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Pe.
Armando Eugênio Cardoso, SJ
R. Paiva, SJ
Nasceu em Poiares, localidade do concelho (com "c" mesmo) de Freixo de Espada à Cinta, Diocese de Bragança, região de Trás-os-Montes, Portugal, fronteira com a Espanha, em 4 de agosto de 1906. Foi batizado em 21 de outubro de 1906. Seus pais, António Manoel Cardoso e Ernestina Elisa Soramenho, decidiram emigrar para o Brasil, em busca de vida melhor. Assim o menino Armando Eugênio, como o Menino Jesus, foi migrante pobre. Radicados em São Paulo, seus pais continuaram a prática religiosa. Nas suas notas biográficas, Pe. Cardoso não nos diz em que Igreja, mas anota a data de sua Confirmação em 10 de outubro de 1915. Ingressou no seminário menor dos jesuítas, chamado "escola apostólica", ainda pré adolescente. Em 24 de janeiro de 1922, no bairro de Vila Mariana da capital paulista, com 16 anos incompletos, foi admitido ao noviciado da Companhia. Era Superior dos jesuítas desta região do Brasil, o Pe. Luís Yábar. Dois anos mais tarde proferiu seu votos perpétuos já em Nova Friburgo, Estado do Rio, para onde o Noviciado tinha sido transferido. Era o dia 2 de fevereiro de 1924. Estes votos de obediência, castidade e pobreza na Companhia de Jesus, ele os cumpriu fiel e alegremente até sua morte, em Indaiatuba, Estado de São Paulo, no dia 19 de setembro de 2002. Nas suas notas autobiográficas datilografadas, Pe. Cardoso anota o nome de D. José Pereira Alves. Parece que foi este Bispo que presidiu a Missa dos votos, embora estes sejam colocados na mão do Superior jesuíta. Começou, então, o jovem religioso o longo período de formação humana e intelectual oferecido pela Companhia. Primeiro, estudos de línguas clássicas, português, retórica (hoje diríamos, "comunicação"). A seguir, filosofia. Tudo no belo Colégio Anchieta de Nova Friburgo. Foi lá que recebeu as ordens menores. Novamente aparece o nome de D. José Pereira Alves, como oficiante. Nesta época ele já ensina e é bibliotecário auxiliar. Em 1934, além de continuar como professor, ele é nomeado ajudante do vice-postulador da causa de beatificação do Venerável Pe. José de Anchieta.
Seu grande interesse e amor por esta causa, fez com que, sozinho, com dedicação, nos retalhos de tempo de livre que podia dispor, Armando Cardoso, começou a estudar tupi. Não guarani, que ele sempre sustentou que é tão diferente do tupi quanto o francês do português. Outro companheiro de sua geração, Hélio Abranches Viotti, partilhava do mesmo entusiasmo. Os dois iriam se tornar brilhantes intelectuais, profundamente conhecedores da História dos começos do Brasil, escritores e responsáveis pela publicação das obras completas de Anchieta. Anchieta manejou o castelhano, o latim, o português e o tupi. É mesmo o único literato em língua tupi até hoje. Coube a Armando Cardoso traduzir sua obra em tupi, inclusive sua gramática famosa, e também os mais de 5000 versos de não menos célebre Poema da Virgem. Mais jovem, traduziu-o em versos rimados. Mais maduro, traduziu-o em versos brancos. Quem conheceu o ritmo de vida dos jovens professores jesuítas, com aulas, correções de trabalhos discursivos, responsabilidade dos recreios, horário de orações pessoais e comuns, momentos marcados de vida comunitária, apostolado direto em certos dias da semana, certamente se espantará com esta fecundidade. Por este tempo, Armando Cardoso, mostrava vivo desejo de servir à causa operária. Nesta ocasião, preso a seus deveres, querendo participar como podia, escreveu uma novela em capítulos sobre as lutas de uma família operária para o popular Mensageiro do Coração de Jesus. A questão social fervia. Comunismo e fascismo se confrontavam, tanto na arena da ideologia quanto com as armas. A França liderava o mundo intelectual, também no campo católico e na Companhia de Jesus. Por isso, decidiu-se enviá-lo a fazer os estudos de Teologia na casa de estudos de Lyon. Indo à Europa, ele pôde rever os Pais, que tinham, há anos, retornado à "terrinha". De 1935 a 1938, permaneceu em Lyon, onde recebeu a Ordem do Diaconato em 23 de maio de 1937 e a do Presbiterato em 23 de junho do mesmo ano. Estava terminando o terceiro ano de teologia. O quarto e último ano, como era costume naquela época, já o viveu como Padre, atuando aqui e ali, normalmente em fins de semana. O Bispo ordenante: João Delay. A Segunda Grande Guerra estava para explodir. Os exércitos de Hitler se preparavam para suas conquistas. Pe. Cardoso voltou ao Brasil para fazer seu último estágio de formação como jesuíta, a Terceira Provação. Muitas vezes, depois, recordou a ida do moroso trem até Santa Maria e Porto Alegre, e, depois a viagem para Pareci Novo. Apaixonado pela paisagem brasileira, poeta e místico, não lhe custou o longo e desconfortável trajeto. Além disso gozava de excelente saúde, como continuou ao longo da vida, até o mês de sua morte.
No
ano de 1940, de volta ao Colégio Anchieta em Nova Friburgo, foi
chamado a proferir os votos solenes. A rapidez do processo permite afirmar
que ele gozava de grande estima e respeito por parte dos seus companheiros
e Superiores. O Superior era o Pe. Luís Riou, enérgico
e exigente francês. Além dos três votos de pobreza,
obediência e castidade, Pe. Cardoso foi chamado a fazer o de especial
obediência ao Papa quanto às missões. Em 1946, foi nomeado diretor do "Ginásio Santo Estanislau" onde estudavam seminaristas menores, internos, ao lado de externos, da comunidade local. Cada vez mais se firmava seu perfil de trabalhador operoso, capaz de assumir responsabilidades junto a diversos públicos e diferentes faixas etárias sem tensões, mantendo a lucidez, a afabilidade, o equilíbrio e, sobretudo, a acolhedora bondade.
De 1947 a 1949, ei-lo aliviado da direção do Ginásio e ocupado com o ensino, inclusive de filosofia. Foi designado um dos examinadores. das vocações dos candidatos ao Noviciado. Em 1950 assume em Monnerat, localidade do município fluminense de Duas Barras, na então chamada Vila Berchmans, o cargo de Mestre de Noviços. No ano seguinte, 1951, transfere-se com os Noviços para Vila Kostka, localidade de Itaici, município de Indaiatuba, São Paulo, onde também é Superior da Comunidade. No tempo do trem, de horários limitados, puxados a "marias fumaças", consegue acudir ao Colégio das Filhas de Jesus, na vizinha Campinas, dando aulas de literatura portuguesa a partir do de 1952. No ano de 1953, continua nos seus encargos e acumula o de Postulador da causa do Venerável Pe. Anchieta. Nesta época, já está sendo construída a atual Vila Kostka, o grande e acolhedor edifício que deveria abrigar candidatos à Companhia, os Noviços, os estudantes de humanidades ("juniores"), a comunidade dos formadores, e os "terceirões", isto é, padres e irmãos que cumprem a última etapa da formação como religiosos. As obras muitas vezes precisavam de forças extras e os jesuítas jovens e não tão jovens eram convocados sobretudo na hora de concretar as imensas lajes, pois, pela técnica daquele tempo, não se podia interromper o processo, uma vez começado. Mesmo assim, Pe. Cardoso encontrou meios e modos de socorrer, em Campinas, o Colégio das Filhas de Jesus e, em Salto, o das Filhas de São José.
Em 26 de abril de 1955, parte da "casa nova" estava pronta, e Pe. Cardoso mudou-se com seus noviços e a comunidade. As obras continuariam por vários anos, década de 1960 adentro. A Igreja foi a última a ficar totalmente pronta. Os "terceirões" nunca vieram para cá. Os juniores passaram para a casa do km 26 da Via Anhangüera e, atualmente, estão na Casa Malagrida, em João Pessoa, Paraíba. O Noviciado foi mais uma vez transferido para Campinas. Vila Kostka, Itaici, tornou-se uma casa de exercícios e encontros. Pe. Cardoso sempre acompanhou as mudanças sem demonstrar a menor nostalgia, mas revelando-se sintonizado com as necessárias modificações, adaptações e avanços. A obra era de Deus, e não dele. Não se antecipava ao Espírito, mas também não se deixava ficar para trás!
No dia 14 de janeiro de 1959, Pe. Cardoso assumiu o cargo difícil de Superior da Província do Brasil Central, então abrangendo os Estados do Rio e São Paulo. Ficou no cargo, com a costumeira simplicidade, afável e generosa acolhida, e operosidade sem tumulto até janeiro de 1963. Eram os anos gloriosos e desafiantes do Concílio Vaticano II. O "aggiornamento" do bom Papa João fazia trepidar a barca de Pedro. Tudo era acompanhado com otimismo e espírito de comunhão pelo Pe. Cardoso. Assim foi que, depois do Provincialato, foi designado para Instrutor da Terceira Provação, na casa e fazenda arrendadas aos Beneditinos em Três Poços, município de Volta Redonda, Estado do Rio (17/07/1964). Seus formandos iam mergulhar em experiências no mundo operário e também no submundo dos encarcerados do imenso presídio da Ilha Grande, hoje desativado. Pe. Cardoso sempre guardara - durante os anos dedicados, por obediência, à formação dos jovens jesuítas e ao ensino - sua devoção à causa operária e aos mais esquecidos deste mundo. Como Instrutor, tornou-se o pesquisador das fontes inacianas. Na nota bibliográfica anexa, podemos apreciar o produto do seu trabalho. Além disso, formou no espírito e na prática dos Exercícios Espirituais jovens Padres e irmãos. Estava sendo preparado - sem que ninguém o adivinhasse - para um importante papel ligado ao renascimento do interesse pelo principal legado de Santo Inácio à Igreja: os Exercícios. Em 1968, veio como formador, sempre formador, para servir aos estudantes de filosofia na Via Anhangüera, onde voltou também a ensinar. Foi neste ano que começou a grande aventura da publicação das Obras Completas do Pe. Anchieta. No ano seguinte esteve como Superior da Comunidade da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e professor na Universidade. Foi nomeado Consultor da Província. Nos anos entre 1971 e 1976 foi Superior da Comunidade do Colégio Santo Inácio, na mesma cidade do Rio. É encantador saber que o professor universitário, deu-se muito bem como "espiritual" das crianças da 3ª e 4ª séries do curso fundamental e professor de religião aos secundaristas. Continuava a dar aulas também na PUC (Introdução à Bíblia, Literatura Hebraica e Grega).
Em 1977, foi transferido para Vila Kostka, Itaici, como vice-superior, escritor e orientador de Exercícios Espirituais. Começou uma longa e fecunda fase de sua vida com 71 anos de idade. Houve mesmo tempo que, com outro Padre, manteve firme a principal finalidade da casa, evitando que se tornasse apenas uma casa de encontros como outras tantas. Seu grande amor à Biblioteca, também impediu que ela se desatualizasse e se perdesse. Continuava ativo e dando Exercícios no ano de 1989, quando, com alegria e entusiasmo, acolheu a fundação do Centro de Espiritualidade Inaciana de Itaici, sob a direção do
Pe. Netto de Oliveira, seu companheiro nos anos de "vacas magras" na casa. Aos poucos, deixou os retiros mais longos pelos mais breves, os dados a grupos pelos dirigidos pessoalmente. Soube também, administrando as forças declinantes com o peso progressivo dos anos, deixar de escrever obras de maior fôlego, pelos artigos breves e traduções. Trabalhava na tradução dos escritos de São Cláudio de la Colombière, quando o médico lhe pediu que suspendesse o trabalho por três dias, para melhor se recuperar do que parecia um resfriado comum. No dia seguinte, 31 de agosto de 2002, achou-se necessário hospitalizá-lo. Sempre agradecido, sabia recusar com gentil firmeza as ajudas desnecessárias. Contudo, naquele dia, foi franco: Hoje preciso de ajuda. Foi tratado no hospital fundado por seu grande amigo de muitos anos, Dr. Pedro Maschietto, já falecido. O atual diretor, Dr. Pedrinho Maschietto, com sua equipe, não poupou nem esforço nem carinho para cuidar do querido paciente. Contudo o frasco estava se rompendo e exalava perfume, o bom perfume de Cristo. À Irmã Hercília que o convidou a rezar, disse: Já estou rezando. Depois de dois dias inconsciente, Pe. Cardoso encerrou, na paz, sua peregrinação às 13.25 do dia 19 de setembro de 2002, com 96 anos completos. Estava fazendo retiro na casa, o clero de Santos. Fizeram-se presentes no fim do dia, com amizade e fé. Presididos por D. David Picão e D. Jacyr, fizeram uma celebração de exéquias. Logo a seguir os Pes. Roberto Albuquerque, Sefrin e Jomer, da comunidade do Anchietano, concelebraram uma primeira Missa de corpo
presente. Na Missa do dia seguinte, seus três sobrinhos paulistanos e familiares puderam testemunhar o amor e o respeito com que Pe. Cardoso era cercado. A Igreja de Nossa Senhora do Bom Conselho, Vila Kostka, estava cheia. Presidiu a celebração D. Aloysio Penna, SJ, seu discípulo no Noviciado e na Terceira Provação, atual Arcebispo de Botucatu. D. João Evangelista Martins Terra, SJ, Bispo auxiliar de Brasília, Pe. Theodoro Peters, SJ, Reitor da Católica de Pernambuco, os quatro Párocos de Indaiatuba, Padres diocesanos seus confessados, os Padres da casa e mais alguns das comunidades de São Paulo, numerosos Irmãos jesuítas participaram numa atmosfera de grande paz. Os noviços de Campinas vieram todos e ajudaram nos cantos de ressurreição. Seu corpo foi depositado na cripta da Igreja, na Capela da Ressurreição, onde, ao lado de vários companheiros muito amados, estão também sepultados dois dos mais denodados responsáveis pela construção de Vila Kostka: Pe. Murillo Moutinho e Ir. Francisco Larrañaga. De certo, a memória deles todos e a do Pe. Armando Eugênio Cardoso são um silencioso convite de graça e beleza para não temermos em tudo amar e servir à divina Majestade, como quer o nosso pai, Inácio de Loyola.
A obra publicada do Pe. Armando Eugênio
Cardoso, SJ
(* 04/08/1906 + 19/09/2002)
Devemos ao Pe. Cardoso boa parte da publicação com introdução e notas, e, quando necessário, tradução do latim, castelhano ou tupi da vasta obra do Bem-aventurado Pe. José de Anchieta. Enumeramos: De Gestis de
Mendi Saa
"INACIANA" Pe. Cardoso traduziu, introduziu e anotou obras fundamentas para a pesquisa da obra de Sto. Inácio de Loyola Autobiografia
"JESUITINA" Obras de santos jesuítas notáveis dos primeiros tempos, traduzidas, introduzidas e anotadas pelo Pe. Cardoso Memorial do Beato
Pedro Fabro
TRADUÇÕES OFICIAIS Notas complementares às Constituições da Companhia de Jesus e Documentos da 34a. Congregação Geral. OBRA EM COOPERAÇÃO Os Jesuítas (Equipe de Itaici) OBRAS PRÓPRIAS Centenário
do Noviciado da Companhia de Jesus - Província do Brasil Centro
Leste
Pe. Cardoso tem a quase totalidade de suas obras no catálogo das Edições Loyola. A exceção cabe a Um carismático que fez história - Vida do Pe. José de Anchieta, publicada pela Paulus. O Poema da Virgem foi publicado em edição bilíngüe, latim e português, "em ritmos" e rimas pela Loyola. Só em português, pelas Paulinas. Fez bastante sucesso, chegando a pelo menos 3 edições. A nova tradução, em verso branco, foi publicada pelas Paulinas, com o título de O Poema do Padre Anchieta. A.M.D.G. |
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