JESUS

Para Inácio de Loyola, como para qualquer pessoa cristã de verdade, Cristo é o centro, o começo e a meta, o alfa e ômega.

Deste afeto a Jesus, que o eixo profundo dos Exercícios Espirituais, surgiu a idéia desta seção, onde vários Autores, que amaram nosso Salvador e escreveram sobre ele, falem agora a você, que visita ITAICI - Revista Eletrônica Inaciana.

Traduções e adaptações de
R. Paiva, SJ


VIDA DE JESUS CRISTO
Giuseppe Ricciotti

Homem experimentado na vida, tendo sido combatente na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), tornou-se sacerdote da Diocese de Roma, e professor de História do Antigo Oriente, dedicou o melhor de si aos estudos bíblicos. Sua vida de Cristo teve os 5000 exemplares da 1a. edição esgotados em menos de um mês, algo espantoso para a época. Ele foi autor também de uma respeitada "História de Israel". Seu intuito foi de "compor um trabalho estritamente histórico e científico .. atento à solidez dos documentos ... ousando imitar a notória impassibilidade dos evangelistas canônicos, que não exteriorizam sentimentos de alegria quando nasce Jesus, nem de dor, quando morre ..." Contudo, sua obra não é seca e indigesta, mas vibrante de verdadeira empatia humana.

Trad. e adap. R. Paiva, SJ


A SEGUNDA VIDA

Os mesmos documentos, os mesmos testemunhos históricos que narraram a te agora os fatos de Jesus não se detêm em sua morte, mas, com a mesma autoridade e o mesmo grau de informação que antes, prosseguem narrando uma ressurreição e uma segunda vida sua.

Isto é mais do que suficiente para os que não admitem a possibilidade do sobrenatural - e não só os modernos, mas também os antigos (cf At 17,32), rechaçam sem mais, inteiramente, esta segunda parte do relato evangélico. Procedendo assim, estes negadores se mostram lógicos, diante dos princípios filosóficos de que partem. Mas, é importante ressaltar que os motivos que os determinam à negação são única e exclusivamente de caráter filosófico, e não derivam de deficiências ou falta de segurança dos documentos.

Os documentos existem realmente e se originam das mesmas fontes de antes. Como, porém, contradizem mais que nunca os princípios mencionados, os documentos necessitam, agora, ser "interpretados" à luz destes princípios, isto é subordinando-se a eles.

Quanto ao restante, a tarefa dos negadores em torno da segunda vida de Jesus não passa de uma prolongação - em sentido mais radical - do realizada em torno da primeira vida.

A propósito da primeira vida (antes da crucifixão e morte), a tarefa consistia em verificar uma seleção dos atos de Jesus, aceitando uma pregação ou uma viagem de barco como coisas naturais, mas recusando, como a cura do cego de nascença ou a ressurreição de um morto como sobrenaturais e, portanto, impossíveis. Quanto à segunda vida, não há nada a selecionar, porque tudo é sobrenatural, logo tudo é impossível. A tarefa se limita a explicar como surgiu entre os discípulos imediatos de Jesus a fé na sua segunda vida.

Este método, porém, ainda que lógico, não é bastante lógico. Fica na metade do caminho e não tira as últimas e decisivas conseqüências d e seus princípios filosóficos. Se quiser ser lógico até o fim, seria preciso negar não apenas a segunda vida, mas também a primeira , afirmando que Jesus não existiu em tempo nenhum sobre a face da terra.

Assim começaram a fazer alguns recentíssimos críticos. Certamente se agruparão muitos mais a eles no futuro nt. A atitude dialética e as razões pelas quais, estes recentíssimos críticos negam a existência mesma de Jesus começa quando querem submeter, nesta questão, a realidade documental a certos princípios filosóficos e termina por negar, logicamente, a tudo.

Só queremos recordar as respectivas posições desses críticos, porque o tema que tratamos exige mais do que nunca dar a cada um o que lhe é devido: dar à história o que é da história e à filosofia o que é da filosofia.

Também no relato da segunda vida de Jesus, os quatro evangelistas procedem segundo seu método característico. Não pretendem dar uma relação integral e minuciosa dos fatos, nem se prendem a uma rigorosa ordem cronológica, mas que escolhem da série de fatos , escolhem uns tantos ... dispostos segundo o objetivo de cada um(2).

Assim, narrando como se encontrou vazio o sepulcro de Jesus, os dois primeiro sinóticos, Mateus e Marcos, se mostram bastantes próximos entre si, como se poderia esperar. Lucas é mais reticente a respeito de nomes das pessoas, mas não se afasta muito de Marcos. João, finalmente, é esquemático, certamente porque pressupõe os outros, já costumeiramente conhecidos(3). Ele quer suprir e completar alguns pontos com sua peculiar autoridade de testemunha dos fatos.

NOTAS

(1)A perspectiva não se realizou. Embora continue a haver quem aceite o sermão da montanha e negue os milagres e a ressurreição, "interpretando-os", hoje não há pessoa de respeito no mundo dos estudos bíblicos e históricos que negue a existência de Jesus.

(2)Na verdade, faltava ao Autor toda uma série de estudos, que explicam o caráter da literatura evangélica. Em resumo, ela é uma literatura oral posta por escrito. Normalmente se dirige aos que já conhecem Jesus, têm diante de si este "auditório", para o qual vão recordando isto e aquilo, conforme a necessidade daquelas pessoas e daquela específica comunidade. Nem escrevem para posteridade, nem muito menos para pessoas ignorantes a respeito de Jesus. Escrevem evangelizando, destacando e relacionando fatos e palavras entre si, e, como faz quem fala, fazendo alusões significativas aos ouvintes, que hoje, muitas vezes, nos escapariam se não fosse a leitura exegética da Bíblia.

(3)Lembremos que a vida de Jesus era contada aos neófitos. Os cristãos do tempo de João a conheciam, como conheciam sua doutrina, seus ditos, repetidos nas exortações, cartas dos apóstolos, instruções catequéticas, etc.: em resumo, por "via oral", ou "de ouvido", como quisermos. Aliás, talvez é assim que a maioria imensa dos cristãos tem conhecido Jesus, e não por leitura corrida dos Evangelhos, etc. João, escrevendo para "seu auditório", seus discípulos, sabia o que eles sabiam e o que era bom que recordassem naquela altura.