Santo Inácio é justamente conhecido pela Companhia de Jesus, os Padres e Irmãos Jesuítas e pelo impacto que seus companheiros têm tido na cultura e na história nestes últimos 500 anos. Muitos o conhecem também por terem se beneficiado dos seus "Exercícios Espirituais". Mas muito poucos o conhecem pelo notável monumento de discernimento para um corpo apostólico que são as "Constituições da Companhia de Jesus", ou pelo extraordinário valor de fiel correspondente, responsável por mais de 6000 cartas, por seu Diário Espiritual ou seu Relato Autobiográfico. Esta seção da nossa Revista Eletrônica Inaciana, "Inácio por ele mesmo" quer dar uma amostra desta obra, desenvolvida pelo Santo num curto prazo de 15 anos. Tenhamos em conta de que as "Constituições" continuam em vigor hoje em dia, sem nunca terem sido reformadas.

R. Paiva, SJ

QUARTA PARTE - f
COMO INSTRUIR NAS LETRAS E EM OUTROS MEIOS DE
AJUDAR AO PRÓXIMO OS QUE ESTÃO NA COMPANHIA

Capítulo XIV
Os textos das aulas

[464] Em geral, como se disse ao falar dos colégios, deverão ser seguidos em cada matéria os textos que expõem a doutrina mais sólida e segura. Não serão adotados os que forem suspeitos, eles ou seus autores. Mas estes serão expressamente citados nas universidades

Comentário: Inácio não prestigia autores não confiáveis, mas quer que sejam conhecidos (citados). Assim o método de Santo Tomás de Aquino: em cada assunto ele expunha opiniões de um lado e de outro, para depois desenvolver a resposta católica ou mais completa possível a cada ponto em foco.

[468] Quanto aos livros de estudos humanísticos, latinos ou gregos, evite-se, na medida do possível, que, nas universidades como nos colégios, a juventude leia livros com coisas ofensivas aos bons costumes, sem serem antes expurgadas as passagens ou expressões imorais.

[469] Declaração: Se alguns, como Terêncio, não puderem de modo algum ser expurgados, mas vale que não se leiam, para que a natureza dos assuntos não ofenda pureza dos corações.

Comentário: Inácio não pensa somente em excelência acadêmica, mas em excelência de comportamento e vida.


QUARTA PARTE - f
COMO INSTRUIR NAS LETRAS E EM OUTROS MEIOS DE
AJUDAR AO PRÓXIMO OS QUE ESTÃO NA COMPANHIA

Capítulo XIII
Método e ordem a seguir nessas matérias

[455] As horas de aula, com a ordem e o método próprio, os exercícios de composição literária (que devem ser corrigidos pelos professores) ode discussão em todas as matérias, a declamação pública em prosa e em verso, Tudo isso se indicará em pormenor em tratado à parte, aprovado pelo Geral, ao qual a presente Constituição remete o leitor. Dizemos somente que este tratado deve adaptar-se a todos os lugares, aos tempos e às pessoas, embora seja para desejar,quanto possível, que se chegue a uma ordem comum.

Comentário: Já nos Exercícios Espirituais, Santo Inácio prevê que um dos papéis de quem dá os Exercícios é dar ao exercitante “o método e a ordem para meditar ou contemplar” [2]. Também é seu princípio de mistagogo (introdutor ao mistério da fé), a atenção às circunstâncias da pessoa e a adequação da proposta às suas possibilidades reais. Poderíamos citar muitos exemplos no correr dos Exercícios, mas sugerimos que se leia a 18ª Anotação [18]. No breve parágrafo, que comentamos, se nota sua decidida escolha por métodos participativos, onde o aluno não é um mero ouvinte e repetidor, mas atua no processo de aprendizado. Nos Exercícios, Inácio dá muita importância a vários tipos de orações de exames. Aqui também ele menciona a correção, pelos professores, dos trabalhos feitos. O exercício sem correção perde validade. Isto implica que o professor “inaciano” tenha tempo e seja retribuído pelo trabalho de correção dos exercícios de seus alunos.

[462] Assim como é necessária a continuidade no estudo das letras, se exige também algum descanso. Em que medida e em que tempo, há de considerá-lo discretamente o Reitor, atendendo às circunstâncias das pessoas e lugares.

Comentário: Jovem jesuíta, ouvi contar de um antigo Reitor, que depois de uma bela temporada de chuvas, o dia apareceu,a final, seco e glorioso. O sábio educador, muito inacianamente, decretou um dia de feriado, esportes e passeios.


Capítulo IV
Admissão dos coadjutores formados e dos escolásticos

[533] Os que são admitidos como coadjutores espirituais formados farão votos simples e não solenes...

Comentário: desde cedo, pediram ingresso à Companhia, sacerdotes de certa idade, que não poderiam alcançar os requisitos de estudos desejados, mas que eram pessoas de virtude comprovada e vocação averiguada. Poderiam ser úteis ao bem comum. Inácio pediu e obteve permissão de recebê-los como coadjutores espirituais. Também estudantes da Companhia que se revelassem pessoas de virtude, mas com dificuldades de dar toda a conta de si nos estudos, podem ser admitidos com votos simples. Hoje, no direito canônico, é quase desconhecida a distinção, trabalhando-se mais a de votos temporários e definitivos. Contudo, os Sumos Pontífices recentes têm julgado que a Companhia deve manter estas distinções como parte integrante do rosto específico da Ordem, como foi admitida ao serviço especial dos mesmos Sumos Pontífices.


[537] Para os coadjutores espirituais temporais, a fórmula será mesma, suprimindo-se a parte sobre a educação da infância...

Comentário: homens bem qualificados e até bem dotados intelectualmente, não sentiam em si a vocação para o sacerdócio, mas descobriam grandes desejos de viver e morrer na Companhia. Estes preciosos dons de Deus foram admitidos como “coadjutores temporais”, ou Irmãos. Têm prestado enormes serviços à finalidade apostólica da Companhia e à sua vida espiritual e comunitária.


Capítulo III
Modo de admitir à profissão

[527] “Eu N. faço Profissão e prometo a Deus Onipotente, na presença da Virgem sua Mãe, e de toda a Corte Celestial, e de todos os presentes, e a ti, Reverendo Padre N., Superior Geral da Companhia de Jesus, que tens o lugar de Deus, assim como ateus sucessores (ou: a ti, Reverendo Padre N., representante do Superior Geral da Companhia e dos seus sucessores, que têm o lugar de Deus), pobreza, obediência e castidade perpétuas. E, em conformidade com esta obediência, prometo um cuidado particular pela educação da infância. Tudo segundo a regra de vida contida nas Letras Apostólicas da Companhia de Jesus e nas suas Constituições. Prometo, além disso, obediência especial ao Sumo Pontífice no que respeita às missões, segundo o conteúdo das mesmas Letras Apostólicas e Constituições”.

Comentário: “Letras Apostólicas” são os documentos pontifícios aprovando o Instituto da Companhia e determinando que se elaborem as Constituições. A obediência se compreende dentro dos objetivos apostólicos, do modo de vida evangélico e dos limites constitucionais, assim como a pobreza. A castidade é a continência completa, conforme Inácio recordará expressamente na Parte VI das Constituições.


QUINTA PARTE - f
ADMISSÃO OU INCORPORAÇÃO NA COMPANHIA

Capítulo II
Qualidades dos que serão admitidos


[516] Ninguém deve ser admitido em qualquer das categorias mencionadas se não for julgado apto em Nosso Senhor. Serão admitidos à profissão aqueles cuja vida, por longas e cuidadosas provas, for bem conhecida e aprovada pelo Superior Geral...

Comentário: este princípio é fundamental, pois a Companhia foi constituída para oferecer ao serviço da Igreja, sob a obediência quanto às missões do Santo Padre, o Papa, sacerdotes bem preparados intelectualmente e experimentados nas virtudes [ver Carta Apostólica Exposcit Debitum 8 e 9, datada de 21 de julho de 1550, que contém a fórmula do Instituto da Companhia de Jesus, dada pelo Papa Júlio III].


QUINTA PARTE - f
ADMISSÃO OU INCORPORAÇÃO NA COMPANHIA

Capítulo I
Quem pode admitir e quando

[551] A Companhia de Jesus, num sentido mais amplo, compreende todos os que vivem sob a obediência do seu Superior Geral, mesmo os noviços, e os que, aspirando a viver e morrer nela, estão em provação para ser admitidos sob uma das formas que se indicarão. Noutro sentido, menos universal, a Companhia compreende não somente os professos e os coadjutores formados, mas também os escolásticos aprovados. Tais são as três categorias de membros que constituem o corpo da Companhia.

Num terceiro sentido, mais estrito, a Companhia compreende os professos e os coadjutores formados. É neste sentido que deve entender-se a promessa feita pelos escolásticos de entrar na Companhia, isto é, de nela vir a ser professos ou coadjutores formados.

Num sentido ainda mais estrito, o nome da Companhia aplica-se unicamente aos professos. É evidente que não se excluem os outros membros, mas eles são os principais, entre os quais alguns, como adiante se dirá, têm voz ativa e passiva na eleição do Superior Geral, etc.

Quem pertencer à Companhia em qualquer destas quatro categorias tem capacidade de participar nos favores espirituais que, por concessão da Sé Apostólica, o Superior Geral pode conceder para a glória divina.

Quanto à admissão na Companhia, entendida no primeiro sentido, isto, ser recebido para provação, já se tratou na primeira parte. Nesta quinta parte se tratará da admissão às três categorias seguintes.

Comentário: em resumo, Inácio considera jesuítas mesmo os noviços. Porém a sua pertença não é ainda plena e definitiva. Ela irá se realizando ao longo do tempo de provação ou de formação, que tem flexibilidade [ver 515].


CAPÍTULO XII

[446] O fim da Companhia e dos estudos é ajudar o próximo e amar a Deus e a salvar sua alma. Ora, sendo a Faculdade de Teologia o meio mais apropriado para isso, é nela, principalmente, que se há de insistir nas universidades da Companhia. Procurar-se-á que a parte respeitante à doutrina escolástica e à Sagrada Escritura, bem como a parte da doutrina positiva que convém ao fim proposto, seja cuidadosamente tratada por excelentes professores. Mas não se entre na parte do Direito Canônico orientada para as questões do foro contencioso.

Comentário: Deus não é somente o Bem (que alguns reduzem ao útil, ao prático, inclinando-se para o materialismo), mas é, igualmente, o Verdadeiro e o Belo. O processo de humanização é um processo de divinização. Inácio chama a isto, numa linguagem bem adequada, “amar a Deus e salvar sua alma”. A pessoa humana sem este horizonte amoroso do Bem, do Verdadeiro e do Belo, se “coisifica”, se desumaniza, se perde. Inácio também indica a ampla visão de conjunto que se deve ter, colocando a “ciência das coisas de Deus”, a Teologia, como “alma” da Universidade cristã. Quer que as Escrituras tenham lugar de honra. Os estudos bíblicos sempre têm convocado a dedicação e o empenho de numerosos jesuítas em todas as gerações da Companhia, que, atualmente, por exemplo, se encarrega do Pontifício Instituto Bíblico em Roma. Ele prestigia a atualidade da ciência teológica, no seu tempo, a escolástica, a grande escola constituída a partir dos esforços e intuições de Santo Alberto Magno, do Mestre das Sentenças, Pedro Lombardo, e de Santo Tomás de Aquino. Mas insiste na necessidade de um conhecimento da “teologia positiva”, o conhecimento dos grandes autores cristão, a começar pelo príncipe deles, Santo Agostinho. Hoje, estes estudos, são chamados de “patrística”.


[447] A formação teológica, tanto doutrinal como prática, sobretudo na nossa época, exige conhecimento da literatura, e das línguas latinas, grega e hebraica (...) E, onde for necessário ou útil par ao mesmo fim, poderá haver também professores de outras línguas, como o caldeu, o árabe ou o hindi, tendo em conta os diferentes países e os motivos que possam induzir a ensiná-los.

Comentário: por isso, no Brasil, Anchieta se fez alfabetizador e professor também em tupi-guarani, que na forma “nheengatu”, “língua boa”, se tornou a língua “brasílica”, a língua franca nestas terras de Santa Cruz, até o desmantelamento pombalino. E, de modo algum, ele foi uma exceção, mas um exemplo do modo jesuíta de conceber seu serviço de educação. Inácio comenta [448]: “Por literatura deve entender-se a gramática e o que diz respeito à retórica, poesia e história”. Também acrescenta: “Quando (...) se projetasse enviar pessoas aos mouros ou aos turcos, estariam indicados os árabe ou o caldeu; como para ir aos hindus, o hindi. O mesmos e diga de outras línguas...” Estas são as bases intelectuais do que a Companhia praticou em sua existência, e que hoje é chamado de “inculturação”. Na verdade, não se evangeliza ninguém sem compreendê-lo e estimá-lo e valorizá-lo, também em seu modo de ver, falar, rezar, em sua cultura. Aos que acusam a evangelização da Companhia de ter sido uma dominação e colonização, fica o ônus de explicar como e possível que uns poucos Padres ou Irmãos, às vezes pequenos grupos de meia dúzia de pessoas, tenham podido “subjugar” aldeamentos com populações nativas oscilando de 6 mil a 20 mil membros...


[450] As artes ou ciências naturais dispõem os espíritos para a teologia, e servem para ter dela perfeito conhecimento e prática, ao mesmo tempo que são, por si próprias, um auxílio para os mesmos fins. Será, pois, ensinadas coma diligência que merecem, por professores competentes. Em tudo, há de procurar-se, sinceramente, a honra e glória de Deus Nosso Senhor.

Comentário: alguns podem pensar que a glória de Deus seja algo exclusivo, partidário e sectário. Mas o Deus de Inácio é o Pai Nosso. Sua glória são seus filhos vivos. Daí o interesse multi-secular de tantos e tantos jesuítas e seus alunos pelas ciências, desde a farmácia e medicina, até a matemática e astronomia, passando pelas artes plásticas, pelo teatro, pelos atuais meios de comunicação social, engenharia, etc. Mas nenhuma ciência é um fim em si mesma. A ciência sozinha tanto pode ser um bem como um perigo para a humanidade. Ela precisa um oriente. Para Inácio este Oriente tem nome próprio: Nosso Senhor Jesus Cristo, o que não veio para ser servido, mas para servir.


QUARTA PARTE – g
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CAPÍTULO 11
Aceitação de universidades

[431] As mesmas razões de caridade que levam a aceitar colégios e ater neles aulas públicas para edificar na doutrina e na vida, não somente os Nossos, mas ainda os que não pertencem à Companhia, poderão induzir-nos a tomar o encargo de universidades. O fruto difundido por meio delas será mais universal, tanto pelas matérias que se ensinam, como pelas pessoas que as freqüentam e pelos graus que se dão. Assim poderão ensinar com autoridade em outras partes o que nelas aprenderam, para a glória de Deus Nosso Senhor.

Comentário: impressiona o apreço dado à educação, também superior, pelo descortino de Inácio. Para lê, o trabalho de educação é uma obra de caridade de excelente qualidade. Afinal o ser humano é um animal que aprende e ensina, produzindo cultura e sendo gerado também pela cultura. Educar é, para Inácio, um processo que abrange mente e coração: “edificar na doutrina e na vida”.


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CAPÍTULO 10
O governo dos Colégios

[419] Conforme as Bulas da Sé Apostólica, é a Companhia Professa que terá a superintendência dos colégios. Não podendo ela, com efeito, tirar proveito algum dos seus rendimentos, nem nenhuma ajuda para si, é muito provável que procederá perseverantemente, de maneira mais desinteressada e mais espiritual, em tudo aquilo que se tem de fazer para maior serviço de Deus e bom governo dos mesmos Colégios.

Comentário: Inácio está no pólo oposto da concepção dominante no mundo moderno e pós moderno, que quer ver no lucro o motor da atividade humana e do progresso, incentivando a competição. Segundo o Evangelho, ele vê o amor ao dinheiro, isto é a cobiça, a avareza, o medo de não ter e a segurança falsa no possuir como raiz venenosa de males. Acredita que a Companhia Professa (isto é, já com os últimos votos e sua especial obediência para as missões ao Santo Padre) está mais livre para bem servir, porque impedida de usar os recursos das instituições em proveito próprio! Este princípio de gratuidade no serviço continua em vigor. Os jesuítas do fruto do seu trabalho. Mas não podem capitalizar, acumular. O que sobra é sistematicamente recolhido e empregado nas obras apostólicas da Igreja. Os Professos jesuítas têm voto de nada mudar nesta matéria, a não ser para apertar mais os parafusos!.

[423] Procure-se que o Reitor (Diretor Geral) seja pessoa de grande exemplo e edificação, mortificado em todas as más inclinações, e especialmente provado na obediência e na humildade. Que tenha também discernimento e aptidões para ao governo, prática de negócios, e experiência nas coisas do espírito. Que saiba, a seu tempo, aliar a severidade com a bondade. Que seja cuidadoso, sofredor no trabalho e pessoa de letras. Que seja, enfim, pessoa de quem os Superiores se possam fiar, e a quem possam delegar com segurança a sua autoridade. Pois quanto maior ela for, tanto melhor poderão governar-se os colégios para a maior glória divina.

Comentário: hoje, nos colégios para não jesuítas e universidades sob a responsabilidade da Companhia, cada vez mais profissionais leigos, mulheres e homens, têm sido chamados a ocupar a direção destas instituições. Mas suas qualidades pessoais importam e muito, na ótica de Inácio e da Companhia, para serem chamados a exercer tais funções. Assim alguém talentoso e competente, mas que fosse pouco ou nada mortificado em tendências de vaidade, autoritarismo ou permissividade, ou alguém sem uma vida interior que transpareça na sua vivência do dia-a-dia, não é convidada a exercer tais cargos. E se há algum engano, não se renova o mandato e mesmo, em caso extremo, segundo a legislação apropriada, pode tê-lo revocado. Note-se que os critérios inacianos seguem a linha do Sermão da Montanha, e não se deixam seduzir pela “eficiência” e pelos “resultados”, importando mais as virtudes comprovadas como vida segundo o Espírito, discernimento e bondade.


[424]
A função do Reitor será sustentar todo o colégio com as suas orações e santos desejos. Em seguida fazer que se guardem as Constituições, velar solicitamente por todos, guardá-los dos perigos dentro e fora de casa, prevenindo o mal, ou pondo-lhe remédio, quando existir, como convém ao bem dos indivíduos e ao bem universal.

Esforçar-se por fazê-los progredir na virtude e na ciência; defender a saúde deles e os bens do colégio, tanto móveis como imóveis; nomear, com discrição, os encarregados dos ofícios; vigiar a maneira como se desempenham eles, e conservá-los ou removê-los conforme entender no Senhor...

Guardar em tudo a subordinação na obediência que deve, não somente ao Superior Geral, mas também ao Provincial. Informá-lo e a ele recorrer nos assuntos importantes, seguindo as diretrizes que ele lhe der, pois é o seu Superior, assim como é justo procedam consigo os súditos do seu colégio.

Comentário: o âmbito da autoridade do Reitor é o bem: o bem do indivíduo, o bem da instituição e o bem mais universal. O discernimento “no Senhor” é central para quem deve “sustentar todo do colégio com suas orações e bons desejos”. Lembremo-nos que Inácio fala de alguém mortificado em suas “más inclinações”. A concepção inaciana da autoridade tem tudo a ver com serviço nos moldes evangélicos e nada com modelos tecnocráticos ou burocráticos. O discernimento também é necessário, pois a ele, como aos que dele dependem, cabe discernir, sempre espiritualmente falando. Em que recorrer, qual o assunto relevante que pede este recurso., recurso que, por sua vez, afasta todo espírito de feudalismo e falta de responsabilidade com o corpo da Companhia e com o Corpo de Cristo, a Igreja.


QUARTA PARTE - e
COMO INSTRUIR NAS LETRAS E EM OUTROS MEIOS DE AJUDAR O PRÓXIMO OS QUE ESTÃO NA COMPANHIA

Capítulo 9
INTERRUPÇÃO DOS ESTUDOS

Comentário: este é um curtíssimo capitulo de 3 parágrafos, onde o Fundador prevê que os estudos são tanto quanto aproveitam para o fim que se pretende, e menciona alguns exemplos de causas para interromper os estudos, e como o Reitor deve apresentar a avaliação do currículo do religioso no final da teologia, aguardando o que for determinado para o futuro do mesmo. Contudo:

[418] Normalmente, cada um será retirado do Colégio, onde se estudam todas as matérias, quando acabar os estudos, isto é, depois de ter seguido o curso de artes (filosofia) e feito quatro anos de teologia. Cerca do fim deste período, o Reitor deve prevenir o Geral ou Provincial, dando-lhe conta da capacidade do indivíduo, e seguirá a ordem que lhe for dada para a glória de Deus Nosso Senhor

Observação: a partir deste ponto, passamos a empregar o texto da nova tradução, atualmente em uso, revista pelo Padre João A. Mac Dowell, SJ, Edições Loyola / SP / BR


QUARTA PARTE - d
COMO INSTRUIR NAS LETRAS E EM OUTROS MEIOS DE AJUDAR
O PRÓXIMO OS QUE ESTÃO NA COMPANHIA

Capítulo 8
FORMAÇÃO DOS ESCOLÁSTICOS NOS MEIOS DE AJUDAR O PRÓXIMO

[400] Tendo em conta o fim pretendido pela Companhia com os estudos, é bom que, quando eles terminem, os jesuítas em formação comecem a se habituar às armas espirituais que hão de manejar para a ajuda do próximo. Isto se fará de maneira especial e continuada nas casas (comunidades de trabalho). Pode, porém, começar nos colégios (casas de formação).

Comentário: sem sentir necessidade de mudar o disposto pelas Constituições, que continuam sendo um referencial para o discernimento do que se há de fazer, também neste campo, para mais servir a Deus e melhor ajudar o próximo, estão em vigor umas “notas complementares”, que orientam a aplicação do discernimento de Inácio e dos Fundadores à situação contemporânea, a saber:

[NC 106] Todo o processo de formação em suas diversas fases (...) deve favorecer a integração no corpo apostólico da Companhia, preparando os que estão em formação para cumprir as missões e exercitar os ministérios que a Companhia lhes quiser confiar.

Portanto o estilo de vida pessoal e comunitária e o ambiente em que ela se desenvolve deve desenvolver a formação apostólica, de modo que os jesuítas em formação possam conhecer e entender as aspirações, sofrimentos e necessidades das pessoas entre as quais vivem. Fomentem, de modo especial, a solidariedade com os pobres, para aprender deles como os podem ajudar.

É necessário que os que estão em formação façam alguma vez a experiência de viver com os pobres. Assim serão ajudados a superar os limites resultantes da própria origem social, bem como a reforçar o amor aos pobres. Mas esta experiência seja feita em condições que assegurem sua autenticidade, para que não seja ilusória e leve a uma verdadeira conversão. Com esse fim, contato com os pobres deveria ser permanente e não só ocasional, acompanhado de cuidadosa reflexão, integrando-se com a formação para a análise sociocultural.

Os pobres e excluídos constituem a maior parte da humanidade que Jesus veio salvar. É importante que os jesuítas possam se sentir à vontade com eles e gostem de servi-los, como quem ajuda e não como quem os patroneia.

Outras disposições prevêem que a formação seja integrada à região em que o jesuíta, presumivelmente irá trabalhar. Assim, no Brasil, a formação está aos cuidados do Provincial “do Brasil”, e parte se verifica nas “províncias” de origem, parte em João Pessoa, parte na casa de estudos de Belo Horizonte. Em geral a chamada Terceira Provação se cumpre fora do país, dando uma ocasião a todos, quanto possível, de terem um contacto vivo com jesuítas e povos das outras nações (Chile, ou México, atualmente, mas também, em alguns casos, na Europa). Os jesuítas chamados a exercerem seu ministério fora do Brasil (África, Timor), quanto possível são enviados mais cedo, para melhor se entrosarem e melhor manejarem a língua local. A Companhia, neste mundo cada vez menor pelas comunicações, insiste que os jovens de países vizinhos possam se encontrar: “Contatos deste tipo (incluindo com pessoas de sua faixa etária, clérigos, religiosos e leigos) ajudam a superar visões nacionalistas e particularistas e a desenvolver uma atitue aberta e universal para com as culturas, civilizações e mentalidades diversas, como exige nossa vocação apostólica”.

O jesuíta, como cristão, é chamado a ser “católico”! Como disse o Apóstolo: “Fiz-me tudo para todos para ganhar alguns” (1Cor 9,22). Hoje, esta atitude chama-se inculturação e se baseia na sólida fé de tudo Deus criou e tudo o que Deus criou, mesmo deformado pelo pecado, é, fundamentalmente bom e para restaurar tudo em Cristo (Ef 1,10) que O Pai entregou seu próprio Filho por nós. Esta, desde Inácio, tem sido a grande tradição da Companhia.


[401] Hão de se exercitar em pregar e ensinar, de tal forma que o povo fique edificado - método que é bem diferente do escolástico (isto é, acadêmico). Procurarão dominar bem a língua, ter previstas à mão as coisas mais úteis para este ministério, e servir-se de todos os meios próprios. Deste modo, melhor se desempenharão do encargo (“ofício”) e com mais fruto para as almas.

Comentário: A Nota Complementar no 96 ajusta admiravelmente a intuição inaciana às condições contemporâneas:

[NC 96] Ao longo de todo o período de estudos, os escolásticos se exercitem nos meios de expressão próprios do nosso tempo, de modo que, por seu domínio na arte de falar e escrever, se tornem exímios anunciadores do Evangelho de Cristo. Tenham também a oportunidade de entra em contacto com os meios audiovisuais e de aprender a usá-los pastoralmente ... (tendo) cursos bem organizados de comunicação social que ensinem a julgar criticamente os modos de expressão da nova cultura, a apreciar sua dimensão estética e a utilizar os meios de comunicação em um trabalho de equipe.

[408] Devem se habituar a dar os Exercícios Espirituais aos outros, depois de ter feito a experiência deles em si mesmos. Deve cada um saber explicá-los e servir-se deste instrumento, pois Deus nosso Senhor lhe dá visivelmente tão grande eficácia para os eu divino serviço.

Comentário: depois da restauração da Companhia, antes fechada por ordem papal, resultante da pressão das cortes européias da família dos Bourbons, os jesuítas constituíram estabelecimentos afastados, exclusivos, levando uma vida quase conventual. Também esta norma de Inácio foi esquecida neste contexto bucólico. Somente no final da formação, durante a Terceira Formação, cuidava-se de dar algum verniz de formação para os Exercícios. A volta às fontes, determinada pelo Concílio Vaticano II impulsionou enorme avanço, que acabou com a partilha em fazer e preparar para dar os Exercícios a religiosas, religiosos, sacerdotes não jesuítas e leigos e leigas.