JESUS

Para Inácio de Loyola, como para qualquer pessoa cristã de verdade, Cristo é o centro, o começo e a meta, o alfa e ômega.

Deste afeto a Jesus, que o eixo profundo dos Exercícios Espirituais, surgiu a idéia desta seção, onde vários Autores, que amaram nosso Salvador e escreveram sobre ele, falem agora a você, que visita ITAICI - Revista Eletrônica Inaciana.

Traduções e adaptações de
R. Paiva, SJ


VIDA DE JESUS CRISTO
Giovanni Papini

Giovanni Papini nasceu em Florença, Itália, em 1881. Faleceu em 1956. Jovem, propôs-se atingir o "ateísmo integral". Jornalista e escritor famoso, participante das tarefas políticas de seu temp, viu-se convertido, e empregou seu talento em escrever a História de Cristo, a primeira biografia literária sobre Nosso Senhor. O mais impressionante deste livro impressionante é a "Oração" final. Antes traduzo e ofereço a vocês uma seleção de cinco textos extraídos na nova e cuidada edição espanhola da EDIBESA, Madrid, 2002.

Trad. e adap. R. Paiva, SJ


OS FILHOS DO TROVÃO


Os dois irmãos pescadores, Tiago e João, que haviam deixado na praia de Cafarnaum a barca e as redes para acompanhar a Jesus, e que, juntamente com Pedro constituíam uma espécie de triunvirato preferido - só eles acompanham Jesus à casa de Jairo, no monte da Transfiguração e no Horto das Oliveiras - não haviam adquirido, na longa convivência com o Mestre, a humildade suficiente. Jesus lhes havia dado o apelido de "Boanerges", "Filhos do Trovão". O cognome é um tanto irônico, aludindo, talvez, ao caráter deles, impetuoso, irascível.

Quando subiam todos juntos para Jerusalém, Jesus mandou alguns deles na frente ara encontrarem abrigo. Cruzavam a Samaria. Num povoado foram mal acolhidos. Não queriam recebê-los, porque se dirigiam em peregrinação a Jerusalém. Diante disto, João e Tiago disseram ao Senhor: Queres que digamos que venha fogo do céu sobre eles e os queime? Mas ele os repreendeu. Para eles, galileus fiéis a Jerusalém, os samaritanos eram inimigos. Inutilmente tinham ouvido o Sermão da Montanha: Façam bem aos que vos odeiam. Rogai pelos que vos perseguem (...) Contudo, ainda que distantes daquela renovação amorosa, que constitui a realidade do Reino, pretendiam ocupar, nos dias triunfantes, os primeiros lugares.

Tiago e João, filhos de Zebedeu, se achegaram a ele e disseram: Mestre, queremos que nos atendas um pedido nosso. Jesus lhes disse: Que quereis que vos faça? E eles: Concede-nos que, quando entrares em tua glória, nos sentemos um à tua direita e outro á tua esquerda. E os outros dez, ouvindo isto, ficaram indignados com Tiago e João. Mas Jesus lhes falou, dizendo: Quem quiser ser o maior entre vós, seja vosso servidor. O que quiser ser o primeiro seja servidor de todos. Porque o mesmo Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir.

O Salvador aproveitou a ingênua petulância dos Filhos do Trovão para repetir a palavra que convém a todos os de grande coração. Somente os nulos, os frouxos, os parasitas, os inúteis querem ser servidos pelos inferiores - se é que existe alguém abaixo deles -. Porém o que é superior está sempre a serviço dos pequenos.

Este milagre absurdo, que repugna ao egoísmo dos ególatras, à soberba dos super-homens e à miséria dos avarentos, porque o pouco que têm nem a eles mesmos serve, é a prova de fogo do gênio. O que não pode ou não quer servir é sinal de que nada tem para dar: está enfermo, impotente, imperfeito, vazio. Mas o gênio não é verdadeiro senão transborda em benefício dos inferiores.

Servir não é sinônimo de obedecer. Às vezes se pode servir melhor um povo, assumindo sua liderança, para salvá-lo ainda que ele não queira. No serviço não há servilismo.

Tiago e João entenderam as fortes palavras de Jesus. A João encontraremos, depois, entre os mais amorosos e próximos Na Última Ceia inclinou a cabeça sobre o peito de Jesus. Jesus, do alto da Cruz, lhe encomendará a Virgem Mãe para que a tenha consigo como um filho.

Tomé deve sua popularidade ao que deveria ser sua vergonha. Tomé, o Gêmeo (Dídimo), poderia ser o padroeiro da modernidade (...). Foi o precursor de Espinosa e de todos sos demais negadores das ressurreições. É o homem que nem mesmo se contenta com o testemunho dos próprios olhos (mais respeitoso, porém mais enganador) e quer também o das mãos. Mas seu amor por Jesus o faz merecedor do perdão. Quando lhe foram dizer ao Mestre que Lázaro morrera, repugnou aos discípulos ira até a Judéia, onde dominavam os inimigos. Tomé foi o único que disse: Vamos também nós para morrermos com ele!

Mateus é o mais simpático entre os Doze. Era um publicano. Provavelmente, era também o mais instruído dos seus companheiros. Sua adesão a Jesus não foi por isto menos espontânea, que a dos pescadores: Passando, Jesus viu um homem chamado Mateus no lugar de arrecadação dos impostos. Disse-lhe: "Segue-me!" E ele, deixando tudo, levantou-se disposto a segui-lo.

Mateus não deixava para trás um montão de redes a remendar. Deixava uma situação, um ganho, um lucro seguro e crescente. A renúncia às riquezas é fácil para quem nada tem. Dos Doze, Mateus era, sem dúvida, o mais rico antes da conversão. De nenhum outro se conta que pudesse oferecer "um grande banquete".Sua rápida obediência ao levantar-se, logo no primeiro chamado, de seu posto, onde acumulava dinheiro, foi um sacrifício maior, e, por isso, tanto mais meritório.

A Mateus devemos, segundo o antiqüíssimo testemunho de Papias, a primeira coleção dos ditos e feitos memoráveis de Jesus, isto é, o primeiro Evangelho. Neste livro encontramos o texto mais completo do Sermão da Montanha. A nossa gratidão para o pobre publicano deveria ser ainda maior. Sem ele, muitas palavras de Jesus, das mais belas, talvez se teriam perdido. Este contador de dracmas, siclos e minas, que por seu ofício, tido como infame, deveria ser predisposto á avareza, guardou-nos um tesouro mais valioso que todas as moedas cunhadas nesta terra antes e depois dele.

Também Filipe de Betsaida sabia fazer contas. A ele se dirige Jesus, rodeado da multidão com fome, para perguntar-lhe quanto seria necessário para comprar pão que bastasse para toda aquela gente. Duzentos denários não bastam, respondeu Filipe. E aquela soma lhe pareceu, talvez, um despropósito. Filipe haveria de se tornar um propagandista da fama de seu Mestre. Foi ele quem anunciou a Natanael o advento de Jesus e a ele se dirigiram os gregos de Jerusalém, que desejavam falar com o novo profeta.

Natanael, filho de Tolmai, mais conhecido como filho de Tolmai, "Bartolomeu", respondeu com um sarcasmo ao anúncio de Filipe: Será que pode sair coisa que preste de Nazaré? Mas tanto fez Filipe que acabou levando-o a Jesus, que lhe disse, apenas o viu: Este é um verdadeiro israelita, no qual não há falsidade. Natanael lhe perguntou: Donde me conheces? Jesus lhe respondeu: Antes que Filipe te chamasse, eu te vi, quando estavas debaixo da figueira. Natanael exclamou: Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel! E Jesus lhe replicou: Por que te disse que te vi debaixo da figueira tu crês? Coisas maiores verás.

Menos entusiasta e inflamável foi Nicodemos, que, com efeito, não quis aparecer como discípulo de Jesus. Nicodemos era idoso, estudara nas escolas dos rabinos, era do grupo dos sinedritas de Jerusalém. As referências aos milagres sempre o haviam impressionado e foi, numa noite, procurar Jesus pra dizer-lhe que acreditava ser ele um enviado de Deus. Jesus lhe respondeu: Em verdade, em verdade te digo, só o que nasce de novo pode ver o Reino de Deus. Nicodemos não entendeu estas palavras ou ficou espantado. Havia ido ao encontro de um taumaturgo (um homem capaz de fazer milagres) e encontrava uma sibila (uma pessoa que pronunciava oráculos obscuros). Com este pesado sentido prático do homem que não quer se deixar enredar, pergunta: Como pode nascer de novo quem já é velho? Pode entrar de novo no ventre de sua mãe para renascer? Jesus lhe respondeu com profundas palavras: Se não nasce de novo no espírito, não poderá entrar no Reino. Mas Nicodemos continua sem entender: Como é possível? Jesus lhe diz: Mas como? Tu és doutor em Israel e não sabes destas coisas?

Sempre manteve Nicodemos um certo respeito ao jovem Galileu. Mas sua simpatia foi tão discreta quanto sua visita. Certa vez, quando os chefes dos sacerdotes e o fariseus tramavam prender Jesus, Nicodemos saiu em sua defesa: Condena nossa lei alguém sem tê-lo ouvido e saber o que fez? Ele é um homem da lei. Fala em nome de "nossa Lei". Nicodemos continua a ser o homem velho, o homem do tribunal, o cauteloso amigo do que está escrito. Bastam umas quantas palavras para que se cale: És tu, pro acaso, também Galileu? Investiga e verás que da Galiléia nunca saiu nenhum profeta. Pertencia de direito ao Sinédrio, mas não há registro de que tenha levantado a voz em defesa do acusado, quando ele foi conduzido ante Caifás. Era, então, de noite. Para escapar ao sarcasmo dos colegas ou para evitar o remorso de um assassinato legal, ficou na cama. Despertou quando Jesus já estava morto e então - fora com a avareza! - comprou cem libras de mirra e aloés a fim de ungi-lo para a sepultura (...) Uma velha história dá conta de que ele foi batizado por Pedro e veio a ser condenado à morte por ter crido naquele que não pôde salvar da morte.