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Para
Inácio de Loyola, como para qualquer pessoa cristã de verdade,
Cristo é o centro, o começo e a meta, o alfa e ômega. Traduções
e adaptações de VIDA
DE JESUS CRISTO
Giovanni Papini Giovanni
Papini nasceu em Florença, Itália, em 1881. Faleceu em 1956.
Jovem, propôs-se atingir o "ateísmo integral".
Jornalista e escritor famoso, participante das tarefas políticas
de seu temp, viu-se convertido, e empregou seu talento em escrever a História
de Cristo, a primeira biografia literária sobre Nosso Senhor. O
mais impressionante deste livro impressionante é a "Oração"
final. Antes traduzo e ofereço a vocês uma seleção
de cinco textos extraídos na nova e cuidada edição
espanhola da EDIBESA, Madrid, 2002. Trad. e adap. R. Paiva, SJ PALAVRAS
QUE NÃO PASSAM (Os Doze talvez) ainda não compreenderam que o Apocalipse revelado no Monte das Oliveiras é um profecia dupla, que se refere a dois acontecimentos distantes um do outro. Talvez, aqueles pescadores, para os quais um lago é um mar e a Judéia um universo, confundiram o fim da nação judaica com o fim do mundo e o castigo de Jerusalém com a segunda vinda de Cristo. Mas os discursos de Jesus, mesmo justapostos nas versões dos Evangelhos sinóticos (Mt, Mc e Lc), mostram duas predições distintas, dois grandes planos. A primeira predição anuncia o fim do reino judaico, o castigo de Jerusalém, a destruição do Templo. A segunda, o fim do mundo, a reaparição de Jesus, o juízo universal e o princípio do reino glorioso. A primeira é apresentada como próxima: Não passará esta geração sem que estas coisas tenham sucedido. É local e limitada. Diz respeito somente à Judéia e, particularmente, à sua metrópole. Quanto à segunda, não sabem nem o dia nem a hora, porque alguns acontecimentos, demorados em realizar-se, precederão ao fim, que será, diferentemente do outro, universal. A primeira predição se cumpriu à letra, ponto por ponto, menos de quarenta anos - uma geração - depois da crucifixão, quando ainda viviam muitos dos que conheceram Jesus. A segunda vinda de Jesus, a parusia triunfante, cotidianamente recordada no Creio dos apóstolos, é esperada ainda pelos que crêem em quem disse naquele dia: Céu e terra passarão, mas minha palavra não passará.
No tempo do procurador Cuspio Fado (44-66 d.C.), surgiu um tal de Teudas, que se dava por grande personagem e prometia formidáveis prodígios. Foi seguido por 400 homens. Mas foi preso e decapitado (...) Depois, veio um hebreu do Egito que conseguiu reunir 4.000 desesperados, acampou no Monte das Oliveiras, anunciando que,a um sinal, cairiam as muralhas de Jerusalém. O procurador Félix o atacou e ele se refugiou no deserto. Nesta época, na Samaria, tornava-se famoso Simão, o Mago (...) Vendo os milagres que Pedro realizava, supondo que o Evangelho fosse um dos tantos mistérios orientais, bastando se tornar um dos iniciados para adquirir poderes, quis fazer-se cristão. Rechaçado por Pedro, ele se tornou o pai das heresias (...) E os zelotas fomentavam contínuos tumultos,a firmando que se devia expulsar os romanos e todos os pagãos, para que Deus voltasse a triunfar com seu povo. O segundo sinal, a perseguição, não se fizera esperar muito. Apenas os discípulos começaram a pregar o Evangelho em Jerusalém, Pedro e João foram jogados na prisão. Postos em liberdade, de novo foram presos e flagelados, com ordem de não voltar a falar no nome de Jesus. Estevão, um dos mais ardorosos convertidos, foi arrastado par afora da cidade e apedrejado. Sob o governo de Agripa começaram novas tribulações. No ano 42, este descendente de Herodes fez morrer pela espada Tiago, o Maior, irmão de João (filho de Zebedeu e Salomé) e Pedro, pela terceira vez, foi preso. No ano 62, Tiago, o Menor, chamado o Justo (filho de Alfeu), foi atirado do terraço do Templo e morta a pedradas. No ano 5º. Cláudio expulsar os judeus de Roma, incluindo os judeus convertidos ao cristianismo. Em 58, com a conversão de Pompônia Grecina, começou, na capital do Império, a guerra aos convertidos. No ano 64, o incêndio de Roma, levado a cabo por Nero, deu pretexto à primeira grande perseguição. Uma multidão de cristãos obteve a graça do martírio em Roam e nas províncias (...) Pedro morre crucificado de cabeça para baixo. Paulo acabou com a cabeça cortada uma vida que havia sido, depois da conversão uma série de tribulações. Dez anos antes de sua morte, sofrera flagelação (57 d.C). Foi flagelado outras cinco vezes pelos judeus. Três vezes açoitado com varas pelos romanos. Sete vezes preso. Três vezes naufragara. Em Listra, foi apedrejado e deixado como morto. A maior parte dos discípulos sofreu também. Tomé foi martirizado na índia. André, crucificado em Patras. Bartolomeu, na Armênia. Simão, o Zelota, e Matias foram crucificados. Nem faltaram guerras e rumores de guerras. Quando Jesus foi morto, ainda durava no mundo "a paz de Augusto". Logo, porém, povo se levantou contra povo, nação contra nação. No tempo de Nero, os bretões derrotaram e chacinaram um exército romano. Os partos invadiram as fronteiras orientais, capturaram legiões e as humilharam fazendo passar debaixo do jugo. A Armênia e a Síria se agitaram em motins contra o domínio imperial. Houve uma revolta na Gália, liderada por Júlio Vindex. O fim de Nero se aproximava. As legiões da Espanha e da Gália proclamaram Galba imperador (...) Galba entrou em Roma, mas não trouxe a paz. Ninfídio Sabino em Roma, Capito, na Germânia e Clódio Marco, na África lhe disputam o império. Em 15 de janeiro de 69, os guardas pretorianos o assassinam e proclamam Oto. Mas as legiões da Germânia escolhem Vitélio (...). Os demais flagelos anunciados por Jesus se sucederam naqueles anos de comoção do Império. Calígula, o louco, se lamentava que não acontecesse nada de espantoso durante seu reino (...) Em tempo de Cláudio (...) a carestia atingiu até mesmo Roma. Sob Nero, à carestia se somou a peste. Num só outono se registraram 30 mil mortos. Em 61 e 62, terremotos sacudiram a Ásia, a Grécia (Acaia) e Macedônia. Sobretudo as cidades de Hierápolis, Laodicéia e Colossos sofreram graves danos. Em 63, foi a vez da Itália: Nápoles, Nácera e Pompéia sofreram abalos. Toda a Campânia se aterrorizou. Três anos mais tarde foi devastada por trombas d' água, que devastaram as colheitas e trouxeram a ameaça da fome. Um terremoto abalou Roma, justo quando Galba entrava em Roma. Tudo havia sucedido. Agora chegava a vez do tormento da Judéia. (...) Pilatos, Cúspio, Fado e Agripa tiveram que dispersar bandos em torno de falsos messias. Sob o procurados Tibério Alexandre, se deu o primeiro levante sério do fanático partido dos zelotas (...). O procurador Ventidio Cumano (48-52) não teve um dia de tranqüilidade. Os zelotas, aos quais se uniam os sicários, mais ferozes ainda, não cediam. Os tumultos continuaram no tempo de Félix. Sob Albínio, as chamas se alastraram mais fortes. Finalmente, no tempo de Gessio Floro (64-66), o último procurador romano da Judéia, o incêndio cujas chamas insistiam em se mostrar, tomou conta de toda a província. Os zelotas se apoderaram do Templo. Floro teve de fugir. Agripa, que tentou o papel de mediador, foi apedrejado. Jerusalém ficou em mãos de Menahem, outro filho de Judas, o Galileu. Zelotas e sicários, donos do terreno, fizeram estragos entre os judeus que lhes pareciam tíbios a seus olhos enfurecidos.
Mas Céstio Gallo encontro mais resistência do que supunha e se retirou. A retirada se transformou em fuga, com grande júbilo dos zelotas, que viram nisto um sinal da divina ajuda. Os cristãos, entre este primeiro ataque e o segundo, que viria, recordando a profecia de Jesus, fugiram para Pella, do outro lado do Jordão. Roma, por seu lado, não iria ceder diante dos judeus rebelados. Enviou para puni-los Tito Flávio Vespasiano. Este reuniu um exército em Tolemaida, no ano 67, e marchou contra a cidade de Giscala, também revoltada, e a tomou. Enquanto as legiões preparavam quartéis para passar o inverno, João de Giscala conseguiu refugiar-se em Jerusalém com bandos de idumeus e destituiu o governo dos aristocratas e a cidade foi tomada de combates sangrentos. Vespasiano, neste meio tempo, partiu ar aRoma, a fim de assumir como imperador. Deixou no comando seu filho, depois também imperador, Tito. Foi Tito quem, pelas festas da Páscoa de 70 d.C. cercou Jerusalém. Então começaram dias horríveis. Os zelotas, tomados da loucura da violência extremista, dividiam-se me facções, combatentes entre si, disputando o domínio da cidade sitiada. João de Giscala ocupava o Templo. Simão de Gerasa a cidade baixa e seus comandados degolavam os que os romanos ainda não tinham feito morrer. Parte das muralhas e da cidade foi tomada pelos romanos. No dia 5 de julho, caiu em poder deles também a Torre Antonia, fortaleza que dominava de sua altura o Templo. Enquanto isto, ao pavor dos assassinatos fratricidas, somavam-se os horrores da fome. A fome era tão terrível que, segundo o historiador e testemunha ocular, Flávio Josefo, se viu mães matarem seus filhos para comê-los. No dia 10 de agosto, o Templo foi tomado e incendiado. A cidade alta ainda resistia, mas, no dia 7 de setembro, a fome os fez se entregarem. As profecias de Jesus tinham se cumprido. A cidade foi destruída por ordem de Tito. Do Templo, já arruinado pelo incêndio não ficou pedra sobre pedra. Dos que tinha sobrevivido à fome e à espada dos sicários foram chacinados pela soldadesca vitoriosa. Houve uma grande deportação para o Egito, judeus condenados a trabalhar nas minas. Muitos vieram a morrer nos circos romanos de Cesaréia e Berito. Algumas centenas, dos mais belos, foram selecionadas para figurarem no triunfo de Tito. Simão de Jaira e outros chefes foram executados diante das estátuas dos ídolos, que tanto abominavam. Eu vos digo que não passará esta geração sem que todas estas coisas se tenham cumprido: corria o ano 70 depois do nascimento de Cristo. Muitos dos seus contemporâneos ainda não haviam descido ao sepulcro, quando tudo isto aconteceu. Pelo menos um dos que o escutavam no Monte das Oliveiras (e o tinham visto chorar pela recusa de Jerusalém em acolher quem poderia salvá-la), João, foi testemunha do castigo de Jerusalém e da ruína do Templo. |