![]()
Para Inácio de Loyola, como para qualquer pessoa cristã de verdade, Cristo é o centro, o começo e a meta, o alfa e ômega. Deste afeto a Jesus, que o eixo profundo dos Exercícios Espirituais, surgiu a idéia desta seção, onde vários Autores, que amaram nosso Salvador e escreveram sobre ele, falem agora a você, que visita ITAICI - Revista Eletrônica Inaciana. Traduções
e adaptações de VIDA
DE JESUS
Fulton J. Sheen Nos anos dourados, os anos 50, teve grande divulgação no pequeno público leitor católico da época, a edição da “Vida de Cristo” por Fulton J. Sheen, pela Editora Educação Nacional, de Porto, Portugal. Bispo auxiliar de Nova York, num momento de grande prestígio para o catolicismo norte-americano, que subia com a ascensão social dos imigrantes italianos e irlandeses, famoso por suas palestras radiofônicas (estávamos em plena “era do rádio”, pré-televisão!), sua obra alcançou merecida divulgação, extraordinária hoje para um livro de mais de 600 paginas! Damos a você, visitante da Revista Eletrônica Inaciana, uma pequena antologia que lhe permita saborear a inteligência, a piedade e a contemplação da Vida de Cristo por este bom amigo de Jesus. VIDA
DE CRISTO
(2)
PRIMEIROS ANOS DA VIDA DE CRISTO - 2 Nem sempre uma criança vem ao mundo em conseqüência dum ato distinto de amor do homem e da mulher. Mesmo que ao amor dos dois seja desejado, o fruto desse amor, a criança, não é desejado da mesma maneira que o amor de um para com o outro. Há um elemento indeterminado no amor humano. Os pais não sabem se a criança será menina ou menino, nem o tempo exato do nascimento, pois a concepção se perdeu numa incerta noite de amor. As crianças são, mais tarde, acolhidas e amadas pelos pais, mas sua existência nunca foi, diretamente, querida por eles. Na Anunciação, porém, a Criança não foi recebida de um modo imprevisto: o Menino foi desejado! Houve cooperação entre uma mulher e o Espírito do Divino Amor. O consentimento foi voluntário e a cooperação livremente oferecida pela palavra “Faça-se!” As outras mães se tornaram conscientes da maternidade pelas mudanças físicas internas. Maria se tornou consciente pela mudança espiritual operada pelo Espírito Santo. Recebeu, é provável, um êxtase espiritual incomensuravelmente maior do que o concedido ao homem e à mulher no ato unitivo de amor. A queda e a restauração da harmonia Como a queda do ser humano resultou de um ato livre, também a sua Redenção devia ser livre. A chamada Anunciação resume-se nisto: Deus pedindo o consentimento livre de uma criatura para o ajudar a incorporar-se com a Humanidade. Suponhamos um músico de uma orquestra que, de propósito, emita uma nota desafinada. O maestro é competente. A música está corretamente escrita e é de fácil execução. Mas, apesar de tudo isso, o músico exerce sua liberdade introduzindo uma dissonância que, imediatamente, penetra no espaço. O regente pode fazer das duas uma: mandar repetir a execução da peça, ou deixar passar a nota desafinada. Fundamentalmente, pouco importa sua decisão, pis a nota dissonante fica a ecoar pelos espaços afora, à velocidade de 340 metros por segundo. Enquanto o tempo for tempo, haverá esta dissonância no universo. Existirá algum meio de restabelecer a harmonia do mundo? Sim, mas só por alguém que, vindo a seu encontro desde a eternidade, pare esta nota na sua fuga desenfreada. Mas continuará a ser uma nota falsa? A dissonância só poderá ser eliminada se aquela nota for feita a primeira nota de uma nova sinfonia. Então voltará a ser harmoniosa. E foi isto, precisamente, o que aconteceu com o nascimento de Cristo. O primeiro homem tinha introduzido uma nota falsa no acorde moral, que ecoou por toda a humanidade. Deus poderia tê-la ignorado. Procedendo assim, teria contemporizado com a violação da justiça, o que é inadmissível. O que fez, portanto, foi pedir a uma mulher, como representante da humanidade, que, livremente, lhe desse uma natureza humana, com a qual ele começasse uma nova humanidade. Assim como existia uma velha humanidade em Adão, assim existiria uma nova humanidade em Cristo, Deus feito homem através de um mãe humana. A aparição do Anjo a Maria foi o anúncio feito por Deus deste amor pela nova humanidade, Foi o começo de uma nova terra e Maria se tornou “um paraíso circundado de carne para ser cuidado pelo novo Adão”. Assim como no primeiro jardim, Eva trouxe destruição, assim, então, Maria trouxe a Redenção no jardim do seu ventre. Durante os nove meses, quando ele esteve encerrado nela, todo alimento, todo trigo e todas as uvas que ela consumia eram como que uma Eucaristia natural, indo alimentar a ele, que mais tarde se declararia o Pão e Vinho da Vida. Passados nove meses, o lugar próprio do seu nascimento foi Belém, cujo nome quer dizer “Casa do Pão”. Mais tarde, Cristo afirmaria:
Tendo concebido o Menino Deus, a humanidade de Maria deu-lhe mãos e pés, olhos e ouvidos, um corpo para sofrer. Como as pétalas de uma rosa se fecham sobre as gotas do orvalho que nelas pousaram, assim Maria, a Rosa Mística, se fechou sobre aquele que o Antigo Testamento havia descrito como o Orvalho que se forma sobre a terra. Quando ela, finalmente, deu à luz, foi como um grande tabernáculo se abrisse ela sustentasse em suas mãos o Hóspede que era, ao mesmo tempo, o Hospedeiro do Mundo, como que dizendo: Este é o Cordeiro de Deus, o que tira os pecados do mundo... |