JESUS

Para Inácio de Loyola, como para qualquer pessoa cristã de verdade, Cristo é o centro, o começo e a meta, o alfa e ômega.

Deste afeto a Jesus, que o eixo profundo dos Exercícios Espirituais, surgiu a idéia desta seção, onde vários Autores, que amaram nosso Salvador e escreveram sobre ele, falem agora a você, que visita ITAICI - Revista Eletrônica Inaciana.

Traduções e adaptações de
R. Paiva, SJ


VIDA DE JESUS CRISTO
Giovanni Papini

Giovanni Papini nasceu em Florença, Itália, em 1881. Faleceu em 1956. Jovem, propôs-se atingir o "ateísmo integral". Jornalista e escritor famoso, participante das tarefas políticas de seu temp, viu-se convertido, e empregou seu talento em escrever a História de Cristo, a primeira biografia literária sobre Nosso Senhor. O mais impressionante deste livro impressionante é a "Oração" final. Antes traduzo e ofereço a vocês uma seleção de cinco textos extraídos na nova e cuidada edição espanhola da EDIBESA, Madrid, 2002.

Trad. e adap. R. Paiva, SJ


A OUTRA FACE


Mas Jesus não havia chegada à mais estupenda de suas revoluções.

Sabeis o que está mandado: "Olho por olho, dente por dente". Pois eu vos digo: não façais nada contra quem vos ofende. Pelo contrário, se alguém te der um tapa na face direita, oferece-lhe a outra. Quem quiser disputar contigo a túnica, entrega-lhe também o manto. Se alguém exigir que caminhes uma milha, acompanha-o por duas.

A antiga lei do talião não poderia ter sido abolida com palavras mais absolutas. Muitos dos que nos dizemos cristãos, não só não temos guardado este mandamento, mas nem sequer nos demos o trabalho de fingir que o acatamos. O princípio da não resistência tem sido, para uma multidão de crentes, um escândalo insuportável e inaceitável do cristianismo.

A resposta nossa à violência pode dar-se de três modos: pela vingança, pela fuga ou dar a outra face. A primeira é o princípio bárbaro do talião, hoje acantonado e escondido nos códigos, mas muito em uso. Ao mal só se pode responder com o mal - ou por meio de pessoas intermédias, mandatárias da horda sem freios, chamados juízes ou carniceiros. Ao mal feito pelo primeiro ofensor, acrescentam-se os males cometidos pelos justiceiros. Muitas vezes o castigo se volta contra o vingador, e a cadeia terrível das vinganças das vinganças se alonga sem trégua. O mal é reversível. Recai, ainda que feito com desejo de bem, sobre quem o comete. Quer se trate de nações, de famílias ou de indivíduos, um primeiro crime trás consigo e provoca expiações e castigos, que se distribuem, com sinistra imparcialidade, entre ofensores e ofendidos. A lei do talião pode dar um conselho bestial a quem foi ferido por primeiro, mas, em vez de deter o mal, o multiplica.

A fuga não é também a melhor solução. Quem se esconde dá valor em dobro ao inimigo. O temor da vingança pode, alguma vez, deter a mão do inimigo. Mas quem foge convida o outro a persegui-lo. Quem finge de morto, convida o adversário a acabar com ele. Sua debilidade se faz cúmplice da ferocidade alheia. Também aqui o mal engendra o mal.

O único caminho, a despeito do aparente absurdo, é o que Jesus aconselha. Se alguém te esbofeteia, e tu reages com dois bofetões, o outro te dará murros e tu recorrerás aos pontapés, as armas serão sacadas e um dos dois, talvez os dois, perderão a vida, quem sabe por uma questão boba.

Dar a outra face não significa receber uma outra bofetada. Significa cortar, já no primeiro elo, a corrente de males que se seguiriam. Teu adversário, que espera resistência ou fuga, se sente humilhado diante de ti e dele próprio. Esperava tudo, menos uma coisa assim. Sente-se atrapalhado, com uma confusão que é quase vergonha. Tem tempo de se recuperar. Tua imobilidade lhe gela a raiva e ele tem tempo de refletir. Não pode falar de provocação, pois tu não lhe respondes. Não pode acusar-te de medo, porque estás disposto a receber um segundo golpe. E tu mesmo lhe mostras o ponto onde pode ferir.

Toda pessoa tem um obscuro respeito pelo valor alheio, especialmente se este valor é moral, isto é, do tipo mais raro e difícil. O ofendido, que não se ressente, nem se enfurece e nem foge, demonstra mais força de ânimo, mais domínio de si próprio, mas verdadeiro heroísmo do que aquele que, na cegueira de sua fúria, se lança sobre o ofensor para retribuir-lhe o mal recebido.

A impassibilidade, quando não é bobeira, a suavidade, quando não é covardia causam assombro, inclusive nas almas vulgares. Fazem compreender à fera, que aquele homem é mais do que um homem. A mesma fera, quando se vê incitado a prosseguir (...), sente-se desarmada, experimenta um respeito quase temerário ante esta força nova, que desconhecia e a deixa confusa.

(...)

Para tomar ao pé da letra as palavras de Jesus é preciso um tal autodomínio do sangue, dos nervos e de todos os instintos, que pouquíssimos conseguem. É um conselho amarguíssimo e repugnante à natureza. Mas Jesus nunca disse que fosse fácil segui-lo. Nunca afirmou que seja possível obedecê-lo sem duras renúncias, sem batalhas interiores duras e contínuas, sem renegar o velho Adão para dar nascimento ao homem novo.

Mas os frutos da não resistência, ainda que nem sempre consigam germinar, ainda que falhem no primeiro retorno do tempo maligno, superam, sem comparação, aos da vingança e aos da fuga. O exemplo de um domínio espiritual tão fora do comum, tão impensável e incompreensível para a maioria das pessoas, a fascinação, quase sobrenatural por uma conduta tão contrária aos costumes, tradições e paixões correntes é um exemplo, um espetáculo de força, um absurdo milagre, inesperado como todos os milagres, difícil de compreender como todos os prodígios. È o exemplo de uma pessoa sadia e válida, que, exteriormente, parece semelhante às outras e, contudo, se comporta como um ser superior aos demais, muito acima das forças que movem seus semelhantes. É alguém que se conduz de modo tão diferente dos outros seres humanos.

Se este exemplo se reitera mais de uma vez e não pode ser atribuído à necessidade e há provas de coragem física, quando esta coragem é necessária para ajudar, e não para causar dano, este exemplo tem uma eficácia tal que podemos, ainda que empapados de idéias de reação e represália, imaginar. Imaginar, com esforço. Provar, não. Porque exemplos assim temos tido muito poucos...

(...)

Mas, gostemos dele ou não gostemos, este conselho de Cristo é o único que pode resolver totalmente o problema da violência, Não ajunta mal a mal. Não centuplica o mal. Evita a supuração da ferida. Trata do furúnculo quando ele não passa de uma pequena bolha. Responder golpes com golpes, delitos com delitos é aceitar o princípio de atuação do malfeitor, é fazer-se semelhante a ele (...) Unicamente quem venceu a si mesmo pode vencer seus inimigos. Somente santos persuadem aos lobos da mansidão. Apenas quem mudou a própria alma pode transformar a alma de seus irmãos e tornar o mundo menos doloroso para todos.