DA REZA À ORAÇÃO

Na linguagem religiosa popular brasileira, "reza" tem significado de preces recitadas, em geral em comum e com formulários próprios, tipo ladainhas, novenas, e o Rosário. Estas preces recitadas têm nutrido e nutrem grande parte dos católicos e, de certo, continuarão a ser agradáveis ao coração de muitos e ao Coração do Senhor. Contudo, todos nós sabemos que o mesmo Rosário é rezado com maior fruto, quando, de fato, os Mistérios da Vida, Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo são contemplados. É bom e conveniente, sem perder o bem adquirido, fazê-lo crescer. É o que ajuda esta pequena e excelente obra do Pe. Guido Jonquière, SJ, "Del rezo a la oración", "Da reza à oração". Pe. Guido trabalha no Centro de Espiritualidade Inaciana de Santiago do Chile. Com larga tradição de subsídios para as comunidades eclesiais de base, meios populares e exercícios para iniciantes em fins de semana, Pe. Guido nos ofereceu este trabalho, que, acredito, lhe será muito útil.

R. Paiva, SJ

INTRODUÇÃO

Guido Jonquières, SJ
Trad. R. Paiva, SJ

Rezar é um pouco como recitar. É um modo de fazer oração, pedindo emprestadas umas palavras que não são próprias. Pode me ajudar, sobretudo se desjo fazer oração e não sei como. Para tal servem as preces que nos têm sido transmitidas de geração a geração entre cristãos: o Pai Nosso, a Ave Maria, o Creio, etc. Também dispomos dos Salmos, que já nos vem desde os tempos do Antigo Testamento. Se, por acaso, você não conhece de memória algumas destas orações, elas estarão a seu dispor nas páginas seguintes. Procure aprendê-las de coração, até que se tornem inesquecíveis para você. Senão, em matéria de fé, você continuará a ser uma criancinha sem palavras.

Orar é fazer oração, seja rezando, seja de muitas outras maneiras. Estas maneiras são as que este livrinho deseja transmitir a você, que se interessa. Não é verdade que, ao longo do tempo, a preces recitadas cansam ou são ditas sem pensar absolutamente no que significam? Inclusive, há quem reze fórmulas encontradas por aí e que nem sequer têm sentido. Não se entendem! Gostaria você de conversar com alguém usando frases que não se entendem?

Nós, católicos, costumamos rezar. Pelo contrário, os evangélicos não falam de rezar, porque pouco ou nada usam fórmulas de preces, com exceção do Pai Nosso e dos Salmos (e orações cantadas). E quase nunca em público. Creio que perdem algo, que enriqueceria sua oração, em público ou em particular.

É certo que se pode fazer oração sem palavras, como a criança que expressa seu carinho à mamãe e ao papai, abrindo-lhes os bracinhos. Também é bonito ver uma criança recitar uma pequena poesia paras seus pais. No entanto, mais bonito ainda é se ele lhes escreve um poemeto seu próprio. Nada disso impede que, noutra ocasião, lhes dê um abraço apertado, sem dizer nada. O mesmo acontece com a oração: você pode rezar sem palavras. Se sabe fazê-lo, parabéns! Pode rezar usando palavras aprendidas. E é bom. Mas é melhor se você sabe falar pessoalmente com seu Deus! E de novo silenciar, porque já não são necessárias palavras. Ou recorrer novamente às fórmulas aprendidas,quando lhe falte inspiração ou lhe vier esta inspiração.

Agora ficou mais claro o título deste livrinho. Sabe o que pretende e para que pode lhe servir. Veja se você quer aproveitá-lo. Na verdade, mesmo usando apenas rezas, você chegou a fazer orações bem sinceras e profundas, sem se dar muita conta disto. Estas páginas querem ajudá-lo, ajudá-la, a tomar consciência mais clara disto. Será para melhor! Porém, se você mal sabe o que é orar e quer aprender, começa: você tem um mundo para descobrir!

Pode lhe ocorrer uma dificuldade: eu, pobre cristão, cristã, da multidão serei capaz ou serei digno, digna, de fazer uma oração profunda e pessoal? Este tipo de oração não está reservado para pessoas especiais? Aqui vai uma resposta indireta, mediante uma poesia indiana. Supõe-se que é de um pária, um homem da casta mais baixa, da casta dos excluídos, muito pobre. Ele chama Deus pelo nome que aprendeu: Ser de Bênção:

O Ser de Bênção passou em frente de minha casa,
De minha casa, o barbeiro!

Corri! Ele se voltou e me esperou,
A mim, o barbeiro!

E eu lhe falei: "Posso te falar, Senhor?"
Ele disse: "Sim!"
Também para mim, o barbeiro!

E eu lhe falei: "Posso seguir-te?"
E ele me disse: "Sim!"
Também para mim, o barbeiro!

E eu lhe falei: !Posso ficar contigo, Senhor?"
E ele me disse: "Sim!"
Também eu, o pobre barbeiro!

Veja só! Na índia há gente que não é cristã, que nada sabe de Jesus e, contudo, crê que Deus se faz próximo, que é fácil lhe falar sem complicações. Com maior razão os cristãos - você também - podemos nos acercar de Deus com confiança, sabendo que se fez um de nós, em Jesus, o carpinteiro de Nazaré. Verdade que o Pai não se fez homem, mas nos deu seu Jesus (seu Filho eterno e amado), que o apresentou a nós e nos ensinou a chamá-lo carinhosamente de "Pai!". Como disse o autor da Carta aos Hebreus (4,16): Vamos nos aproximar com confiança do trono de nosso Deus amoroso!"

Além de tudo, o próprio Jesus não se contentou em nos ensinar a rezar e orar. Como ser humano, ele aprendeu a orar e rezou e orou em muitas ocasiões, voltando-se para o seu Pai e nosso Pai. O que ele ensinou - o que a Igreja ensina em seu Nome - é coisa que ele mesmo experimentou. Costumava se retirar para o monte, quando entardecia. Ia ao Templo de Jerusalém. Freqüentava a sinagoga - quase uma capela para os judeus - e rezava os Salmos, também com seus discípulos, por exemplo, na celebração da Páscoa. Em resumo, ele rezava e orava, sobretudo em previsão de momentos importantes. Se você quiser, pode consultar o Evangelho de São Lucas (6,12; 9,18; 22,39-46), Marcos (11,15-17) e João (17).

Convido a você a que, como ele, entre em diálogo com seu Deus e seu Pai, ou aprofunde este diálogo. O Pai Deus já lhe falou por sua Palavra viva, Jesus, por sua Palavra escrita, a Bíblia. Responda-lhe com a sua oração e sua vida e sua palavra ressoará em você cheia de novidade!

Se você tem vontade de progredir, mas, em certos momentos, se desanima, deixando de lado este livrinho, procura reagir! Assim você não perderá o esforço já feito antes de saborear seus resultados. Quem sabe, ajudará você dar conta de seus progressos e dificuldades a alguém disposto a apoiá-lo, apoiá-la? Você também pode combinar o que lhe proponho aqui com alguma coisa parecida, feita em grupo. Ânimo!