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Para
Inácio de Loyola, como para qualquer pessoa cristã de
verdade, Cristo é o centro, o começo e a meta, o alfa
e ômega. Traduções
e adaptações de VIDA DE JESUS CRISTO Giuseppe Ricciotti Homem
experimentado na vida, tendo sido combatente na Primeira Guerra Mundial
(1914-1918), tornou-se sacerdote da Diocese de Roma, e professor de
História do Antigo Oriente, dedicou o melhor de si aos estudos
bíblicos. Sua vida de Cristo teve os 5000 exemplares da 1a. edição
esgotados em menos de um mês, algo espantoso para a época.
Ele foi autor também de uma respeitada "História
de Israel". Seu intuito foi de "compor um trabalho estritamente
histórico e científico .. atento à solidez dos
documentos ... ousando imitar a notória impassibilidade dos evangelistas
canônicos, que não exteriorizam sentimentos de alegria
quando nasce Jesus, nem de dor, quando morre ..." Contudo, sua
obra não é seca e indigesta, mas vibrante de verdadeira
empatia humana. Trad. e adap. R. Paiva, SJ A VIDA PRIVADA ESTANDO EM PAZ A TERRA INTEIRA Nos últimos anos da "era vulgar" (depois do nascimento de Cristo), o império romano, isto é, "a orbe da terra", estava em paz. No ano 15 a. C., Tibério e Druso, filhos adotivos de Augusto, tenham submetido a Recia, a Vindelícia e o Nórico, entre os Alpes e o rio Danúbio. No ano 13 a. C., os dálmatas e panônios foram reduzidos a obediência, mediante uma expedição iniciada por Agripa, genro de Augusto, e concluída por Tibério. Do ano 12 a. C. em diante, Druso dirigiu operações militares contra os germanos, estabelecendo, solidamente o domínio de Roma na região do rio Reno. No ano 8 a.C. começaria um período de paz, que só se perturbaria com as novas sublevações dos germanos, dálmatas e panônios, culminadas com a derrota de Quintino Varo em Teutoburgo (10 d.C.). Em Roma, o Altar da Paz Augusta (Aura Pacis Augustae) foi inaugurado em 9 a.C. e o templo do deus Jano, cujas portas só se fechavam em tempo de paz, foram cerradas pela quarta vez na história de Roma: duas vezes antes de Augusto e duas vezes sob o seu império. A terceira vez foi, precisamente, em 8 a.C., estando em paz a terra inteira, como proclama a Igreja, cada ano, na ocasião do nascimento de Jesus.
Exatamente neste segundo período estavam reservadas àquele senhor do mundo honras até então desconhecidas no Império. Foram dedicados a ele não só tempos, mas cidades inteiras. Foi proclamado como de estirpe divina e não humana. Era o Novo Júpiter, o Júpiter Salvador, o Astro que surge sobre o mundo. Não consta, no entanto, que tivesse sido intitulado de Príncipe da Paz, que, contudo, teria merecido nesse segundo período. Sete séculos antes, porém, um profeta hebreu tinha empregado esse título , juntamente com os outros que recordam os de Augusto, como título do futuro Messias:
É certo que em hebraico, a expressão "Príncipe da paz" (sarshalom) tem um significado mais amplo do que a expressão latina princeps pacis. Em hebraico, shalom designa "bem estar", "felicidade perfeita". Mas, antevendo o futuro Messias como príncipe, não deixaria de levar a seu reino, juntamente com a felicidade, também a paz no sentido latino de exclusão da guerra, já que onde há guerra nem há paz, nem, muito menos, felicidade. BELÉM Belém é, atualmente, uma cidadezinha, a 9km ao sul de Jerusalém, a 770 metros de altitude. Seu nome primitivo foi Beth Lahamu, isto é "A casa de Lahamu", um ídolo babilônico venerado pelos cananeus da região. Os hebreus, substituindo os cananeus, terminaram por trocar o nome para Beth Lehem, Isto é, "A casa do pão". Quando os hebreus se instalaram na Palestina, ali se assentou a descendência de Efratá ou Belém (Gn 35,19; Rt 1,2; 4,11). Ali, descendendo do ramo de Isaí (Jessé), nasceu Davi (Rt 1,2; 1Cr 2,13-15). Se Nazaré era de tão pouca importância, que nem chega a ser mencionada em algum antigo documento, Belém, por sua vez, era um povoado bastante miserável no tempo de Jesus. Já no século 8o. a.C., o profeta Miquéias (Mq 5,1, hebreu) havia chamado Belém de "pequena" entre as aldeias da tribo de Judá. O povoado e a área próxima não deviam contar mais de 1.000 habitantes. Era, no entanto, passagem para as caravanas que se dirigiam de Jerusalém ao Egito. Ali existia um lugar de pouso para elas, uma hospedaria (geruth), construída por Camaan, o qual, talvez, fosse amigo de Davi (2Sm 19,37ss). Este ponto foi chamado, então, "a hospedaria de Camaam" (geruth Chamaam) (Jr 41,7) (...) A viagem deveria ter sido muito cansativa para Maria, que andava no nono mês de gravidez. Os caminhos do país não estavam ainda traçados e cuidados pelos romanos, mestres na matéria, mas eram maus, apenas transitáveis pelas tropas de burros ou caravanas de camelos ... Os dois esposos, na melhor das hipóteses, parece que só tiveram à sua disposição um burrinho para transportar alimentos, água e alguns objetos mais necessários, um destes jumentos que, ainda hoje, na Palestina, são vistos precedendo as caravanas de camelos ou com um pequeno grupo de caminhantes. Durante três ou quatro noites, que tiveram de passar viajando, tiveram de parar ou em casas amigas, ou , mais provavelmente, em lugares públicos de parada, que se encontravam pelos caminhos, todos se deitando no chão, entre asnos e camelos. Em Belém as condições ainda eram piores. O povoado estava transbordando de gente que se instalava por toda parte, começando na hospedaria, na parada das caravanas, que talvez fosse ainda a velha construção de Camaam, sempre reformada no decurso dos séculos. Lucas a chama de "a hospedaria" (to katáyma, com o artigo). Mas a palavra equivalente em nossas línguas européias não nos deve levar a erro, dando idéia, mesmo remotamente, de uma modestíssima pensão interiorana. A "parada de caravanas" era o que, na Palestina, se chama khan, um recinto sem teto, rodeado por um muro bastante alto com apenas um portão. Dentro, de um ou mais lados do muro, havia um alpendre. Em alguns lugares ele poderia ter alguma parede, formando assim um caramanchão, e, junto a ele, alguns pequeninos quartos, que eram reservados a quem podia se dar ao luxo de pagar por esta comodidade. A hospedaria se limitava a isto. Os animais ficavam no centro, ao ar livre, e os viajantes debaixo dos alpendres, quando sobrava lugar, ou entre as bestas de carga. Naquela mistura de seres humanos e animais, ali se falava de negócios, se rezava, cantava, dormia, comia, satisfaziam as necessidades naturais, e se podia nascer e morrer, tudo em meio à sujeira e ao fedor,q eu ainda hoje infectam acampamentos de beduínos em viagem. Lucas nos diz que, quando José e Maria chegaram a Belém, não havia lugar para eles na hospedaria (2,7). Esta frase está mais pensada do que parece à primeira vista. Se Lucas tivesse querido dizer que aquele recinto não podia receber mais gente, teria bastado dizer que ali não havia lugar. Quando acrescenta para eles não deixa de referir-se implicitamente às condições particulares do casal, diante da iminência do parto de Maria. Isto pode parecer uma sutileza, mas não é. José devia ter em Belém amigos ou parentes aos quais pudesse pedir hospitalidade, ainda que o povoado estivesse lotado de forasteiros. Sempre se encontraria um cantinho para duas pessoas tão simples e modestas no Oriente. Quando à capital, Jerusalém, afluíam multidões de peregrinos por ocasião da Páscoa, a cidade não transbordava mais de gente do que Belém naquele tempo do censo, mas todos encontravam lugar, adaptando-se às circunstâncias. Naturalmente, quando sucediam estas situações, as pobríssimas casas particulares, que habitualmente consistiam num só aposento de planta baixa, os acolhidos se encontravam em condições parecidas com as da parada de caravanas: tudo era comum, tudo se fazia em público, não havia nem reserva nem segredo nenhum. Por isso se compreende que Lucas especifique que não havia lugar para eles, pois, diante da chegada do parto, Maria desejava reserva e retiro. E aconteceu que, enquanto eles estavam ali, cumpriram-se os dias para o seu parto e ela deu à luz o seu filho primogênito e o envolveu em panos e o deitou numa manjedoura (Lc 2,6-7). Aqui só se fala de manjedoura (presépio), mas este é um seguro indício segundo os costumes da época. Uma manjedoura implica num estábulo ou curral, que exigia, segundo os costumes de então, uma gruta ou pequena cova escavada num barranco, próxima do povoado. Portanto, um lugar tranqüilo e solitário, o que bastava para a futura mãe. (...) Concluindo, a pobreza e a pureza foram o motivo histórico de ter Jesus nascido num estábulo. Pobreza de seu pai legal, que não tinha meios de alugar um aposento separado, numa época de acúmulo de viajantes. Pureza de sua mãe natural, que quis rodear seu parto de reverente reserva. |