MUMBAI: UM SINAL DE ESPERANÇA

O Fórum Mundial 2004 em Mumbai/Índia, de 16 a 31 de janeiro. Dados divulgados do FSM revelam que mais de 2660 organizações de 132 países estiveram presentes. Foram contabilizados cerca de dois mil jornalistas de 45 países e 180 intérpretes de 15 nações. Pe. Bernard Lestienne, da equipe do Cias/Ibrades, do CCB, presente ao FSM 2004, nos conta de sua experiência e impressões.

A viagem a Mumbai para o quarto Fórum Social Mundial (FSM) foi o meu primeiro contato com a Índia e Ásia. Voltando há pouco, vou integrando aos poucos, emocional, humana, intelectual e espiritualmente, as qualidades de delicadeza, fineza e gentileza que percebi na cultura indiana: os sons e a animação das ruas efervescentes e barulhentas, o ambiente festivo, reivindicativo e esperançoso do espaço do Fórum, e, mais que tudo, as imagens duras e chocantes dos rostos e corpos de tanta gente vivendo na pobreza e miséria. Imagens, sons, cores, gestos inesquecíveis, que atingem o coração e a alma.

O FSM foi uma proposta genial de criar um espaço aberto de encontro, debate e partilha das experiências alternativas positivas, em todos os campos e dimensões da vida das pessoas e das sociedades, para responder e se contrapor aos efeitos dramáticos, humanos, sociais e ambientais do neoliberalismo, que impera há 20 anos e que vai se intensificando. O objetivo principal do Fórum é favorecer uma melhor coordenação e articulação entre as milhares de iniciativas, que vão pipocando no mundo todo, em respostas às ameaças de morte vindas da concentração do poder e da riqueza. É um "Fórum Social" em resposta ao "Fórum Econômico" de Davos (Suíça), onde se encontram anualmente os maiores representantes do modelo neoliberal.

Naturalmente, os três primeiros fóruns em Porto Alegre eram formados, principalmente por brasileiros e ocidentais havendo poucos representantes da África e da Ásia. Foi uma decisão sábia e corajosa, do Comitê Internacional, de propor que a 4ª edição acontecesse na Ásia. A Índia aceitou o desafio. Foi um sucesso. Mumbai enriquece e renova o Fórum e lhe dá novas dimensões e perspectivas.

Havia mais ou menos 130.000 participantes neste Fórum. Aos povos, sobretudo latinos e europeus de Porto Alegre (presentes também em Mumbai), substituíram-se os povos da Índia, de Bangladesh, do Tibet, da Coréia, do Japão, das Filipinas e outros. Com poucos recursos, de maneira muito criativa, o comitê indiano conseguiu arranjar uma área precária (alguns galpões de uma empresa fechada) num espaço de convívio bem decorado e festivo.

Significativa foi a presença massiva (pelo menos 35.000) dos setores mais oprimidos da sociedade indiana: os Dalits (a casta dos intocáveis) e os Tribais (indígenas). Como em tantos outros países, eles reivindicaram antes de tudo o acesso à terra, à água, o fim do sistema de castas (resultado de uma falsa leitura, ideológica, dos textos sagrados hindus), e o respeito à sua dignidade e cultura.

Junto com eles, encontravam-se numerosos grupos de mulheres e crianças, reivindicando, além de uma condição digna de vida (casa, educação e saúde), os seus direitos específicos. Da manhã à noite, esses numerosos grupos, com músicas e danças, cores e roupas, faixas e cartazes diferentes marchavam pelas ruas poeirentas do sítio do Fórum.

Nas marchas, nas conferências e painéis, nos seminários e nas oficinas (mais de 1.600 organizadas pelas várias entidades), a participação de todos foi intensa. Mas o maior desafio para o futuro é conseguir coordenar e articular inúmeras experiências alternativas, muito ricas, vividas nas bases, em alguns eixos temáticos e metodológicos que as potencializem em forças realmente transformadoras. Em nossos diferentes trabalhos constatamos a dificuldade em se criar redes vivas e eficientes.

Para a nossa delegação internacional - 15 jesuítas e 12 colaboradores vindos de 14 países - a maior oportunidade surgiu do convite de intregrar e participar da SAPI (South Asian People´s Initiatives). A SAPI foi criada para o Fórum pela coordenação do apostolado social da Companhia, na Índia. Reunia 300 jesuítas indianos deste apostolado, que trouxeram 1200 lideranças populares e comunitárias de Dalits e Indígenas. A participação da SAPI no Fórum foi muito articulada. Encontravam-se os bonés azuis da SAPI em muitos lugares e atividades do Fórum. Tivemos os 300 companheiros jesuítas e de partilhar o café da manhã e as jantas com as lideranças populares. Eram momentos de rica troca.

Outra nota positiva foi a participação dos cristãos, discreta mas bem real e eficiente, nas atividades do Fórum. Além da SAPI, principal iniciativa dos cristãos na Índia, muitas outras organizações católicas e cristãs, vindas do mundo todo, trouxeram o testemunho das suas ricas experiências, tanto na base como no campo da reflexão, como sinais de esperança de que, sim, "outro mundo é possível". No diálogo inter-religioso é essencial - talvez a principal força para a construção desse novo mundo.