JESUS

Para Inácio de Loyola, como para qualquer pessoa cristã de verdade, Cristo é o centro, o começo e a meta, o alfa e ômega.

Deste afeto a Jesus, que o eixo profundo dos Exercícios Espirituais, surgiu a idéia desta seção, onde vários Autores, que amaram nosso Salvador e escreveram sobre ele, falem agora a você, que visita ITAICI - Revista Eletrônica Inaciana.

Traduções e adaptações de
R. Paiva, SJ


VIDA DE CRISTO
Fray Luís de Granada, OP

No século 16, "o século de ouro" da literatura espanhola, notável por Teresa de Jesus e São João da Cruz, um frei dominicano, empreendeu a vasta tarefa de apresentar sua visão de Jesus. José Martínez Puche, OP, o mesmo que preparou a reedição castelhana de Léonce Grandmaison, SJ, também é o responsável por esta edição da Vida de Cristo de Fray Luís de Granada, pela EDIBESA, Madri, 2000.

Trad. e adap. R. Paiva, SJ

A REVELAÇÃO DA VIRGINDADE E PARTO
DE NOSSA SENHORA A SÃO JOSÉ

Depois da sagrada concepção do Filho de Deus nas entranhas virginais de nossa Senhora, diz São Mateus evangelista que José, percebida a gravidez da sacratíssima Virgem, não conhecendo seu mistério, sendo um homem justo e não querendo difamá-la, quis ir embora secretamente e deixá-la (Mt 1,19).

Aqui, primeiramente, se apresenta considerar a santidade deste glorioso patriarca, que devemos medir e valorizar pelo serviço para que Deus o escolheu, que foi o de ser esposo da sagrada Virgem, como também senhor e tido como pai de seu Filho. Duas grandíssimas dignidades! Em conformidade com essas, lhe foi dada a graça e a santidade. Em razão da graça, é de se crer que lhe foi dada uma pureza e castidade angélica, para que assim trata-se a Virgem com aquela pureza e reverência que merecia ser tratada aquela Senhora. Comparadas a ela, as mesmas estrelas do céu não eram limpas.

Diz, pois, o santo evangelista, que por ser justo, não quis José difamar a Virgem, mas tomar sobre si a pena e se afastar, deixando-a. Esta é uma das provas e argumentos da verdadeira justiça, que, para ser verdadeira, tem de ser acompanhada de misericórdia, como a de Deus. Porque a mesma lei de Deus lhe punha o punhal na mão. Mas como isto era em favor do ofendido, ele renuncia em Deus o direito que lhe cabe, e como o quer achar para com os seus mais misericordioso que rigoroso, assim procura que o ache seu próximo, tal qual ele queria achar Deus.

Por este motivo também é muito de se notar e imitar até onde deve chegar um homem antes de que abra a boca sobre a fama alheia. Porque, podendo o santo homem usar neste caso o direito que parecia ter de sua parte, quis antes perder terra e casa do que abria a boca contra a fama de uma pessoa que, como lhe parecia, era culpada.

Que dirão aqui os linguarudos e maldizentes, que sem ter nada com isto e mesmo sem saber com certeza os fatos abrem a boca contra as famas alheias e deixam manchada e destruída a fama dos outros, que alguns estimam mais do que à própria vida?

Ó línguas de escorpiões e basiliscos! Que olhando empeçonham os ares e matam os que os olham! Mas vós, envenenando os ouvidos de quem vos ouve matais os presentes e os ausentes, que, quando chegam a saber dessas infâmias, muitas vezes perdem, perdendo a paciência, as almas!


Mas quem poderá explicar o que se passava no coração da sacratíssima Virgem por este tempo? Porque não ignorava a prudentíssima Virgem o que ia pelo coração do esposo, pois não ignorava a ocasião que para tanto havia. Ela o olhava com aqueles olhos e aquele amor e reverência que merecia ser olhado um esposo tão santo, dado pela mão de Deus.

Qual seria, então, a compaixão, a pena e o sofrimento que a santa Virgem padeceria durante todo este tempo, vendo, diante de seus olhos, nos olhos e no rosto do esposo a seta que ele trazia fincada no coração?

Pois, se é tão própria nos bons a virtude da misericórdia e compaixão, quanto mais nesta rainha da misericórdia, qual seria a compaixão que teria daquele a quem tanto amava e via tão sofrido e com tanto motivo para isso?

E não deixemos de considerar também, nessa mesma ocasião, a mansidão, a paciência e a discrição da Virgem, e a obediência e conformidade com a divina vontade, nesta provação e em todas as outras que lhe pudessem vir. Nela oferecia a Deus seu coração e sal cruz com grande humildade e obediência, apresentando a Ele sua inocência e a ferida do esposo sofredor, suplicando remédio par ale, mas oferecendo-se, outra vez, como escrava não só para recebê-lo em suas entranhas, mas também para padecer por esta obediência tudo quanto fosse sua vontade.

Nem é digna de menor consideração a confiança que ela teria neste transe tão duro, fiando-se naquela infinita Bondade. Esperando que Ele olharia par a sua inocência e dos eu esposo, provendo a ambos do competente remédio. Pois se a santa Suzana, estando já condenada a morrer apedrejada pelo que não merecia, tinha seu coração, diante das pedras, cheio de confiança, esperando remédio do defensor da inocência, quanto maior confiança teria a Virgem, que tantas maiores prendas tinha da divina misericórdia?

Desta confiança vinha à sua alma uma paz tão grande e uma tranqüilidade e serenidade de consciência que o mar não está tão quieto quando dormem todos os ventos, nem tão sereno o céu, quando o vento frio afastou todas as nuvens, quanto estava aquela alma bendita em meio a tão grande tempestade. Porque se a paz é fruto da justiça e esta é filha legítima da confiança, que tão grande paz teria quem tinha na justiça uma tão grande confiança?