JESUS

Para Inácio de Loyola, como para qualquer pessoa cristã de verdade, Cristo é o centro, o começo e a meta, o alfa e ômega.

Deste afeto a Jesus, que o eixo profundo dos Exercícios Espirituais, surgiu a idéia desta seção, onde vários Autores, que amaram nosso Salvador e escreveram sobre ele, falem agora a você, que visita ITAICI - Revista Eletrônica Inaciana.

Traduções e adaptações de
R. Paiva, SJ


VIDA DE JESUS
SEGUNDO OS EVANGELHOS SINÓTICOS
Pe. José Salguero

O Padre José Salguero,da Ordem dos Pregadores (dominicano) professor de Sagrada Escrituras na Universidade Santo Tomás de Aquino (Angélico), onde já foi Reitor, publicou esta "Vida de Jesus - segundo os Evangelhos Sinóticos, pela EDIBESA, Madri, 2002, tendo em vista os mais recentes estudos bíblicos, e querendo colocá-los a serviço do leitor cristão do século XXI.

Apresentando sua obra, Pe. Salguero comenta a revalorização dos três Evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas podem ser colocados em três colunas com textos paralelos, e lidos, por assim dizer, com uma só visão, ou "sinopse").

O método da "história das formas" demonstrou que os três Evangelistas "não se limitaram a reunir fragmentos da tradição, mas que retrabalharam suas fontes segundo suas próprias concepções".

A partir do anúncio pascal (qúerigma"), isto é: "O Crucificado é o Ressuscitado", ou "Jesus Cristo é o Senhor", a proclamação do Mistério Pascal, eles incluíram "a vida pública de Jesus, os feitos e o ensinamento de Cristo. Nossos Evangelhos nasceram da Igreja, na Igreja e para a Igreja".

Assim, querendo nos dar uma visão de conjunto do que temos aprendido com tanto estudo e levando em conta as descobertas arqueológicas, o Autor escolheu "alguns relatos que lhe pareceram mais importantes nos três primeiros Evangelhos (...) Procedendo assim, cremos ter podido oferecer a nossos leitores um quadro bastante completo do esquema literário, histórico e doutrinal dos três Evangelhos sinóticos".

De fato o Autor mais nos oferece uma visão do que estes dois últimos séculos de intensa pesquisa e estudos sobre Jesus e as Escrituras, do que uma tentativa de biografia de Jesus, como as outras "vidas", que apresentamos até agora.

Do nosso lado, escolhemos alguns trechos para dar a conhecer ao leitor visitante de nossa Revista Eletrônica Inaciana esta "Vida de Jesus" contemporânea, ainda não traduzida no Brasil


5º segmento

O Evangelho da Infância segundo Lucas

(Introdução)

(...) Ainda que Lucas 1 e 2 nos apresente rasgos insólitos e muitos fatos maravilhosos, isto não significa que se já uma ficção lendária. Sua historicidade substancial não pode ser posta em dúvida. Observa Goulder y Sanderson: “Seria estranho que um autor inicie uma obra recordando a autoridade de suas fontes e logo comece com dois capítulos de piedosa ficção. Contudo, deve-se admitir que Lucas 1 e 2 não é uma crônica, mas que tem artifícios e adornos, que, contudo, não comprometem seu caráter histórico.”

Lucas 1 e 2 se inspira abundantemente em descrições apocalípticas, em anúncios de nascimento extraordinários e em vocações celestiais narradas no Antigo Testamento e na literatura judaica que lhe era contemporânea. Deste modo, as anunciações a Zacarias e a Maria é redigido seguindo um esquema mais ou menos invariável: apresentação dos personagens, aparição do anjo, perturbação, palavras de ânimo, mensagem divina, objeção do interlocutor humano, sinal-resposta, desaparição dos protagonistas.

A aparição a Zacarias é um mosaico de textos bíblicos. Na anunciação a Maria, o Autor se inspira no esquema dos anúncios, fundindo narrativas antigas (Gn 17 e 18; Jc 6,13; 1Sm 1,2 ss) e Daniel (9,12-24). As palavras de Lucas 1,31-33: “Eis que conceberás (...) e seu reino não terá fim”, não são outra coisa que uma combinação de Isaías 7,14 e 9,5s com 2Sm 7,12-16. A narração da Visitação é um tecido de textos bíblicos: a viagem de Maria à casa de Zacarias recorda o caminho da Arca da casa de Obedón até Jerusalém (2Sm 6,10ss). O “Magnificat” é um mosaico de textos sagrados tomados de vários livros do Antigo Testamento e o mesmo se pode dizer do “Benedictus” (...)

Por estes e por outros exemplos, pode-se ver que o Autor se serviu de textos antigos para ilustrar acontecimentos recentes. Com este método, a Escritura antiga é “atualizada” e os fatos presentes são iluminados pelo conjunto da história da salvação *. A Bíblia é, então, um modelo, porém, também, um meio pelo qual o Autor expressar seus juízos e pontos de vista sobre os acontecimentos salvíficos do Novo Testamento. Em lugar de se expressar com as próprias palavras, recorre às Escrituras. O recurso à Bíblia está dirigido a oferecer um exaustivo comentário à luz dos protótipos do Antigo Testamento...

* Nota do tradutor: aí está a genialidade do gênero “Evangelho”: ao mesmo tempo que relata os fatos, usa uma linguagem que os comenta e manifesta sua importância e seu significado verdadeiro. Por isso, Lucas não é um historiador no modelo de Plutarco ou Heródoto, mas um verdadeiro testemunha, um evangelista, que proclama a fé, narrando os acontecimentos.