JESUS

Para Inácio de Loyola, como para qualquer pessoa cristã de verdade, Cristo é o centro, o começo e a meta, o alfa e ômega.

Deste afeto a Jesus, que o eixo profundo dos Exercícios Espirituais, surgiu a idéia desta seção, onde vários Autores, que amaram nosso Salvador e escreveram sobre ele, falem agora a você, que visita ITAICI - Revista Eletrônica Inaciana.

Traduções e adaptações de
R. Paiva, SJ


VIDA DE CRISTO
Fray Luís de Granada, OP

No século 16, "o século de ouro" da literatura espanhola, notável por Teresa de Jesus e São João da Cruz, um frei dominicano, empreendeu a vasta tarefa de apresentar sua visão de Jesus. José Martínez Puche, OP, o mesmo que preparou a reedição castelhana de Léonce Grandmaison, SJ, também é o responsável por esta edição da Vida de Cristo de Fray Luís de Granada, pela EDIBESA, Madri, 2000.

Trad. e adap. R. Paiva, SJ


NO FIM, PRODIGIOSAMENTE NOS AMOU

Depois disto, logo começa o evangelista a tratar da causa de todos estes mistérios e benefícios, que é a grandeza da caridade de Cristo. Dela diz que tendo amado Ele os seus, que tinha neste mundo, no fim da vida prodigiosamente ("señaladamente", marcantemente) os amou (Jo 13,1). E diz isto não porque com os anos de vida crescesse a caridade de Cristo, como tampouco crescia sua graça, mas porque ele aguardou esta hora para dar-nos maiores mostras de seus amor ...

Os outros amores, ainda que sejam de gente muito bem casada, não são desta qualidade. Vereis uma mulher em transe de morte, que tem filhos e marido. Nesta hora ela tem muito pouca conta deles, porque o peso da enfermidade, a presença da morte, o receio das contas a prestar (a Deus) e o horror da sepultura, de tal maneira ocupam o seu coração, que não lhe dão espaço para pensar em outra coisa. E assim não podemos dizer que o amor é maior que a dor, pois afoga e some o amor. Nem tampouco que o amor seja mais forte que a morte, pois só a lembrança dela basta para enfraquecê-lo.

Mas o amor de Cristo não foi assim, porque não pôde nem a lembrança nem a presença da morte enfraquecê-lo ou encobrir um pouco que fosse a chama de sua caridade. Pois este é o amor de que fala o Cântico dos Cânticos, que as muitas águas das tribulações não puderam pagar a chama desta caridade, nem os grandes rios a puderam cobrir (Ct 8,7). Porque nesta altura, o Senhor tratou seus discípulos com mais doces palavras, lhes fez maiores benefícios, estabeleceu mais divinos sacramentos e nos deixou os mais admiráveis exemplos.

Entre eles um foi de profundíssima humildade e perfeitíssima caridade: abaixando-se aos pés dos seus discípulos, lavou-os com suas divinas mãos.

GRANDEZA DA HUMILDADE DE JESUS

Pois querendo o evangelista contar este exemplo de tão grande humildade, trata primeiro da grandeza da majestade deste Senhor, para que, como fazem os pintores, se perceba melhor o contraste sobre o branco, que é a grandeza da humildade em presença de tal majestade.

Diz, então, que sendo este Senhor aquele em cujas mãos o Pai de todas as coisas - os céus, a terra, o inferno, os anjos e os homens, com todo o restante - determinou pôr aquelas mãos, onde estava todo o criado, nos pés de uns pobres pescadores. E assim conta que Ele se levantou da mesa, tirou suas vestes, encheu uma bacia de água e começou a alvar os pés de seus discípulos (Jo 13,4-5).

Estas vestes que o Senhor aqui tirou, não só servem para o lava pés, mas também para representar o mistério de nossa redenção, porque tanto para um caso como para o outro, o Senhor se despiu de suas roupas.

Quais são as vestes de Deus? Diz Davi que ele está revestido de claridade e luz como de uma veste (Sl 103/104,2). E São João diz que traz escrito e bordado em sua vestimenta: "Rei dos Reis e Senhor dos Senhores" (Ap 17,14).

Segundo isto, as roupas que este Senhor veste são sua claridade, sua formosura, sua glória, sal sabedoria, sua onipotência, sua imortalidade e bem-aventurança. Pois de todas estas vestes Ele se despojou, quando, à nossa vista, para lavar os pecados do mundo. Porque, então, prodigiosamente os lavou, quando na cruz derramou todo o seu sangue. Pois o que há de mais nu do que o Filho de Deus na cruz?

Onde está aí, Senhor, vossa fortaleza, onde está vossa sabedoria, a vossa onipotência, vossa formosura, vossa glória e vossa aparência, pois o profeta diz que a perdeste, e que não fostes conhecido por ela (Is 53,2-3)? E se estas coisas são divinas, onde está vossa fama, vossa honra, vossos discípulos, vossos companheiros e onde, afinal, aquela vossa manada e gado formoso que tão cuidadosamente apascentáveis? Que foi feito de tudo aquilo? Em que acabou tudo?

Não vejo em vós nem um fio destas ricas vestes. Vosso poder é tido por fraqueza, a sabedoria por loucura, a bondade por malefício e a formosura por feiura. Ó verdadeiro Sansão, quem cortou os cabelos de vossa fortaleza (Jz 16,19) e vos amarrou de pés e mãos e vos entregou ao poder dos filisteus?

Claro está, Senhor, que isto fez o amor por vossa esposa, a Igreja e o desejo que tiveste de santificá-la e lavá-la com vosso sangue. E foi para este lavar que levantaste da mesa do céu e baixaste a este mundo, onde, dissimulando a formosura de vossa glória, lavastes as manchas de nossas almas.

LAVA OS PÉS DE JUDAS

Desnudo, pois, e cingido (com a toalha) o Salvador, diz o evangelista que pôs água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos, entre os quais estava Judas. E não há porque duvidar que o excluiria deste comum benefício, mas que lhe lavou os pés, como aos demais.

Que espetáculo pode ser causa de maior admiração? Admirável coisa é ver Deus entre dois ladrões (Lc 23,33) e admirável é vê-lo baixado aos pés de Judas. O que sentiria aqui aquele fariseu, que tinha convidado o Salvador para comer, se isto visse? Ele, que murmurava, porque Ele tinha se deixado tocar por uma mulher pecadora, parecendo-lhe isto coisa indigna de tão santo profeta. Ó fariseu, se tanto te maravilhas, tendo este Senhor não mais do que profeta, porque deixava lavar seus pés uma pecadora, quanto mais te maravilharias se cresses que era Deus, como o era? Porque se isto julgavas ser muito abaixamento para um profeta, quanto mais seria para Deus?