![]()
Para
Inácio de Loyola, como para qualquer pessoa cristã de verdade,
Cristo é o centro, o começo e a meta, o alfa e ômega. Traduções
e adaptações de VIDA
DE JESUS CRISTO
Giuseppe Ricciotti Homem
experimentado na vida, tendo sido combatente na Primeira Guerra Mundial
(1914-1918), tornou-se sacerdote da Diocese de Roma, e professor de História
do Antigo Oriente, dedicou o melhor de si aos estudos bíblicos.
Sua vida de Cristo teve os 5000 exemplares da 1a. edição
esgotados em menos de um mês, algo espantoso para a época.
Ele foi autor também de uma respeitada "História de
Israel". Seu intuito foi de "compor um trabalho estritamente
histórico e científico .. atento à solidez dos documentos
... ousando imitar a notória impassibilidade dos evangelistas canônicos,
que não exteriorizam sentimentos de alegria quando nasce Jesus,
nem de dor, quando morre ..." Contudo, sua obra não é
seca e indigesta, mas vibrante de verdadeira empatia humana. Trad. e adap. R. Paiva, SJ
O CEGO DE NASCENÇA
Depois do discurso sobre a luz espiritual, concluído quem produzir efeito e com uma tentativa de apedrejar Jesus, João relata imediatamente uma difusão de luz material que sim, alcança resultado, isto é, a cura do cego de nascença, fato que há de acontecer um pouco mais tarde, depois de que a festa "das tendas" houvesse terminado e o calor dos ânimos tivesse abrandado. Um certo sábado, Jesus passou por um cego de nascença, que pedia esmolas, talvez nas proximidades do Templo. Considerando aquele infeliz, os discípulos perguntaram a Jesus: Rabi, quem pecou? Este homem ou seus pais, para que nascesse cego? Reconhecemos nesta pergunta a velha opinião hebraica de que o mal físico era sempre conseqüência do mal moral. Esta opinião já tinha sido demonstrada errônea pelo nobre autor do Livro de Jó. No entanto, permanecia tenazmente entre os doutos e não doutos. Jesus rejeitou a idéia, declarando que nem o cego nem seus pais tinham pecado. Que aquele caso singular fora permitido para que se manifestasse a misericórdia de Deus. Acrescentou: Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo (Jo 9,5). Dito isto, Jesus cuspiu no chão, fez um pouco de lama, pôs a lama nos olhos do cego e lhe disse: Vai lavar-te na piscina de Siloé. O homem foi, lavou-se e recuperou a vista. João, o evangelista espiritual, acrescenta um comentário de sabor místico sobre o nome da piscina, Siloam (no grego do Evangelho), advertindo que este nome, em hebraico Shiloah, se traduz como "O enviado". Na verdade este era o nome dado originariamente ao canal subterrâneo, que recolhia as águas da fonte de Gihon, e as trazia para dentro das muralhas da cidade. O canal, assim, era "o que enviava" a água. Era o canal do líquido "enviado". E o nome tinha passado do canal à piscina onde terminava: Siloé. O evangelista nos faz pensar em Jesus, o Enviado, a água que nos foi mandada pra lavar todo o gênero humano, privado de luz, como o cego de nascimento, que se lavou na piscina. Nos dois casos o resultado será idêntico.
Ficava a questão do sábado. Alguns fariseus comentavam que Jesus não podia ser homem de Deus, pois tinha, com uma dedada de lama, violado o repouso do sábado. Outros, talvez menos farisaicos, respondiam: "Mas se fosse pecador, como poderia realizar um prodígio deste?" (...) Naquele beco sem saída perguntaram o parecer do curado: Quem pensas que é este homem, que te abriu os olhos? E ele, imediatamente respondeu: Creio que é um profeta. Para eles foi uma péssima resposta. Julgou-se preciso dar marcha ré e insistir nas dúvidas, já eliminadas, sobre a identidade do curado. Chamaram os pais: É este o filho de vocês? Nasceu cego? Como é que agora está enxergando? Os dois pobres, amedrontados com aquela corporação de doutores, se defenderam atrás da realidade dos fatos, declinando toda a responsabilidade pessoal: É verdade que ele é nosso filho e que nasceu cego. Mas não sabemos porque está vendo agora nem quem lhe abriu os olhos. Perguntem a ele. Tem idade... O evangelista comenta: Isto disseram os pais porque tinham medo dos judeus, pois os judeus tinham combinado que se alguém reconhecesse Jesus como o Cristo (o Messias) seria expulso da sinagoga. Os pais escaparam do perigo com habilidade e nada se pôde tirar dele deles de decisivo. Então, voltaram a carga contra o filho. Assumiram um tom de conselheiros, de confidentes. Talvez o cego, comovendo-se, seria mais cooperativo. E lhe disseram: Vamos! Dá glória Deus! Sabemos perfeitamente que este homem que te curou é um pecador. Conta-nos, com franqueza, como se passaram as coisas. O curado respondeu: Se é ou não pecador, não sei. Só sei que antes era cego e que, agora,vejo. E eles insistiram: Mas como foi? Como ele te abriu os olhos? O miraculado que começava a usar a visão pela primeira vez, olhava, a contra gosto, seus inquisidores, quando, provavelmente, gostaria de outras visões mais agradáveis, e começou a perder a paciência: já lhes contei. Por que quereis ouvir novamente? Será que desejam fazer-se discípulos dele também? Caiu sobre o impertinente, que formulara uma pergunta tão irônica, um dilúvio de maldições e insultos, e lhe foi devolvida a injuriosa qualificação: Tu é que és discípulo deste homem. Nós somos discípulos de Moisés, Nós sabemos que Deus falou a Moisés. Mas não sabemos este homem de onde veio. O agredido não se deixou abater e respondeu: Admiro-me que não saibais de onde ele veio, pois ele me devolveu a vista. É certo que Deus não escuta aos pecadores, mas aos justos e piedosos. Também é certo que desde que o mundo é mundo nunca se ouviu dizer que alguém tivesse aberto os olhos de um cego de nascença. Se este homem não fosse de Deus, não poderia ter feito o que fez... A invencível tenacidade dos fariseus em não aceitar reconhecer a cura do cego de nascença é de uma perfeita historicidade e também um fenômeno, historicamente normalíssimo. Aqueles fariseus dominavam a partir de certos pilares próprios, que, no juízo deles, nunca deveriam desabar,ainda que o mundo se afundasse. Os seus pilares eram a observância rigorista do sábado, a pertença a seu grupo e coisas semelhantes. Do alto de seus pilares julgavam o universo, aprovando o que fortalecia suas bases e censurando o que os enfraquecia... Confrontando
serenamente os fatos, o historiador moderno encontra, depois de tantos
séculos que parte da humanidade evoluiu muito pouco em seus procedimentos
com respeito aos dados da vida de Jesus. Os nomes se modificaram, mas
não os procedimentos. Permanecem, em substância, os mesmos.
Os antigos pilares hoje se chamam o absurdo dos milagres, a impossibilidade
do sobrenatural e assim por diante. Mas os pilares, para efeitos práticos,
permanecem os mesmos. Levam-se perante o tribunal do racionalismo os documentos,
investigam-se os testemunhos, acumulam-se teorias e não se obtém
a explicação desejada e, pelo contraio, um Jesus cada vez
mais sobrenatural. Mas não importa: afunde o mundo, contanto que
permaneçam os pilares. E assim perdura a cegueira com seus sete selos. |