ITAICI

Pe. Armando Cardoso, SJ.

A palavra indígena se escreve Itaycy: é vocábulo composto da língua tupi e pode-se decompor de duas maneiras: Itá-y-cy ou Itá-ycy. A primeira significaria Mãe ou Fonte (CY) do Rio (Y) da Pedra (ITÁ). A segunda se interpretaria Fileira (YCY) de Pedra (ITÁ).

Donde viriam estes nomes e que significariam, então, para os índios? E que podem significar, hoje, para nós? Os apelativos indígenas são dados com um significado específico do lugar, servindo ora como marco de limite ou indicativo de caminho (sentido geográfico), ora com peculiaridade útil do lugar (sentido econômico). Assim, Jundiá-y Rio do Bagre, Y-tu Salto do Rio, Y-tu-péba Salto Chato do Rio, Indaiá-tuba Multidão de Indaiá (palmeirinha especial), Itá-guaçu Pedra Grande: todos nomes da região.

É bom recordar que os nossos selvagens, divididos em tribos, maiores ou menores, precisavam de grandes extensões de terra para pescar, caçar e plantar, em vista da sua sustentação. Itaici está quase na metade do percurso entre as cidades de Jundiaí e Itu: é um vale formado pelo Rio Jundiaí que nasce na serra do Japi (nosso pé, nosso mundo) e vai desaguar no Tietê. Neste vale habitava uma das muitas tribos tupis do sertão, aproveitando as matas que se estendiam ao longo do rio(y), bom de peixe (jundiá bagre) e de caça (soó), florestas que o rio alimentava (caá).

Há setenta anos, ao tomar banho no rio, víamos fugir os bagres em sua água transparente. Na mata que descia do casarão da Fazenda Taipas ainda havia jaguatiricas, onças menores. Encontramos, então, pedras lascadas que serviam de machado aos índios (jy).

Voltemos ao vocábulo em estudo. A estrada de ferro Ituana, que vinha de Jundiaí e tinha seu maior entroncamento em Itaici, passava ao lado de Sumidouro (Itaikéba), uma das estações antes de Itupeva (Salto Chato do Rio). O Jundiaí desaparecia de súbito em baixo de uma longa fileira de pedras (Itá-ycy), de várias dezenas de metros, e saia de um largo salto (Y-tu-peba), para seguir seu caminho livre mas pedregoso, com altos e baixos (Itá-y).

Cremos que Itaici, no tempo indígena, dava nome a todo o vale. Os dois fenômenos especiais do sumidouro e da saída do rio, que se escondera debaixo da longa fileira de pedra e saía dela como de um nascedouro ou madre, especificava bem o habitat da tribo em seu sentido geográfico. E o próprio Jundiaí, com suas matas de caça e suas águas de bagres, marcava não só o limite da tribo, mas também seu sustento de vida. Itá-ycy, Fileira de Pedra em que o rio se some, poderá significar para nós a Casa de Retiro, na qual a gente desaparece do mundo para correr escondido aos olhos dos homens e só visto de Deus. Itá-y-cy, nascedouro, fonte, mãe do Rio da Pedra, é o reaparecimento, o novo nascimento do cristão, para correr, já libertado, a fecundar a terra e sustentar-lhe a vida. Mas tudo isso e sempre, em cada uma das composições de Itá, na firmeza da Pedra, que é Cristo: "A Pedra, porém, era Cristo" (1Cor 10,4). Outro pormenor: o rio, defronte à antiga Fazenda Taipas, formava uma ilha pequena, em que a água, um pouco represada por grandes pedras, dava a idéia de uma quase piscina. A vegetação luxuriante da ilha vergava sobre a água, aí mais serena, onde os mais destros podiam nadar com gosto na sombra; os outros só aprendiam a boiar, porque andar no leito pedregoso não era tão agradável. Todo o conjunto era como um remanso e do alto do casarão propiciava uma visão que podia sugerir a quem tivesse feito os Exercícios Espirituais de Santo Inácio a "Contemplação para alcançar o Amor". Pequeno remanso de água, chão pedregoso, leva a pensar no criador de toda a natureza. Remanso de Pedra, vida ora fácil ora difícil, Deus que vive, se reflete e se movimenta em tudo e é luz e sombra em todas as criaturas. Saber ver tudo isso é o maior fruto de um retiro bem-feito, em que a graça divina e a correspondência humana se deram as mãos para admirar e superar o mundo, que espera o retirante para momentos de alegria ou de abatimento e o equilíbrio na paz do coração: Itá-y-cy ou Itá-ycy.