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Ano
da Eucaristia! Proclamado pelo Papa João Paulo II neste último
dia 17 de outubro, encerramento do 38º Congresso Eucarístico
Internacional (Guadalajara, México), está previsto para
ser encerrado no próximo ano, 2005, com o Sínodo dos Bispos
sobre a Eucaristia.
Luís
Alonso Schökel, notável biblista, jesuíta, conhecido
entre nós pelo magnífico lançamento da Paulus, "A
Bíblia do Peregrino", recentemente falecido, publicou suas
meditações bíblicas sobre a Eucaristia em 1997, pela
Secretariado Nacional italiano do Apostolado da Oração.
Estas meditações seguem o roteiro da liturgia da Santa Missa,
o que as torna mais valiosas ainda.
Em
sintonia com a Mãe Igreja, a ITAICI - Revista Eletrônica
Inaciana, coloca à sua disposição, ao longo deste
ano, estas meditações, traduzidas com algumas adaptações,
para explicitar certos termos e indicações e talvez não
muito claras para alguns leitores, pela diferença de ambiente cultural.
Pe.
R. Paiva, SJ
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CONSAGRAÇÃO - TRANSFORMAÇÃO - 2
23º
segmento

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Fixidade e Mudança
Há épocas, pessoas ou culturas que dão
mais importância à estabilidade. Outras, pelo contrário,
são mais sensíveis à mudança. Um povo, num
tempo, vive melhor na estabilidade; outro, vive e sente a evolução
e, às vezes, a revolução.
Qual a mentalidade bíblica do Antigo Testamento?
Ela pressupõe e valoriza mais a estabilidade, sem, no entanto,
desinteressar-se da mudança.
O primeiro capítulo do Gênesis é
um texto tardio, que utiliza sua visão poética e teológica
num esquema cultural fixista: Deus cria e fixa seres, naturezas, funções.
Sol, lua, estrelas; águas de cima e de baixo; mares e continentes;
seres vivos, cada qual segundo sua espécie. Tudo é fixado
desde o princípio e não se deve confundir. Um homem não
deve arar com o boi e o asno; não deve tecer com lã e
linho. Um sexo não deve vestir a roupa do outro, o que seria
misturar e confundir, contra a ordem da criação, segundo
uma escola de pensamento e de conduta. A distinção e a
fixidade permanecem seladas num sistema de nomes impostos por Deus mesmo:
E chamou dia, noite, mar... O ser humano também surge diferenciado
em homem e mulher.
Se ocorrerem mudanças, elas serão como
que infrações da ordem estabelecida. Podem ser catástrofes.
"Catástrofe" é palavra grega que denota uma
inversão, uma revolução ( kata strepho). Assim,
por exemplo, foi o dilúvio, misturando as águas de cima
e as de baixo, confundindo terra firme e os mares. Assim foi a destruição
de Sodoma e Gomorra, que faz arder as prósperas cidades e os
campos férteis. O terremoto é um surto patológico
ou numinoso, da terra firme, que parece se tornar fremente como o oceano.
Acima de tudo, impõe-se a soberania de Deus, que pode provocar
uma mudança catastrófica ou benéfica:
Ele
que é Deus, plasmador e criador da terra, que a fixou, não
a criando caótica, tornando-a habitável (Is 45,20) .
Com sua maestria estabeleceu o mundo (Jr 10,12).
Ele fundou a terra sobre os mares,
E a consolidou sobre os rios (Sl 23/24,2).
Assentaste a terra sobre suas bases,
Pelos séculos dos séculos inabalável (Sl 103/104).
Na
sua grande imprecação, Jó pede que um
eclipse escureça a terra e as trevas dominem a luz (ver Jó
3): é um retorno ao caos primordial.
Simplificando os dados, temos o binômio estabilidade-catástrofe.
Nesta perspectiva, o livro, que constitui o último capítulo
do Antigo Testamento, nos surpreende. Digo último por sua redação
no tempo, não por sua colocação no cânon
bíblico. Este livro, possivelmente, é contemporâneo
a Cristo. É de origem grega e pertence ao corpo sapiencial: o
Livro da Sabedoria. Por seu gênero e por sua época, pode
contemplar a história no seu conjunto e propor uma síntese.
Por sua posição de fronteira, msitura influxos gregos
e tradições de Israel. Citarei, por inteiro o final deste
livro:
Assim
os elementos trocavam entre si propriedades,
Como num instrumento de cordas os sons mudam de ritmo,
Embora conservando o mesmo timbre.
É o que se constata claramente do exame dos fatos.
Os seres terrestres tornavam-se aquáticos,
Os que nadam se deslocavam para a terra;
O fogo excedia na água a sua própria força,
A água esquecendo seu poder de apagar.
As chamas, por sua vez, não consumiam
As carnes frágeis dos animais,
Nem derretiam aquele alimento celeste (o maná),
Tão parecido com a geada,
Desfazendo-se tão facilmente.
Sim! De todos os modos, Senhor,
Exaltaste o teu povo e o cobriste de glória,
Sem perde-lo de vista,
Tu o assististe em todo tempo e lugar!
(Sb
19-18-22)
Aqui
intervém a teoria dos elementos e da sua maravilhosa
transmutação: tudo isto acontece para a salvação
e pelo divino poder. A passagem pelo mar Vermelho significa fazer surgir
terra firme, onde estava o mar e o maná não se dissolveria
sob os raios do sol.
Interessa-me a analogia musical do Autor. Não
penso que ele fosse um entendido em música, mas aprece ter algumas
idéias – quem sabe de origem pitagórica –
que então circulavam. O que importa é o sistema de correspondência:
unidade do instrumento / unidade do universo; permanência dos
sons / permanência dos instrumentos; variações da
melodia ou tons / variações na função dos
elementos; resultado harmonioso em ambos os planos. Deus sabe criar
unidade no que é múltiplo, estabelecendo leis e proporções,
mudanças que não destroem a harmonia. Em vez da música
das esferas, temos a harmonia do cosmo e a harmonia da história
como variações sobre o tema da salvação.
Este Autor tardio recolhe sugestões já expostas
por outros, por exemplo, no Segundo Isaías o em alguns Salmos:
Javé
transforma rios em desertos,
As fontes de água em terra seca e sedenta (...)
Ele transforma o deserto em açudes de água,
E a terra árida em fontes que jorram!
(Sl
106/107,33-35).
Mas
que expor um tema bíblico, quis apresentar um sistema
construído a aprtir de alguams citações. É
um componente da base que me proponho a construir antes de subir.
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