Vontade de Deus

Leia com fé Jo 21, 9-14. “Vinde, comei!” Refeição, pessoas reunidas, comunidade... Cada um traz o que é e tem. Pessoas diferentes numa refeição em comum. Quando alguém participa de uma mesma mesa e se preocupa com os outros há “comunhão”, isto é, comum-união.

Jesus distribui o pão, o peixe e o seu Espírito. Desta doação, brota a vocação. Toda vocação é “da” Igreja e “para” a Igreja, para a comunidade. Todo vocacionado é chamado para uma missão. A comunidade possibilita que cada um seja sujeito da sua formação, alisando muitas arestas e vivências exibicionistas e egoístas.

Qual a vontade de Deus e como conhece-la? Na bíblia “vontade de Deus” também significa “desígnio divino de salvação”, “plano de Deus”... O “Plano de Deus” é o seu desígnio salvífico tal como está em Ef 1, 2-12: “Deus Pai nos cumulou de bênçãos... e nos escolheu Nele... para sermos santos e imaculados no amor... E nos predestinou para sermos seus filhos adotivos em Jesus Cristo... pois pusemos Nele a nossa esperança”.

Às vezes temos idéias estranhas ou, quem sabe, um pouco erradas sobre a “vontade de Deus”, pois entendemos esta como se fosse algo previamente definido e escrito. Essa vontade “misteriosa”, dizem alguns, está escondida e não é fácil de encontrar. Não é bem assim! Deus já revelou repetida e claramente a sua vontade: Ele quer que sejamos filhos dele e irmãos de todos. Cabe, agora, a cada um concretizar melhor essa sua vocação.

O que é, pois, “vontade de Deus?” A vontade de Deus nós já a conhecemos pelas Sagradas Escrituras. Concretamente, esse amor de Deus revelado em Jesus Cristo nos atrai irresistivelmente na direção de um certo modo de ser pessoa e viver na Igreja e na sociedade.

A vontade de Deus vai se construindo aos poucos, no dia-a-dia da vida. É “configurar-nos” com Cristo, isto é, deixando que sua “figura” se realize em nós. Isso, evidentemente, pressupõe os nossos desejos, capacidades e decisões.

Como conhecer a vontade de Deus? Conheceremos a vontade de Deus na medida em que concretizamos o seu amor “ágape”. O meio principal para “conhecer” Deus é o AMOR. Pelo amor e a oração os nossos olhos interiores se abrem fazendo-nos mais sensíveis à presença e propostas de Deus.

Como discernir a nossa vocação? Como saber se devo ser padre ou irmão e se devo ser jesuíta ou não? A vocação se descobre por meio de nossas motivações e decisões:

a) Nível transcendental. Fomos feitos para amar e é no amor que nos descobrimos e sinalizamos como continuar vivendo. Nesse sentido nos ajudam a oração freqüente, a leitura diária das Escrituras, a Reconciliação e a Eucaristia, o serviço aos mais necessitados e, evidentemente, a orientação espiritual...

b) Nível histórico, psicológico. É preciso reler a história da própria vida com a ajuda de pessoas adequadas, adquirindo certa objetivação da própria experiência. Desse modo, assumiremos melhor a realidade da vida e não da fantasia que se tem sobre a vida. Não somos ilhas, mas pessoas inseridas em contextos e circunstâncias que devem ser retamente apreciados. Tudo isso nos abre para o mundo e para as necessidades dos outros.

c) Nível pessoal. A vocação se descobre também sentindo e discernindo os movimentos interiores da própria pessoa: consolação ou desolação, ânimo ou desânimo, atração ou rejeição:

• Sentimentos de perturbação: desconfiança, medo, cansaço, tristeza, desânimo... que criam desolação (são nocivos porque acabam com todo entusiasmo, generosidade e energia vocacional). Tudo isso nos empurra para abaixo e atrás, afastando-nos da pessoa e proposta do Senhor.

• Sentimentos de confirmação: confiança, alegria interior (mesmo sentindo-nos contrariados), ânimo, generosidade, paz... Tudo isso nos levam para adiante e para o alto, configurando-nos com Jesus e o seu Evangelho.

Por isso, a Bíblia chama a esse espírito do mal de Diabo (divisor) e Satanás (acusador). O Espírito de Deus é sempre Santo e leva para a santidade. Por isso, as escolhas fundamentais da vida devem ser sempre feitas com uma intenção reta e em consolação. Nunca devemos tomar decisões importantes em momentos de escuridão ou desolação.

Seria muito bom acabar esta leitura saboreando o salmo: Sl 22 (23): “O Senhor é meu Pastor...”

Pe. J. Ramón F. de la Cigoña, sj
Diretor da Comunidade Vocacional dos Jesuítas
E-mail: cvjesuitas@velox mail.com.br


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