JESUS

Para Inácio de Loyola, como para qualquer pessoa cristã de verdade, Cristo é o centro, o começo e a meta, o alfa e ômega.

Deste afeto a Jesus, que o eixo profundo dos Exercícios Espirituais, surgiu a idéia desta seção, onde vários Autores, que amaram nosso Salvador e escreveram sobre ele, falem agora a você, que visita ITAICI - Revista Eletrônica Inaciana.

Traduções e adaptações de
R. Paiva, SJ


VIDA DE JESUS CRISTO
Giovanni Papini

Giovanni Papini nasceu em Florença, Itália, em 1881. Faleceu em 1956. Jovem, propôs-se atingir o "ateísmo integral". Jornalista e escritor famoso, participante das tarefas políticas de seu temp, viu-se convertido, e empregou seu talento em escrever a História de Cristo, a primeira biografia literária sobre Nosso Senhor. O mais impressionante deste livro impressionante é a "Oração" final. Antes traduzo e ofereço a vocês uma seleção de cinco textos extraídos na nova e cuidada edição espanhola da EDIBESA, Madrid, 2002.

Trad. e adap. R. Paiva, SJ


OS TRÊS MAGOS

Dias depois, chegavam os Magos da Caldéia e se ajoelhavam diante de Jesus.

Talvez viessem de Ecbátana, ou, quem sabe, das margens do Mar Cáspio. Nos lombos de seus camelos, com os alforjes carregados, pendentes dos lados de suas selas, haviam cruzado os rios Tigre e Eufrates, haviam atravessado o grande deserto dos nômades, haviam passado ao longo do Mar Morto. Uma estrela nova - semelhante ao cometa que aparece de quando em quando no céu para anunciar o nascimento de um profeta ou a morte de um César - os havia guiado até a Judéia. Tinham vindo adorar um rei e se encontravam diante de um Menino, pobremente enrolado em faixas, escondido num estábulo.

Quase mil anos antes deles, uma rainha do Oriente tinha ido em peregrinação à Judéia, levando também os seus dons: ouro, perfumes e pedras preciosas. Tinham, porém, encontrado um grande rei no seu trono, o maior dos reis que reinou em Jerusalém, aprendendo dele o que ninguém lhe pudera ensinar.

Os magos, pelo contrário, que pensavam ser mais sábios do que os reis, encontraram um Menino de poucos dias, um Menino que desdenharia, quando crescesse, os tesouros da matéria e a ciência da matéria.

Os magos não eram reis. Contudo, na Pérsia e na Média eram senhores dos reis. Os reis mandavam nos povos, mas os magos guiavam os reis. Sacrificadores, intérpretes dos sonhos e ministros, somente eles se comunicavam com Ahura Mazdá. Somente eles podiam conhecer o futuro e o destino. Matavam, com suas próprias mãos as animais inimigos dos homens e das colheitas: cobras, insetos nocivos, aves nefastas. Purificavam os seres humanos e os campos. Nenhum sacrifício agradava a Deus, a não ser que fosse oferecido pelas suas mãos. Nenhum rei iria à guerra, sem tê-los escutado. Orgulhavam-se de possuir os segredos da terra e os do céu. Sobressaiam no meio do povo em nome da ciência e da religião, No meio de gente que vivia para a matéria, representavam o papel de espírito.

Portanto, era justo que se fossem inclinar diante de Jesus. Depois dos animais, que são a natureza, depois dos pastores, que significam o povo, esta terceira potência - o saber - se ajoelha perante a manjedoura de Belém. A velha casta sacerdotal do Oriente fazia ato de submissão ao novo Senhor, que enviará seus anunciadores para o Ocidente. Os sábios se ajoelharam diante daquele que submeteria toda a ciência das palavras e dos números à nova sabedoria do amor.

Os magos em Belém representam as velhas teologias, que reconhecem a definitiva revelação, a ciência que se humilha diante da inocência, a riqueza que se prostra aos pés da pobreza.

Oferecem a Jesus o ouro, que Jesus calcará. Não lhe oferecem porque Maria é pobre e talvez necessite dele para viagem, mas para obedecer adiantadamente os conselhos do Evangelho: "Vende o que tens e dá aos pobres". Não oferecem incenso para aliviar o mau cheiro do estábulo, mas porque suas liturgias vão acabar e já não serão necessários fumos e perfumes para seus altares. Oferecem mirra, que serve para sepultar os mortos, porque sabem que aquele menino morrerá jovem e sua Mãe, que agora sorri, terá necessidade de aromas para envolver seu cadáver.

Ajoelhados, envoltos em suntuosos mantos régios e sacerdotais no chão de palha e esterco, eles, os poderosos , os doutos, os adivinhos, se oferecem a si mesmos, em penhor da obediência do mundo.

Já recebeu Jesus as primeiras investiduras que lhe cabiam por direito próprio. Quando se foram os magos, começarão as perseguições dos que o odiarão até a morte.


A VIGÍLIA

João convida os pecadores a se lavarem no Jordão antes de fazer penitência. Jesus procura João e pede para ser batizado. Jesus se considerava, portanto, um pecador?

Os textos
parecem explícitos: o profeta pregava "o batismo de penitência para a remissão dos pecados". Quem ia a ele se reconhecia pecador. Quem vai lavar-se é porque se sente sujo.

O pouco que sabemos da vida de Jesus entre os doze e os trinta anos, precisamente os anos da adolescência capaz de vícios e da juventude acalorada e cheia de fantasias, tem dado a alguns pensar se nesse tempo ele haveria sido - ou pelo menos ele se consideraria tal - pecador como os demais.

O que sabemos dos três anos de vida que lhe restam, os mais iluminados pelas palavras dos quatro evangelistas (porque dos mortos se recordam melhor os últimos dias e conversas) não fornece nenhum indício desta presumida inserção de culpa entre a inocência do princípio e a glória do fim.

Em Cristo não se manifestam sequer aparências de conversão. Suas palavras primeiras têm o mesmo acento das últimas. O manancial de onde correm é transparente desde o primeiro dia. Não há fundo lodoso, nem decantação de maus sedimentos. Ele começa seguro, franco, absoluto. Tem a autoridade reconhecível da pureza. Sente-se que nada deixou de obscuro atrás de si. Sua voz é alta, livre, sincera, um melodioso canto, que não procede do mau vinho dos prazeres, nem da rocha dos arrependimentos. A limpidez de seu olhar, de seu sorriso, de seu pensamento não é a serenidade que se segue às nuvens do temporal, ou a incerta alvura do amanhecer, que, lentamente, vence as malignas sombras da noite. É a limpidez de quem nasceu e permaneceu criança, ainda na maturidade. A limpidez, a transparência, a tranqüilidade, a paz de um dia que terminará na noite, mas que, antes, não teve sombras, dia constante e igual, infância intacta, que não se toldará.

Vai entre
os impuros com a simplicidade do puro. Entre os pecadores, com a força do inocente. Entre os enfermos, com a franqueza do são.

Quem se converte está sempre, no fundo da alma, um pouco turvo. Uma só gota amarga que tenha ficado, uma ligeira sombra de imundície, um resto de pena, um perpassar ligeiro de tentação bastam para submergi-lo, novamente, em espasmos. Fica-lhe sempre a suspeita de não se ter despojado da última pele do homem velho, de não haver destruído, apenas adormecido, o outro, que em seu corpo habitava. Tanto pagou, suportou, sofreu por sua salvação que ela lhe parece o seu bem mais precioso, embora tão frágil, que sempre tem medo de pô-la em perigo, de perdê-la. Não foge dos pecadores, mas deles se aproxima com um sentimento de espanto involuntário. Com o receio, às vezes nem sequer assumido, de um novo contágio. Com a suspeita de que, vendo novamente a lama, em que também se deleitava, a recordação, demasiada e atrozmente irresistível, da vergonha, lhe provoque desespero da salvação posterior. Quem foi empregado, costumeiramente, não saber se tornar um patrão amável com seus empregados. Quem foi pobre, muitas vezes, não sabe, uma vez rico, ser generoso com os pobres. Quem foi pecador, nem sempre é, depois da penitência, amigo dos pecadores.

Este restinho de soberba, que se esconde, às vezes, até no coração dos santos, mistura à piedade um mau fermento de desprezo: "Porque não fazem como eles souberam fazer? O caminho para cima está aberto a todos, inclusive aos mais maculados e encardidos. O prêmio é grande. Por que permanecem lá em baixo, afundados no cego inferno?"

E quando o convertido fala a seus irmãos para convertê-los, não pode deixar de se lembrar de sua queda e de sua libertação. Sente-se inclinado, talvez mais pelo desejo de eficácia que pelo orgulho, a oferecer-se com exemplo vivo e presente da graça, como testemunho da doçura da salvação.

Pode-se renegar o passado, mas não se pode destruí-lo de todo. Ele volta a sair, ainda que inconscientemente, nas mesmas pessoas que voltam a começar a vida com o segundo nascimento da penitência.

Em Jesus,
este suposto passado de convertido não se vê retornar nunca, de nenhum modo. Não se adverte sequer por uma alusão ou suposição. Não é reconhecível no menor dos seus atos, na mais obscura de suas palavras. Seu amor pelos pecadores nada tem do impetuoso ardor do arrependido, que quer fazer prosélitos. Amor espontâneo, não amor do dever. Ternura de irmão, isenta de censuras. Fraternidade espontânea de amigo, que não tem de vencer repugnâncias. Atração para o impuro do puro que não tem medo de sujar-se e sabe que pode limpar. Amor dos santos, nos momentos supremos de santidade. Amor que faz que com que todos os demais amores pareçam vulgares. Amor que, depois, somente se voltou a encontrar na memória ou na imitação deste amor. Amor que se chamará cristão e nunca teve outras palavras. Amor divino, amor de Jesus, amor.