| Santo
Inácio é justamente
conhecido pela Companhia de Jesus, os Padres e Irmãos Jesuítas
e pelo impacto que seus companheiros têm tido na
cultura e na história nestes últimos 500 anos. Muitos
o conhecem também por terem se beneficiado dos seus "Exercícios
Espirituais". Mas muito poucos o conhecem pelo notável
monumento de discernimento para um corpo apostólico que são
as "Constituições da Companhia de Jesus",
ou pelo extraordinário valor de fiel correspondente, responsável
por mais de 6000 cartas, por seu Diário Espiritual ou seu
Relato Autobiográfico. Esta seção da nossa
Revista Eletrônica Inaciana, "Inácio por ele mesmo"
quer dar uma amostra desta obra, desenvolvida pelo Santo num curto
prazo de 15 anos. Tenhamos em conta de que as "Constituições"
continuam em vigor hoje em dia, sem nunca terem sido reformadas.
R.
Paiva, SJ |
QUARTA
PARTE - f
COMO INSTRUIR NAS LETRAS E EM OUTROS MEIOS DE
AJUDAR AO PRÓXIMO OS QUE ESTÃO NA COMPANHIA
Capítulo XIV
Os textos das aulas
[464] Em geral, como se disse ao falar dos colégios,
deverão ser seguidos em cada matéria os textos que expõem
a doutrina mais sólida e segura. Não serão adotados
os que forem suspeitos, eles ou seus autores. Mas estes serão expressamente
citados nas universidades
Comentário:
Inácio não prestigia autores não confiáveis,
mas quer que sejam conhecidos (citados). Assim o método de Santo
Tomás de Aquino: em cada assunto ele expunha opiniões
de um lado e de outro, para depois desenvolver a resposta católica
ou mais completa possível a cada ponto em foco.
[468]
Quanto aos livros de estudos humanísticos, latinos ou gregos, evite-se,
na medida do possível, que, nas universidades como nos colégios,
a juventude leia livros com coisas ofensivas aos bons costumes, sem serem
antes expurgadas as passagens ou expressões imorais.
[469]
Declaração: Se alguns, como Terêncio, não puderem
de modo algum ser expurgados, mas vale que não se leiam, para que
a natureza dos assuntos não ofenda pureza dos corações.
Comentário:
Inácio não pensa somente em excelência acadêmica,
mas em excelência de comportamento e vida.
QUARTA
PARTE - f
COMO INSTRUIR NAS LETRAS E EM OUTROS MEIOS DE
AJUDAR AO PRÓXIMO OS QUE ESTÃO NA COMPANHIA
Capítulo
XIII
Método e ordem a seguir nessas matérias
[455] As horas de aula, com a ordem e o método
próprio, os exercícios de composição literária
(que devem ser corrigidos pelos professores) ode discussão em todas
as matérias, a declamação pública em prosa
e em verso, Tudo isso se indicará em pormenor em tratado à
parte, aprovado pelo Geral, ao qual a presente Constituição
remete o leitor. Dizemos somente que este tratado deve adaptar-se a todos
os lugares, aos tempos e às pessoas, embora seja para desejar,quanto
possível, que se chegue a uma ordem comum.
Comentário:
Já nos Exercícios Espirituais, Santo Inácio prevê
que um dos papéis de quem dá os Exercícios é
dar ao exercitante “o método e a ordem para meditar ou
contemplar” [2]. Também é seu princípio de
mistagogo (introdutor ao mistério da fé), a atenção
às circunstâncias da pessoa e a adequação
da proposta às suas possibilidades reais. Poderíamos citar
muitos exemplos no correr dos Exercícios, mas sugerimos que se
leia a 18ª Anotação [18]. No breve parágrafo,
que comentamos, se nota sua decidida escolha por métodos participativos,
onde o aluno não é um mero ouvinte e repetidor, mas atua
no processo de aprendizado. Nos Exercícios, Inácio dá
muita importância a vários tipos de orações
de exames. Aqui também ele menciona a correção,
pelos professores, dos trabalhos feitos. O exercício sem correção
perde validade. Isto implica que o professor “inaciano”
tenha tempo e seja retribuído pelo trabalho de correção
dos exercícios de seus alunos.
[462]
Assim como é necessária a continuidade no estudo das letras,
se exige também algum descanso. Em que medida e em que tempo, há
de considerá-lo discretamente o Reitor, atendendo às circunstâncias
das pessoas e lugares.
Comentário:
Jovem jesuíta, ouvi contar de um antigo Reitor, que depois de
uma bela temporada de chuvas, o dia apareceu,a final, seco e glorioso.
O sábio educador, muito inacianamente, decretou um dia de feriado,
esportes e passeios.
Capítulo
IV
Admissão dos coadjutores formados e dos escolásticos
[533] Os que são admitidos como coadjutores espirituais
formados farão votos simples e não solenes...
Comentário:
desde cedo, pediram ingresso à Companhia, sacerdotes de certa
idade, que não poderiam alcançar os requisitos de estudos
desejados, mas que eram pessoas de virtude comprovada e vocação
averiguada. Poderiam ser úteis ao bem comum. Inácio pediu
e obteve permissão de recebê-los como coadjutores espirituais.
Também estudantes da Companhia que se revelassem pessoas de virtude,
mas com dificuldades de dar toda a conta de si nos estudos, podem ser
admitidos com votos simples. Hoje, no direito canônico, é
quase desconhecida a distinção, trabalhando-se mais a
de votos temporários e definitivos. Contudo, os Sumos Pontífices
recentes têm julgado que a Companhia deve manter estas distinções
como parte integrante do rosto específico da Ordem, como foi
admitida ao serviço especial dos mesmos Sumos Pontífices.
[537] Para os coadjutores espirituais temporais, a fórmula
será mesma, suprimindo-se a parte sobre a educação
da infância...
Comentário:
homens bem qualificados e até bem dotados intelectualmente, não
sentiam em si a vocação para o sacerdócio, mas
descobriam grandes desejos de viver e morrer na Companhia. Estes preciosos
dons de Deus foram admitidos como “coadjutores temporais”,
ou Irmãos. Têm prestado enormes serviços à
finalidade apostólica da Companhia e à sua vida espiritual
e comunitária.
Capítulo
III
Modo de admitir à profissão
[527]
“Eu N. faço Profissão e prometo a Deus Onipotente,
na presença da Virgem sua Mãe, e de toda a Corte Celestial,
e de todos os presentes, e a ti, Reverendo Padre N., Superior Geral da
Companhia de Jesus, que tens o lugar de Deus, assim como ateus sucessores
(ou: a ti, Reverendo Padre N., representante do Superior Geral da Companhia
e dos seus sucessores, que têm o lugar de Deus), pobreza, obediência
e castidade perpétuas. E, em conformidade com esta obediência,
prometo um cuidado particular pela educação da infância.
Tudo segundo a regra de vida contida nas Letras Apostólicas da
Companhia de Jesus e nas suas Constituições. Prometo, além
disso, obediência especial ao Sumo Pontífice no que respeita
às missões, segundo o conteúdo das mesmas Letras
Apostólicas e Constituições”.
Comentário:
“Letras Apostólicas” são os documentos
pontifícios aprovando o Instituto da Companhia e determinando
que se elaborem as Constituições. A obediência se
compreende dentro dos objetivos apostólicos, do modo de vida
evangélico e dos limites constitucionais, assim como a pobreza.
A castidade é a continência completa, conforme Inácio
recordará expressamente na Parte VI das Constituições.
QUINTA
PARTE - f
ADMISSÃO OU INCORPORAÇÃO NA COMPANHIA
Capítulo
II
Qualidades dos que serão admitidos
[516] Ninguém deve ser admitido em qualquer das
categorias mencionadas se não for julgado apto em Nosso Senhor.
Serão admitidos à profissão aqueles cuja vida, por
longas e cuidadosas provas, for bem conhecida e aprovada pelo Superior
Geral...
Comentário:
este princípio é fundamental, pois a Companhia foi constituída
para oferecer ao serviço da Igreja, sob a obediência quanto
às missões do Santo Padre, o Papa, sacerdotes bem preparados
intelectualmente e experimentados nas virtudes [ver Carta Apostólica
Exposcit Debitum 8 e 9, datada de 21 de julho de 1550, que contém
a fórmula do Instituto da Companhia de Jesus, dada pelo Papa
Júlio III].
QUINTA
PARTE - f
ADMISSÃO OU INCORPORAÇÃO NA COMPANHIA
Capítulo
I
Quem pode admitir e quando
[551]
A Companhia de Jesus, num sentido mais amplo, compreende todos os que
vivem sob a obediência do seu Superior Geral, mesmo os noviços,
e os que, aspirando a viver e morrer nela, estão em provação
para ser admitidos sob uma das formas que se indicarão. Noutro
sentido, menos universal, a Companhia compreende não somente os
professos e os coadjutores formados, mas também os escolásticos
aprovados. Tais são as três categorias de membros que constituem
o corpo da Companhia.
Num
terceiro sentido, mais estrito, a Companhia compreende os professos
e os coadjutores formados. É neste sentido que deve entender-se
a promessa feita pelos escolásticos de entrar na Companhia, isto
é, de nela vir a ser professos ou coadjutores formados.
Num
sentido ainda mais estrito, o nome da Companhia aplica-se unicamente
aos professos. É evidente que não se excluem os outros membros,
mas eles são os principais, entre os quais alguns, como adiante
se dirá, têm voz ativa e passiva na eleição
do Superior Geral, etc.
Quem
pertencer à Companhia em qualquer destas quatro categorias
tem capacidade de participar nos favores espirituais que, por concessão
da Sé Apostólica, o Superior Geral pode conceder para a
glória divina.
Quanto
à admissão na Companhia, entendida no primeiro
sentido, isto, ser recebido para provação, já se
tratou na primeira parte. Nesta quinta parte se tratará da admissão
às três categorias seguintes.
Comentário:
em resumo, Inácio considera jesuítas mesmo os noviços.
Porém a sua pertença não é ainda plena e
definitiva. Ela irá se realizando ao longo do tempo de provação
ou de formação, que tem flexibilidade [ver 515].
CAPÍTULO
XII
[446]
O fim da Companhia e dos estudos é ajudar o próximo e amar
a Deus e a salvar sua alma. Ora, sendo a Faculdade de Teologia o meio
mais apropriado para isso, é nela, principalmente, que se há
de insistir nas universidades da Companhia. Procurar-se-á que a
parte respeitante à doutrina escolástica e à Sagrada
Escritura, bem como a parte da doutrina positiva que convém ao
fim proposto, seja cuidadosamente tratada por excelentes professores.
Mas não se entre na parte do Direito Canônico orientada para
as questões do foro contencioso.
Comentário:
Deus não é somente o Bem (que alguns reduzem
ao útil, ao prático, inclinando-se para o materialismo),
mas é, igualmente, o Verdadeiro e o Belo. O processo de humanização
é um processo de divinização. Inácio chama
a isto, numa linguagem bem adequada, “amar a Deus e salvar sua
alma”. A pessoa humana sem este horizonte amoroso do Bem, do Verdadeiro
e do Belo, se “coisifica”, se desumaniza, se perde. Inácio
também indica a ampla visão de conjunto que se deve ter,
colocando a “ciência das coisas de Deus”, a Teologia,
como “alma” da Universidade cristã. Quer que as Escrituras
tenham lugar de honra. Os estudos bíblicos sempre têm convocado
a dedicação e o empenho de numerosos jesuítas em
todas as gerações da Companhia, que, atualmente, por exemplo,
se encarrega do Pontifício Instituto Bíblico em Roma.
Ele prestigia a atualidade da ciência teológica, no seu
tempo, a escolástica, a grande escola constituída a partir
dos esforços e intuições de Santo Alberto Magno,
do Mestre das Sentenças, Pedro Lombardo, e de Santo Tomás
de Aquino. Mas insiste na necessidade de um conhecimento da “teologia
positiva”, o conhecimento dos grandes autores cristão,
a começar pelo príncipe deles, Santo Agostinho. Hoje,
estes estudos, são chamados de “patrística”.
[447] A formação teológica, tanto
doutrinal como prática, sobretudo na nossa época, exige
conhecimento da literatura, e das línguas latinas, grega e hebraica
(...) E, onde for necessário ou útil par ao mesmo fim, poderá
haver também professores de outras línguas, como o caldeu,
o árabe ou o hindi, tendo em conta os diferentes países
e os motivos que possam induzir a ensiná-los.
Comentário:
por isso, no Brasil, Anchieta se fez alfabetizador e professor também
em tupi-guarani, que na forma “nheengatu”, “língua
boa”, se tornou a língua “brasílica”,
a língua franca nestas terras de Santa Cruz, até o desmantelamento
pombalino. E, de modo algum, ele foi uma exceção, mas
um exemplo do modo jesuíta de conceber seu serviço de
educação. Inácio comenta [448]: “Por literatura
deve entender-se a gramática e o que diz respeito à retórica,
poesia e história”. Também acrescenta: “Quando
(...) se projetasse enviar pessoas aos mouros ou aos turcos, estariam
indicados os árabe ou o caldeu; como para ir aos hindus, o hindi.
O mesmos e diga de outras línguas...” Estas são
as bases intelectuais do que a Companhia praticou em sua existência,
e que hoje é chamado de “inculturação”.
Na verdade, não se evangeliza ninguém sem compreendê-lo
e estimá-lo e valorizá-lo, também em seu modo de
ver, falar, rezar, em sua cultura. Aos que acusam a evangelização
da Companhia de ter sido uma dominação e colonização,
fica o ônus de explicar como e possível que uns poucos
Padres ou Irmãos, às vezes pequenos grupos de meia dúzia
de pessoas, tenham podido “subjugar” aldeamentos com populações
nativas oscilando de 6 mil a 20 mil membros...
[450] As artes ou ciências naturais dispõem
os espíritos para a teologia, e servem para ter dela perfeito conhecimento
e prática, ao mesmo tempo que são, por si próprias,
um auxílio para os mesmos fins. Será, pois, ensinadas coma
diligência que merecem, por professores competentes. Em tudo, há
de procurar-se, sinceramente, a honra e glória de Deus Nosso Senhor.
Comentário:
alguns podem pensar que a glória de Deus seja algo exclusivo,
partidário e sectário. Mas o Deus de Inácio é
o Pai Nosso. Sua glória são seus filhos vivos. Daí
o interesse multi-secular de tantos e tantos jesuítas e seus
alunos pelas ciências, desde a farmácia e medicina, até
a matemática e astronomia, passando pelas artes plásticas,
pelo teatro, pelos atuais meios de comunicação social,
engenharia, etc. Mas nenhuma ciência é um fim em si mesma.
A ciência sozinha tanto pode ser um bem como um perigo para a
humanidade. Ela precisa um oriente. Para Inácio este Oriente
tem nome próprio: Nosso Senhor Jesus Cristo, o que não
veio para ser servido, mas para servir.
QUARTA
PARTE – g
COMO
INSTRUIR NAS LETRAS E EM OUTROS MEIOS DE
AJUDAR O PRÓXIMO OS QUE ESTÃO NA COMPANHIA
CAPÍTULO 11
Aceitação de universidades
[431]
As mesmas razões de caridade que levam a aceitar colégios
e ater neles aulas públicas para edificar na doutrina e na vida,
não somente os Nossos, mas ainda os que não pertencem à
Companhia, poderão induzir-nos a tomar o encargo de universidades.
O fruto difundido por meio delas será mais universal, tanto pelas
matérias que se ensinam, como pelas pessoas que as freqüentam
e pelos graus que se dão. Assim poderão ensinar com autoridade
em outras partes o que nelas aprenderam, para a glória de Deus
Nosso Senhor.
Comentário:
impressiona o apreço dado à educação, também
superior, pelo descortino de Inácio. Para lê, o trabalho
de educação é uma obra de caridade de excelente
qualidade. Afinal o ser humano é um animal que aprende e ensina,
produzindo cultura e sendo gerado também pela cultura. Educar
é, para Inácio, um processo que abrange mente e coração:
“edificar na doutrina e na vida”.
QUARTA
PARTE - f
COMO INSTRUIR NAS LETRAS E EM OUTROS MEIOS DE
AJUDAR O PRÓXIMO OS QUE ESTÃO NA COMPANHIA
CAPÍTULO
10
O governo dos Colégios
[419]
Conforme as Bulas da Sé Apostólica, é a Companhia
Professa que terá a superintendência dos colégios.
Não podendo ela, com efeito, tirar proveito algum dos seus rendimentos,
nem nenhuma ajuda para si, é muito provável que procederá
perseverantemente, de maneira mais desinteressada e mais espiritual, em
tudo aquilo que se tem de fazer para maior serviço de Deus e bom
governo dos mesmos Colégios.
Comentário:
Inácio está no pólo oposto da concepção
dominante no mundo moderno e pós moderno, que quer ver no lucro
o motor da atividade humana e do progresso, incentivando a competição.
Segundo o Evangelho, ele vê o amor ao dinheiro, isto é
a cobiça, a avareza, o medo de não ter e a segurança
falsa no possuir como raiz venenosa de males. Acredita que a Companhia
Professa (isto é, já com os últimos votos e sua
especial obediência para as missões ao Santo Padre) está
mais livre para bem servir, porque impedida de usar os recursos das
instituições em proveito próprio! Este princípio
de gratuidade no serviço continua em vigor. Os jesuítas
do fruto do seu trabalho. Mas não podem capitalizar, acumular.
O que sobra é sistematicamente recolhido e empregado nas obras
apostólicas da Igreja. Os Professos jesuítas têm
voto de nada mudar nesta matéria, a não ser para apertar
mais os parafusos!.
[423]
Procure-se que o Reitor (Diretor Geral) seja pessoa de grande exemplo
e edificação, mortificado em todas as más inclinações,
e especialmente provado na obediência e na humildade. Que tenha
também discernimento e aptidões para ao governo, prática
de negócios, e experiência nas coisas do espírito.
Que saiba, a seu tempo, aliar a severidade com a bondade. Que seja cuidadoso,
sofredor no trabalho e pessoa de letras. Que seja, enfim, pessoa de quem
os Superiores se possam fiar, e a quem possam delegar com segurança
a sua autoridade. Pois quanto maior ela for, tanto melhor poderão
governar-se os colégios para a maior glória divina.
Comentário:
hoje, nos colégios para não jesuítas e universidades
sob a responsabilidade da Companhia, cada vez mais profissionais leigos,
mulheres e homens, têm sido chamados a ocupar a direção
destas instituições. Mas suas qualidades pessoais importam
e muito, na ótica de Inácio e da Companhia, para serem
chamados a exercer tais funções. Assim alguém talentoso
e competente, mas que fosse pouco ou nada mortificado em tendências
de vaidade, autoritarismo ou permissividade, ou alguém sem uma
vida interior que transpareça na sua vivência do dia-a-dia,
não é convidada a exercer tais cargos. E se há
algum engano, não se renova o mandato e mesmo, em caso extremo,
segundo a legislação apropriada, pode tê-lo revocado.
Note-se que os critérios inacianos seguem a linha do Sermão
da Montanha, e não se deixam seduzir pela “eficiência”
e pelos “resultados”, importando mais as virtudes comprovadas
como vida segundo o Espírito, discernimento e bondade.
[424] A função do Reitor será sustentar
todo o colégio com as suas orações e santos desejos.
Em seguida fazer que se guardem as Constituições, velar
solicitamente por todos, guardá-los dos perigos dentro e fora de
casa, prevenindo o mal, ou pondo-lhe remédio, quando existir, como
convém ao bem dos indivíduos e ao bem universal.
Esforçar-se
por fazê-los progredir na virtude e na ciência; defender a
saúde deles e os bens do colégio, tanto móveis como
imóveis; nomear, com discrição, os encarregados dos
ofícios; vigiar a maneira como se desempenham eles, e conservá-los
ou removê-los conforme entender no Senhor...
Guardar
em tudo a subordinação na obediência que
deve, não somente ao Superior Geral, mas também ao Provincial.
Informá-lo e a ele recorrer nos assuntos importantes, seguindo
as diretrizes que ele lhe der, pois é o seu Superior, assim como
é justo procedam consigo os súditos do seu colégio.
Comentário:
o âmbito da autoridade do Reitor é o bem: o bem do indivíduo,
o bem da instituição e o bem mais universal. O discernimento
“no Senhor” é central para quem deve “sustentar
todo do colégio com suas orações e bons desejos”.
Lembremo-nos que Inácio fala de alguém mortificado em
suas “más inclinações”. A concepção
inaciana da autoridade tem tudo a ver com serviço nos moldes
evangélicos e nada com modelos tecnocráticos ou burocráticos.
O discernimento também é necessário, pois a ele,
como aos que dele dependem, cabe discernir, sempre espiritualmente falando.
Em que recorrer, qual o assunto relevante que pede este recurso., recurso
que, por sua vez, afasta todo espírito de feudalismo e falta
de responsabilidade com o corpo da Companhia e com o Corpo de Cristo,
a Igreja.
QUARTA
PARTE - e
COMO INSTRUIR NAS LETRAS E EM OUTROS MEIOS DE AJUDAR O PRÓXIMO
OS QUE ESTÃO NA COMPANHIA
Capítulo 9
INTERRUPÇÃO DOS ESTUDOS
Comentário: este é um curtíssimo
capitulo de 3 parágrafos, onde o Fundador prevê que os estudos
são tanto quanto aproveitam para o fim que se pretende, e menciona
alguns exemplos de causas para interromper os estudos, e como o Reitor
deve apresentar a avaliação do currículo do religioso
no final da teologia, aguardando o que for determinado para o futuro do
mesmo. Contudo:
[418]
Normalmente, cada um será retirado do Colégio,
onde se estudam todas as matérias, quando acabar os estudos, isto
é, depois de ter seguido o curso de artes (filosofia) e feito quatro
anos de teologia. Cerca do fim deste período, o Reitor deve prevenir
o Geral ou Provincial, dando-lhe conta da capacidade do indivíduo,
e seguirá a ordem que lhe for dada para a glória de Deus
Nosso Senhor
Observação:
a partir deste ponto, passamos a empregar o texto da nova tradução,
atualmente em uso, revista pelo Padre João A. Mac Dowell, SJ, Edições
Loyola / SP / BR
QUARTA
PARTE - d
COMO INSTRUIR NAS LETRAS E EM OUTROS MEIOS DE AJUDAR
O PRÓXIMO OS QUE ESTÃO NA COMPANHIA
Capítulo
8
FORMAÇÃO DOS ESCOLÁSTICOS
NOS MEIOS DE AJUDAR O PRÓXIMO
[400] Tendo em conta o fim pretendido pela Companhia
com os estudos, é bom que, quando eles terminem, os jesuítas
em formação comecem a se habituar às armas espirituais
que hão de manejar para a ajuda do próximo. Isto se fará
de maneira especial e continuada nas casas (comunidades de trabalho).
Pode, porém, começar nos colégios (casas de formação).
Comentário: sem sentir necessidade de mudar
o disposto pelas Constituições, que continuam sendo um referencial
para o discernimento do que se há de fazer, também neste
campo, para mais servir a Deus e melhor ajudar o próximo, estão
em vigor umas “notas complementares”, que orientam a aplicação
do discernimento de Inácio e dos Fundadores à situação
contemporânea, a saber:
[NC 106] Todo o processo de formação em suas diversas
fases (...) deve favorecer a integração no corpo apostólico
da Companhia, preparando os que estão em formação
para cumprir as missões e exercitar os ministérios que
a Companhia lhes quiser confiar.
Portanto o estilo de vida pessoal e comunitária e o ambiente
em que ela se desenvolve deve desenvolver a formação
apostólica, de modo que os jesuítas em formação
possam conhecer e entender as aspirações, sofrimentos
e necessidades das pessoas entre as quais vivem. Fomentem, de modo
especial, a solidariedade com os pobres, para aprender deles como
os podem ajudar.
É necessário que os que estão em formação
façam alguma vez a experiência de viver com os pobres.
Assim serão ajudados a superar os limites resultantes da própria
origem social, bem como a reforçar o amor aos pobres. Mas esta
experiência seja feita em condições que assegurem
sua autenticidade, para que não seja ilusória e leve
a uma verdadeira conversão. Com esse fim, contato com os pobres
deveria ser permanente e não só ocasional, acompanhado
de cuidadosa reflexão, integrando-se com a formação
para a análise sociocultural.
Os pobres e excluídos constituem a maior parte da humanidade
que Jesus veio salvar. É importante que os jesuítas possam
se sentir à vontade com eles e gostem de servi-los, como quem ajuda
e não como quem os patroneia.
Outras disposições prevêem que a formação
seja integrada à região em que o jesuíta, presumivelmente
irá trabalhar. Assim, no Brasil, a formação está
aos cuidados do Provincial “do Brasil”, e parte se verifica
nas “províncias” de origem, parte em João Pessoa,
parte na casa de estudos de Belo Horizonte. Em geral a chamada Terceira
Provação se cumpre fora do país, dando uma ocasião
a todos, quanto possível, de terem um contacto vivo com jesuítas
e povos das outras nações (Chile, ou México, atualmente,
mas também, em alguns casos, na Europa). Os jesuítas chamados
a exercerem seu ministério fora do Brasil (África, Timor),
quanto possível são enviados mais cedo, para melhor se entrosarem
e melhor manejarem a língua local. A Companhia, neste mundo cada
vez menor pelas comunicações, insiste que os jovens de países
vizinhos possam se encontrar: “Contatos deste tipo (incluindo com
pessoas de sua faixa etária, clérigos, religiosos e leigos)
ajudam a superar visões nacionalistas e particularistas e a desenvolver
uma atitue aberta e universal para com as culturas, civilizações
e mentalidades diversas, como exige nossa vocação apostólica”.
O jesuíta, como cristão, é chamado a ser “católico”!
Como disse o Apóstolo: “Fiz-me tudo para todos para ganhar
alguns” (1Cor 9,22). Hoje, esta atitude chama-se inculturação
e se baseia na sólida fé de tudo Deus criou e tudo o que
Deus criou, mesmo deformado pelo pecado, é, fundamentalmente bom
e para restaurar tudo em Cristo (Ef 1,10) que O Pai entregou seu próprio
Filho por nós. Esta, desde Inácio, tem sido a grande tradição
da Companhia.
[401] Hão de se exercitar em pregar e ensinar,
de tal forma que o povo fique edificado - método que é bem
diferente do escolástico (isto é, acadêmico). Procurarão
dominar bem a língua, ter previstas à mão as coisas
mais úteis para este ministério, e servir-se de todos os
meios próprios. Deste modo, melhor se desempenharão do encargo
(“ofício”) e com mais fruto para as almas.
Comentário: A Nota Complementar no
96 ajusta admiravelmente a intuição inaciana às condições
contemporâneas:
[NC
96] Ao longo de todo o período de estudos, os escolásticos
se exercitem nos meios de expressão próprios do nosso
tempo, de modo que, por seu domínio na arte de falar e escrever,
se tornem exímios anunciadores do Evangelho de Cristo. Tenham
também a oportunidade de entra em contacto com os meios audiovisuais
e de aprender a usá-los pastoralmente ... (tendo) cursos bem
organizados de comunicação social que ensinem a julgar
criticamente os modos de expressão da nova cultura, a apreciar
sua dimensão estética e a utilizar os meios de comunicação
em um trabalho de equipe.
[408] Devem se habituar a dar os Exercícios Espirituais
aos outros, depois de ter feito a experiência deles em si mesmos.
Deve cada um saber explicá-los e servir-se deste instrumento, pois
Deus nosso Senhor lhe dá visivelmente tão grande eficácia
para os eu divino serviço.
Comentário: depois da restauração
da Companhia, antes fechada por ordem papal, resultante da pressão
das cortes européias da família dos Bourbons, os jesuítas
constituíram estabelecimentos afastados, exclusivos, levando uma
vida quase conventual. Também esta norma de Inácio foi esquecida
neste contexto bucólico. Somente no final da formação,
durante a Terceira Formação, cuidava-se de dar algum verniz
de formação para os Exercícios. A volta às
fontes, determinada pelo Concílio Vaticano II impulsionou enorme
avanço, que acabou com a partilha em fazer e preparar para dar
os Exercícios a religiosas, religiosos, sacerdotes não jesuítas
e leigos e leigas. |