várias tradições culinárias européias e também luso-brasileira. O cominho, hoje cultivado em diversas partes do mundo, tornou-se um tempero verdadeiramente internacional. Agrada na cozinha espanhola e portuguesa, onde é muito usada para aromatizar salsichas, arroz e verduras refogadas. No Marrocos é usado na carne do “kebab” e no cuscuz. Na Índia é um dos principais componentes do “curry”, o molho nacional. Neste país, o sue uso é aconselhado num livro sobre ervas datado do século 5º antes de Cristo! Mas ele é encontrado em lendas germânicas, pois se acreditava que podia manter demônios a uma distância segura! Na Idade Média, era dado às galinhas, porque se pensava que assim elas não se afastariam muito da casa. Muitas mulheres o davam também aos maridos, para que eles não as abandonassem! Especiarias orgânicas para a paz Na Guatemala, convulsionada pela longa guerra civil (1990-1996), a produção orgânica de especiarias tem favorecido a volta à paz, dando melhores condições de vida a milhares de pobres lavradores. A iniciativa surgiu da ForestTrade, empresa estadunidense empenhado no comércio igualitário e solidário. Ela encorajou os pequenos agricultores a empreender plantações sustentáveis da canela, em vez de empregar produtos químicos em suas vastas áreas de floresta. Criou-se assim uma rede de comunidades, ONGs e associações para promover métodos tradicionais de produção e monitorar as etapas desde a sementeira até o transporte (mesmo em áreas de difícil acesso) e comercialização. Os plantadores, além de receberem a nível do mercado, recebem ajuda financeira para serviços educacionais e de saúde nos seus povoados. Gengibre, o tempero que faz bem
Nos últimos anos temos assistido a uma redescoberta do gengibre. Ele é utilizado nos pães, biscoitos e bolachas, chás aromatizados e ainda como tempero das massas e outros pratos. É uma especiaria conhecida há séculos, e tradicionalmente usada também em licores, bebidas, como o famoso “ginger”, balas, doces e até cerveja. Ele é cultivado na Índia (o maior produtor mundial), Indonésia, Tailândia, Brasil, México, Peru e por várias partes da África. Também a raiz é utilizada para fins curativos. Desde milênios, tanto na Índia como na China, seu creme é empregado isoladamente ou como componente de medicamentos naturais por suas propriedades digestivas, por facilitar a circulação sanguínea, anti-oxidante, etc. Sua eficácia tem sido confirmada, além do seu sucesso no uso empírico, também pelos exames de laboratórios, que asseguram seu valor como anti-inflamatório. O ouro em pó chamado açafrão
Seu preço chega a 1.500 euros o quilo (cerca de 3.000 reais!). É o tempero mais caro do mundo! Para produzir um grama de este pó vermelho escuro, mas que dá uma típica coloração amarela (seu nome deriva de “a-far”, “amarelo” em árabe), são necessárias 150 flores da planta, “crocus sativus”. Colhem-se os raminhos, que são secos para se obter o produto. A planta cresce, sobretudo, numa faixa do planeta que vai da Espanha à província indo-paquistanesa de Cachemira, nas encostas do Himalaia. Mas seu principal produtor é o Irã, de onde provêm quatro quintos das 300 toneladas anuais de açafrão produzidos em todo o mundo cada ano. Para conseguir um quilo, são necessárias 100.000 flores e uma enorme mão de obra, pois a colheita é necessariamente manual, flor por flor. Os galhinhos eram e ainda são usados pelos monges budistas para tingir seus hábitos. “Chili”, uma história americana
O México é um autêntico museu de etnobotânica! Ale se encontra uma série de tradições da antiga cozinha precolombiana ainda presentes na culinária contemporânea. O governo requereu da UNESCO o reconhecimento das tradições culinárias nacionais – nascidas da fusão de elementos nativos e europeus – como patrimônio comum da humanidade. Sobretudo tem realce o “chili”, um pimentãozinho picante que se tornou quase seu símbolo e tem uma antiqüíssima história. Os arqueólogos demonstram que era conhecido entre 6 mil e 7 mil anos antes da conquista espanhola. Teria sido uma das primeiras plantas cultivadas na América, difundindo-se para o sul e para o norte graças aos pássaros migrantes. No México se cultivam cerca de dez variedades, utilizadas como ingrediente dos molhos (“salzas”) como o “mole”. Quando Entre os europeus, foram os portugueses os pioneiros na procura de novas rotas marítimas para desenvolver o comércio das especiarias com o Sudeste asiático. Por séculos os árabes e venezianos tinham controlado o comércio ao longo da rota das especiarias, mas, no final do século 15 o cenário mudou radicalmente. Vasco da Gama atingiu a Índia, pela rota do Cabo da Boa Esperança (1498); Pedro Álvares Cabral, o Brasil (1500); Fernão de Magalhães, outro português, a serviço do rei da Espanha, atingiu o oriente asiático, depois de cruzar o Atlântico, atingir o Pacífico pelo canal que hoje leva o seu nome, no extremo meridional da América do Sul, cruzar o grande oceano, até chegar as Ilhas Molucas, hoje parte da Indonésia, e conhecidas como "Ilhas das Especiarias”. Por mais de um século, até a conquista holandesa destas ilhas (1641), foram os portugueses que controlaram o comércio das especiarias para seus entrepostos na Índia, no mundo árabe e na Europa. Até o século 18, quando franceses e ingleses introduziram seu cultivo nas colônias africanas ou americanas, as Molucas foram o principal centro produtor de pimenta, cravo e noz moscados, também muito procurados para preparar remédios e conservantes. Mutilados pelas minas terrestres, inválidos de guerra, sobreviventes do genocídio à espera de justiça: são muitos os cambojanos que têm necessidade de cura, porque os desastres das décadas passadas não são fáceis de deixar para trás.
Peut tem quase quarenta anos. Ensina a ler e escrever aos moradores de um povoado onde poucos estudaram. Ele não tem mãos, perdidas, quando garoto, sofreu um acidente com uma mina terrestre, no início dos anos oitenta (...) Deixou de freqüentar a escola porque não podia mais escrever. Continuou, porém, a estudar com a ajuda de alguns monges budistas, usando os tocos dos braços. Quando uma equipe dos Serviço Jesuíta aos Refugiados, que organizava cursos de alfabetização, o encontrou, ele quis trabalhar pelo seu povo. Especializou-se na alfabetização de adultos e na gestão da biblioteca do povoado. Recorda: O trabalho de ensinar me mudou a vida e me abriu os olhos sobre como ajudar os outros, ter confiança em mim próprio e criar realções de amizade entre professor e alunos. Deficiência e prejuízo A história de Peut mostra muito do Camboja de hoje. Vastas áreas estão ainda perigosas por causa das minas terrestres, cerca de 4 ou 6 milhões, de fabricação chinesa, russa, estadunidense, vietnamita ou européia. Foram espalhadas durante os trinta anos de guerra e continuam a ferir ou matar cerca de 800 pessoas por ano. É uma herança pesada, que faz do Camboja, depois de Angola, o país com o maio número de mutilados: um em cada 250 pessoas. Os mutilados são os mais pobres entre os pobres de uma país de camponeses pobres. Numa terra de devotos budistas, a deficiência física é um sinal de “carma ruim”, sintoma de culpas em encarnações passadas, que sempre atraem marginalização num mundo de lavradores, cujas pernas e mãos são necessárias para ao cultivo do arroz. Os homens sentem ter perdido sua dignidade de pais de família.As mulheres são rejeitadas como esposas. O Padre In-don Oh, jesuíta coreano que trabalha do Serviço Jesuíta dos Refugiados, diz: A deficiência permanece um problema cultural. Assim não basta o empenho da Campanha Mundial contra Minas, nem a atuação de ONGs pelo seu desarme, fornecer próteses ou alertar os lavradores contra o perigo. A equipe do Serviço Jesuíta para os Refugiados, orientada pelos jesuítas coreanos, mas formada por cerca de 30 pessoas, entre as quais leigos e religiosas de todas as partes do mundo, trabalha para o desenvolvimento dos povoados, cria escolas, oferece tratamento, em particular para os que ficaram com problemas de audição. O Padre continua: É uma rede capilar de intervenções, mas que não pode ficar na ajuda material. E este empenho é recompensado pela maravilha de ver a transformação das pessoas, que reconquistam a confiança e se libertam do medo.
A cerca de 20 km da capital, Phnom Penh, se encontra Banteay Prieh, “o Centro da Pomba”. No passado, foi uma fábrica, convertida em centro de comunicações militares e, depois, em lugar de execuções capitais no tempo da tirania dos Khmer vermelhos.
Em 1991, quando se iniciou a pacificação do país, o Serviço Jesuíta dos Refugiados o transformou num centro de formação profissional para mutilados de guerra, combatentes das várias partes até então.
Banteay Prieb se tornou uma pequenina aldeia, tendo ao centro uma grande escola, rodeada de cerca de doze casas. Cada ano hospeda uma centena de jovens com deficiências físicas. São vítimas das minas, mas também da paralisia infantil, que, por 30 anos não foi enfrentada com vacinação. O Padre Joaquim Salord, espanhol, fundador da escola, conta: Procuramos os jovens nos povoados. Alguns são analfabetos, mas aqui, durante um ano, vão às aulas e aprendem um ofício: fabricação de móveis, escultura, costura, reparos mecânicos. Depois os ajudamos a dar início a uma oficina, quando retornam aos povoados. (...) O povoado é também um dos principais centros produtores de cadeiras de rodas do país, chegando a distribuir mil por ano. São cadeiras especiais, construídas por pessoas deficientes e adaptadas às exigências de pessoas que vivem no campo. O Padre In-don observa: Nem sempre se consegue fazer um trabalho de motivação em todo o território, mas, cada ano, uma centena de jovens voltam para casa com uma pequena ajuda financeira para começar alguma atividade, para a qual foram preparados. Alguns permanecem aqui para ensinar a outras turmas, para um trabalho de enfermagem, formação e também de mudança de mentalidade e pacificação. Francesco
Pistoccdhini, POPOLI, março de 2008 No mundo ocidental, comumente se pensa que a religião muçulmana não conheça a existência de santos, intermediários nossos com Deus. Mas há várias exceções, como demonstra o caso dos “pir”, santos muçulmanos em Bangladesh
Também os políticos fazem peregrinações aos “mazar”: a bênção de um “pir” dá um ótimo retorno de imagem No Bangladesh rural é fácil da com os “mazar”, os sepulcros sagrados dos “pir”, santos muçulmanos. O Padre Luigi Paggi, missionário xaveriano ativo em Satkhira, no distrito de Khulna, uma região onde os “mazar” são numerosos, explica: Os “pir” são figuras chaves do Islã neste país. Eram místicos, pelo menos nos princípios, ligados ao sufismo. Eles fizeram uma ponte entre as religiões nativas e o Islã, permitindo que este se enraizasse em Bengala. Os puristas não o vêem com bons olhos, porque o culto deles apresenta elementos sincretistas. Assim são freqüentes as referências a Kwaz, o protetor dos pescadores, uma divindade hindu. Mas, na verdade, não se pode entender a espiritualidade de Bangladesh, quando se deixa de lado estas figuras, que tão grande parte continuam a ter na difusão da tolerância e do diálogo inter-religioso.
Este é um “mazar”, situado perto de Filadélfia, Estados Unidos, erigido em honra do místico sufi Muhaiyaddeen Muhammad Raheem Bawa Muhaiyaddeen
Os “pir” não podem ser considerados “santos” no sentido católico do termo, mas têm semelhanças. A eles são atribuídas características morais e intelectuais extraordinárias, bem como o poder de intercessão junto a Deus e o de fazer milagres. Há relatos de “pir” que caminharam sobre as águas, curaram doentes e ressuscitaram mortos. Embora sejam poucos, há alguns “pir” vivendo. O culto dos que morreram é mantido por discípulos e pelo herdeiro espiritual, normalmente um membro da família. Os fiéis peregrinam ao “mazar” de um “pir”, sobretudo, nas horas de dificuldade. Em geral vão ao mais próximo ou mais indicado para certo tipo de problema. Por exemplo: recuperar um objeto roubado ou resolver um problema de saúde. O dia de um “pir” é marcado pela prece e pelos encontros com as pessoas. Além da intercessão e conselhos, o “pir”, às vezes, fornece amuletos – “tapiz” – em geral saquinhos contendo versículos do Alcorão. A força de um “tapiz” é diretamente proporcional à estatura espiritual moral de quem o fez. Até os políticos gostam de dar publicidade a suas peregrinações aos “mazar”, sobretudo perto das eleições. A bênção de um “pir”, independente de qualquer outro fator, dá uma excelente imagem. Os fiéis trazem dons e ofertas, que sustentam o “pir” e seu círculo, além de manter suas obras sociais como orfanatos e escolas. Os “pir” não têm, em geral preocupações econômicas e podem até se enriquecer. Assim, ao lado de personagens puros e esplêndidos, emerge um bando de charlatães, prontos a explorar credulidade e fragilidade humanas. Um exemplo literário inquietante se encontra no romance Impiedade (Neri Pozza, 2003), da escritora paquistanesa Tehmina Durrani. Seu protagonista é um homem de aspecto moral e inspirado, que cultiva, dentro de seu palácio, todo tipo de perversões e prevaricações, sem que ninguém, por medo ou cumplicidade, ouse denunciá-lo. Mustafá, um estudante muçulmano que trabalha com o Padre Luigi, nos confirma que o fenômeno dos falsos “pir” é mais difuso do que se imagina e que não é fácil desmascará-los. Mas assinala que a simplicidade de vida de um”pir” é um critério para avaliar sua autenticidade. Diz: Os verdadeiros “pir” são modestos, sóbrios, naõ descriminam ninguém. Há um “hadit” (palavra de Maomé, recolhida na tradição) que diz: “Tu, que queres pregar o Islã, vá para o meio das pessoas e misture-se a eles”. O “pir” do romance de Durrani vive no luxo e não se mistura com ninguém. Tolerância ou não Em Nawpara, perto de Jessore, durante anos agiu um “pir”, que se distinguia pela simplicidade, virtudes e inteligência. O missionário xaveriano conta: Ele tinha fundado um orfanato e andava na companhia de párias, que aqui, como na Índia, estão no fundo da escala social. Aproximavam-se dele, indiferentemente, muçulmanos, cristãos e hindus. Durante um encontro de diálogo inter-religioso, alguns muçulmanos acusaram os cristãos de politeístas por causa da Trindade. Ele os calou, dizendo: “Em vez de julgar os outros, cada um deve fazer sua auto-crítica. Não lhes parece que nós, muçulmanos, damos tanta importância ao Profeta, a ponto de colocá-lo acima de Alá? Este “pir” já faleceu e seu “mazar”, que recebe muitas visitas, é guardado por um membro de sua família. (...) O modo bengalês de lidar com a religião é muito mais tolerante e aberto de quanto se possa suspeitar no Ocidente desinformado. E a difusão da veneração aos “pir” é uma prova. (...) |